IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 17/2/2010
 

As doutrinas efetivas do Metodismo ** (Rev. W. H. Fitchett)

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Já se discutiu aquilo que se chama o segredo doutrinal do Avivamento; passamos agora a descrever os perduráveis resultados históricos do grande movimento, a Igreja em o movimento metodista se cristalizou. Pode se perguntar, quais são as características permanentes do ensino, disciplina, crença e estrutura dessa Igreja. O próprio João Wesley disse: “As minhas doutrinas são simplesmente os princípios fundamentais do Cristianismo”. Ou, servindo-se de outra frase: “São manifestas na velha religião da Igreja Anglicana”; e isto é a pura verdade.

João Wesley não acrescentou à teologia qualquer província (parte, ramo) nova; nem inventou qualquer doutrina nova, e tão pouco matou qualquer heresia antiga. Qualquer que seja o seu título à fama, não é o de líder de homens na exploração de novos domínios na especulação teológica. Às vezes se diz que ele deu às velhas doutrinas uma nova perspectiva. Mudou a ênfase teológica dos Trinta e Nove Artigos de Religião de uma maneira perdurável, e esta mudança, numa palavra, constitui a sua assinatura na teologia de sua Igreja hoje. Portanto enfatizou as doutrinas que tocam nas cousas centrais da salvação – a redenção divina, o perdão realizado, a consciente e presente salvação do pecado. Quanto a isto, João Wesley certamente fez reviver na consciência muitas verdades esquecidas, se bem que “manifestas na velha religião da Igreja Anglicana”.

Existe sempre uma filosofia real – se bem que nem sempre reconhecida – que forma a base dos ensinos doutrinais de João Wesley, e que constituem uma interpretação do Cristianismo, que se pode julgar como um todo. Para descrever plenamente este ensino seria necessário escrever um sistema completo de teologia, e isto não se pode fazer aqui. Mas vale a pena fazer um simples esboço daquilo que se pode chamar o credo ativo de Wesley.

Ele faz um resumo numa só declaração familiar:
“As nossas doutrinas principais, que encerram todas as mais, são o arrependimento, a fé e a santificação. A primeira é o vestíbulo da religião; a segunda, a porta; a terceira, a própria religião” (Stevens, pág. 327).

Mas a teologia completa não pode ser condensada desta forma numa só metáfora. Atrás da metáfora fica um credo compreensivo e simétrico.

João Wesley começou por uma nobre concepção do universo como sendo construído sobre um plano moral e como existente para fins morais. O seu ideal e lei se acham na vontade de Deus, seu Criador; mas aquela vontade não é uma força arbitrária. A bondade não é tal pela simples razão de Deus tê-la instituído. É o reflexo de uma necessidade eterna, uma necessidade que existe na própria natureza de Deus. Segundo as palavras de Southey, Wesley datou a lei moral, desde antes da fundação do mundo, naquele período, deveras desconhecida aos homens, mas indubitavelmente encerrado nos anais da eternidade, quando as estrelas dalva juntamente cantavam. Segundo a palavra do mesmo Wesley: “A lei de Deus é a razão suprema e imutável; é a retidão inalterável; é a coordenação eterna de todas as cousas que são ou que jamais foram criadas”.

O homem foi criado sob esta lei, criado para que nele essa lei fosse cumprida. Mas a obediência a esta lei é o serviço voluntário de um espírito livre. Portanto, João Wesley cria firmemente na doutrina da liberdade da vontade humana É isto que constitui o homem em agente moral; a não ser assim, seria impossível a existência da bondade. Na natureza humana se encontra uma faculdade augusta que é portadora de possibilidades infinitas. É o poder para dizer “não” até para o mesmo Deus, e esse poder é a porta temível, pela qual o pecado entrou no mundo. Mas é também o poder para dizer “sim” a Deus e desta forma, capaz de render-lhe um serviço que os sóis e planetas não podem lhe prestar um culto desconhecido pelo universo material. Nas palavras de Wesley, o homem “não é um simples torrão de terra, um pedaço de argila sem sentido ou entendimento, mas um espírito semelhante ao seu Criador; espírito revestido de uma vontade livre, o poder de escolher o bem ou o mal e dá direção a suas próprias afeições e ações”.

