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Páscoa
Rio, 26/3/2010
 

A ressurreição de Jesus - lição especial da Escola Dominical para o Domingo da Páscoa

João Wesley Dornellas


1 - Textos Bíblicos:

Romanos 4.24 a 5.4
“mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação. Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivermos igualmente acesso, pela fé, a essa graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; a perseverança, experiência; e a experiência esperança”.

2 Timóteo 2.8
“Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos”.


2 - Leituras Adicionais

Vale a pena consultar as narrativas dos evangelistas a respeito da ressurreição de Jesus (Mateus 28.1-10, Marcos 16.1-8, Lucas 24.1-12) e João 20.1-10), Isaías 52.4-7, Romanos 5.1-21 e 6.1-14.


3 - crucificação e a morte de Jesus

Aquela semana foi a mais trágica da história. Depois de ter entrado triunfalmente em Jerusalém, montado num jumentinho, Jesus viveu dias de angústia e de dor. Indo ao templo, teve que purificá-lo dos vendilhões, aos quais ele condenou com veemência acusando-os de estarem transformando o templo num covil de salteadores.

Ao mesmo tempo os principais dos sacerdotes, Anás e Caifás, seguidos por outros membros do supremo tribunal judeu, o Sinédrio, tentavam por todos os modos condenar Jesus à morte, acusando-o de muitas coisas que, no seu entender, desrespeitavam as tradições e as próprias leis dos judeus. Depois de reunir-se com seus discípulos no cenáculo, Jesus lavou-lhes os pés e reuniu-os em torno da mesa para a refeição pascal. Nela, ele revelou que estava sendo traído e anunciou, uma vez mais, a própria morte. Foram momentos de muita angústia não só para Jesus como para todos os discípulos. Finalmente, entregue por Judas, foi preso. O Sinédrio não tinha poderes para condenar Jesus à morte. Os romanos reservaram para si próprios a pena capital. Para conseguir o respaldo das autoridades romanas, Pilatos e Herodes, acusaram-no de querer ser o rei dos judeus.

Em idas e vindas ao Sinédrio, a Pilatos e a Herodes, o julgamento de Jesus acabou sendo resolvido pelo povo insuflado pelos sacerdotes. Bem que Pilatos estava tentando, talvez por inspiração de sua mulher Cláudia Prócula ou mesmo pelo temor de uma insurreição popular, isentar Jesus. Sua últimas saída acabou se tornando trágica, nada ocorrendo como planejara, isto é, ao tentar dar ao povo o poder de decidir, ele achava que Jesus seria preferido para ser libertado em lugar de Barrabás, um assassino. Pilatos não podia nem de longe imaginar o poder de convencimento dos sacerdotes nem compreender o ódio que eles sentiam por Jesus. O povo escolheu Barrabás para ser salvo e, como consequência , Jesus foi condenado à morte na cruz. Morto, foi sepultado num túmulo de propriedade de José de Armatéia.

Como prometera diversas vezes, ao terceiro dia ressuscitou. Na madrugada do primeiro dia da semana, mulheres piedosas que estavam sempre ao lado de Jesus puderam certificar-se, conforme os relatos dos quatro evangelistas, de que Jesus vencera a morte. Depois, ele se encontra com os seus discípulos e lhes dá as últimas recomendações.

4 - É preciso ir além do fato histórico

Não se pode relembrar os acontecimentos daquela semana que levaram à condenação e crucificação de Jesus de maneira convencional. Há um antigo hino (HE 141) cuja letra nos diz “enquanto, ó Salvador, teu livro ler, meus olhos vem abrir, pois quero ver, além da mera letra, o que, Senhor, nos revelaste em teu imenso amor”. Muita gente ao ler a Escritura não percebe bem quem é que, na realidade, estava sendo julgado naquela oportunidade. Há um relato histórico, muito bem acompanhado pelos evangelistas, embora algumas partes das narrativas não sejam muito claras e, até, em certos pontos, meio contraditórias. A “leitura” além da letra dos acontecimentos, no entanto, passa certamente por tudo o que está nas páginas da Bíblia, tanto do Antigo, especialmente no livro de Isaías, como em todo o Novo Testamento, principalmente nas cartas paulinas.

O mistério da encarnação desabrocha no mistério da sexta feira santa e da Páscoa. Precisamos vê-las conjuntamente. Há duas idéias que não podem ser dissociadas. Os protestantes e católicos acabam dando muita ênfase na teologia da cruz: “foi entregue por nossas transgressões”. Os ortodoxos, por sua vez, enfatizam mais a teologia da glorificação: “ressuscitou para nossa justificação”. Ambas as ênfases, que devem ser entendidas juntas, estão baseadas em Romanos 4.25: “(Jesus) o qual foi entregue por nossas transgressões e ressuscitou por causa de nossa justificação”. Por isto, a ressurreição de Jesus não é meramente um fato histórico, real, mas um julgamento de Deus que, agora, atinge qualquer pessoa humana.

