IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 23/12/2009
 

A Nova Comunidade de Discípulos: Fundação e Caminho (1)

Bispo Paulo Lockmann


 

Estudo de João 13. 1-20

1. Introdução: Os discípulos, o grupo pequeno de Jesus.
Queremos refletir sobre a exigência bíblica do discipulado na expressão dos grupos pequenos. Não há como contestar a prioridade do discipulado; nosso problema é com os diversos modelos propostos no meio evangélico; muitos com estilos contrários aos Evangelhos, alguns mais próximos aos modelos empresariais de equipes de treinamento em produção e eficiência (não que sejamos contra a eficiência), outros com modelos cabalísticos (simbolismo dos números) e outros baseados em autoritarismo e manipulação.

Seguindo a ênfase do Plano Nacional, entendemos que toda a Igreja precisa tornar-se uma comunidade de discípulos e discípulas, isso "porque reconhecemos a precariedade com que, de modo geral, estamos tratando os novos cristãos, os recém-convertidos, em sua capacitação para o exercício da Missão. E admitindo, também, que temos deixado constantemente de nutrir os membros que há anos participam da Igreja, dos quais muitos não descobriram seus dons, nem frutificam num ministério, nem conseguem viver uma vida de conformidade com a Palavra de Deus." (2)

Por isso, queremos convocar a todos a um confronto com as Escrituras Sagradas, nossa vida diante da Palavra. Nossos caminhos no discipulado não serão determinados por terceiros, mas pela orientação da Palavra de Deus. Ainda que em nosso espírito ecumênico, dentro dos limites dado pelo Colégio Episcopal, sejamos abertos a aprender com outros, confrontando sempre tudo com a Palavra e com nossa herança wesleyana.
Assim, inspirados pelo famoso texto do lava-pés, quero refletir mais uma vez sobre o discipulado de Jesus, sabendo que nele foi decisivo o grupo pequeno dos discípulos. Jesus começou com eles, ou seja, chamou os doze ao discipulado permanente, que antes de sua morte se transformou em 11, com a traição de Judas. É evidente que Jesus começa seu ministério formando um grupo pequeno: "Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios" (cf. Mc 3.13-15). Encerra seu ministério terreno, reunindo seu grupo pequeno e passando as últimas instruções: "Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." (Mc 16.14-15). Diante dessas evidências bíblicas, não resta dúvida da prioridade do discipulado, nem da estratégia do grupo pequeno ter sido fundada no Cristianismo pelo próprio Senhor Jesus.

Nosso texto de estudo é um relato que antecede a celebração da Páscoa de Jesus. Sobre isso, diz León-Dufour: "Ao querer formular seus últimos pensamentos, Jesus começa por constituir sua própria comunidade, os seus discípulos que crêem em sua missão. O gesto do lavar os pés simboliza a doação que Jesus vai fazer de si mesmo, e significa o comportamento de cada um dos discípulos na vida da comunidade." (3)

2. As lições do lava-pés - Um testemunho de humildade.

a) "...ora, antes da Festa da Páscoa..." (Jo. 13.1).
Na época de Jesus, devido à opressão estrangeira, cada Páscoa era aguardada com grande expectativa, pois, nela, poderia manifestar-se o Messias Libertador de Israel. Na escola rabínica de Hilel (4), avô de Gamaliel, mestre de Paulo e contemporâneo de Jesus, afirmava-se que o Messias deveria vir entre os dias 14 e 15 do mês de Nisan, por ocasião do sacrifício do Cordeiro Pascal, quando, também, fatos extraordinários deveriam marcar esse momento.

