IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 17/2/2010
 

As Opiniões Estranhas de João Wesley ** (Rev. W. H. Fitchett)

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A inteligência de João Wesley com a sua inclinação positiva e lógica, facilmente se cristalizava em opiniões definitivas, enquanto as suas qualidades de coragem e independência deram a muitas dessas opiniões uma feição original. Era homem de método constante, e ele possuía uma dedicação incansável em registrar tudo que ele via ou experimentava. Por conseguinte, as suas opiniões sobre todas as espécies de assuntos – profanas e seculares, históricas e literárias ¬– acham-se espalhadas em grande profusão por seu Diário e cartas. Muitas vezes representam juízos apressados, ou são baseados num conhecimento inadequado de cousas; mas são geralmente assinalados com grande perspicácia, e sempre com grande confiança; e a sua positividade e originalidade lhes dão freqüentemente uma feição humorística.

Por exemplo, sobre caracteres históricos, os juízos de Wesley são assinalados por grande penetração e franqueza e, se fossem geralmente aceitos, destruiriam não poucas reputações notáveis. Era um bom Tory (membro do antigo partido de tendência conservadora que reunia a aristocracia britânica), mas possuía demais bom senso para nutrir qualquer ilusão acerca daquele “mártir real”: Carlos I. Wesley diz: “o principal pecado que trouxe o rei ao patíbulo foi o dele perseguir os verdadeiros cristãos”.

Wesley conta a história da morte daquele monstro de crueldade Graham de Claverhouse, depois, como recompensa por suas vilezas execráveis, feito Lorde Dundee. Wesley diz:
“É corrente a tradição na Escócia que na batalha de Killiecrankie, estando, vestido de aço desde a cabeça até aos pés, ele estava manejando a sua espada, ao passo que jurava, que antes do pôr-do-sol ele não deixaria com vida um só inglês. Justamente nessa ocasião uma bala de mosquete lhe feriu debaixo do braço nas juntas de sua armadura. É entusiasmo dizer que, assim a mão de Deus lhe recompensou segundo as suas obras?”

A respeito de Carlos II, depois de ler uma narração dos sofrimentos dos Presbiterianos na Escócia durante o reinado, Wesley escreve: “Oh! que governador abençoado era aquele desse bom homem, que se chama o Rei Carlos lI! A Maria Sanguinária era um cordeiro, uma pomba, em comparação”. Em outra parte ele diz: “Muitos dos bispos Protestantes do Rei Carlos não tiveram mais religião nem mais humanidade do que os Bispos Papistas da Rainha Maria.”

Wesley mostra-se ironicamente incrédulo acerca de São Patrício e seus feitos, e a leitura da vida daquele santo lhe deixa com a convicção melancólica que é um mito, ou pelo menos a história com o “cheiro forte de romance”.

Wesley diz:
“Nunca antes ouvi de um apóstolo que dormia por trinta e cinco anos, e que começava pregar com sessenta. Mas fico mais abalado com o êxito que ele teve. Aqui não há sangue de mártir algum; não há escândalo; nenhum ódio da cruz; nem há perseguição alguma para os que querem viver santamente. Não se ouve outra cousa desde o princípio até o fim, senão de reis, nobres e guerreiros, que se lhe prostravam. Milhares são convertidos sem oposição alguma; doze mil sob um só sermão. Se aconteceu assim, segue-se que nesse tempo, ou não havia Diabo no mundo, ou então São Patrício não pregava o Evangelho de Cristo.”

Acerca das tradições fradescas de que a Irlanda nos séculos VII e VIII foi semeada de Colégios, constituindo a ilha inteira um centro donde se espalhavam a piedade e a instrução por toda a humanidade, Wesley diz secamente: “Isto coaduna com a história de Bel e o Dragão.”

“As Dúvidas históricas”, de Walpole, convenceram a Wesley que Ricardo III não era nem corcunda nem selvagem, e ele explica a tradição contrária dizendo que, durante cinqüenta anos, ninguém podia contradizer tal opinião senão com perigo à cabeça (sentença de morte). Wesley tem tempo e curiosidade suficientes para visitar as obras em cera de Spring Gardens, e relata que a maioria dessas figuras da realeza mostram os seus caráteres nas feições, aparentemente caráteres mui pouco amáveis. “A inteligência e a majestade se vêem no rei da Espanha; a estupidez e a bestialidade no rei da França; a sutileza infernal no falecido rei da Prússia, bem como no esqueleto de Voltaire; a calma e a humanidade no imperador e rei de Portugal; a estupidez esquisita no Príncipe de Orange; e a surpreendente vileza, com tudo que é detestável na Czarina”. As idéias de Wesley sobre “aquela pobre e injuriada mulher, Maria Rainha da Escócia” agradarão a maioria dos Escoceses.

