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Rio, 17/2/2010
 

Joćo Wesley na Literatura ** (Rev. W. H. Fitchett)

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De antemão poderia ter se parecido impossível que Wesley ocupasse qualquer lugar de destaque na literatura. Que oportunidade teria para ler livros aquele, cujo gabinete de estudos era o caminho, viajando cinco mil milhas, e pregando quinhentos sermões a cada ano? Quanto mais para escrevê-los ou publicá-los?

Pode se admitir que, Wesley tocou na literatura com menos espírito literário do que, talvez, qualquer outro que tenha publicado tantos livros. A literatura, para, ele não era um fim em si, nem uma recreação, nem um meio de ganhar dinheiro ou fama.

Era arma empunhada por um momento no calor do conflito, e empregada enquanto esse conflito durasse. Era ferramenta empunhada a fim de fazer um trabalho urgente, e como tal havia de ser posta de lado quando fosse concluído o serviço. Era homem apressado, e a nota desta pressa – ou pelo menos, desta urgência – se faz sentir em todo o seu trabalho literário. Sempre escreve como se tivesse outro e melhor trabalho a fazer. Levanta-se certa controvérsia. Para Wesley é uma interrupção (do seu trabalho de evangelista) e talvez um enfado; mas é assunto que precisa ser tratado, para que a verdade não venha a sofrer, e almas não sejam prejudicadas. Ele o trata com o menor dispêndio de palavras, e com a maior brevidade possível, e então corre seu caminho. Cada sentença que escreve, é, num sentido, compulsionada; e esta compulsão é sempre moral.

Podem-se dividir os escritos de João Wesley em quatro classes. Às vezes, à semelhança de seus sermões, são apelos dirigidos à consciência humana, e visam converter os homens do pecado para a justiça. Wesley foi o primeiro a descobrir aquela forma de literatura que se chama “O tratado”, e antecipou a famosa “Sociedade de Tratados Religiosos” por muitos anos. Aquela sociedade foi organizada em 1799; mas, cinqüenta anos antes – em 1752 – Wesley estava ocupado em imprimir e distribuir milhares de apelos breves, mas pungentes, a várias classes de malfeitores: aos bêbedos, profanos violadores do Domingo, etc. Pelo intermédio de seus auxiliares, Wesley espalhou esses primeiros tratados qual semente no solo dos três reinos (Inglaterra, Irlanda e Escócia).

Em seguida vêm os seus escritos de controvérsia. Ao redor da pessoa de Wesley, de seus ensinos, Sociedades e auxiliares houve um constante redemoinho de controvérsia. Ele perturbava demais as consciências de muitos, violava demasiadamente as convenções demais numerosas, para ser deixado em paz. Wesley, tanto por aptidões naturais como por educação, era um dos mais formidáveis polemistas que já viveu. Não se serviu do chicote como o Dr. Johnson, mas a sua lógica possuía a ligeireza da espada. Odiava a controvérsia; costumava citar o provérbio antigo: “Deus fez a teologia prática, o Diabo fez a da controvérsia”. Entretanto quando a verdade é assaltada, os seus amantes têm de defendê-la. E quando Wesley viu as grandes verdades existenciais do Cristianismo, as doutrinas pelas quais os homens têm de ser salvos, assaltadas – e assaltadas geralmente por aqueles que deviam ser os seus defensores – sentiu-se como o soldado ao ver a bandeira do seu regimento rodeada por inimigos. Tinha de lutar.

Ele escreve:
“Oxalá, que eu não tivesse a necessidade de discutir com ninguém! Mas, se sou obrigado a discutir, diz ele, que seja com homens do bom senso”. Mas infelizmente os seus oponentes não eram geralmente homens de bom senso. Um dos mais formidáveis entre eles, e a quem Wesley golpeava mais severamente, era o Dr. Lavington, o Bispo de Exeter; e dele uma critica tão tolerante e imparcial como Miss Wedgwood, declara em palavras já citadas: “Merecia ser considerado juntamente com os homens que arremessaram gatos mortos e ovos podres aos Metodistas, e não com os que lhe assaltavam as doutrinas com argumentos.”

