IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Páscoa
Rio, 10/11/2006
 

A MENSAGEM PASCAL DA IGREJA - 2ª parte

Bispo Paulo Lockmann


 

Dizíamos na primeira parte desta reflexão que, como fez através dos profetas tantas vezes na história de Israel, Deus volta a reunir os pobres, os deserdados, os excluídos, etc, na pessoa de Jesus. Restabelecendo, desse modo, na Eucaristia, o ideal de libertação. De que modo tudo isso se dá? São muitas as possibilidades de estudo e reflexão, mas gostaríamos de nos deter no estudo da Eucaristia de Lc 22:14-23.

a) Celebrar a Páscoa como Ação de Graça

"E tomando o cálice, e havendo dado graças disse: Tomai-o e reparti-o entre vós" (Lc 22:17).

A refeição de Jesus com os discípulos foi uma refeição pascal. Lucas segue de perto o ritual da celebração da Páscoa judaica. Nela o chefe da família ou grupo erguia o primeiro cálice de vinho e pronunciava a seguinte fórmula de ação de graça: "Louvado sejas Tu, Javé nosso Deus, Rei do mundo, que criaste o fruto da videira". Certamente Jesus deve ter feito o mesmo. A pergunta que se coloca é: Qual é a importância desse ato de ação de graça? Respondo: Importância vital! Aqui se recoloca corretamente a quem se deve prestar culto; a quem pertence a terra, bem como a videira e seu fruto. Estas questões carregam uma atualidade permanente.

No Egito, o Faraó ficou muito indignado pelo fato de o povo de Israel querer celebrar a um Deus desconhecido no deserto ao invés de prestar culto a ele, Faraó. Mas o motivo da indignação do Faraó tem uma base econômica também, principalmente quando sabemos ter sido os escravos israelitas, entre outros, a "mão-de-obra" barata daquele tempo. Mão-de-obra escrava colocada a serviço das grandes construções do Faraó. A reação do Faraó é típica dos que não querem perder o controle sobre o povo. Pois pretendem manter o povo como escravo ou mão-de-obra barata.

Do mesmo modo, hoje, os grandes fazendeiros ou empresas agrícolas julgam-se donos da terra. E querem ser reconhecidos pelo povo como tal. Não reconhecem e se recusam a aceitar que este povo, ao fazer a terra produzir, regando-a com seu suor, torna-se o legítimo dono do fruto que ela produz. A Bíblia mesmo afirma que a terra é de Deus (Lv 25; Sl 24:1) e que Deus a dá a todos os homens e mulheres para que nela trabalhem e dela sobrevivam.

Tem de ficar claro para nós que Ação de Graça é afirmação do senhorio de Deus. Deus que veio dar vida abundante e condições de vida a todo o povo, mesmo que para isso se coloque contra outros falsos senhores, desmascarando-lhes o falso poder e libertando o povo. São implicações que estão presentes no ato de levantar o cálice de ação de graça, a Eucaristia.

b) Eucaristia como Comunhão:

"Tomai-o e reparti-o entre vós" (Lc22:30)

Um dos elementos fundamentais na experiência da Eucaristia é o seu caráter de comunhão, onde expressões como perdão, fé, amor e justiça entres outros, adquirem um significado profundamente humano e divino. Criam-se elos profundos de compromissos entre as pessoas e misteriosamente nos tornando o Corpo de Cristo e membros um dos outros. Apoiando e sendo apoiados, tudo numa só caminhada.

Uma das características marcantes dos movimentos de restauração do verdadeiro Israel, e de sua memória histórica, era o caráter de solidariedade e compromisso radical uns com os outros: a comunhão. Isso ficou marcado, nos primeiros momentos, no movimento dos Macabeus. conforme no deuterocanônico 1Mc 2:41-43). Mais tarde, os próprios essênios, no deserto de Judá, viveram também em regime de comunhão e de repartir dos seus bens e haveres. Quando falamos na comunidade judaica de Qunran devemos mencionar que o próprio Livro da Regra da Comunidade enfatizava o caráter da comunhão e do compromisso mútuo de repartir uns com os outros. Assim todos deviam ter sempre o suficiente para a vida. Lá, o próprio trabalho tinha o caráter comunitário da mútua ajuda. Entre todos estes movimentos e grupos políticos e religiosos, a refeição pascal sempre teve um caráter solidário e de renovação do compromisso com Deus e, desse modo de uns com os outros. Era um espaço de renovação da esperança e das forças para o tempo de luta que se avizinhava. Era também superação do pecado, muitas vezes, enraizado na vida da comunidade e promotor da divisão, da falta de fraternidade e da morte.