Wesley registra que o Dr. Stuart em sua “História da Escócia”, prova além de toda a possibilidade de dúvida, que as acusações contra a Rainha Maria eram totalmente infundadas; que ela foi baixamente traída pelos próprios servos desde o começo até o fim; e que não somente era uma das melhores princesas então na Europa, mas era também uma das mulheres mais justas; sim, e a mais piedosa!” De George II, Wesley diz: “A Inglaterra terá um príncipe melhor?.”

Wesley, tendo, por uma circunstância bastante estranha, entrando na Câmara dos Lordes quando estava presente o rei, faz dele uma descrição pitoresca:
“Eu estava na câmara de vestes, junto à Câmara dos Lordes, quando o rei se vestiu da túnica real. A sua fronte estava muito enrugada pela idade e muito sombria de cuidados. E é só isto que o mundo dá mesmo ao rei, é só isto a grandeza que lhe ministra? Um grosso cobertor de peles aos ombros, tão pesado e desajeitado que ele dificilmente se move sob o peso! Um grande montão de cabelos emprestados, com umas poucas chapas de ouro e pedras cintilantes sobre a cabeça! Deveras a grandeza humana é uma bagatela!”

Em outra ocasião Wesley passa duas ou três horas na Câmara dos Lordes, e diz: “Freqüentemente ouvira eu que esta era a mais venerável assembléia na Europa, mas como fiquei desapontado!”

Os juízos literários de Wesley são igualmente positivos e francos. Não tinha qualquer respeito supersticioso por grandes reputações; ele, deveras, a sonda com uma coragem que é sempre divertida, e às vezes muito salutar. Ele descreve o Rousseau como “um ateu superficial e ao mesmo tempo tolo, dois degraus abaixo de Voltaire”.

“Certamente, diz ele, nunca tolo mais consumado viu o sol. Ele é um mero misantropo; um cínico completo. Da mesma sorte que o seu irmão ateu, Voltaire, e quase tão grande tolo. A respeito de seu livro, os conselhos bons são velhos e comuns, somente disfarçados com novas expressões. E os novos são dele mesmo, são mais leves do que a própria vaidade. Tais são as idéias que sempre espero daqueles que são sábios demais para crerem nas suas Bíblias.”

O nome de Voltaire é empregado como texto de uma discussão mui divertida sobre a linguagem. Wesley tem lido a “Henriade”, e como resultado diz:
“Mais do que nunca me convenci que a língua Francesa é a mais pobre e a mais vil das línguas européias; que não é mais comparável com a alemã ou espanhola, do que é a flauta folis com o órgão; e que, a respeito da poesia especialmente, tomando em consideração a esquisitice incorrigível de sua metrificação, e o hábito de sempre escreverem em rima – para dizer nada do habito detestável de escreverem rima dobrada, é também, freqüentemente, a rima falsa – é tão impossível escrever um belo poema em francês, como fazer bela música com harpa de judeu”.

Sterne passa mal às mãos de João Wesley, como se pode esperar. Dois homens, mais absolutamente opostos em temperamento e gênio dificilmente se pode imaginar. Wesley diz: “a palavra ‘sentimental’ não tem sentido; poderia tão bem ter empregado a palavra ‘continental’ e ‘A Viagem Sentimental’ ele comenta na frase: “Um tolo cria muitos outros.”

Em questões de moral o juízo de Wesley é inexorável. Ele cuidadosamente estuda o malévolo e famoso livro de Maquiavel:
“Eu ponderei os sentimentos que eram menos comuns; transcrevi as páginas nas quais são encontrados; comparei as passagens entre si, e esforcei-me para fazer um juízo calmo e imparcial. E meu juízo calmo é que se todas as mais doutrinas dos demônios, que têm sido escritas desde que houve arte de escrever no mundo, e se as ajuntassem num só volume, ainda não alcançaria a este; e que se um príncipe se formasse por este livro que tão calmamente recomenda a hipocrisia, a traição, a mentira, o roubo, a opressão, o adultério, a prostituição e o assassinato de toda a espécie, Domiciano e Nero seriam anjos de luz em comparação com ta! Homem”.