Outra seção do trabalho de Wesley representa a sua solicitude pela instrução de seu povo. Sendo douto, nutrido desde a própria meninice numa atmosfera intelectual, lente numa universidade histórica, para ele, o ódio à ignorância era igualmente um instinto e uma paixão. Ele julgava que o conhecimento e a fé eram parentes mui chegados. Nenhum membro de suas Sociedades havia de ser deixado sem instrução. E Wesley deliberadamente se empenhou na colocação ao alcance de seu povo a melhor literatura que o mundo do seu século possuía. Antecipou por mais de um século a época de livros baratos e de literatura popular. A sua “Biblioteca Cristã” representa o seu esforço mais ambicioso nesse campo. Ele abreviou (resumiu) a uns cinqüenta livros famosos para este fim, e esta Biblioteca é um monumento para a grandeza do seu espírito. Os antigos pais da Igreja Primitiva, os maiores entre os teólogos anglicanos, os mais afamados entre os Não Conformistas ingleses (anglicanos e outros protestantes de outros segmentos, mesmo os independentes que não aceitaram o Ato de Uniformidade de em 1662, que exigia total aceitação do Livro de Orações anglicano), bem como escritores estrangeiros como Pascal e Bengel, se acham lado a lado na lista.

A Biblioteca Cristã não teve êxito financeiro; envolveu a Wesley em perdas sérias; perdas, entretanto, que ele contrabalançou com os ganhos sobre os seus livros baratos. Ele escreve: “Quarenta e dois anos atrás, desejando fornecer a meu pobre povo livros que seriam mais breves, claros e baratos do que eu ainda encontrara, escrevi muitos tratados pequenos, geralmente a um penny cada um. Alguns destes tiveram uma venda tal como eu não julgara possível, e desta maneira fiquei rico sem saber”. Numa palavra, Wesley descobriu – fato que explica certas fortunas modernas – que a literatura quando se torna democrática, criando raízes entre as massas, é melhor do que uma mina de ouro. Entretanto, as riquezas de Wesley eram em escala modesta. As receitas de seus livros raramente excediam a 1.000 libras por ano e cada penny foi entregue a algum fim altruísta. Wesley escreveu em certa ocasião: “Se eu morrer, deixando depois de resolver as minhas dívidas, mais de 10 libras, podeis chamar-me de ladrão.”

O desejo de Wesley em prover uma literatura adequada para o seu povo explica a impressão de seus Sermões e Notas sobre o Novo Testamento. Ele descobriu, logo no começo de seu trabalho, a necessidade que seus auxiliares tinham de um tratado claro, simples e definido, daquilo que se pode chamar “a teologia do Avivamento”; e para preencher esta lacuna publicou a primeira série de seus Sermões – cinqüenta e três discursos que ainda constituem o padrão doutrinal de sua Igreja. Estes sermões não são discursos realmente pregados, mas unicamente os esqueletos doutrinais – uma breve declaração de sua teologia. Wesley diz que o seu propósito em escrever estes Sermões era “fornecer a simples verdade à gente simples.” Em escrevê-los, ele tinha ao seu lado somente dois livros: a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento Grego. Ele explica no prefacio: “É do meu propósito, em certo sentido, esquecer-me de tudo que por toda a vida tenho lido.” Isto é, ele queria apresentar as grandes doutrinas do Cristianismo Evangélico na linguagem mais nova, direta e simples possível.

Ao todo, Wesley publicou cinco séries de sermões, e tiveram uma venda enorme. Mas ninguém precisa hoje recorrer a estes sermões para descobrir o segredo do poder de WesIey no púlpito, ou para ouvir qualquer eco da palavra vibrante que dia após dia conteve as vastas multidões ao ar livre presas com interesse e emoção. Não têm mais semelhança aos sermões proferidos do que tem os fósseis com os seus originais vivos.

