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Rio, 18/2/2010
 

Os críticos de Jão Wesley ** (Rev. W. H. Fitchett)

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É interessante – e deveras poder servir para corrigir a estimação excessiva de admiradores desmedidos – notar-se o aspecto de João Wesley quando contemplado através de óculos inimigos. Das biografias puramente domésticas – vidas escritas por seus próprios seguidores – não e necessário oferecer palavra alguma aqui; mas Wesley tem sido infeliz naquilo que podemos chamar seus biógrafos exteriores. É difícil traduzir em termos puramente literários uma adequada representação literária do homem e de seu trabalho.

“A Vida”, por Southey, é verdade, constitui uma peça artística que indica tanto o jeito como a aplicação. Mas existe uma brecha fatal na simpatia espiritual entre Southey e seu assunto. Ele falha por completo na interpretação do caráter de João Wesley, e descobre, num amor vulgar de poder a explicação dos surpreendentes trabalhos de Wesley! “João Wesley”, por Miss Wedgood, tem incomparavelmente mais penetração espiritual do que “A Vida”, de Southey. Se Miss Wedgood não possui penetração filosófica (teológica), a sua intenção ligeira e feminina constitui um substituto mui adequado. Mas o seu trabalho não trata adequadamente dos fatos da carreira de Wesley; não pretende ser nem história nem biografia. “O Metodismo”, de Isaac Taylor, tem ainda menos história e biografia do que a obra de Miss Wedgood; é uma mera confusão de generalizações enevoadas. “O Wesley”, do cônego Overton, possui uma agradável honestidade e franqueza; mas é um esforço de abotoar a João Wesley e todo o seu trabalho numa sobrepeliz (numa espécie de “uniforme”) anglicana. “Wesley”, por Snell, é uma monografia mui inadequada. Não possui fatos suficientes para uma biografia, nem penetração bastante para uma filosofia (teologia).

Leslie Stephen, na sua “História do Pensamento Inglês no Século Dezoito”, dá muito espaço a Wesley e a Revivificação; e ele é, em certo sentido, o crítico mais formidável, tanto do homem como do movimento. Possui um largo movimento do período, ainda que seu conhecimento tenha tantos méritos como defeitos que distinguem o conhecimento de um advogado de seu auto. É fluente, mas é superficial. E Stephen não faz esforço para ver a paisagem, e para por Wesley e seu trabalho na verdadeira perspectiva histórica; não obstante sua autoridade de crítico faz suas afirmações impressionarem o leitor medíocre.

Por motivos sérios, talvez, o Sr. Leslie Stephen pode ser impugnado de antemão, como juiz competente de Wesley e sua obra. Faltam-lhe as qualidades para aquele ofício, pela sua profunda preocupação. Isto é como se alguém empreendesse a crítica de “Princípia” de Newton e se pusesse a discutir matemática. Stephen também julga a Revivificação do século XVIII por padrões puramente literários e como uma contribuição para o que ele chama filosofia. Isto é, outrossim, como se alguém julgasse o remédio específico contra a epidemia pela cor do rótulo do frasco que o contivesse.

A seu pesar, contudo, Leslie Stephen trai-se repetidas vezes com longas e honrosas referências a Wesley e sua obra. Ao “Wesleyanismo” ele chama de “o fenômeno mais importante do século” (século XVIII). Do mesmo Wesley ele diz que nenhum outro líder de homens como ele apareceu no século XVIII; e entretanto é o século de Marlborough (famoso líder militar inglês), dos dois Pitts (os dois William Pitt, o pai que foi estadista e ministro da guerra e o filho que foi estadista e primeiro ministro inglês) de Clive (Robert Clive, comandante militar, político e estrategista inglês nascido em Styche, Shropshire, que no século XVIII transformou a Companhia das Índias na potência comercial e abriu caminho para o domínio inglês sobre a Índia durante quase 200 anos), e de Warren Hastings (político e primeiro governador da Índia, sob a dominação inglesa), de Voltaire (o filósofo), de Frederico, o Grande (Frederico II, segundo rei da Prússia, foi hábil guerreiro e grande administrador), e de George Washington (o general líder da independência dos EUA e primeiro presidente da nova nação)! É óbvio, que Stephen foi levado em grau que ele reluta em confessar a admirar Law (William Law, clérigo e escritor teológico inglês) – com sua profunda espiritualidade, sua visão clara das coisas eternas; mas julga Wesley como uma figura mais importante. “Law”, diz ele, “retirou-se do mundo; Wesley procurou submeter o mundo”.