De um escritor inglês de ensinos igualmente por versos, Wesley escreve – talvez por ser inglês – ¬em termos ainda mais severos. Havia lido “A Fábula das Abelhas”, por Mandeville, e a achava mais vil do que o “Príncipe”, de Maquiavel:
“O italiano (Maquiavel) recomenda somente uns poucos vícios, como sendo úteis a certos homens, em certas ocasiões; mas o inglês (Mandeville) ama, e cordialmente recomenda o vício de toda a espécie, não somente como sendo útil, de vez em quando, mas como sendo absolutamente necessário em todos os tempos e em todas as comunidades!”

Mas, se Wesley se mostra rígido contra o ensino imoral, ele facilmente vê e mostra-se generoso no louvor de qualquer bem, mesmo naqueles que lhe são inteiramente adversos. Leu “aquele livro surpreendente”, “A vida de Ignácio de Loyola”, e diz: “Certamente era um dos homens mais nobres que já se empenharam numa causa tão ruim”.

Wesley nutria firmemente a crença que a misericórdia de Deus é co-extensa (tem a mesma extensão, é ilimitada) com o Universo; que a fé verdadeira às vezes se esconda sob as aparências da heresia, e que muitos serão salvos por Cristo sem nunca lhe terem ouvido o nome. Diz eIe:
“Li hoje parte das meditações de Marcos Antônio. Que imperador esquisito! Que pagão esquisito! Não duvido que fosse um dos muitos que virão do Oriente e do Ocidente para sentarem-se com Abraão, Isaque e Jacob, enquanto os filhos do reino, os cristãos nominais, sendo expulsos”.

Doutro lado ele considera muito duvidoso “que Judas tenha lugar tão quente no Inferno quanto o Alexandre Magno!” É claro que considerava o maior soldado em toda a história como pouco melhor do que um assassino em grande escala, pois, “matou a milhares tanto em batalha, como nas cidades, depois de capturadas, por nenhum crime mais do que o de defenderem a suas mulheres e crianças”.

Os juízos de Wesley acerca de eclesiásticos e acontecimentos são notáveis pelo seu robusto bom senso. Lia a história dos puritanos (movimento religioso e político de orientação calvinista surgido na Inglaterra no século XVI que rejeitava o catolicismo e que desejava purificar a Igreja Anglicana, retirando-lhe os resíduos de catolismo, e por isso foram perseguidos e, de certo, modo obrigados a fugir da Inglaterra) e via tanto a crueldade de seus opressores como os erros dos mesmos Puritanos.
“Fico surpreendido, primeiro, com o execrável espírito de perseguição que enxotou estes veneráveis homens da Igreja, e com a qual o clero da Rainha Elizabeth era tão profundamente saturado como o da Rainha Maria; segundo, com a fraqueza daqueles santos confessores, muitos dos quais deram tanto tempo e força a discussões acerca de vestes e bonés ou de genuflexão (ato de genuflectir, ajoelhar-se para participar) na Santa Ceia”.

Wesley também leu a “A história dos Concílios”, de Baxter, e se encheu de santa indignação com a narração daquilo que a Igreja de Cristo havia sofrido na terra às mãos dos que imaginavam servi-la.
“Que companhias de velhacos execráveis foram aqueles – não se pode dar-lhes título mais ameno – que em quase todos os séculos desde São Cipriano, têm tomado sobre si o governo da igreja! Um concílio a amaldiçoar perpetuamente a outro, e a entregar todos a Satanás, quer antecessores quer contemporâneos, que não recebessem implicitamente as suas determinações, embora geralmente insignificantes, às vezes falsas e freqüentemente ininteligíveis ou contraditórias em si mesmas! Indubitavelmente o Maometanismo (a religião islâmica) foi solto (surgiu na Europa e no mundo) para corrigir aos Cristãos”.