As Notas de Wesley sobre o Novo Testamento eram designadas, com os seus sermões, como “um manual de teologia para o seu povo”. As Notas eram escritas com tremenda ligeireza enquanto Wesley fora privado de pregar, por causa de uma doença. A nova tradução do texto que acompanha as Notas contém muitas curiosas antecipações das modificações feitas pelos revisores (da tradução da Bíblia para o inglês) de 1870.

Uma narração dos incidentes variados de sua carreira forma outra secção dos trabalhos de Wesley. O famoso Diário pertence a esta classe, como também a Arminian Magazine fundada em 1778. Wesley deu à experiência humana – aos fenômenos de toda a classe – um valor evidencial tal que a ciência, só ultimamente, com relutância, tem começado a reconhecer. E o seu Diário e Magazine são os registros mais completos, detalhados e científicos de tais fenômenos existentes na literatura.

As publicações de Wesley são em número 371, inclusivas 30 obras preparadas em companhia de seu irmão Carlos, e como começou a escrever somente em 1733, isto representa um termo médio de mais de sete volumes por cada ano de sua vida atarefada. Um historiador alemão de um modo sério e ponderado agrupa as obras de Wesley em cinco divisões: Poéticas, filológicas, filosóficas, Históricas, e Teológicas. E é certo que cobrem uma extensão enorme de assuntos, desde livros de escola para Kingswood, livros de hinos para as suas Sociedades, abreviações (resumos) de enumeráveis autores para o seu povo em geral, e padrões teológicos para os seus auxiliares, até uma bateria inteira de panfletos e tratados.

Mas as obras de Wesley pertencem à literatura no seu melhor sentido? Ele possui aquele grande anti-séptico (aquele “algo mais”), o estilo? Wesley mesmo responderia, com ênfase: “Não buscava lindas frases”. Não produzia epigramas. Não mostrava qualquer sensibilidade pela música ou pela graça de palavras. Uma luz branca, clara, e fulgurante, derrama-se por todas as páginas, mas não existe qualquer dos efeitos e subtilezas das cores da imaginação. O ideal literário de Wesley subsistia em palavras curtas, sentenças breves, e pensamentos claros. Do seu próprio estilo literário ele escreve em 1788 com simples honestidade:
“Não ouso escrever num estilo elegante mais do que me trajar em vestes elegantes. O homem com um pé no túmulo não tem tempo para gastar em ornamentação. Mas se fosse de outra maneira, se eu tivesse tempo para esbanjar, ainda escreveria justamente como escrevo agora. Eu ainda propositalmente declinaria daquilo que muitos apreciam – um estilo ricamente ornamentado. Não posso achar graça na oratória francesa, eu a repugno com todo o meu coração”.

Já era velho quando escreveu aquela descrição de si mesmo. Mas um quarto de século mais cedo (em 1764) ele escrevera:
“Quanto a mim, nunca penso em cousa alguma acerca do meu estilo; mas simplesmente escrevo as palavras que me vêm primeiro. Somente, quando transcrevo algo para a imprensa então o julgo do meu dever zelar que cada frase seja clara, pura e apropriada. A brevidade, que agora é natural para mim, traz quantun sufficit de força. Se, afinal, descobrir qualquer expressão dura, rejeita-a, por completo. A clareza, particularmente, é necessária para mim e para vós; porque temos de instruir o povo de entendimento o mais rudimentar”.

A crítica que Leslie Stephen faz dos escritos de Wesley é interessante; mesmo que sirva somente para ilustrar as limitações de Stephens como crítico. Ele não pode julgar a Wesley criteriosamente porque está separado dele por um intervalo teológico tão largo. Logo ao levantar-se da leitura de Wesley ele diz:
“Ele mostra notáveis poderes literários. Os seus escritos são meios dirigidos a um fim prático. Seria difícil achar outros escritos de expressão mais direta, poderosa ou penetrante. Ele vai diretamente ao alvo sem qualquer rodeio supérfluo. Escreve como que preso aos mais estreitos limites de tempo e de espaço, com os pensamentos tão bem coordenados que possa dizer todo o necessário dentro desses limites. A brevidade dá ênfase, e nunca causa a confusão".