Na sua primeira escolha o homem caiu, pecou e incorreu na única pena inevitável do pecado – a morte. Morte é um termo que encerra muitos significados. Não está esgotado pelo divórcio que separa entre o corpo e o espírito imortal. Na ocasião do seu pecado o homem sofreu a mais temível de todas as mortes – a separação de Deus. Assim tornou-se susceptível à morte eterna. E sendo o homem a cabeça da raça humana, estando nele as gerações e as almas de toda a humanidade, a relação moral da raça inteira foi infectada por sua ação.

É certo que João Wesley não acreditava em qualquer transferência de culpa pessoal. Se alguém perecer será porque este mesmo alguém transgrediu a lei de Deus, não porque qualquer outro a quebrasse – seja Adão ou outro qualquer. A doutrina do pecado de Adão constitui, em qualquer sentido literal, a culpa em qualquer de seus filhos. Era para Wesley, como tem de ser para o raciocínio sábio de todos, cousa repugnante. Wesley diz: “Qualquer que fosse do agrado de Deus fazer como Criador Soberano, não obsta; pois ele há de julgar o mundo com justiça, e todo o homem nele, segundo essa justiça estrita. Não castigará a ninguém por fazer aquilo que ele não poderia evitar, nem por ter deixado de fazer qualquer cousa que era para ele impossível.” Entretanto muitas das conseqüências da transgressão, visível e necessariamente, afetam a outros ainda mais do que àquele que é o atual responsável. O filho do bêbado não tem a culpa da embriaguez; mas tem sociedade nas más conseqüências que aquele vício cria. A embriaguez no pai significa para o filho a fome, a nudez e a miséria.

Mas Wesley cria firmemente na doutrina da queda; pois, é o ensino claro das Escrituras que ele aceitava; sendo verificado na consciência pessoal de todo o homem. É o único fato que explica a desordem e a miséria moral que existem no mundo. A evidência que a raça humana acha-se implicada naquilo a que Newman chama “a calamidade original”, acha-se escrita a letras largas, não somente, sobre cada página da historia, mas em cada edição das folhas (jornais, notícias, acontecimentos) diárias. Mas Wesley nunca separou a doutrina da queda do homem da grande doutrina gêmea da redenção humana. Quando Adão pecou os termos da provação moral foram mudados para ele e para toda a raça humana; e os novos termos são os da redenção em Cristo Jesus. Nele se encontra o sacrifício pelo pecado, feito em promessa desde o momento da queda, que abre as portas do perdão. Aqui está o dom da graça divina mediante o Espírito Santo que faz possível a restauração de caráter e de uma vida santa. E contemplando a doutrina da queda através dos óculos da redenção, João Wesley achou nela o milagre perpétuo do amor divino que converte o próprio fracasso moral em nova possibilidade de vitória moral.

Neste sentido a queda do homem não era derrota dos planos de Deus; antes tornou-se ocasião de uma evolução nova e mais gloriosa desses planos; e mediante a redenção por Cristo o homem ficou enriquecido pela queda. Southey faz um sumário feliz do ensino de Wesley sobre este ponto:
“Se o homem não tivesse caído forçosamente haveria um vácuo em nossa fé e amor. Não poderia haver tal cousa como a fé “que Deus assim amou o mundo de tal maneira que deu o seu Unigênito Filho por nós homens e por nossa salvação”; nenhuma fé no Filho de Deus, como nos amando, e se entregando por nós, nenhuma fé no Espírito de Deus, como renovando a imagem de Deus em nossos corações, ou ressurgindo-nos da morte em pecados para uma vida de justiça. E semelhantemente devia ter um vácuo em nosso amor; pois, não poderíamos ter amado ao Pai, na relação mais íntima e querida, como entregando o seu Filho por amor de nós; não poderíamos ter amado ao Filho como suportando os nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro, não poderíamos ter amado ao Espírito Santo como nos revelando o Pai e o Filho, como abrindo os olhos do nosso entendimento, trazendo-nos das trevas para a sua luz maravilhosa, renovando em nossa alma a imagem de Deus, e nos selando para o dia da redenção” (Southey, Vol II. pág. 58).