Sobre alguns assuntos Wesley nutria idéias esquisitos. Ele acreditava, por exemplo, que havia a possibilidade, e mesmo a probabilidade de uma vida futura para os animais. As criaturas têm sofrido neste reino de dor e morte que o pecado do homem chamou à existência, por quê não hão de participar nos resultados da redenção humana? Porque sabemos que toda a criação juntamente geme e está com dores de parto até agora; e Wesley diz: “Quer atendam os homens ou não, esses gemidos não são dispersos ao ar, mas entram nos ouvidos daquele que a todos criou”. E esta criação que geme, “espera redenção”. Wesley diz:
“A promessa de que nunca haverá dor jamais, se cumprirá não somente no homem, mas em toda a criatura segundo a sua capacidade; toda a criação animada será restaurada a tudo o que perderam” (Wesley, portanto, acreditava que uma vida futura para animais seria possível). E pergunta: “Quem sabe se não será da vontade do Criador Bondoso, elevá-los na escala dos seres? Quem sabe se quando nós formos elevados à paridade com os anjos, os animais não serão constituídos o que nós agora somos – seres capazes de comunhão com Deus?”

Coleridge acrescenta uma nota um tanto cruel a estas frases:
"Não há sentido", diz, "em aplicar-se a palavra 'eles' a moscas, peixes, vermes, etc (equiparando-os ou elevando-os ao nível de pessoa humana). Se eu destruir uma porta em pedaços e colocar um cachorro no seu lugar, eu poderia dizer que a porta evoluiu para um cachorro?"

Wesley acreditava em feiticeiros, não em qualquer feiticeiro particular, mas na realidade, em certos casos de feitiçaria. Ele deveras acreditava que negar a existência de feitiçaria seria impugnar a autoridade da Bíblia; circunstância que prova que a sua lógica nem sempre se achava suficientemente qualificada com a inteligência.

Ao passo que em tantas coisas ele se achava adiante do seu século, Wesley, entretanto, em certas coisas, partilhava de suas prevenções. Deve-se lembrar que no século XVIII os juízes de Sua Majestade acreditavam em feiticeiros, e as leis do país tratavam de feitiçaria como fato real e temível, que só poderia ser castigado adequadamente pelo fogo ou pela forca (pena de morte). Dois “feiticeiros” foram executados em Northampton no ano de 1705, e mais cinco em 1712. Na Escócia executou-se uma mulher por feitiçaria em 1712. Quando a lei levava a sério a feitiçaria ao ponto de queimar ou enforcar a uma mulher que supunha praticar a arte escura, pode-se perdoar a Wesley a crença na existência de casos de feitiço genuíno.

A opiniões políticas de Wesley eram às vezes de um aspecto esquisito. Na sua carta ao Lorde North acerca das dificuldades americanas ele começa a dizer: “Sou ritualista, filho de ritualista, criado desde a minha meninice na mais exaltada idéia de obediência passiva e de não resistência” e essas palavras davam expressão com acurada perfeição à inclinação geral da política de Wesley. Mas a sua consciência, ou a sua razão, quando surgia qualquer ocasião adequada, quebrava completamente com o toryismo (identificação com o partido político conservador e aristocrata Tory) intolerante e estúpido que constituía a peste de Grã-Bretanha por largos espaços do século XVIII.

A respeito das publicações de Wesley sobre as desavenças americanas, tem de se admitir forçosamente, que são mui complicadas e contraditórias, devido ao conflito entre o elemento original de Tory (nome do antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica), herdado do seu pai, e a sua própria inteligência mais larga e sábia. Em 1768, em seus “Pensamentos livres sobre o Estado presente de negócios públicos”, ele declarou que não era capaz de defender as medidas empreendidas em referência à América. E acrescentou: “Duvido que haja quem as possa defender, quer pela base de direito e equidade, que pela prudência”. Mas em 1775 ele publicou o seu “Apelo calmo para as colônias americanas”. Aquele apelo foi somente o panfleto do Dr. Johnson sobre “Impostos não constituem tirania”, um pouco abreviado, e refletiu as rijas prevenções Toryanas de Johnson. Os descontentes americanos – argumentou o panfleto – eram descendestes de homens que nunca tiveram voto algum, ou que renunciaram a esse direito pela emigração. Tinham direito ao abrigo das leis; mas não tinham voz alguma em formulá-las. A única coisa que lhes competia em relação aos impostos era pagá-los. O panfleto de Wesley representava um ganho imenso para o gabinete inglês, mas para o público em geral constituía uma imensa perplexidade.

Wesley parecia culpado de uma dupla ofensa. Ele repudiara a si mesmo e furtara o trovão ao Dr. Johnson.

