IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 18/2/2010
 

Continuidade do Impulso Espiritual - o metodismo que sobrevive ŕ morte de Wesley, aos cismas e ao tempo ** (Rev. W. H. Fitchett)

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É possível hoje (final do século XIX quando esse texto é escrito), como nunca foi no passado, colocar o Metodismo na perspectiva da história; analisar e determiná-lo; descobrir os característicos essenciais e imperecíveis nos quais jaz o segredo do seu crescimento. E no atual esclarecimento dos eventos pode se achar uma resposta à pergunta: Que propósito divino havia, e há, na Igreja que Wesley fundou?

Há uma tentação em definir o Metodismo por meio de negativas. Não era, como o grande movimento que traz o nome de Lutero, uma reforma teológica, um redescobrimento de doutrina. Não era, como a reforma inglesa no tempo de Henrique VIII, um movimento político. Não era, como a reforma escocesa uma disputa de teorias eclesiásticas. Mas não há uma definição adequada numa série de negativas, por mais extensa que seja.

Por outro lado é comum tomar algum característico especial do Metodismo e oferecê-lo como uma explicação do todo. O Metodismo apresenta a interpretação evangélica do Cristianismo em oposição à sacerdotal (clericalista, ritualista, etc). Que ele prega a lição concreta de teologia em oposição à metafísica, é uma verdade irmã. Um credo expresso em proposições metafísicas é uma cousa; um credo traduzido em termos de conduta, verificado na consciência, uma força modelando a conversação, o temperamento e a vida é cousa mui diversa. “Experiência” ocupa um grande espaço na terminologia e literatura do Metodismo; e a experiência no sentido Metodista significa doutrina traduzida em termos da vida humana (que pode ser experimentada na vida, e não apenas uma teoria).

O Metodismo, costuma-se dizer, advoga fatos espirituais contra formas externas em assuntos eclesiásticos; e isso é a pura verdade. Variedades de ordens (denominações eclesiásticas) de Igrejas – Episcopal, Presbiteriana – pertencem à categoria de valores secundários.

O Metodismo, realmente, floresce tão bem com Bispos como sem eles. A noção que a graça infinita e misericordiosa de Cristo só pode correr (fluir, se dar) através de um encanamento eclesiástico de uma única ordem (apenas através de uma denominação eclesiástica ou outra) é para o Metodismo algo repugnante. Se alguém convidasse o mundo a crer que o sol brilha sobre flores de um só matiz, a resposta não seria simplesmente que uma tal teoria está em conflito com toda a ciência botânica. Pois cada jardim de cabana seria sua refutação, cada espaço de erva florida o desmentiria. E a teoria que a graça de Deus é limitada a uma única variedade de forma eclesiástica não somente está em conflito com o gênio essencial do cristianismo; é desmentido pelos fatos visíveis do mundo.

O Metodismo, também advoga o gênio imperial contra o paroquial no trabalho da igreja. O mundo é minha paróquia foi a frase imortal de Wesley; invertendo a regra comum em virtude da qual a “paróquia” tornou-se o mundo (quando então não se enxerga nada nem ninguém além das fronteiras da paróquia). A tradição que George Whitefield e João Wesley criaram quando desceram do púlpito para tomarem as encostas do monte e a rua, e começaram a pregação ao ar livre é sua herança. Apóia o espírito agressivo (missionário) contra o puramente apologético e defensivo no trabalho cristão. É construído sobre a teoria do ofício atual e o poder do Espírito Santo em oposição ao meramente histórico. Crê, como já dissemos, que o pentecostes não foi uma porção particular de horas, em uma cidade Oriental, há dois mil anos passados. Pentecostes jaz ao nosso redor! Vivemos nele, o seu vento assopra sobre nós. As línguas de fogo desapareceram (ou foram transformadas em novos sinais), mas as energias espirituais das quais eram símbolo são a herança da Igreja de hoje.

A crença inconfessa – talvez inconsciente – ¬mas certamente prática, de uma porção do cristianismo, é que o Espírito Santo desceu sobre a Igreja uma vez, e formou sua história, mas em um dado tempo o espírito Divino emigrou; e a Igreja de hoje ficou sem a imediata direção Divina. De modo que a Igreja só pode determinar qual é a vontade do grande Agente (do Espírito Santo de Deus), na redenção humana, por meio de penosa investigação dos poeirentos anais dos séculos distantes!

O Metodismo, pode se acrescentar, assume a teoria da família na relação para com a Igreja. A sociedade desta é formada sobre comunhão de linguagem e experiência sobre associação vital e expressa de todas as grandes forças da vida espiritual.