Sobre a obra propiciatória (ele ofertou a sua vida para salvar a nossa) de Jesus Cristo, com os seus mistérios profundos, até o ponto de serem insondáveis e altos acima de toda a visualidade, João Wesley falou com ênfase constante, mas sempre na linguagem das Escrituras. “Cristo foi entregue por causa das nossas ofensas, e ressuscitado por causa da nossa justificação. No qual temos a nossa redenção pelo seu sangue, a remissão dos nossos delitos”. E a condição pela qual toda essa graça insondável da propiciação se torna efetiva na experiência humana é simplesmente a fé. Mas, segundo a compreensão de Wesley, a fé não era um qualquer aspecto de assentimento intelectual; não uma mera coleção de opiniões. Ele disse: “Um fio de opiniões não é mais a fé cristã do que um fio de contas é santidade Cristã”. A sua descrição da fé encerra um certo ardor de imaginação que não é comum em seus escritos:
“A fé é um poder operado pelo Todo-poderoso num espírito imortal que habita uma casa de barro, habilitando-o a enxergar através esse véu o mundo dos espíritos, para ver as cousas invisíveis e eternas... É a vista da alma novamente nascida, pela qual o vero crente enxerga àquele que é invisível. É o ouvido da alma, pelo qual o pecador ouve a voz do Filho de Deus e vive; o paladar da alma – se é permissível a expressão – pelo qual o crente “prova a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro”; a sensibilidade da alma pela qual “em virtude do Altíssimo que o envolve na sua sombra” ele sente a presença daquele em quem vivemos, e nos movemos e existimos, e sente o amor de Deus derramado no seu coração. É a evidência interna do Cristianismo, uma revelação perpétua, igualmente forte e nova através de todos os séculos decorridos desde a encarnação, e emanando agora, mesmo como desde o princípio, diretamente de Deus para a alma crente. Está perto de ti na tua boca e no teu coração, se creres no Senhor Jesus Cristo. (Stevens, pág. 331)

Esta definição de fé agradou uma inteligência tão filosófica e crítica como a de Coleridge. Ele diz: “Eu ouso afirmar a minha convicção que a fé cristã é a que Wesley aqui descreve, ou então o termo não tem significação alguma”.

Mas João Wesley ensinou que esta fé é operada pela graça, e deste modo é o dom de Deus.

Wesley pergunta:
“Podeis vos doar com esta fé? Tendes o poder de ouvir, ver, provar ou sentir a Deus? De suscitar em vós qualquer percepção de Deus ou do invisível? De estabelecer relações entre vós e o mundo dos espíritos (mundo espiritual)? De discernir ou a eles ou àquele que os criou? de romper o véu que cobre o vosso coração, deixando entrar a luz da eternidade? Sabeis que não tendes. Não somente, não credes assim – mas nas vossas próprias forças – não podeis crer. Tanto mais vos esforçardes em fazer assim quanto mais ficareis convencidos que é o dom de Deus. A sua misericórdia perdoadora nada pressupõe em nós senão um sentimento de mero pecado e miséria; e para todos que vêem e sentem a sua própria necessidade, e a sua inabilidade em satisfazê-la, Deus livremente dá a fé, por amor daquele em quem ele sempre se agrada.”

Os frutos da fé Wesley considerou como constituindo duas grandes mudanças da natureza na própria alma crente: o grande milagre espiritual de regeneração e a mudança em relação à lei divina, conhecida como justificação, esta justificação sendo o novo estado no universo moral criado pelo ato de perdão. Acompanhando estas grandes mudanças, como seu testemunho e selo, temos a graça do Espírito Santo que atesta a sua existência à própria alma, registrando as mudanças na consciência pela doação da paz divina.

A doutrina de “Segurança mediante o testemunho do Espírito” é parte integral da religião. É o ensino das Escrituras, e a razão o exige; os credos de todas as Igrejas Cristãs o afirmam. É incrível que quando o amor de Deus em Cristo tem estabelecido o seu império no coração crente, e lhe são perdoados os seus pecados, e restaurados todos os laços da ordem espiritual, que tal mudança não seja atestada. É incrível que Deus esconda a sua graça; que seja da Sua vontade que seu filho perdoado viva à sombra de uma mentira.