Um ministro batista, Caleb Evans, homem de inteligência e caráter, trouxe uma nova acusação contra Wesley: que ele recomendara um panfleto intitulado “Um argumento em defesa do direito exclusivo dos colonizadores para lançar os seus próprios impostos”, mas que agora, o próprio Wesley escrevera um panfleto em sentido exatamente oposto. Wesley negou que vira o livro, mas apareceram muitas evidências para provar que tal não era o caso. É certo que ele recomendara o livro a certos amigos. A própria explicação de Wesley apareceu mais tarde, e era suficientemente clara. Escrevendo a um correspondente, ele diz:
“Simplesmente vou contar-vos a cousa como é. Eu estava voltando da Conferência em Leeds, quando alguém me deu o tratado ao qual vos referistes, parte do qual eu lia na viagem. Notei que o espírito parecia admiravelmente bom, e então julguei que os argumentos fossem contundentes. Suponho, que em conseqüência disso – se bem que não me lembro de tê-lo feito – recomendei-o tanto a vós como a outros; mas eu me esquecera disso tão completamente que, mesmo quando o panfleto foi me trazido há poucos dias, não me recordava de tê-lo visto jamais”.

Assim Wesley ficou livre de uma acusação, mas restava o fato incontestável que ele publicara duas correntes de opiniões inteiramente opostas sobre as desavenças americanas. Wesley explica o negócio numa carta característica, tanto pela brevidade como pela franqueza, que merece ser reproduzida:
“Rev. Sr. , afirmais:
1) que eu duvidava em outros tempos que as medidas empregadas em referência à América pudessem ser defendidas, quer pela base do direito e equidade, quer pela prudência. E deveras duvidei disso, há cinco anos, e mesmo, há cinco meses.
2) que eu declarei, no ano passado, que os americanos eram oprimidos e injuriados. Não me lembro de ter dito tal coisa, mas é possível que eu dissesse.
3) que eu então fortemente recomendava um argumento pelo direito exclusivo dos colonizadores em lançar os seus próprios impostos. Creio que assim fiz, mas agora sou de outro parecer.”

O Tory (político conservador) em Wesley, afinal, respondendo aos acentos ásperos daquele Tory ainda mais robusto, Dr. Johnson agora triunfara: entretanto, de alguma maneira, mesmo sobre as desavenças americanas, Wesley interpretava a situação e sabia profetizar o resultado melhor do que quase todos os estadistas do seu tempo. Há algo de profecia na sua carta ao Lord North:
“É de bom senso empregar a força contra os americanos? Não me importo daquilo que alguns afirmam; esses homens não serão amedrontados, e nem facilmente vencidos. Certos dos nossos valentes oficiais dizem que “dois mil homens podem enxotar os rebeldes da América”. Não, nem vinte mil, sejam eles rebeldes ou não, nem talvez três vezes tantos. São fortes, valentes, todos são entusiastas, entusiastas pela liberdade, entusiastas calmos e deliberados. Em suma eles compreenderão tão bem a disciplina como os que lhe assaltam. Mas sois informados que “eles estão divididos entre si”. Assim foi informado o pobre Roboão (filho do Rei Salomão) a respeito das dez tribos; assim foi informado o Philipe a respeito dos holandeses. Não; são terrivelmente unidos; julgam que estão a lutar por suas mulheres e seus filhos, e pela liberdade. As munições deles estão à mão, as nossas estão distantes três mil milhas. Somos capazes de vencer aos americanos ainda que sejam deixados sozinhos (lutem sozinhos sem a ajuda de outros povos e países)? Não temos certeza disso, nem estamos certos que todos os nossos vizinhos ficarão quietos”.

No diário de Wesley se acham muitos e curiosos juízos a respeito de si mesmo. Ele vigia as ações de sua inteligência, a mudança nos seus sentimentos, o efeito que o meio exerce sobre ele; e geralmente se contempla a si mesmo com um interesse destacado e científico que é divertido. Assim, no seu Diário sob a data de 8 de agosto de 1756, ele escreve: “Tenho achado grande benefício em ficar suspenso. É de grande utilidade em quebrar-nos a vontade”. Wesley sabia – ainda que fosse somente devido ao ímpeto de deveres constantes a clamarem por instante solução (solução instantânea) – que ele corria riscos de decisões ligeiras. O costume de resolver negócios instantaneamente e, com demais freqüência sem o conhecimento necessário, tornava em hábito tirânico. De modo que encobriu uma disciplina salutar naquilo que a maioria das pessoas considera uma fraqueza – o hábito de achar-se suspenso.