A celebração da Ceia do Senhor era um momento decisivo, pois no contexto desses movimentos bíblicos estava presente a fé na possibilidade de que Deus voltasse a atuar com o poder e do modo como fizera no Egito, libertando-os dos novos opressores. Tal esperança é comprovada por diversos elementos. Durante a dominação romana, a guarda de Jerusalém era dobrada, tenho em vista que muitos movimentos messiânicos de libertação ocorriam durante a Páscoa, uma festa nacional. Outro exemplo é o levante de Matatias, o Macabeu, que aconteceu em função da proibição de celebrar a Páscoa, por ordem do Antíoco IV, o rei helenista da dinastia dos Selêucidas. E ainda, segundo os escritos da apocalíptica judaica, era na Páscoa que o juízo de Deus cairia sobre Edom e as nações pagãs da terra e, conseqüentemente, quando a libertação de Israel ocorreria.

Por tudo isso é que a frase de Jesus "Mas eis que a mão do que me trai, está comigo à mesa" (Lc 22:21) comprova que há uma proposta contrária à comunhão e a esperança. Sim, em meio a comunhão, presente no repartir o cálice e no repartir do pão em comum, as intenções dos corações e o propósito dos opressores são desvendados, sejam eles o Faraó, os romanos, os sacerdotes do templo, etc. Diante dos propósitos libertadores da Páscoa nada pode ficar escondido, mas tudo deve vir às claras para haver plena comunhão nessa caminhada.

A partir dessa compreensão, podemos entender a tradição da comunhão de repartir e do compromisso que se seguiu na Igreja. Ela é testificada pelo Evangelho, ao trazer projetada no relato da Ceia e na vivência a própria Igreja, ou nos Atos dos Apóstolos onde textos mencionam "... em comum", "... vendiam suas propriedades", "...repartiam com todos", "... era um só coração e uma só alma", "... todas as coisas lhes eram comuns", "... e não havia entre eles nenhum necessitado" (At 2:42-47; 4:32-34). As epístolas também dão testemunho desta prática.

Em função disso, dá para entender a indignação do Apóstolo Paulo ao saber o que se passava em Corinto (1Co 11:18-26), onde a Eucaristia perdera o seu caráter de comunhão no repartir, assumindo um estilo individualista: uns comiam demais e se embriagavam, e outros passavam fome.

Tomando por base tudo isso, diríamos que a Eucaristia não é plena onde uns comem e outros não têm o que comer. Este é o quadro que vemos em nosso Brasil. A Eucaristia tem que se tornar uma experiência plena e real na comunidade brasileira. Não é possível repartir o pão só para alguns. Isto não é comunhão, mas violência. Portanto, falar em Páscoa é falar em repartir o pão. É restituir ao trabalhador a abundância do pão que a nossa farta terra brasileira pode e tem para lhe dar. Daí a importância de que façamos do culto uma prática de fraternidade e um momento de questionamento e resistência aos que não querem repartir o Pão! Se Deus é nosso Pai, temos de ser irmãos e irmãs uns dos outros!

c) Eucaristia como Memorial: Anamnese

"E tomou o pão, tendo dado graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: Este é o meu corpo, o qual por vós é dado, fazei isto em minha memória" (Lc 22:19).

Ter na memória o conteúdo libertador dos atos de Deus na história humana é fundamental. Eles nos dão forças e se atualizam na caminhada do povo de Deus. A Eucaristia tem este claro objetivo, conforme vontade expressa de Jesus no texto que estamos analisando.