Mas no tempo de João Wesley esta verdade graciosa era uma das doutrinas perdidas do Cristianismo. Estava nos Trinta e Nove Artigos de religião, mas havia se apagado da memória humana. Havia-se tornado em mera incredibilidade. A sua redescoberta e reasserção (reafirmação, retomada) são partes do grande serviço que o Metodismo tem prestado à fé Cristã em geral. Eis o que Wesley diz a respeito dela:
“Há muitos anos notei que é difícil achar palavras na língua humana para explicar as profundezas de Deus. E deveras, não há palavras que podem expressar perfeitamente aquilo que o Espírito de Deus opera em seus filhos. Mas, digo – desejando que quem for ensinado por Deus, corrija, suavize, ou fortaleça a expressão – pelo “testemunho do Espírito” eu entendo uma impressão íntima na alma pela qual o Espírito de Deus imediata e diretamente testemunha ao meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou, e deu-se a si mesmo por mim, que todos os meus pecados são apagados, e eu, mesmo eu, sou reconciliado com Deus. Depois de vinte anos de considerarão, não vejo causa para retratar qualquer parte disto. Nem vejo como qualquer dessas expressões possa ser alterada de modo a fazê-la mais inteligível. Entretanto notemos, não quero dizer com isso que o Espírito testifica por qualquer voz exterior; nem, sempre por uma voz interior, se bem que às vezes faça. Nem penso que ele sempre aplique ao coração – ainda que freqüentemente faça – uma ou mais passagens das Escrituras. Mas ele obra na alma por sua influência imediata, e por uma operação forte, se bem que inexplicável, de modo que os ventos tempestuosos e as ondas turbulentas se acalmam, e há grande bonança; o coração descansando como se estivesse nos braços de Jesus, e o pecador se sente perfeitamente satisfeito que seus pecados são perdoados – que as suas iniqüidades são cobertas”.

Outra doutrina característica do Metodismo é a que tem o título grandemente controvertido de “Perfeição”. João Wesley não gostou desta palavra, e raramente serviu-se dela, mas cria profundamente na doutrina que ela representa.

A sua proclamação, ele ensinou, constitui a parte da missão do Metodismo e o segredo do seu êxito. Onde quer que enfraquecesse o seu testemunho a esta doutrina, seguia-se logo uma falta de qualquer crescimento. Mas a definição que Wesley faz da doutrina é assinalada por um equilíbrio sábio. Não acreditava em qualquer perfeição angélica; e em perfeição de qualidade alguma que pusesse o seu possuidor fora do alcance das limitações e enfermidades que são inevitáveis nas condições em que os homens vivem. Ele definia a doutrina na linguagem das Escrituras: a perfeição cristã é simplesmente “amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de todo o entendimento”. Wesley cria nesta doutrina porque a sua negação seria asseverar que os ideais de Deus a respeito do caráter humano teriam de permanecer sempre sem realização, e a própria redenção de Cristo sofreria derrota, mesmo naqueles que a aceitam. Mas Wesley sempre ligava a doutrina com a conduta, e insistia que ela devia ser experimentada por seus efeitos na conduta individual, e ele sanava com diligência incansável e com bom senso inextinguível as afirmações extravagantes de alguns de seus seguidores.

Ele disse:
“Cristãos perfeitos não são isentos de ignorância, nem de enganos. Não podemos esperar que o homem seja nem infalível nem onisciente. Ninguém fica perfeitamente isento das enfermidades até que o espírito volte a Deus; nem poderemos esperar antes disso ficarmos inteiramente livres da tentação; pois o servo não é maior do que seu Mestre. Neste sentido não existe qualquer perfeição absoluta na terra. Não existe perfeição senão aquela que admita de crescimento constante.”