Wesley também nota as enchentes vazantes de seus gestos. Eis uma entrada no seu Diário que mostra este mais ocupado entre os homens, absorto nos negócios de outros, que ainda teve tempo para estudar a si mesmo:
“Terça-feira, 3 de julho de 1764. – Eu estava refletindo numa circunstância esquisita que não sei explicar. Nunca gosto de uma música com a primeira audição; somente quando tenho aprendido a cantá-la; e ao passo que vou aprendendo-a com mais perfeição, eu gradualmente ganho por ela um gosto crescente. Noto algo semelhante em referencia à poesia; sim, a respeito a tudo de que se pensa. Raramente tenho apreciação por versos com a primeira audição. Somente quando tenho os ouvidos repetidas vezes é que me dão prazer; quase não me dão prazer algum antes de tê-los ouvido umas poucas vezes, assim tornando-me familiar. Simplesmente contemplar um retrato que não me impressiona ao princípio, torna-se mais agradável ao passo que fico mais acostumado com ele; mas somente até certo ponto. Pois ao tomar-se demais familiar, não me agrada mais. Oh! Quão imperfeitamente entendemos a própria máquina que levamos conosco!”

É divertido notar como Wesley imagina que as suas virtudes são susceptíveis a virarem-lhe em laço. Era homem sempre pronto em perdoar, mas a própria caridade pode tornar-se numa enervação; e, Wesley começou a indagar se ele não era apressado demais em perdoar. Diz:
“Outros são mais assaltados nos pontos fracos de suas almas; mas comigo é do contrário. Se tenho alguma força – e não tenho senão a que recebi – é em perdoar as injustiças. E é deste mesmo lado que me acho assaltado, com mais freqüência do que qualquer outro. Entretanto não me deixes aqui sozinho por uma hora sequer, pois eu seria capaz de trair-me a mim e a Ti!”

O hábito de Wesley em exagerar a importância do mal que ele estava particularmente tentando corrigir, constitui uma ilustração divertida das avançadas que dava sobre aquele líquido inocente - o chá. Ele se persuadira que escapara de um ataque de paralisia por ter abandonado o chá; e acreditava que a metade da pobreza da nação podia ser destruída em golpe, se o povo abandonasse o uso desse líquido perigoso. O seu argumento contra o uso de chá, de fato, é uma espécie de burlesca (cômica, comédia) inconsciente da lógica que se emprega hoje (no início do século XX, quando esse livro foi escrito) em combater as bebidas alcoólicas.

Wesley representa um obstinado debatente (debatedor, argumentador). À questão “o chá não me prejudica em nada por quê então devo deixá-lo?”, ele responde que todo o homem é responsável por seu exemplo. Quem tiver estômago de ferro susceptível de resistir às corrosões mortíferas do chá pode, pelo exemplo, tentar a qualquer irmão fraco a engolir esse líquido venenoso, conseguindo a sua ruína. Wesley clama a seus seguidores: “Precisais aborrecer o veneno mortífero, denunciando-o desde esta hora!” Wesley mesmo abandonou o uso do chá, substituindo-o pelo açúcar e água quente por doze anos, até que o Dr. Fothergill, seu médico assistente, ordenou-lhe a começar a usá-lo de novo. E o autor do tratado sobre o chá bebeu chá durante o resto de sua vida!

Talvez o mais notável exemplo das opiniões esquisitas de Wesley se acha na história da escola de Kingswood. Era nobre a inspiração que deu origem à escola. Foi designado como provisão para os filhos de seus auxiliares. Wesley perguntou: “Seria justo que os filhos daqueles que deixam casa, mulher, e tudo que lhes é caro a fim de salvar almas da morte sofressem falta daquilo que é necessário para alma ou para o corpo?” Lady Maxwell proveu os fundos para começar Kingswood, e Wesley aproveitou a oportunidade para criar, o que ele sinceramente acreditava que seria uma instituição modelo – uma escola cristã, uma fonte de conhecimento cristão. Nenhuma criança com menos de doze anos havia de ser recebida, e somente os filhos de pais que fossem, não quase, mas inteiramente cristãos. Teria algo do espartano na escola. “Os filhos de pais “dedicados”, dizia Wesley, não tinham que fazer ali; e todos os pais tinham de prometer que não retirariam os filhos da escola nem por um dia sequer a não ser que os retirassem para sempre”. Mas Wesley, não obstante seu grande amor pelas crianças, não entendeu nenhum pouco da natureza infantil e preparou um horário para os pequeninos de Kingswood, admiravelmente calculado a torná-los ou em doidos ou em hipócritas.

