IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 10/11/2006
 

A MENSAGEM PASCAL DA IGREJA - 1ª parte

Bispo Paulo Lockmann


 

1 - A IMPORTÂNCIA DO TEMA:

O primeiro tema teológico a ser por nós considerado, é a pregação, o ensino e os escritos feitos pela Igreja Primitiva acerca da mensagem da Paixão e Ressurreição de Jesus, ou simplesmente Mensagem Pascal. Ao lermos os Evangelhos (principalmente Mateus, Marcos e Lucas) fazemos uma leitura que começa com os relatos do nascimento de Jesus, passando pelo ministério de Jesus, até sua prisão, morte e ressurreição. Este roteiro, embora cronológico, não é teologicamente correto. Por quê? Bem, porque, na verdade, os evangelhos foram escritos começando da paixão e ressurreição, passando pelo ministério de Jesus, e em último lugar as histórias do nascimento e infância de Jesus.

Para entender melhor as minhas informações acima, vejamos quais são os textos mais antigos do Novo Testamento: são os escritos paulinos (isso é reconhecido pela maioria dos estudiosos da Bíblia!). Entre os escritos de Paulo, a primeira carta aos Tessalonicensses é o texto do Novo Testamento mais antigo que possuímos, e foi escrito por volta do ano 48/49. Já dentre os Evangelhos, o que foi escrito primeiro foi o de Marcos, escrito por volta dos anos 70. A seguir Mateus e Lucas em torno dos anos 80. E finalmente o evangelho de João escrito no início dos anos 90. Além desses evangelhos, haviam outros manuscritos com testemunhos da paixão e ressurreição de Jesus e outros relatos, no final dos anos 40, e que serviram de base aos autores dos evangelhos e à pregação e ao ensino da Igreja Primitiva. Infelizmente estes testemunhos e mensagens escritas bem antes dos evangelhos que conhecemos não foram preservados. Sabemos que existiram, porque há referências a eles em Lc 1:2 e também em Paulo em 1Co 15:1-5.

Também devemos nos dar conta de que a maior prova de que os relatos sobre a paixão de Jesus foram os primeiros escritos dos evangelhos está nos textos antigos de Paulo. Pois, como vimos, as cartas de Paulo são os documentos mais antigos que nós conhecemos e Paulo quando se reporta à vida de Jesus raramente o faz mencionando o Ministério de Jesus e nunca fez referência a história do nascimento de Jesus. Na verdade, Paulo trabalha com os relatos em torno da Paixão e Ressurreição de Jesus. Vejamos os textos.

1 - Em 1Co 11:23-26 está o relato da última ceia, e como texto mais antigo que os próprios Evangelhos, temos então aqui o mais antigo registro das palavras de Jesus durante a última ceia. Podemos dizer que este texto existia cerca de 15 anos antes do texto de Marcos ser escrito.

2 - Em 1Co 15:1-11 Paulo está ensinando sobre a ressurreição e menciona que estava transmitindo a tradição que ele mesmo recebera, ou seja: "... Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras..." (1Co 15:3-4). Tradição que se reporta às palavras de Jesus sobre sua morte e ressurreição, e que após o Pentecostes, mesmo antes de ser escrita, passou a constituir o centro da pregação da Igreja nascente.

2 - CONTEÚDO ESSENCIAL DA MENSAGEM PASCAL DA IGREJA:

2.1 - Mensagem Pascal de Paulo

Sem dúvida a morte na Cruz e a Ressurreição de Jesus são o centro da pregação e teologia de Paulo. E é deste tema central e decisivo ("pois se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé"!) dependem muitos outros conceitos teológicos e orientações pastorais do Apóstolo Paulo. Na verdade, não se pode entender Paulo fora da mensagem Pascal, pois é a partir da morte e ressurreição de Jesus que Paulo forja sua cristologia (apresenta-nos quem é Jesus), soteriologia (ensina-nos acerca da salvação), eclesiologia (fala da igreja), antropologia (do ser humano), teologia (da Palavra de Deus e da fé), escatologia (dos tempos, finais dos tempos, e do cumprimento do Plano de Deus), etc...

Começando com uma atração forte pela cruz, Paulo chega à ressurreição como uma mediação já escatológica. A morte de Jesus é de tal maneira importante que Paulo mostra ser necessário morrermos com Cristo, para com Ele ressuscitarmos (Rm 6.5). Por isso a morte de Jesus é expiatória, porque na sua morte morre nosso "velho homem" (Rm 6:6); ali são expiados nossos pecados. A Cruz para o Apóstolo Paulo é de um impacto tão grande que ele a chama de símbolo do poder de Deus (1Co 1:18) para os salvos, visto que para os judeus é escândalo e para os gregos loucura (1Co 1:23).