João Wesley ensinou que a santificação era o desenvolvimento do caráter regenerado na madureza e compleição (temperamento): e que a medida desse desenvolvimento é determinada pela fé e expectação do indivíduo. De modo que em casos gerais, ao passo, que seja efetuada por um processo gradual, em certo sentido, e sob certas condições, pode-se efetuar instantaneamente, embora não seja possível alcançar um grau que não admita aumento. E Wesley nunca se mostrou mais poderoso pregador do que quando insistia na urgente aceitação dessa doutrina. Eis um exemplo do apelo que ele fez:
“Portanto, espera por ela a cada momento. Por quê não agora mesmo, nesse momento? Certamente podes esperá-la agora, se crês que ela vem mediante a fé. E por este sinal podes saber distinguir, se estás a buscá-la mediante a fé ou pelas obras. Se, pelas obras, desejas que algo se faça antes de seres santificado. Julgas que primeiro tens de ser, ou fazer assim ou assim. Então estás a buscá-la pelas obras até hoje. Se a buscas pela fé, espera-a como estás e espera-a agora. Negar um destes princípios é negá-los todos; aceitar um é aceitá-los todos. Crês que somos santificados pela fé? Então sê fiel a teu princípio, e espera esta bênção tal qual és, nem melhor nem pior; como o pobre pecador que nada pode pagar, nem pleitear senão “Cristo morreu em meu favor”. Desta maneira, espera-a agora. Não demores. Por quê hás de demorar? Cristo está pronto, e Ele é tudo que precisas. Ele te espera! Ele está à porta.”

Não é necessário demorar mais com a teologia de João Wesley. Ela é visível hoje em todos os países, cristalizada num grande sistema eclesiástico – uma das formas mais enérgicas e influentes do cristianismo protestante que o mundo conhece. E ninguém que estuda com alma inteligente a teologia de Wesley pode deixar de ver que é um sistema que coloca em verdadeira e saliente perspectiva todas as grandes doutrinas do Cristianismo evangélico. É um credo de esperança para os homens decaídos e derrotados; uma apresentação da verdade que exatamente assenta ao missionário e ao evangelista. E ainda na sua simetria, razão e harmonia com as Escrituras, e a verificação que ele encontra na consciência humana, é o credo que satisfaz o filósofo. E a explicação disso acha-se no fato que é intensa e supremamente evangélico. Apresenta a religião não meramente com um simples sistema de ética, mas como uma salvação divina. E o sistema de moral não precede a salvação, comprando-a; mas ele a segue e é por ela criado.

Pode-se acrescentar que o segredo daquela paz doutrinal que se nota na história do Metodismo acha-se justamente neste ponto. As controvérsias perduráveis que tem perturbado a Igreja Cristã originam-se naquilo que se pode chamar “o domínio da teologia metafísica”. A mera recordação das grandes heresias históricas o mostram. E a teologia operosa do Metodismo, estando ocupada principalmente com um grande grupo de doutrinas evangélicas, tem escapado dessas controvérsias.

Mas se o Metodismo é sempre supremamente evangélico em seu ensino, é também intensamente prático e sabiamente sóbrio. Ele mostra um certo equilíbrio e sanidade; um aborrecimento do exagero. A sua teologia conserva os pés bem plantados sobre a terra firme. O seu credo acha-se sempre intimamente relacionado com a conduta; é julgado segundo a sua influência sobre a conduta.

Por toda a teologia de Wesley nota-se este equilíbrio entre desajeitados extremos. É inegável que na salvação existem dois fatores, a vontade de Deus e a vontade do homem. A religião subsiste na harmonia destas vontades; o céu se acha na sua união eterna. Quando a vontade humana marcar passo sempre à musica eterna, em harmonia com a vontade Divina, de modo que a alma ame o que Deus ama e aborreça o que Deus aborrece, então se realizarão todos os planos de Deus acerca do homem. Mas, o Calvinismo como ensinado por Whitefield, pelo menos, perdeu de vista aquilo que é de mais sublime no homem – a raiz de toda a moral, e sem a qual a escolha moral torna-se causa impossível – a vontade livre e determinante. Ele deu tanta ênfase à vontade Divina, que a vontade humana desapareceu. Mas Wesley viu os dois fatores. Ele ensinou a sua Igreja a enxergar e afirmar a ambos. E o seu arminianismo, enquanto afirmando a dignidade e a liberdade da vontade humana, dá lugar saliente à vontade de Deus em todos os processos da salvação.