Exigia que se levantassem às quatro horas, tanto no inverno como no verão; cada pequenino devia gastar a hora desde as quatro até cinco em oração, cânticos e introspecção. A imaginação humana se perturba com o espetáculo de vinte e oito pequeninos, com os sentidos oprimidos pelo sono, levantando-se às quatro horas numa manhã fria de inverno, e gastando uma hora inteira no processo de examinarem as almas dentro de seus pequenos corpos trementes. Então começava a rotina de trabalhos forçados, sustentada por comida comum e sem qualquer iluminação de alegrias ou brinquedos. Southey diz que Wesley aprendera o ácido provérbio alemão: “quem brinca em criança ainda brinca quando homem”. E se esquecera do salutar rifão (refrão, provérbio) inglês, o reflexo de alegre bom senso, que “o trabalhar constante sem nunca brincar faz Joãozinho um estúpido”. Sem dias feriados, sem brinquedos, e nenhum menino permitido estar fora da companhia de um professor por um momento sequer – tais não eram as condições para o desenvolvimento de uma juventude feliz e sadia.

E é fato que Kingswood ocupou segundo lugar depois de sua esposa na vexação que causou a Wesley. A natureza humana estava em luta aberta com o temível horário. Não podia conseguir professores que o executassem, nem crianças que o agüentassem. A escola começou com vinte e oito alunos; e no segundo ano o número diminuíra para dezoito. Desses dezoito, Wesley nota “que quatro ou cinco eram descomunalmente ímpios”, dois tinham de ser expulsos como incorrigíveis; e cinco mais fugiram – rapazes sábios esses! Wesley diz: “Gastei mais dinheiro, tempo e cuidado neste projeto do que em qualquer outro que já empreendi. Não sei como posso me refrear de largar o projeto inteiro, tantas são as dificuldades que o assistem sempre”. Mas não era de sua natureza abandonar um plano assim tão facilmente. Em 1766 ele escreve:
“Externei todo o meu pensamento aos mestres e criados, e falei aos meninos de uma maneira muito mais forte do que fiz jamais. Hei de matá-la ou curá-la (referindo-se à escola de Kingswood). Uma escola cristã hei de ter ou então nenhuma.”

Um júri composto de mães cristãs, encarregadas de dar sentença sobre as idéias de Wesley acerca de uma escola cristã, talvez lavrasse uma sentença que teria lhe surpreendido. A narração de Kingswood feita por Adão Clark, testemunha mui imparcial, parece muito com a narração de “Dotheboys Halls” em “Nicolau Nickeby”. Mas Wesley estava relutante em abandonar uma experiência para ele tão custosa. Mesmo em 1783, quando a escola tinha trinta e cinco anos de existência, uma resolução da Conferência Anual declara que “ou a escola há de se fechar, ou as regras hão de ser minuciosamente observadas; particularmente que os meninos nunca hão de brincar, e que o mestre sempre esteja junto com eles”.

É indubitável que a escola produziu uns bons estudantes; e possuía certa fama; e a vontade indomável de Wesley prevaleceu, a custo de grande sofrimento juvenil. Deveras a última referência que Wesley fez a Kingswood tem uma nota de exaltação. Aos 11 de setembro de 1789, ele escreve: “Fui a Kingswood. Doce repouso, onde tudo está justamente como eu quero! Passei algum tempo com os meninos, todos se portaram bem”. Mas se tivéssemos uma cópia fiel das cartas que os pobres pequeninos escreviam às suas mães, talvez descobríssemos que o “doce repouso” de Wesley tivesse, para os infelizes meninos que o habitavam, um aspecto muito diferente. A escola de Kingswood conseguiu em resultado que o seu fundador nunca contemplara. Demonstrou que ele, de vez em quando, fazia disparates tão grandes como os homens em geral. Mãe alguma pode ler a história da escola e de tudo perdoar a Wesley. Um Metodismo mais recente, e mais sábio, com gratidão recordamo-lo, tem completamente transformado a instituição. Hoje ela alcança os fins visados por Wesley sem empregar os seus métodos.
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** (Esse texto corresponde ao capítulo XVII, "As opiniões esquisitas de Wesley", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 215 a 229, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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