Esquecer a história só interessa aos opressores que esperam sempre tirar partido disso. Ouvindo alguns jovens estudantes alemães sobre o problema do nazismo, disseram-me que a grande tese dos nazistas de hoje é que o povo um dia vai esquecer a grande desgraça que foi o nazismo para o mundo e para os alemães. Esquecer a história e as lutas de libertação para que ela seja contada do jeito e segundo os interesses dos opressores e poderosos. Na história do Brasil, por exemplo, saltando por cima de uma página de luta de libertação popular, nossos livros didáticos e a história "oficial" reduziram categoricamente a Antônio Conselheiro, líder da resistência de Canudos, apenas como um fanático religioso. O que não é verdade. Mas com procedimentos assim se tenta aniquilar a memória dos pobres e de sua luta de libertação.

Deus libertou seu povo do Egito. Não há dúvidas sobre o que Deus pretendia com a instituição da Páscoa. Os escritores bíblicos reproduziram com relativa clareza este propósito: "... é a Páscoa de Deus. Este será um dia memorável (recordatório) para vós, e celebrareis como festa de louvor ao Senhor, de geração em geração. Decretareis que seja festa para sempre" (Ex 12:11-14). Ou ainda: "Guardai este mandamento (Páscoa) como decreto perpétuo para vós e vossos filhos. Também guardareis este ritual quando entrares na terra que vos dará o Senhor, segundo a sua promessa. E quando perguntarem os vossos filhos: que significa para vós este ritual? Respondereis: Este é o sacrifício da Páscoa de Deus que passou adiante das casas dos israelitas no Egito, quando feriu os egípcios e salvou nossas casas" (Ex 12:24-27a). Dentre as muitas expressões que evocavam a memória, sublinhamos o termo recordar.

Semelhantemente, o texto da instituição da Eucaristia de Lucas 22, inteiramente típico, sublinha com clareza no verso 19 o imperativo "fazei" e o substantivo chave "anamnesis" (memória). Com isso fica claro que estava na mente de Deus e de seu filho Jesus o desejo de que o movimento da história da salvação, a Eucaristia, fosse a nova Páscoa. E que a memória do compromisso de Jesus com os pobres, e seu conflito com os "faraós" de sua época (Herodes, os Sacerdotes, o Império Romano) fosse lembrado para sempre, com o propósito de recordar que o nosso Deus é um Deus comprometido, e que atua em justiça. Disso deu prova a sua ação no Egito, e mais tarde, sua ação através de Jesus.

É este o Deus da Bíblia! Um Deus que não só age espiritualmente como comumente entendemos, mas histórica e socialmente toma partido. E toma partido a favor do pobre, do doente, dos escravos, que são pessoas de categorias sócio-econômicas que estão regularmente em estado de opressão, ou seja, oprimidas. Deus toma partido, sim, e atua contra o rico e poderoso Faraó, contra o não menos rico e poderoso Herodes, contra os sacerdotes e contra o imperialismo romano. É este Deus e sua luta tomando partido em favor do povo pobre e simples que devemos cultivar como memória (anamnese) comprometida que deve ser lembrada na Eucaristia.

d) Eucaristia como renovação da Aliança

"Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós" (Lc 22:20).

Quando tentamos sublinhar neste texto o significado dessa expressão de Jesus em Lc 22:20 e em Paulo (1Cor 11) temos de entendendo a Eucaristia como prosseguimento da Aliança com Deus, em uma nova expressão, onde o pecado é superado, caminhando-se para uma nova ordem de justiça. A expressão Nova Aliança já é uma interpretação da própria comunidade primitiva, que sintetizando diferentes tradições organizou seu próprio calendário litúrgico e sua forma de culto. A importância de sublinhar tal fato está no sentido histórico, e conseqüente ação de Deus. A maior parte das interpretações e pregações que leio e ouço sobre o texto se voltam para o passado. O que sem dúvida é importante. Mas o sentido de uma Nova Aliança não se prende apenas ao passado, de tal forma que se lança no futuro, significando que Deus, a partir da experiência Eucarística da comunidade se dispõe sempre a recomeçar uma nova caminhada de libertação, de superação do jugo que aprisiona e que impede que a Aliança da justiça se cumpra. Pois, junto à Aliança vem um código, uma lei de justiça, a qual está expressa no Evangelho.