Tocamos mais uma vez na doutrina da “perfeição” que tem sido tantas vezes o vitupério do Metodismo, e certamente constitui o seu característico. A questão aqui é que é o ideal principal da religião, o ideal capaz de ser realizado na experiência humana? Existem duas escolas opostas de pensamento: o moralista de um lado, que considera a religião como sendo a perfeição da conduta exterior; e o místico do outro lado, que separa a religião da conduta, ou então a resolve numa espécie de êxtase indiano. Wesley mantinha um termo médio entre os dois extremos. Contrário ao moralista, ele ensinou que a religião é algo mais do que um plano de ética mecânica. É algo mais do que “a mesma moralidade tocada de emoção.” É um livramento operado por Deus! É a entrada de forças divinas no caráter humano; um milagre de graça que outra vez ergue a alma humana ao lugar na ordem espiritual de que o pecado a expulsara.

Mas Wesley desviou-se também do extremo oposto. Ele possuía um sábio e salutar medo do misticismo. Definia a perfeição cristã sempre, com restringida sobriedade, na linguagem das Escrituras. É simplesmente: “Amar a Deus com todo o coração e com toda a alma e com todo o entendimento e com todas as forças”. E ele experimentou rigorosamente a doutrina naqueles que professaram tê-la realizado pelos efeitos sobre a conduta.

Em cousas cerimoniais Wesley, da mesma forma, desviou-se de perigosos extremos. O seu ensino sobre o batismo pode ser tomado como exemplo desta sábia sobriedade. Ha três modos conhecidos para a administração do batismo, e demais ênfase sobre qualquer um deles constitui a marca do ritualista. E o evangelicalismo tem os seus ritualistas, tão rígidos em forma, e freqüentemente tão ásperos em temperamento, como o próprio sacerdotalismo (clericalismo, ritualismo). João Wesley não fez escolha alguma entre esses modos rivais; mantinha, e ensinava a sua Igreja a manter, a sábia doutrina que todos o são legítimos, nenhum deles é imperativo.

O Metodismo tem produzido dois grandes teólogos, Ricardo Watson e Guilherme Burt Pope. Em muitas cousas são inteiramente dissemelhantes (diferentes). Watson é inferior a Pope em estudos e dons literários; sabia pouco das relações de credos humanos comparados entre si. A ciência de teologia comparativa ainda não nascera quando Watson escreveu. Entretanto onde está o Metodista ajuizado que não consentiria prontamente que o credo de sua Igreja seja julgado pelas belas e luminosas definições de Watson?

Já Pope possuía o conhecimento armazenado de um grande douto, juntamente com uma correnteza de gênio filosófico, raro entre teólogos, e sempre tinha a visão clara daquilo que se pode chamar “as relações entre as várias crenças humanas”. Mas ambos têm a nota característica do Metodismo: a sua sábia sobriedade; o seu evangelismo intenso que ainda desvia-se dos perigos característicos do evangelicalismo (corrente cristã que cultiva as tradições cristãs e pregam o evangelho integral). É uma teologia que liga a doutrina com conduta. Ela aborrece o fanatismo; tem o sal da realidade. Aqui as doutrinas são realizadas na experiência humana e provadas na experiência.

O Metodismo, como já vimos, coloca a disposição da consciência, e não qualquer doutrina intelectual, como condição de filiação à Igreja. Mas toda a Igreja tem de ter um padrão doutrinário para os seus guias, e o padrão doutrinário do ministério Metodista é característico. Acha-se: 1) Nas Notas de Wesley sobre o Novo Testamento; 2) em seus “Cinqüenta e Três Sermões”. Não há outra Igreja que possua padrão doutrinário deste tipo; entretanto este padrão inconscientemente, mas mui felizmente, reflete o gênio peculiar do Metodismo. A sua teologia está enraizada nas Escrituras. A Bíblia, como padrão de ensino, é avaliada em termos muito diversos por diferentes Igrejas. O Romanismo coloca a Igreja acima das Escrituras. Ele diz que a Igreja é mais velha do que a Bíblia e maior. Ela é a guarda da Bíblia e o seu intérprete. A significação da Bíblia se torna articulada aos ouvidos humanos, e autoritária para a consciência humana, mediante a voz da Igreja. É livro morto, enquanto a Igreja é ente vivente. O sacerdotalista (clericalista, ritualista) coloca a tradição ao lado da Bíblia como sendo de autoridade igual.