Mas as honrosas referências de Stephen são prejudicadas pelos erros nada menos do que admiráveis em um homem tão habilitado – erros que indicam uma certa cegueira espiritual bem como intelectual. Assim, diz ele que “o admirável estado de saúde” de Wesley explica o caráter de sua religião! Seria difícil encontrar um exemplo mais frisante (significativo, exato) de inversão de causa e efeito do que este. É o mesmo que dizer que a firmeza fundamente arraigada do carvalho provém da lande (do fruto) que pende de seus ramos. À teologia de Wesley, outrossim, Stephen imputa carência de fundamento teológico – composição que mostra que Stephen não atinou com a nota principal de caráter de Wesley. Ele diz, por exemplo, que ele é arminiano (que acredita na salvação unicamente pela aceitação soberana da graça de Cristo oferecida gratuitamente, em oposição ao calvinismo, que crê na salvação unicamente por definição de Deus), não por qualquer motivo racional, mas simplesmente por instinto de guia inato de homens. Sua crença neste ponto não se baseia na autoridade da Escritura ou nos processos de filosofia (teologia), mas somente em uma penetrante compreensão de eficiência prática. É arminiano para poder pregar o arrependimento.

Um tal disfarce do sermão de Wesley sobre a “Livre Graça” parece provar que Stephen nunca o leu. Leslie Stephen, de fato trai uma inquieta consciência de que se embrenhava em águas muito fundas para a sua sondagem e manejo de assuntos que ultrapassavam as categorias de sua lógica. Ele confessa, por exemplo, que criticando os escritos de Law, era cônscio de que em certo sentido se parecia com Mefistófeles na Catedral!

O sumário do ensino de Wesley e seus auxiliares apresentado por Leslie Stephen certamente representa uma curiosa inteireza de falsa noção. Ele empreende colocar-se no lugar dos pregadores da Revivificação e diz:
“Que argumento, parecia inquirir tacitamente, induzirá um ignorante mineiro ou um pequeno negociante, numa cidade de campanha, a abandonar a bebida e as rinhas de galos? A resposta evidente era: Dizei-lhe que vai direto ao fogo do inferno para ser atormentado por toda a eternidade. Pregai-lhe essa consoladora verdade durante longo tempo e com suficiente vigor e em grande multidão de seus semelhantes e ele será impelido a um estado de excitamento que forme uma crise na sua vida. Represente-se-lhe Deus na imagem que é mais familiar a sua imaginação como um credor severo que não escusa um vintém da dívida, e Cristo como o benfeitor que voluntariamente se ofereceu para liquidar a dívida. A doutrina pode não ser muito refinada ou filosófica, mas é suficientemente análoga às vagas crenças, implantadas na sua mente pela tradição, para dar um ponto de apoio ao vosso apelo” (History of European Thought, Vol. II, pág. 421)

Entretanto quase rodas as sentenças no “Apelo aos homens de Razão e de religião”, escrito por Wesley, refutam esse dito burlesco (cômico, falso) do ensino da grande Revivificação (movimento de avivamento e despertamento religioso provocado pelo metodismo no cristianismo inglês no século XVIII). Basta-nos por de lado do disfarce de Stephen a própria afirmação da teologia de Wesley que ele e seus auxiliares ensinaram para se ver isso.

“Vemos por todos os lados, escreveu João Wesley, ou homens sem religião alguma ou homens com uma religião formal e sem vida. Aflige-nos esta visão e nos regozijaríamos grandemente, se por qualquer meio pudéssemos convencer alguns, que há uma religião melhor a se alcançar, uma religião digna de Deus que a deu. E esta percebemos não ser outra senão o amor; o amor de Deus e da humanidade, amando a Deus com todo o nosso coração, e alma, e força, por nos ter amado primeiro como a fonte de todo o bem que temos recebido e de todo o bem que ainda esperamos receber, e amando a cada alma que Deus fez, todo o homem sobre a terra, como a nossa própria alma.”
“Este amor cremos ser o remédio da vida, o remédio eficaz, para todos os males de um mundo desnorteado, para todas as misérias e vícios dos homens. Onde quer que haja esse amor, ali há virtude e felicidade andando de mãos dadas. Ali há humanidade, mansidão, longanimidade, a completa imagem de Deus e, ao mesmo tempo, uma paz que ultrapassa todo o entendimento, e gozo inefável e cheio de glória.”