É inegável que são estas qualidades literárias de grande valor em si mesmas, bem como índices de uma linda têmpera moral. Mas Leslie Stephens logo se esquece daquilo que escreveu, lembra-se somente de seu ódio pela teologia de Wesley, e diz: “Os pensamentos de Wesley correm tão freqüentemente nas veredas da obsoleta especulação teológica, que ele não tem conseguido produzir um único livro que satisfaça o sentimento literário”. Como seria possível que escritos sejam ao mesmo tempo “meios dirigidos a um fim prático” enquanto correm quase exclusivamente por “veredas de obsoleta especulação teológica”?

A verdade é que Wesley tem sofrido, no que diz respeito à sua fama literária, muita injustiça tanto de seus críticos como de seus admiradores. Ele tem recebido ao mesmo tempo, demasiado desprezo e louvor, ou antes, tem sido louvado em pontos que não mereciam. A sua obra, a segunda em pontos por merecimento, o famoso Diário, tem de algum modo ofuscado trabalho de uma qualidade literária muito mais nobre. Já vimos que Leslie Sthephen diz que Wesley nunca conseguiu «produzir um único livro que satisfaça o sentimento literário”, e o próprio Augustine Brill, que tem escrito um dos mais encantadores ensaios sobre o Diário de Wesley, diz que Wesley como escritor “não atingiu a distinção”

Mas é possível arregimentar cem críticas doutro lado do assunto. Mr. Fitz Gerald, famoso autor do “Omar Khahyam” que possui a sensibilidade do poeta na distinção e no encanto de estilo, salienta com prazer “o inglês puro, imorredouro e sem afetação do Diário de Wesley”. O próprio Leslie Stephen admite que o inglês de Wesley ”é parecido àquele de Swift ou Arburthnot”, e que o seu Diário “só precisa de um pouco de humor para fazer-se um dos volumes mais interessantes já escritos.”

Sem dúvida o encanto do famoso Diário é muito grande. Os originais existem na forma de vinte e um volumes escritos em letra nítida e pequena, dos quais nunca se publicaram senão apanhados. O primeiro escrito no Diário está com a data da 14 de Outubro de 1735, e consiste de uma carta de cumprimento estupendo que Wesley escreveu defendendo a pequena Sociedade Metodista em Oxford da acusação de terem ajudado em matar um de seus associados pela excessiva austeridade de vida. O último escrito está com a data de 24 do Outubro de 1790. O Diário, portanto, cobre um período de cinqüenta e quatro anos. E entre aqueles dois outubros, citando o Mr. Augustino Birrell, acha-se “a mais surpreendente narração dos esforços humanos já escritos ou suportados”.

Ninguém nega o valor do Diário; entretanto, talvez ninguém pudesse lê-lo todo em seguida (lê-lo de uma só vez do princípio ao fim). Mr. Birrell diz: “Uma atmosfera de tremenda atividade o enche”; mas isto talvez não seja a verdade. As notas deixadas no Diário são demais breves e frias. Nenhum vento sopra pelo Diário; nem se acha emocionado por qualquer idéia de espaço. Somente por um esforço da memória o leitor reconhecerá que sob as sílabas frescas e quietas existe uma chama de energia constante quase sem paralelo.