Mas o Metodismo não é partidário de qualquer teoria especial sobre a inspiração das Escrituras; entretanto, aceita a Bíblia como sendo a fonte de conhecimento divino e a prova suprema de toda a teologia. João Wesley, em memorável passagem, explica porque ele é homo unius libri (homem de um só livro), e essa passagem, de expressão a toda a atitude da sua Igreja para com a Bíblia:
“Sou criatura de um dia, atravessando a vida qual seta passando pelo ar. Sou espírito, vim de Deus e para Ele voltarei. Estou simplesmente pairando acima do grande abismo até que, daqui uns poucos momentos, eu desapareça, afundando-me na imutável eternidade! Uma cousa quero saber – o caminho para o céu; como posso chegar em segurança àquelas praias. O próprio Deus tem-se dignado ensinar-me esse caminho; para este fim ele veio do céu. Ele m'o escreveu num livro. Então dá-me este Livro! Custe o que custar, dai-me este Livro! Eu o tenho. Aqui existe saber bastante para mim. Que eu seja “homo uni libri”. Aqui, pois, eu me acho, longe dos caminhos freqüentados pelos homens em geral. Acho-me sentado a sós com Deus. Na sua presença abro e leio o Livro afim de achar o caminho para o céu. Tenho dúvida acerca do significado daquilo que leio? Há qualquer coisa escura e difícil? Então levanto meu coração ao Pai das Luzes: “Senhor, não é esta a tua palavra? Não disseste tu que se faltar a alguém a sabedoria, peça-a de Deus? Tu dás liberalmente, e não improperas. Tu disseste: Se alguém quer fazer a minha vontade, este saberá.” Eu quero fazê-la; deixa-me conhecê-la. Então procuro e medito em passagens paralelas das Escrituras, comparando as cousas espirituais com as espirituais. Nisto eu medito com toda a atenção e sinceridade de que sou capaz. Se ainda houver qualquer dúvida, consulto com os experimentados (os pensadores, os pesquisadores, os estudiosos, os sábios) nas cousas de Deus, e então os escritos pelos quais, os mortos (os antepassados cristãos) ainda falam (deixaram seus registros, seus ensinos). E o que aprendo desta maneira, isto eu ensino a outros.”

“As Notas sobre o Novo Testamento” de João Wesley, talvez, não sejam um livro para os doutos; é mais próprio para horas devocionais do que para o estudo. Não cintilam com ingênuas sutilezas de exposição, e não fazem pretensão alguma à pesquisas originais. Foram escritas antes do nascimento da Crítica Superior (????), escritas sob pressão elevada, num breve intervalo, quando Wesley estava descansando depois de uma doença. Mas possuem um certo sabor do entendimento másculo (forte) e de uma sanidade real que o constitui uma peça mui nutritiva. O seu espírito reflete a reverência e a simplicidade de fé, bem como a sinceridade solene e quase apaixonada das lindas sentenças a respeito da Bíblia que acabamos de citar. E o fato que este livro (As Notas...) constitui uma das duas provas doutrinárias pelas quais o Metodismo em todos os países julga o seu ministério, mostra qual é a sua atitude para com Palavra de Deus.

A segunda das provas doutrinárias do Metodismo, “os Cinqüenta e Três Sermões”, é também felizmente característica. Aqui temos a verdade, não estendida em definições de metafísica e dirigida à inteligência, mas traduzida em termos práticos. É a verdade que apela à consciência e afeta a conduta; a verdade revestida de forma que visam à imediata influência da conduta.
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** (Esse texto corresponde ao capítulo XII, "As doutrinas efetivas do Metodismo", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 146 a 159, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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