“Eternal sunshine of the spotless mind;
Each prayer accepted, and each wish resigned;
Desires composed, affections ever even,
Tears that delight, and sighs that watt to heaven.”

Ou seja:

“Brilho eterno da mente imaculada;
toda a oração aceita, e todo o desejo satisfeito;
aspirações formadas, afeições imitáveis,
lágrimas que deleitam e suspiros que voam ao céu”.

“Esta religião, continua Wesley, desejamos ver estabelecida no mundo, uma religião de amor, de gozo, de paz, tendo seu assento no coração, no mais íntimo da alma, mas sempre em evidencia, por seus frutos abundantes não só em toda a inocência (porque o amor não produz o mal a seu vizinho), mas também em toda a beneficência, espalhando virtude e felicidade por todo o seu redor”.
“Declaramo-lo a toda a humanidade: porque não desejamos que outros se desviem do caminho, como temos feito antes deles, mas antes que lhes aproveite a nossa perda, que possam seguir – embora não a nós, por não termos então quem nos guiasse – o caminho direto a religião do amor, a saber, pela fé.”
( "Apelo aos homens de Razão e de religião", pág. 1 e 2 )

Estas sentenças são suficientes para provar que olhando para o ensino da Revivificação por meio de que Leslie Stephen dela conta, é como contemplar uma paisagem através de um pedaço de vidro esfumaçado. Assim é como Leslie Stephen, em terreno filosófico (teológico), empreende explicar o Metodismo e predizer o seu fracasso.

“A verdadeira explicação se encontra no crescimento de uma grande população fora da enferrujada máquina eclesiástica (fora da Igreja Anglicana, a igreja oficial da Grã-Bretanha). O refugo assim excluído se inflamou por combustão espontânea. As grandes massas de ignorantes e desprezados herdaram a tradição da velha teologia. Enquanto se multiplicavam e desenvolviam, a necessidade de algum modo de satisfazer os instintos religiosos tornou-se mais imperiosa; e, enquanto os versos cépticos (descrentes) na tinha a dizer, e o clero oficial (anglicano) podia dizer só pouca cousa em que nem ele cria, Wesley ressuscitando o velho credo deu o impulso necessário. Sua falta de qualquer conexão com aquele movimento especulativo não podia sufocá-lo, mas condenou-o a esterilidade. Wesleyanismo no século XVIII representa calor sem luz – um cego protesto das multidões e um vago anelar por alguma satisfação do instinto que termina somente no recrudescimento de idéias obsoletas” (History of European Thought, Vol II pág. 424 )

Como ma interpretação científica do grande fenômeno histórico, esta explicação dada por Stephen nada mais é que pueril. O movimento que, tomando de empréstimo as palavras de um dos melhores historiadores ingleses, “reformou nossas prisões, aboliu o tráfico de escravos, ensinou clemência às nossas leis penais, deu o primeiro impulso à nossa educação popular,” não é, quando traduzido em termos da filosofia de Leslie Stephen nada mais do que uma certa “acumulação de refugo humano” acidental a se inflamar por uma combustão espontânea. Isso é como quem procurasse explicar o aparecimento de algum grande cometa no firmamento do oriente com a queima de um monte de esterco.

Um tal tresler (leitura feita às avessas, engano, tolice) de claro inglês, da parte de um crítico tão hábil, e de propósito tão honesto, nada mais é do que curiosidade literária. Mas como pode um homem, sem fé espiritual, entender ou interpretar um movimento tão intensamente espiritual como o de que Wesley é símbolo? As asserções cépticas (incrédulas) de Leslie Stephen parece trazerem consigo uma espécie de paralisia das faculdades de crítica.

Stephen, por exemplo, empreende descrever e avaliar o grande tratado de Wesley sobre o “Pecado Original”. João Wesley aqui não trata de uma abstração teológica – um enigma de lógica, um problema de filosofia. Ele discute o grande fato central da história humana – a existência do mal moral; um fato cujo testemunho jaz fundo na consciência humana, e cuja memória está escrita em cada página da história do mundo. Leslie Stephen só descobre no tratado uma enfadonha disputa de textos com pouca referência às razões filosóficas (teológicas) mais profundas do problema.