A morte de Cristo, além de ser expiatória, é um testemunho de amor. Paulo afirma que morte de Cristo é prova do amor de Deus por nós (Rm 5:8). A morte de Cristo é também um ato de humildade. No famoso hino cristológico registrado em Fl 2:5-11 Paulo afirma que Cristo humilhou-se até a morte, e morte de cruz. A morte é para Paulo uma conseqüência do pecado; o binômio pecado e morte têm em Paulo a resposta salvífica trazida por Cristo: Vida e Ressurreição (Rm 6:23). A morte é, também, o último inimigo a ser vencido, o grande adversário do ser humano (1Co 15:55). Morte e ressurreição estão definitivamente unidas no pensamento e ensino de Paulo. São parte de uma só verdade, ou seja, que Jesus morreu pelos nossos pecados, mas ressuscitou. Por isso sabemos que Deus estava com Ele; assim "... se já morremos com Cristo, cremos que com Ele viveremos..." (Rm 6:8).

A ressurreição é o testemunho do poder de Deus sobre a morte. Em Paulo a ressurreição dá sentido e explica o sacrifício. Paulo chega a afirmar que se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé e permanecemos em nossos pecados, ou seja, se não houvesse a ressurreição a morte sacrificial de Cristo teria sido inútil (1Co 15:14-17). A ressurreição é também, em Paulo, um tema escatológico, pois o Cristo ressuscitado é o primogênito da antiga e da nova criação, da nova ordem do Reino de Deus escatológico, onde tudo é reconciliado em um novo céu e uma nova terra (Cl 1:15-20). De certo modo, para Paulo, a nova vida em Cristo já é uma vida ressuscitada (Cl 2:12), sempre no sentido de uma vida vivificada e vitoriosa sobre o pecado (Rm 8:11).

Assim, a Ceia do Senhor é o grande confronto pascal, pois a semelhança da Páscoa Judaica temos o nosso Cordeiro, o Senhor Jesus (1Co 5.7). Também na Ceia há um memorial onde está posto o próprio juízo escatológico: "... todas as vezes que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha..." (1Co 11.26). Mas na Ceia está posto também o confronto da conversão permanente diante do sacrifício de Cristo: "...examine-se o homem a si mesmo..." (1Co 11:28). O sacrifício de Cristo simbolizado na Mesa do Senhor é um ato que não admite neutralidade: ou comemos meio de graça e perdão ou comemos condenação e juízo para nós mesmos (1Co 11:29). É importante sublinhar que na Ceia do Senhor há uma experiência profundamente comunitária (como aliás, é toda a mensagem pascal, construída que é por Deus na experiência da caminhada de seu povo): A Mesa do Senhor é acima de tudo uma obra de mutirão de fé, onde todos participam dela, e de algum modo todos a produzem e pela graça de Deus, todos dela devem comer. Ninguém pode ser discriminado (11:17-22).

2.2 - A Mensagem Pascal em João.

No prólogo do Evangelho de João o tema da paixão já enuncia nas expressões: "...mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o conheceram..." (Jo 1:10-11). Há uma visão profética da rejeição do Messias, mesmo diante das evidências dos sinais que ele realizaria (Jo 1:48; Jo 2:11; Jo 2:23). Após a purificação do templo é anunciada por João a ressurreição em um paralelo com o tema do templo. Alguns percebem nisto uma alusão à substituição do culto centrado no templo para o culto em Espírito e em Verdade que Jesus vai anunciar à mulher samaritana no capítulo 4:23.

Após o diálogo com Nicodemos, outra figura comparativa com o Antigo Testamento é usada: Jesus se identifica com a serpente levantada no deserto, pois seu levantamento na cruz será fonte de salvação como foi a serpente no deserto (Jo 3:14; Nm 21:9). A primeira alusão direta à morte de Jesus se dá após a cura do paralítico do poço de Betesda. Os judeus se revoltaram porque a cura se deu num sábado. Além disto, Jesus se refere a Deus como Pai. Tudo isso fez com que eles tramassem a morte de Jesus (Jo 5:18). O Messias profeta é rejeitado pelo seu próprio povo conforme enunciava o prólogo. Assim durante todo o Evangelho o confronto de Jesus com os principais dos Judeus (leia-se Saduceus e Fariseus) vai se multiplicando, não restando outro final senão a morte do Messias.

2.3 - A Mensagem Pascal nos Evangelhos Sinóticos

Para considerar a mensagem pascal da Igreja Primitiva através dos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Lucas, Mateus) devemos primeiramente sublinhar que, embora os Sinóticos tenham um roteiro narrativo semelhante, eles têm ênfases teológicas diferentes. A razão é a diversidade das comunidades que produziram o texto de cada evangelho junto com cada um dos autores e também a especificidade dos destinatários, ou seja, a quem os Evangelhos eram dirigidos.