No seu Diário, Wesley registra do modo mais breve o curso geral de seu trabalho e vida. Prega em tal lugar; menciona o texto, os resultados do serviço são condensados numa sentença; dá expressão a uma piedosa prece para que Deus o abençoe. Então Wesley segue pressuroso o seu caminho para outro serviço. Não existe perspectiva alguma no Diário; nem qualquer enfeite. Não dá idéia da vida tão cheia e movimentada e esforçada da qual é um registro parcial. Não está atravessado por nenhum eco dos grandes movimentos na política, na literatura e na vida social que ocorreram conjuntamente e com os fatos que ele narra. Deveras, isto – o seu quase completo destacamento (alienação) da vida geral do seu século – constitui o grande defeito literário do Diário. Deve-se lembrar que o século XVIII ressoa com grande tumulto; está apinhado de grandes acontecimentos. Começa com os trovões do Blenheim e termina com os do Nilo. O próprio Wesley era contemporâneo de quatro grandes guerras: a guerra da sucessão Austríaca (1740¬-1748), a guerra dos Sete Anos (1755-1763), a guerra da Independência Americana (1775-1783) e a primeira metade da Grande Guerra com a França (1792-1803). A Inglaterra esteve em guerra por trinta dos sessenta últimos anos do século XVIII. Ainda havia a revolução Jacobina (os jacobinos pertenciam a um movimento político armado de pendor católico e anti-protestante dos séculos XVII e XVIII que tinha por objetivo a restauração do reinado católico da casa dos Stuarts na Inglaterra e Escócia. O nome advém do rei Jaime II, cujo nome em latim era Iacobus Rex, que foi substituido no trono em 1688 por sua filha protestante Maria II) de 1715, e a ainda mais famosa revolução de 1746 , com a sua concorrência de conflitos sanguinolentos desde Prestopans (batalha na Escócia em setembro de 1745) até Culloden (batalha de 1746 em que o católico Carlos Stuart, aspirante ao trono da Inglaterra, com o apoio dos jacobitas, foi definitivamente derrotado).

Wesley, também, viu o Clive ganhar as Índias para a Inglaterra, e o Wolf ganhar o Canadá. Ele viu o Capitão Cook abrir diante dela, não “os mares perigosos e temíveis”, como Keats descreve, mas o majestoso Pacífico semeado de suas múltiplas ilhas; e viu a George Washington tirar-lhe as treze colônias norte-americanas. Wesley era contemporâneo dos dois Pitts, de Wilkes, e de Junius. A efervescência do South Sea Bubble rodeava a sua juventude, e o ruído dos tumúltos de Lorde George Gordon rodeava-lhe a velhice. Voltaire visitou a Inglaterra em 1726-1729 quando Wesley estava em Oxford. Ele lhe contemplou através o estreito o começo do formidável drama da Revolução Francesa. Os Rapazes Brancos estavam enchendo a Irlanda de terror nos mesmos anos que Wesley atravessava a Irlanda como evangelista.

E enquanto eventos tão grandes como estes estavam enchendo o mundo com o seu ruído, Wesley, recordemos, achava-se mais do que quaisquer de seus contemporâneos em contacto com o povo de todas as classes; conhecia intimamente a inteligência comum, com as suas vazantes e enchentes de terror, ira e excitação. É deveras notável e indica um curioso afastamento de espírito, ou uma intensa preocupação com interesses maiores, que o seu Diário contenha tão poucas referências a estes eventos. Nenhuma vibração das ações ou paixões do momento agita as suas sílabas ligeiras, mas ordenadas. É certo que nenhum outro naquela geração poderia ter vivido tão constantemente entre as multidões, e ter escapado tão completamente ao contágio de suas emoções. Nenhum outro poderia ter escrito um diário de acontecimentos tão minucioso e cheio, entretanto tão completamente divorciado do tumulto das batalhas, da paixão das lutas partidárias, do pó de acontecimentos contemporâneos.

Ainda o interesse do livro, não obstante tudo isso, é notavelmente grande. Ele abunda em incidentes curiosos, em pungentes juízos literários, em descrições repentinas de caracteres estranhos, e notas de acontecimentos esquisitos. Fornece-nos com raios de uma luz curiosa sobre os lugares escuros do caráter e vida humanos. Wesley tratava com homens e mulheres sob a alta pressão de emoções, e via aspectos do caráter humano que são geralmente escondidos da vista, e às vezes da própria consciência. Wesley cria na Providência como sendo uma força nos negócios humanos, e deleitava-se em dar exemplos de sua operação. A experiência humana era para ele um fenômeno que merecia ser tratado com respeito e registrado com diligência.