A Bíblia, porém, sob qualquer variante de seu caráter, é o grande compêndio espiritual da raça humana. Nenhum outro livro penetra tão profundamente no próprio coração do grande mistério da vida humana – a existência do mal. Mas Leslie Stephen assume de antemão a posição que a Bíblia sobre este assunto está fora do tribunal. Qualquer referência a ela pode ser desfeita como “uma enfadonha disputa sobre textos”. O problema, para Stephen, é puramente filosófico, e só é capaz de ser tratado por filósofos; e filósofos cuja qualidade principal jaz no fato que rejeitam a Bíblia. Os teólogos não merecem sequer serem ouvidos numa tal causa. Isso é como quem contendesse que qualquer referência ao Almanaque Náutico em questões de navegação é uma impertinência!

O defeito de uma tal crítica a Wesley e a Revivificação (movimento de avivamento e despertamento religioso provocado pelo metodismo no cristianismo inglês no século XVIII) se encontra na presunção tácita de que o intelecto, na única forma digna de respeito, deve estar sempre do lado do ceticismo. Stephen descreve, por exemplo, a atitude para com o Cristianismo que, em geral, a mente humana tomou no século XVIII.
“O intelectual, diz ele, tornou-se cético com Hume (David Hume, historiador e filósofo escocês, um dos fundadores do empirismo moderno, tendo influência sobre Kant, a filosofia analítica e a fenomenologia); o imaginativo tomou-se místico com William Law (escritor teológico); enquanto aqueles em quem o sentimento moral e a percepção aguda dos fatos da vida eram mais fortemente desenvolvidos, simpatizavam-se com João Wesley. Mas os dois últimos grupos foram silenciosamente desligados do reino “intelectual” e a autoridade do “intelecto” foi abandonada aos céticos.”

Fundamentando toda a crítica de Leslie Stephen sobre a Revivificação, e viciando-a, está a presunção notável por uma arrogância tão completa que se torna inconsciente de si mesmo, essa literatura é mais do que religião e mais nobre; que o intelecto é mais elevado do que a consciência; que escrever um livro é maior título à fama humana do que reformar uma nação; que o que não pode ser expresso em termos literários e avaliado por provas literárias não tem título à memória perdurável.

Fletcher de Maddley e homens do seu caráter devem merecer “compaixão” porque discutindo assuntos que lhes parecem de importância – tais assuntos como pecado e seu remédio, a alma de sua relação para com Deus, a vida e a morte e o seu juízo vindouro – carecem de qualquer sistema de filosofia (teologia). São inconscientes realmente, que necessitam de “uma filosofia” – assim são despedidos como pertencendo a meras “correntes marginais do pensamento do mundo”; enquanto Rousseau, Voltaire, Gibbon e Hume pertencem a corrente central do pensamento europeu. O sistema de João Wesley assegura-nos, está pré-determinado à esterilidade, “porque não tem base filosófica”.

Não obstante, Stephem admite que João Wesley “fundou uma corporação que, oitenta anos depois da sua morte podia jactar-se de possuir doze milhões de aderentes (membros), e cuja reação sobre outras agremiações é de tão grande importância como de sua influência direta”.

E que filósofo podemos perguntar, já conseguiu tal milagre? Agora, pois, se Wesley somente gastasse a sua vida, e empregasse sua notável habilidade, tecendo alguma tela brilhante de filosofia, ele poderia ter achado um lugar ao lado de Hume ou Gibbon ou Voltaire? Em vez de divagar em regiões tão elevadas, Wesley conservou-se na terra comum. Seu alvo, como Leslie Stephen o afirma, era “eliminar o vício, reprimir a embriaguês e a devassidão, mostrar aos homens o reto caminho aos céus e forçá-los para ele com ameaças e promessas inteligíveis”. “Ele difere”, Stephen continua explicando, “dos moralistas ordinários pela firme convicção de que uma mera coleção de bons preceitos nunca poderia mudar as vidas dos homens sem apelo aos seus sentimentos e imaginação”.

O próprio Wesley teria podido aceitar o asserto (afirmativa) que o seu fim era “eliminar o vício” e “mostrar aos homens o reto caminho aos céus”; mas teria protestado com veemência contra a declaração que ele não achou a energia que devia limpar a vida humana em qualquer apelo ao mero sentimento e imaginação dos seus ouvintes. Ele achou sua força salutar em um reino muito diverso; mas energias espirituais que emanam da cruz de Jesus Cristo, e no ofício salvador do Espírito Santo. E operando com essas forças sublimes ele eliminou o vício do meio de vastas multidões. Ele fez isso durante mais do que cinqüenta anos; ele o fez em medida sem precedente na história inglesa, e fê-lo de maneira tão perdurável que hoje grandes igrejas se erguem por toda a parte onde se fala inglês, como o seu nome. Hume e Gibbon realizaram esta tarefa ou tarefa semelhante?