Mas todas essas definições são parciais. Exprimem aspectos particulares do Metodismo, não seu característico central e unificador. Metodismo é antes de tudo a reafirmação do elemento espiritual do cristianismo. É a reemersão (recuperação, reintrodução) na história, e na consciência humana das grandes forças espirituais que são os característicos vitais e essenciais do Cristianismo. O nome, o mecanismo, a crença característica, os vínculos domésticos, os ideais práticos do Metodismo, podem existir, mas não são em si Metodismo. São simples canais pelos quais, se realmente têm algum valor, deve correr o impulso vivificante e sobrenatural, a onda da energia espiritual que foi o característico essencial do trabalho de João Wesley.

E a feição mais impressionante desse trabalho que o diferencia de tantas outras Revivificações (movimentos de avivamentos religiosos do cristianismo) históricas, é em um sentido especial, o próprio selo (sinal, marca, unção) divino sobre ele – é a ininterrupta continuidade do impulso espiritual que corre através de sua história.

Lutero disse uma vez que nenhuma Revivificação podia perdurar por mais de trinta anos. Isaac Taylor prolonga o tempo a cinqüenta anos. E devemos confessar francamente que o tempo é um crítico despiedoso (sem piedade) até dos movimentos religiosos. Sua força paralisante é visível no reino espiritual. Uma grande Revivificação está usualmente ligada a um personagem proeminente, como por exemplo, a de Jonathas Edwards ou a de Thomaz Finney na América, a de Erskines ou McCheyne na Escócia, a de Whitefield na Inglaterra, de Dwgyt L. Mood em tempos mais recentes, etc... A Revifivicação termina com a vida individual (quando o seu líder morre); muitas vezes ainda, antes dela. É uma onda que se gasta dentro de uma pequena área definida de tempo. Raras vezes sobrevive a duração de uma geração. Um grande Revivificador, como um grande estadista, facilmente passa a ser uma força esgotada.

Mas a feição que separa o trabalho de João Wesley do de outras Revivificações é a firme energia da força espiritual que o acompanha. Esta continuidade do impulso espiritual corre por toda a vida de Wesley. Sua mensagem conservou até o fim seu poder de atrair e dominar (envolver) as multidões. A corrente de conversões sob sua pregação nunca cessou de correr. E o movimento que começou com Wesley não morreu com ele. Sobreviveu à sua morte. O que é mais admirável, sobreviveu às disputas eclesiásticas que irromperam entre seus seguidores depois de sua morte. Um cento de erros (muitos erros) temporários, no governo (da Igreja), não o destruíram. Ele persistia apesar de uma meia dúzia de dissidências. Correu um século inteiro (até a data em que o presente texto é escrito por Fitchett) sem desfalecimento ou fracasso. Arde com chama inextinguível sob todos os céus.

O Metodismo, pode-se afirmar, quando posto à luz da história, satisfaz as sete famosas provas de Newman, da realidade de uma igreja, a saber, preservação do tipo, continuidade do princípio, poder de assimilação, seqüência lógica, antecipação do futuro, ação conservadora sobre o passado, e – de todas a mais triunfante – imorredoura vitalidade.

Ninguém pode avaliar o prodígio desta energia intensa da vida, se não se lembrar quão interrompido, quão amargurado, com disputas eclesiásticas foi – durante largo espaço ao menos – a história do Metodismo desde a morte de seu fundador. Segundo todas as analogias da história do Metodismo, quando Wesley morreu era de se esperar que ele se fragmentasse em grupos disputantes e expirasse em uma teia de cismas. As disputas vieram céleres e densas. Aconteceu uma divisão sete anos depois da morte de João Wesley; três nos primeiros vinte e cinco anos após a sua morte; e uma quarta um pouco, mais tarde, a mais trágica de todas. As disputas de 1847-1850 custaram à Igreja mãe em cinco tristes anos, mais membros do que Wesley ganhou em cinqüenta anos. E a divisão do Metodismo, falando em geral, tinha menos justificação razoável do que qualquer outra que se encontra na história da Igreja de Cristo. Nenhuma delas representa um protesto contra erros doutrinais, ou luta pela liberdade espiritual. A melhor maneira de reconhecer quão desnecessária eram as divisões do Metodismo, quão microscópicas eram as questões que lhes deram origem, é considerar o aspecto que apresentavam aos estranhos. Qualquer enciclopédia digna de crédito que procura exprimir em linguagem clara qual a exata diferença entre um Metodista do movimento de Wesley e (os sismáticos) um Metodista Primitivo, um Cristão Bíblico ou um Metodista Unido Livre, etc., acha-se simplesmente falido. Uma das melhores enciclopédias inglesas, por exemplo, depois de um acurado estudo da história e característicos da Igreja Cristã Bíblica, diz que “a principal diferença” entre ela e suas irmãs Metodistas “parece ser que os cristãos bíblicos assentam-se quando tomam a Ceia do Senhor”.

