IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 17/12/2009
 

Construtores anônimos da história (Ricardo Gondin)

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O ônibus estacionou no acostamento e as portas, rangendo, se abriram. Desci com o coração acelerado. Os muros altos e o barulho das trancas e cadeados do Instituto Penal Paulo Sarasate, nos arredores de Fortaleza, me terrorizavam. Acordara às 5 da manhã para encontrar o Sebastião no ponto de ônibus. Ele vestia uma camisa com o colarinho puído. Seus sapatos, com sola de borracha, estavam sem graxa. Carregava uma maleta quadrada, bem típica dos pregadores evangélicos leigos. Falava com uma rouquidão crônica, fruto dos inúmeros cultos ao ar livre. Sebastião era um desses anônimos evangelistas que insistem em sonhar que podem salvar vidas para Deus em lugares e circunstâncias impensáveis. Havia me convidado para ser seu companheiro em sua missão. Devido a lotação, viajei em pé. Arrastamo-nos, dentro daquele transporte coletivo, numa viagem que pareceu muito mais demorada. De parada em parada, entre rostos cansados, percorremos os 35 quilômetros que nos levariam aos doze ou treze presos — não mais do que isso — dispostos a ouvir o sermão deste desconhecido evangelista. Ainda hoje não sei o seu último nome. Depois de revistados, passando por várias estações de guardas, chegamos a um longo corredor, todo pichado. O português era ruim. Entre tudo o que li, “vingança e justiça” ficaram em minha memória. O salão de cultos não passava de um pequeno alpendre defronte a uma miserável lanchonete. Aquela dúzia de homens rotos, arriados em suas cadeiras, deixavam bem claro que estavam ali por pura falta de opção. Não receberiam visita da família ou não tinham como pagar a prostituta dominical.

O Sebastião tentou cantar alguns hinos de seu hinário. Os ouvintes agora mostravam-se ainda mais inquietos. Sem acompanhamento de um instrumento musical, desafinava tanto que a música era quase irreconhecível. Eu, ainda mais desafinado, não conseguia ajudar. Revezamo-nos durante o sermão. Percebi que deveria ser sintético e simples. Mas, minhas palavras pareciam resvalar em corações de pedra. Tudo me parecia inútil. Sem infra-estrutura e sem apoio financeiro ou estratégico de sua igreja, pensei: “Aqui só se colherão frustração e desilusões”.

Quão enganado estava! Passados dois anos, visitei uma igreja distante mais de 3 mil quilômetros daquele presídio, nos arredores de São Paulo. Terminei de pregar e um jovem senhor se aproximou perguntando se eu conhecia algum Sebastião no Ceará. Disse-lhe que sim. De pronto, emendou: “Por favor, avise a ele que aquelas visitas ao Instituto Penal foram responsáveis por minha conversão.” Hoje, restaurado e casado, sirvo a Deus nesta igreja. Sinto-me tão grato por sua vida, que jamais esqueço de orar por ele. Com olhos marejados de lágrimas, concluiu: “Ele foi o instrumento de Deus para minha transformação.”

Naquela noite agradeci a Deus pela vida dos obscuros heróis da fé. Homens e mulheres que se dão pela causa do evangelho, sem jamais serem reconhecidos ou aplaudidos nas luzes da ribalta. Lembrei-me que a história foi também construída por pessoas que sequer conhecemos o nome. Muitas vezes, acreditamos que somente aqueles que alcançam mais publicidade e popularidade, devido a sua inteligência ou carisma, plasmam a história. Ledo engano. Embora nossos olhos se voltem para Elias e nos impressionemos com a grandeza de seus gestos, havia 7 mil outros profetas que não se dobraram diante dos ídolos. Eles também foram gigantes da fé. A personalidade forte e a maior visibilidade ministerial de Pedro não podem ofuscar o valor de um André ou de um Bartolomeu. Embora menos evidentes, foram igualmente fundamentais na concretização da igreja primitiva.

Devido à visão de mundo secularizada de nossos dias, há uma tendência generalizada de querer transformar os pastores em heróis. Criam-se celebridades, festejam-se os talentos e endeusam-se as pessoas. Os mitos passam a ser definidos por superlativos. Passamos a enxergar potenciais divinos em pessoas frágeis. Cremos na infalibilidade de nossos semideuses. Não admitimos sequer a remota possibilidade de que todos são mortais e participantes da natureza caída de Adão. Quando algum deles nos desaponta nossa fé sofre duros abalos.

Esquecemos que não há quem possa se gloriar pelo seu desempenho diante de Deus. Esquecemos que o cristianismo não valoriza o poder, mas o serviço, não busca glória, mas discrição. Os ídolos que andam e falam podem ser mais perigosos que os ídolos de pedra ou madeira. Estou convencido de que, quando todos comparecermos diante do tribunal de Cristo, os grandes heróis da fé serão homens e mulheres cujos nomes nunca ouvimos falar. Gente sem sobrenome famoso. Anônimos, mas fiéis.

A cláusula final da oração do Pai Nosso — pois teu é o reino, o poder, e a glória para sempre — vem entre colchetes nas Bíblias editadas pelos protestantes e é excluída nas traduções católicas. Acredita-se que seja um acréscimo tardio da igreja primitiva (os melhores textos não a incluem como parte da oração original de Cristo), porque algum pai da igreja buscou interpretar a sentença anterior a ela: “Não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal.” Por isso, acrescentou: “Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.” Sua leitura, corretíssima, foi de que o mal a que Jesus se referia era a tentação de roubar de Deus o seu reino, sua glória e seu poder. Uma lição que deveria ser aprendida por todos os cristãos, principalmente os líderes. O culto à personalidade sutilmente fomentado no cristianismo ocidental esquece que o pecado original, na tentação de Lúcifer, era a cobiça do reino, poder e glória, que só pertencem a Deus.

A igreja do Ocidente precisa valorizar mais os seus anônimos heróis e diminuir a expectativa nos seus líderes mais visíveis. O excesso de aplausos e o deslumbramento com a verve carismática de alguns os expõem à tentação de se acharem imprescindíveis. Tentação que conduz à soberba, e esta que precede a queda. Diz-se também que o cemitério está cheio de pessoas imprescindíveis.

Ninguém deve esquecer que há inúmeras mulheres virtuosas visitando hospitais, vários pequenos empresários distribuindo comida para os desabrigados nas madrugadas. Anciãos que andaram com dignidade a vida toda. O mundo evangélico cresce devido à teimosia de incontáveis pastores que sobem morros, embrenham-se em cidades ribeirinhas do Amazonas e levantam-se de madrugada para fazer missão em cidades poeirentas do Brasil. Não recebem nenhum galardão, senão a recompensa de serem úteis ao seu Deus.

Afirmar que a força da igreja advém de alguns segmentos evangélicos mais visíveis da mídia é desmerecer tantos valentes. O fracasso de alguns não significa uma crise na igreja. Deus ainda tem homens e mulheres dos quais o mundo não é digno.

Paulo deixou claro aos crentes de Corinto que “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1 Co 2.27-29).

Portanto, antes de falar em avivamento, a igreja precisa resgatar o sacerdócio universal dos crentes, uma das pilastras da Reforma. Enquanto continuarmos a absorver os valores do mundo ocidental, teremos alguns heróis ocasionais, mas continuaremos cegos para com aqueles que Deus valoriza. Isso já será uma grande perda.

Sebastião, muito obrigado. Valeu!

Soli Deo Gloria.


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