Toda esta crítica acerca de Wesley e seu trabalho, como quase toda outra explicação literária do homem e seu movimento até aqui empreendida, é extremamente viciada por falsos cálculos de valores sobre os quais se baseia. As maiores forças da vida humana, contudo não são teorias filosóficas, mas impulsos morais. E padrão supremo para os homens e teorias não é intelectual, mas moral.

Qual era a figura mais nobre – a figura que representa a corrente central do pensamento europeu – Roberto Raikes, o banqueiro (jornalista) de Gloucester, que inventou as escolas dominicais (no final do século XX descobriu-se que a jovem Hanna Baal 17 anos antes de Raikes já havia organizado escolas dominicais), ou Rousseau, caminhando furtivamente nas ruas de Paris para deixar cair o seu quinto filho ilegítimo na roda dos expostos e um asilo de órfãos (orfanato) e depois voltando apressadamente para juntar um novo parágrafo ao seu “Contrato Social”?

É impossível colocar lado a lado caracteres tão opostos, homens que eram contemporâneos do século XVIII: Hume tecendo argumentos metafísicos para provar a impossibilidade dos milagres, e Silas Told, o amigo dos prisioneiros, então operando milagres nos cárceres de New-Gate. Gibbson escrevendo aqueles capítulos famosos em sua grande história para a destruição da fé cristã, e William Law, o tutor de Gibbson, fazendo o cristianismo crível segundo o próprio testemunho de Gibbson, por sua vida. Rousseau escrevendo discursos sentimentais e deixando no abandono seus próprios filhos, e Howard, empregando sua vida em visitar prisões da Europa e dando à humanidade uma nova autoridade sobre a consciência de raça com seu exemplo.

Estes são personagens em oposição pitoresca e recíproca; e a literatura reserva suas mais elevadas honras para um grupo – para Hume e Gibbson, para Voltaire e Rousseau! Leslie Stephen declara que eles e unicamente eles “pertencem à corrente central do pensamento europeu”.

Mas este juízo baseia-se, devemos repeti-lo, sobre falso cálculo de valores. A vida é mais do que especulação; a moralidade é maior do que a literatura. Salvar um ébrio do seu vício, fazer uma meretriz uma mulher casta, mudar um espancador de sua esposa em homem gentil, um ladrão em homem honesto, limpar as vielas de uma cidade, enxugar as lágrimas de uma viúva, proteger o desamparo de uma criança, isso não é meramente uma contribuição para a vida do mundo, é melhor do que escrever o mais engenhoso tratado filosófico, ou ensinar as palavras a correrem em ritmo de estrofes de um grande poema. Representa uma ordem mais elevada de forças.

O juízo humano para ser absolutamente verdadeiro deve refletir o juízo divino. Pensar como Deus pensa, amar os pecadores como Ele ama, odiar o pecado como Ele odeia, julgar todas as coisas por seu Juízo – este é o último e mais elevado esforço da sabedoria humana. E medindo por este grande padrão quem se ergue mais alto: Hume ou Wesley, Gibbon ou Law, Rousseau ou Fletcher?

Leslie Stephen e os de sua escola votam com os filósofos, mas a consciência humana vem se colocar ao lado dos santos! E a melhor inteligência humana, logo que venha a acordo com a consciência estará do seu lado (dos misericordiosos) também!
É interessante imaginar como João Wesley teria procedido se vivesse na agitação e compulsão do século XX. A sua teoria da vida e da religião resistiria ao desafio dos problemas modernos? Como a crítica (bíblica)(moderna) que resolve (explica, analisa) a Bíblia em mitos sem data e nem autor, o teria afetado? Como Wesley encararia, por assim dizer, a Bíblia “arco-íris”? Como procederia com todas as descrenças novas e fermentadoras, pão da ciência ou semi-ciência? A biologia que une o homem ao macaco (teoria da evolução de Darwin) teria abalado a sua fé? E a astronomia que reduz o sistema solar a um mero ponto na desmedida profundeza do universo e vê a terra como uma mancha insignificante naqueles assombrosos espaços? Como teria procedido com a tendência secular da época presente: a tendência que se preocupa muito com este mundo (pragmatismo, materialismo) e deixa o outro (o Reino de Deus) fora de sua aritmética?