Resolver a diferença entre uma variedade do Metodismo e outra, pelo intervalo (pela questão) entre uma cadeira e uma almofada (genuflexório) é certamente muito cruel!

Um historiador não adverso, J. R. Green, admira-se desta desastrada fertilidade em divisões que marca um estado da história Metodista, e oferece como explicação a afirmação que de todas as Igrejas Protestantes, o Metodismo é a mais rígida em sua organização, a mais despótica em seu governo. Mas essa afirmação, se algum dia foi verdadeira, não contínua a ser.

Algumas divisões eram sem dúvida inevitáveis na história Metodista, porque quando Wesley morreu, nenhum equilíbrio verdadeiro entre as forças e tendências, dentro de seus limites foi conseguido. Uma instituição que sentia desde o seu nascimento, e por ¬tantos, a pressão de uma única mão hábil, dificilmente poderia desenvolver, em um momento, as virtudes tanto de flexibilidade como estabilidade equilibrada. O Metodismo também foi afetado nos seus primeiros anos pelo gênio (caráter) da política secular externa. A revolução francesa, quando Wesley jazia moribundo, começava a sacudir como o abalo de um terremoto lançando quase em ruínas todas as formas de sociedade humana secular ou religiosa. A influência do grande movimento predispôs os homens por quase uma geração, tanto para exigir com império (autoridade, determinação) mudanças como para recusá-las com veemência.

Mas, qualquer que seja a explicação da grande e rápida ruptura que dividiu a Igreja de Wesley, e fez parecer um planeta explodido, voando em fragmentos pelos céus eclesiásticos, podia se predizer com a maior confiança que estas divisões paralisariam todo o crescimento espiritual. Notável circunstância é que isto não se deu! O impulso espiritual do Metodismo sobreviveu a todo o seu cisma (divisões). Ele caracterizou em um sentido ou outro cada fragmento separado. A amplidão do mar não o matou; o meio social e geográfico não o paralisou. O Metodismo atravessou todos os mares do planeta e lançou raízes em todos os solos. Variaram seu nome, suas formas, seus métodos; mas sob todas as suas formas conservou-se mui leal ao ideal de sua origem. E por toda a parte distingue-se por essa mesma estranha continuidade do impulso espiritual.

Só nos resta colocar lado a lado as estatísticas do Metodismo em 1791, quando Wesley morreu com as de 1891, um século mais tarde, para reconhecer isso. Mas ao presente escritor pode-se perdoar por oferecer outra prova e mais próxima da vitalidade inextinguível do Metodismo. Pertence ao ramo australiano da Igreja de Wesley, um ramo que nem se quer existia quando Wesley morreu. Está separada do próprio Wesley por mais de um século (tempo calculado quando este texto foi escrito no final do século XIX) e da Igreja mãe (a igreja na Inglaterra) por doze mil milhas de Oceano. A população total da Austrália (no final do século XVIII quando esse texto é escrito) é menor do que a população de Londres. É somente um punhado de povo espalhado pelo continente.

E, entretanto este ramo do Metodismo contemporâneo, separado tanto no tempo como no espaço, tanto do seu fundador como a igreja mãe, há ali, em certo sentido, um Metodismo mais dilatado do que o mundo inteiro conhecia quando Wesley morreu. Os membros da reunião de classes australianas hoje excedem (equivalem, correspondem) em trinta por cento, o total dos membros na Grã-bretanha e Irlanda de 1791. Havia somente 287 pregadores Metodistas na Grã-Bretanha quando Wesley morreu. Somente 511 em todo o mundo. Há mais de 700 ministros Metodistas somente na Austrália hoje (final do século XIX).

Algarismos semelhantes poder-se-iam citar do Canadá e dos Estados Unidos; eles provam certamente a inexaurível vida do Metodismo. O pulso dessa vida bate em novas terras, em novos séculos, e entre novas nações. Apesar de mil imperfeições humanas e erros e disputas, a história Metodista, desde a morte de João Wesley, é somente a tradução em fato histórico e visível do (significado) seu murmúrio moribundo e triunfante. “O melhor de tudo é que Deus está conosco!”
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** (Esse texto corresponde ao Epílogo do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 264 a 270, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.


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