Curiosamente, não há em João a celebração da ceia pascal. O texto que registra esse momento íntimo entre Jesus e seu grupo pequeno dos discípulos sublinha que ocorreu antes da festa da Páscoa a grande celebração, uma ceia e o lava-pés. Isso porque, na cronologia de João, possivelmente a mais correta, conforme diversos estudiosos, Jesus é preso antes da Páscoa. "Depois, levaram Jesus da casa de Caifás para o pretório. Era cedo de manhã. Eles não entraram no pretório para não se contaminarem, mas poderem comer a Páscoa." Como podemos ver, Jesus é posto na cruz na hora sexta, o mesmo horário que começava na véspera da Páscoa, o Parasceve (cf. Jo 19.14), momento de se sacrificar os cordeiros pascais no templo (5). Nesta Páscoa, Jesus será como anunciado no início do Evangelho: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo." (Jo 1.29). A ceia do Senhor, conforme descrita nos demais Evangelhos, foi, com certeza, comida antes da Páscoa judaica, propositalmente, porque Jesus sabia, todo o tempo, de suas iminentes prisão e morte (cf. Mc 8.31; Lc 9.20-22; Jo 11.53-57).

b) "...sabendo Jesus que era chegada a sua hora..." (Jo. 13.1).
Como Filho de Deus, Jesus sabia o que não sabemos: a hora da sua morte, e isso por cumprir como Messias de Deus uma missão de salvação do mundo (cf. Jo 3.16). Aqui, vem uma pergunta para orientar nosso discipulado: Quantos de nós temos na comunhão com Deus sua fonte de poder e direção na vida como fez Jesus? E, nessa comunhão, se submete em total obediência?

Não há forma de encarar a missão, a não ser na comunhão do Pai. Jesus repetiu isso diversas vezes: "Eu e o Pai somos um." (Jo 10.30). Essa unidade entre o discípulo e o Deus Pai, Filho e Espírito Santo é definitivamente vital no discipulado. Só formamos uma comunidade de discípulos se mantemos comunhão com o Senhor e nele, comunhão uns com os outros. Com isso, reconhecemos que é a comunhão com Deus nossa fonte de poder para realizar a missão, e até para enfrentar a morte. Paulo sabia disso; por isso dizia: "Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4.13).

Assim, para conhecer os propósitos de Deus para nós, precisamos, como Jesus, ser um só com o Pai em amor.

c) "levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela" (Jo. 13.4).
Pelo pouco espaço que tenho, salto sobre outros temas do texto, para entrar no acontecimento propriamente dito.

A expressão é "levantou-se da ceia". Podemos dizer: deixou seu lugar de Senhor.

Gene Wilkes em seu livro "O Último Degrau da Liderança" (6), conta uma interessante história ocorrida com ele:

"Encontrei-me, certa vez, na mesa principal de um evento, aquela onde se sentam as pessoas importantes. Minha tarefa era apresentar o orador, depois de o músico ter cantado. Quando o orador começou a falar, todos, na mesa principal, levantaram-se e foram sentar-se entre os presentes à conferência. Todos, menos eu! O orador, que viu as pessoas saírem da mesa principal, disse:
- Quem estiver na mesa principal e quiser sair, pode fazê-lo agora.

Fiquei de pé, sozinho, e declarei:
- Eu gostaria muito!
- Todos riram e, com o rosto vermelho, fui sentar-me à mesa dos funcionários da cozinha. Da mesa principal para a posição de funcionário da cozinha - na frente do grupo dos meus companheiros! Que decadência!

Quando o sangue voltou ao resto do meu corpo, a história de Jesus sobre onde se sentar nos banquetes me veio à mente. Ele ensinou:
"Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, envergonhado, ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convivas. Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado" (Lc 14.8-11).

Nós, líderes, esquecemo-nos muitas vezes de que o verdadeiro lugar da liderança cristã é no meio da multidão, não na mesa principal."

Aqui, vemos com que grande dificuldade nós, seres humanos, abrimos mão da posição de honra, para assumir a condição de servo, saber fazer esta trajetória quantas vezes seja necessário é o que distingue uma liderança igual à de Jesus, de uma liderança autoritária, vaidosa, arrogante e nada bíblica, que busca, sim, os privilégios para si, e para os seus.