Sim, precisamos cada vez mais adquirir uma compreensão dinâmica da Aliança em Cristo, pois foi feita em sangue. Isso significava e significa que é para sempre. Portanto, mesmo que não estejamos lembrados, Deus se lembra sempre do sacrifício do seu Filho Jesus. Do mesmo modo lembramos os que no meio de nós, seguindo o exemplo de Jesus, foram perseguidos, presos e sacrificados na luta pela justiça. O sangue de Jesus, ao ser derramado, traça um rastro de justiça para o futuro. Dando o sinal de que a Aliança está feita e a luta continua. O importante é que Deus está conosco. "Jesus está presente", este é o grande anúncio da Nova Aliança na experiência da comunhão do corpo e do sangue de Jesus. Na experiência da comunhão do corpo e do sangue de Jesus, símbolos da Nova Aliança, a presença de Jesus é atualizada, sublinhada, acolhida e cultuada.

e) A Eucaristia como refeição que prefigura o banquete messiânico.

"Digo-vos que não a comerei mais, até que ela se cumpra no Reino de Deus"(Lc 22:16).

Finalmente, Jesus deixa claro seu desejo de voltar a celebrar a Eucaristia com todos na plenitude dos tempos, na plenitude do Reino. Este é o sentido escatológico da Eucaristia. O caráter escatológico da Eucaristia também foi anunciado antes da última Páscoa pelo próprio Jesus através da Parábola da Grande Ceia (Lc 14:15-24). Essa parábola é um eco da própria política judaica, de onde provém a imagem de um banquete messiânico. No coroamento do reinado de Deus, no seio da humanidade, na plena concretização da justiça, cumpre o banquete messiânico uma função simbólica ao estado ideal aos olhos de Deus; todos em fraternidade, repartindo o pão e assentados à mesa com Deus e seu Filho Jesus Cristo, o nosso Senhor.

Portanto, é ponto claro que a Eucaristia se prefigura e antecipa o ideal de Deus. Em Ação de Graças, reconhecemos e proclamamos que tudo pertence a Deus. Mantemos viva a memória da libertação potencialmente sempre presente. Reafirmamos a nossa fé na Nova Aliança selada no sangue de Jesus e de seus seguidores. Vivemos a comunhão do repartir do pão. E seguimos em frente fortalecidos mutuamente para a luta de anunciar e construir o Reino de Deus, onde todos possam com fartura comer o pão e viver a vida com alegria e paz.

f) Algumas implicações da Mensagem Pascal nos Sinóticos.

A Cruz é sem dúvida um elemento de perplexidade, de escândalo. Ela assume o centro da proclamação e a ceia é uma forma de explicar o mistério da cruz. A mensagem da cruz assume um lugar de sentido vital para a Cristologia da Igreja Primitiva, e porque não dizer Contemporânea. Segundo os Evangelhos, não há Jesus sem cruz, não há Igreja sem cruz. Consiste um sério equívoco quando nossa pregação enuncia apenas a ressurreição, pois não há ressurreição sem morte, e a morte de Jesus, como deixaram bem claro os Sinóticos, foi a mais rejeitada e sofrida. A Cruz é uma forma de denúncia diante de um estado imperialista como o Romano, diante de uma religião acomodada e opressora como o farisaísmo e o Templo de Jerusalém, diante de todo e qualquer pecado. A cruz de Cristo, ademais de sentido expiatória, foi profética: todos os cristãos têm uma Cruz a enfrentar e tomar. Não mais expiatória, mas profética e ministerial (Lc 9:23).

g) A morte de Jesus na Cruz

Desde a antigüidade cristã era preciso anunciar e explicar o fato da morte de Jesus numa cruz. O que representava um grande escândalo para os judeus, visto que a cruz era o sinal da dominação romana (Lc 24:20-26). Como um condenado à morte de cruz poderia ser o Messias? Não seria ele um sinal de insubmissão ao imperialismo romano? Não seria um "maldito" segundo os critérios da Lei Mosaica (Gl 3:12-13)? Portanto, como ser seguidor de um Crucificado neste mundo dominado pelo poder imperial romano e pela Lei Mosaica?

Assim, o anúncio da morte na cruz é a célula germinal de toda a narrativa evangélica, e o ponto de partida para a compreensão mais profunda do sentido da missão redentora e libertadora de Jesus (Mc 10:45). O anúncio da morte de Jesus na Cruz é o princípio da compreensão do mistério cristológico (Fl 2:6-11).

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