Às vezes se diz que o Diário oferece muitas provas da credulidade de Wesley; mas isto não é justo. Ele registra todos os fenômenos estranhos que vêem sob sua observação, mas o seu trato deles é quase científico, para não dizer moderno. Ele não rejeita uma história estranha porque é estranha. Diz repetidas vezes: “Eu conto a história daquilo que aconteceu, explique-a quem puder”. São fenômenos genuínos, e Wesley tem um respeito científico pelos fatos.

Pode-se apreciar a qualidade verdadeiramente literária do Diário quando ladeado com duas outras obras famosas, do mesmo tipo geral pertencentes ao mesmo período: “As Cartas”, de Horácio Walpole, e “Johnson”, de Boswel. Onde se encontra outra geração de Ingleses que tenha produzido uma tal tríade de auto-retratos como se vê naqueles três vultos pitorescos e notavelmente variados?

Walpole e Wesley eram contemporâneos, e o contraste de seus diários não é menos que dramático. Walpole é um vadio (desocupado), uma borboleta humana. Não tinha qualquer negócio sério na vida; mas a sua leviandade, tanto de matéria como de espírito, possui um curioso encanto. E ainda no âmbar catito (elegante) e perfumado da sua tagarelice, jazem embalsamados para a curiosidade humana os cavalheiros e as damas, os velhacos, os flirts, os bobos e os extravagantes daquela geração. Os mesmos elementos em que Walpole vive constituem uma atmosfera de tagarelice maliciosa. Ouvir, contar e escrever todas as histórias escandalosas do seu tempo era a sua ocupação principal; e a idéia do valor de sua tagarelice se vê no cuidado com que ele guardava cópias de suas próprias cartas.

Johnson, também, era contemporâneo de Wesley e com a sua coragem, a sua lógica de chicote, o seu robusto bom senso, o seu respeito por realidades, é figura mais varonil do que Walpole, e tem um título infinitamente melhor para o respeito humano. Mas se Walpole contemplava os homens e mulheres simplesmente pelo divertimento que lhe proporcionavam, e com um afastamento demais descuidado para ser científico; Johnson, doutro lado, apreciava mais a literatura do que os homens e mulheres, e talvez apreciasse mais a política do que a própria literatura. Todos os homens para eles eram capazes de serem divididos em duas classes, para serem chicoteados ou louvados, conforme a classificação de Whig (antigo partido inglês que reunia as tendências liberais) ou Tory (antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica).

O ponto de vista de Wesley está separado por horizontes inteiros do de Walpole ou de Johnson. Ele vê os homens e mulheres em relação com a eternidade. A sua relação para com eles não é aquela de uma curiosidade penetrante como a de Walpole, nem de ódios e preferências veementes como os de Johnson. É o sentimento de uma compaixão divina, de uma solicitude incansável pela sua felicidade. Ele possui um sentimento sobrepujante do valor dos homens à parte de toda a questão de sua condição social, da sua política, do seu conhecimento ou ignorância, de sua pobreza ou riqueza. Numa palavra, Wesley os vê até onde for possível aos olhos humanos enxergarem – como Deus os vê.