A verdade é que não há alternativa, é necessário fazer isso freqüentemente, e como líderes imitarmos a Jesus (cf. 1Co 11.1), descemos do lugar especial (púlpitos-altares), e pegarmos a toalha para servir.

Neste ato, Jesus estava restabelecendo o que era a prioridade na nova comunidade dos discípulos; ou seja, o amar a Deus acima de todas as coisas se expressava visivelmente no serviço amoroso uns aos outros. É necessário adquirir um coração de servo, algo definido por Paulo como: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, [...] antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo... a si mesmo se humilhou..." (Fp 2.5-8). Tenho crido que Paulo tinha em mente a passagem do lava-pés, e até os relatos da paixão e ressurreição, quando escreveu este belo texto. "Pois os líderes servos abdicam, de seus direitos pessoais para encontrar grandeza no serviço prestado aos outros" (7)

d) "Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros" (Jo 13.12-14).

Jesus apela ao entendimento dos discípulos, porque, sem dúvida, eles ficaram perplexos com o que estava acontecendo. Prova disso é a expressão de Pedro: "Senhor, tu me lavas os pés a mim?... Nunca me lavarás os pés." Foi necessário Jesus radicalizar: "Se eu não te lavar os pés, não tens parte comigo" (Jo 13.6-8).

A grande lição de humildade é dada aqui a cada um dos discípulos, membros daquele grupo pequeno. Verdade é que nós, seres humanos, não precisamos ser ensinados sobre orgulho, vaidade, arrogância, porque esses sentimentos nascem conosco. Nossa natureza humana nos faz ansiosos por reconhecimentos, por dominar sobre os outros; tais sentimentos estão na raiz da maioria dos nossos pecados. O fato é que humildade precisamos aprender. É virtude espiritual, quando Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para exercitar o domínio sobre sua natureza humana carnal: aprendeu a depender do Pai. Vindo do deserto, foi a Nazaré, e disse: "O Espírito de Deus está sobre mim" (Lc 4.16). Não há meios de nos tornarmos humildes, senão nos caminhos de Jesus, sujeitando nosso natureza terrena à direção do Espírito, como nas palavras de Paulo: "Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita" (Rm 8.11).

O Senhor, lavando os pés dos discípulos e servos, criou um confronto, quebrou a prática usual, e introduziu a ética do amor e do serviço como doação da sua vida, em serviço ao mundo. Isso queremos aprender e ensinar, e desenvolver através do discipulado, por meio de grupos pequenos.

3) Conclusão - Nossa missão através do discipulado.
Queremos, nesta perspectiva de discipulado, envolver todos os metodistas da 1ª RE nessa tarefa de nos tornarmos homens e mulheres maduros no Senhor, capacitados para, como diz Paulo: "...para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus" (Ef. 3. 16-19).

Desse modo, seremos de fato uma Igreja de Dons e Ministérios. Onde todos estão integrados num grupo pequeno de santificação e evangelização. De modo a nos tornarmos efetivamente um sinal de esperança aos oprimidos, uma comunidade de resistência à corrupção, e a todas as formas de heresias. E assim alcançando vidas, famílias, plantando novas igrejas, bairro a bairro, cidade a cidade, anunciando as boas-novas da graça, amor e salvação, tornando-nos, efetivamente, uma: Comunidade Missionária a Serviço do Povo.


CITAÇÕES:
(1) Mateos e Barreto, Juan - O Evangelho de João. São Paulo: Paulinas. 1989. p. 555.
(2) Lockmann, Paulo - O Caminho do Discipulado - de Jesus a nós. São Paulo: Cedro. 2000. p12.
(3) León-Dufour, Xavier - Lectura del Evangelio de Juan. Volume III. Sigueme: Salamanca. 1995. p.15.
(4) Danby, H - Mishna. London: Oxford University. 1958.
(5) Mateos e Barreto, Juan - op. cit., p.768.
(6) Wilkes, C. Gene - O Último Degrau da Liderança. São Paulo: Mundo Cristão. p. 15.
(7) Wilkes, C. Gene - op. cit., 106.

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