É supérfluo dizer que isso não tem valor. Wesley no século XX teria sido um homem diferente do Wesley do século XVIII. Apodera-se de Leslie Stephen uma espécie de admiração irritada diante da indiferença de Wesley pelo que ele considerava como um ataque vitorioso de Hume e Gibbson à fé cristã. Não obstante serem estes homens contemporâneos de Wesley, lastima Leslie, “é tão indiferente às dúvidas expressas por Hume como se os dois homens tivessem vivido em diferentes hemisférios ou séculos”. Talvez a explicação se ache no fato, que Wesley viveu numa esfera onde estas dúvidas não eram correntes. Teria talvez concordado com a resposta triunfante de De Quincey (Thomas de Quincey, escritor inglês) a Hume; mas ele tinha uma resposta ainda melhor do que esta. A lógica destinada para provar milagres não podia realizar ¬ou, ao menos, não podia ser provado, se realizou - era uma aspiração vã para um homem que tinha visto milagres de ordem superior – milagres espirituais isto é, realizando-se diariamente.

E pode-se dizer com confiança que Wesley teria permanecido inabalável mesmo diante da descrença mais estrênua (forte, corajosa) e altissonante (estrondosa, pomposa) de hoje. O mais amplo conhecimento do século XX poderia ter alterado o acento do seu ensino, mas não a sua substância. Podia ter variado a forma de seu trabalho; não teria, porém, mudado seu desígnio nem diminuído sua energia. Ele teria retrocedido sobre a certeza triunfante de sua própria experiência. Ele apegar-se-ia firme à sua crença na validade do fenômeno espiritual, a veracidade da consciência espiritual. A lógica triunfante dos resultados verificados do cristianismo teria sido para Wesley no século XX – como foi para ele no século XVIII – a rocha sobre a qual• se firmava. Wesley teria dito que “Deus não é um problema que demanda solução; Ele é uma pessoa que deve ser conhecida”. Wesley diria o mesmo que disse Tennyson no belo verso seguinte:

“Closer is He than breathing, nearer than hands and feet”.
(Está mais próximo do que a respiração e mais perto do que mãos e pés.)

Ele teria afirmado que o Espírito responde ao nosso espírito; o vivo Espírito de Deus ao espírito crente do homem.

E Wesley até no meio do tumulto e pó da vida hodierna, teria conservado uma visão clara da perspectiva eterna da vida e do dever, que era seu característico. O dever é mais urgente do que a especulação. Não seremos julgados pelo que conhecemos, mas pelo que fizemos.

A religião tem mil problemas a resolver, eles continuarão a exigir solução, talvez, por mais dez mil anos e em outros mundos. Ma o dever é um dos pontos luminosos da vida humana. Há coisas que estão próximas e são urgentes e sagradas; coisas que não admitem debate – a expressa lei da obediência de submissão a Deus, de fé em Cristo, de serviço ao nosso próximo. O Cristianismo, diria Wesley, é a libertação realizada e sobrenatural, recebida pela fé; e, quanto a realidade do mesmo, nosso conhecimento íntimo e mais profundo pode julgar. A Bíblia não é um “velho almanaque”, no qual a principal coisa é a exatidão das datas (a exatidão histórica). Os críticos, a seus olhos penetrantes e honestos, teriam parecido quais homens demasiadamente ocupados na discussão da forma do vaso que contém a viva água da verdade, e do barro de que é composto, e esquecendo o precioso conteúdo por falta do qual o mundo perece.

A Bíblia, Wesley diria, qualquer que seja a teoria é uma revelação divina; uma lei de conduta, um roteiro pelo qual navegaremos. Não é um enigma a solver (resolver, explicar), mas um sistema de preceitos a obedecer. E Wesley teria hoje, induzido multidões atentas, com acentos (ênfases) tão urgentes e convincentes como o fez no século XVIII a aceitar a mensagem do livro divino, e a formar (conformar, formatar, viver) a vida por suas leis. Em uma palavra, os princípios que João Wesley cria e pelos quais vivia e trabalhava no século XVIII seriam para ele, igualmente eficazes se tivessem sido transferidos repentinamente ao século XX.
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** (Esse texto corresponde ao capítulo XX, "Os críticos de João Wesley", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 240 a 263, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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