Vamos, portanto, considerar a mensagem pascal dos Sinóticos à luz do texto mais central, que é a Última Ceia. Para isso, vamos seguir inicialmente o texto de Mateus. Faremos algumas considerações e a seguir faremos um estudo teológico na narrativa de Lucas. Sempre preservando as referências dos paralelos (textos semelhantes), tanto em Marcos como em Mateus.

"No primeiro dia dos asmos (pães asmos)...". O primeiro dia em que se comia pão sem fermento (Ex 12:1; 23:14) era normalmente o dia que antecedia a ceia da Páscoa (na verdade, esta cronologia é muito livre nos sinóticos). Mas é preciso registrar que na mente dos autores dos Evangelhos, o que importava era a mensagem, até porque eles estavam escrevendo uma pregação aos novos convertidos. Assim, o que mais tem sido aceito é que a Ceia ocorreu na sexta -feira como era o costume dos Judeus e até porque Jesus não sabia se seria possível a ele celebrá-la no dia seguinte, pois tinha consciência de sua iminente prisão e morte, o que de fato acabou ocorrendo.

A experiência da refeição pascal serviu de espaço para a formação e transmissão de uma tradição libertadora. Na Páscoa judáica a comunidade reunida em torno da mesa recordava a experiência da libertação da escravidão no Egito e da Aliança de Deus com o povo em prol de uma nova vida numa terra rica e abençoada. A Última Ceia também é espaço de trasmissão da tradição e fortalecimento para a luta: um memorial da vitória da vida.

O sentar juntos, comer e compartilhar era e continua sendo um lugar qualitativamente importante e vital na manifestação da vida que vem de Deus. Nestes momentos comunitários, Deus se agrada, e segue agradando-se e fazendo sua presença ser sentida. Nestes momentos crescem o compromisso e a solidariedade na luta pela justiça e pelo Reino de Deus. Por isso as forças que conspiram contra o povo e contra a vida acabam vendo uma tradição subversiva aos seus propósitos de opressão e morte nesta prática do povo de Deus reunir-se ao redor da Mesa e da Páscoa, no compartilhar do pão, no repartir dos problemas, no ajudar-se mutuamente, no caminhar de mão dadas. A partir dai é que se evidencia a força da refeição pascal como geradora de tradições e criadora de laços de compromisso libertador no meio do povo. Contrariando assim uma linha de interpretação que tenta transformar a Eucaristia tão somente numa celebração expiatória (apenas uma lembrança sofrida da morte de Cristo!) onde a memória da subversão das ordens históricas e econômicas é aprisionada e tornada inofensiva.

A primeira ordem histórica subvertida foi a do Egito com sua sociedade escravagista. Lá, Deus desestabiliza a sociedade, libertando Israel do jugo do Faraó. A refeição pascal vai a cada celebração atualizando isso: é preciso lembrar o quanto era ruim, é preciso lembrar dos compromissos assumidos. A segunda ordem é toda a sociedade humana de todos os tempos e culturas: Deus em Jesus Cristo indo ao encontro dos pobres, marginalizados e pecadores. Jesus, por exemplo, questiona a sociedade na qual viveu, a qual, através do sistema de pureza, estabeleceu uma elite dominante. Essa elite dos judeus fez aliança com com um rei usurpador (Herodes) e com o imperialismo estrangeiro de Roma. Esses são os poderes que Jesus e seus discípulos ameaçam e por isso são perseguidos.

Um dos principais questionamentos de Jesus se dá em relação ao Templo e ao poder nele organizado. A classe sacerdotal e seus aliados haviam neutralizado a força libertadora da celebração da Páscoa, conforme Lc 19:39 (Aliás, os profetas de Deus foram mortos por denunciarem esse afastamento do sentido libertador da Páscoa, e o que isso causava em Israel: corrupção, violência, intolerância e idolatria). Não é gratuitamente que pedem que Jesus cale a boca do povo por ocasião da entrada em Jerusalém. Mais uma vez tentavam esvaziar a esperança e a memória de libertação contida no acontecimento pascal, em favor da preservação de um culto vazio e de uma falsa segurança.

Como fez através dos profetas tantas vezes na história de Israel, Deus em Jesus volta a reunir os pobres, os deserdados, os excluídos, etc. Restabelecendo, desse modo, na Eucaristia, o ideal de libertação. De que modo tudo isso se dá? Bem, continuaremos esse assunto no próxima edição do nosso Jornal Avante.

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