A melhor obra literária de João Wesley não é o seu Diário, mas o seu famoso “Apelo a Homens de Razão e Religião”. Aquele que deseja saber o que é a língua inglesa, no auge de seu poder e clareza, bem pode recorrer aos famosos “Apelos”. Não têm iguais em fogo e poder, não têm rivais em sua transluzente clareza. Pelo menos, quem escreve aqui, não conhece outra cousa na língua inglesa que lhes sobrepuje, quer em clareza, simplicidade ou força. As sílabas claras, tensas, e apressadas ardem com uma chama branca de convicção. Aqui encontramos o estilo de Wesley por excelência. As fogosas (irascíveis, embraseadas) sentenças de Swift ardem com um fogo mais maléfico; e há fumaça às vezes como se viesse do abismo (do inferno, das profundezas da terra) – bem como chamas. É de ver que Burke possuía um escopo de imaginação mais larga e cores mais variadas do que Wesley. As suas sentenças parecem com a luz decomposta. Mas aquilo que ganham em cor perdem em simplicidade e clareza. As sentenças curtas e comprimidas de Wesley, compostas de monossílabos, são canais perfeitos para a mais ligeira lógica que a inteligência humana pode formular, e refletem algumas das emoções mais elevadas que a alma humana pode sentir.

“O Apelo” mostra que Wesley possuía uma linda capacidade pela ira; mas a sua ira somente serviu para dar novo fio à sua lógica. Ele é tremendo no debate. A sua lógica ligeira e desapiedada, por causa da sua ligeireza – seu acento de pressa – não raramente possui o efeito de escárnio. Corta como chicote. Temos um exemplo no seu segundo apelo no qual ele responde ao Bispo Lavington. O bispo Lavington era um tipo de teólogo hanoveriano – ¬gordo, sonolento e contente, e tão destituído de consciência espiritual como um pedaço de pau. Ele repele, com zanga que possui certa nota de terror, o “entusiasmo” do Avivamento. Que pode haver na religião para entusiasmar a qualquer um? Ele pede que todo o seu clero faça causa comum contra os Metodistas. Sentiu, a respeito deles mais ou menos, como os franceses deste século sentem em referência ao clero. Constituíam um inimigo comum. Deviam ser esmagados, custasse o que custasse, e quaisquer que fossem os métodos para efetuá-lo. Wesley responde aos detalhes da acusação do Bispo Lavington com infinita paciência, e na conclusão ele toca uma nota elevada. Um bispo tratando publicamente com uma questão religiosa tem grande influência. Milhares hão de aceitar suas palavras. Não havia dúvida que o bispo Lavington conseguiu o seu propósito de “conservar” multidões longe das influências poderosas do Avivamento. Wesley reconhece isto, e prossegue:
“Meu senhor, não há de passar muito tempo até que nós dois havemos de deixar esta casa de barro, e ficaremos nus na presença de Deus. Nem há de estar longe o tempo quando veremos o grande trono branco que desce do céu e aquele que nele se assenta. À sua esquerda estarão os que em breve habitarão o fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos. Naquela companhia estarão todos que morreram em seus pecados. E entre eles, aqueles que “conservais” distantes do arrependimento. Haveis de regozijar-vos então com o vosso êxito? Deus permita que não lhe seja dito naquela hora: “Estes têm perecido na sua iniqüidade; mas o seu sangue eu exijo das vossas mãos”.

Forçoso é confessar que Wesley na literatura era instrumento de uma só corda. Tinha apenas uma nota. Em cada livro, por sua vez, ele parte de um ponto dado, e segue para um dado fim; e nunca demora; nem nunca se desvia. A paisagem não lhe oferece encanto algum.

A sua única solicitude é alcançar o seu destino, e fazer o preciso negócio em mão. É claro que o hábito de Wesley em empregar a literatura como uma simples ferramenta ou arma, dá-lhe um certo exclusivismo, mas com a virtude da espada que seja estreita. E atrás da lógica de Wesley há sempre algo de impacto mais forte do que a lógica, a força de uma tremenda personalidade, de uma vida ocupada em cousas grandes, e o canal de grandes energias. Wesley inconscientemente escreve e argumenta como um ser que por um momento tivesse descido de algum domínio mais nobre, e da preocupação de alguma tarefa divina. E a completa inconsciência desse aspecto lhe rouba de toda a arrogância, fazendo a descida tanto crível como impressiva.
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** (Esse texto corresponde ao capítulo XVI, "Wesley na literatura", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 201 a 214, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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