O que Deus fez ressuscitando Jesus, fê-lo por todos nós, para nossa salvação. P. Bonnard nos diz que “a ressurreição de Jesus expressa pois a vontade particular de Deus que, tendo aniquilado o homem pecador, chama-o agora milagrosamente a uma nova vida. Pela sua ressurreição, somos restituídos à vida, desde agora”.

Não há teologia da cruz sem o complemento natural – a teologia da glorificação. Ou seja, não há Páscoas sem sexta-feira santa e não há sexta-feira santa sem Páscoa. É fácil encher o cristianismo de tribulação e angústia. Mas se a cruz é a cruz de Jesus e não uma especulação a respeito da cruz, que qualquer um pode fazer, não se pode esquecer que o crucificado levantou-se dos mortos no terceiro dia.

O ponto crucial da cristologia tem sido discutido debaixo de suas conceituações: a humilhação e a exaltação de Cristo. A humilhação inclui, como nos diz o Credo dos Apóstolos, “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. A cruz, para qualquer um, seria humilhação e abandono. Mas o que dá significado à humilhação é o fato de que esse homem, Jesus, é o filho de Deus, que não é outro senão Deus mesmo, que se humilha e se entrega a si mesmo nele.

Quando tudo é completado pela exaltação de Cristo no mistério da Páscoa, essa glorificação é certamente a glorificação do próprio Pai. É a sua honra que triunfa ali. Mas o verdadeiro mistério da Páscoa é que o homem é exaltado, colocado à mão direita de Deus para triunfar sobre o pecado e a morte.


5 - Quem, afinal de contas, foi julgado?

O relato histórico nos conta que Jesus, com diversas acusações tolas feitas por Anás e Caifás, era o culpado. Por isto, foi julgado e condenado. Tudo muito injusto, é claro.

O que houve, no entanto, foi uma substituição. O pano de fundo é a reconciliação do homem com Deus, que se realiza com Deus colocando-se a si mesmo no lugar do homem e o homem sendo colocado no lugar de Deus – um ato da graça divina. Esse milagre inconcebível é a nossa reconciliação.

Na crucificação, Deus toma sobre si aquilo que é merecido pelo homem. Se Deus não agisse assim, a criatura seria destruída pelo pecado. Deus não deseja isto para o homem. Ao contrário, Deus quer que o homem se salve. Só a entrega de Deus a si próprio é suficiente para salvar o homem. A reconciliação significa Deus tomando o lugar do homem.

Na morte de Jesus, Deus cumpriu a sua lei. Deus agiu como juiz em relação ao homem. No julgamento, o homem é condenado mas Deus se coloca em seu lugar. É o que fala Paulo: “ele foi entregue por nossas transgressões”.

Nesse processo, o julgamento de Deus é executado e a lei de Deus é aplicada. Mas o que o homem deveria sofrer, é Cristo quem sofre. Eis porque Jesus Cristo é o Senhor, pois coloca-se no nosso lugar diante de Deus, tomando sobre si mesmo o que pertenceria a nós. Nele, Deus se torna fiador, por aquilo que somos de amaldiçoados, culpados e perdidos. Dessa maneira, Jesus dá fim à maldição. Não é da vontade de Deus que o homem pereça; não é da vontade de Deus que o homem pague o que deveria pagar. Em outras palavras, Deus extirpa o pecado. É isto que Deus faz: determina o castigo mas toma o lugar do culpado. A justiça de Deus não se choca com sua misericórdia e seu amor. Isto é graça. Este é o mistério da sexta-feira santa.

Por isto, temos que ir além da sexta-feira santa. Não somos mais considerados por Deus como pecadores que precisam passar pelo julgamento de suas culpas. Nada mais temos a pagar. Somos libertados pela graça, pelo fato de Deus se ter colocado no banco dos réus por nós e sofrido o castigo.. Como diz Paulo em Colossenses 1.22, agora que fomos reconciliados no corpo de sua carne, mediante a sua morte, podemos nos apresentar perante Ele como santos, inculpáveis e irrepreensíveis.


6 - A mensagem da Páscoa

Ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Esta é a mensagem da Páscoa. Ela assegura que não foi em vão que Deus humilhou-se a si mesmo em seu filho. Fazendo isto, ele pode retornar a sua própria honra e confirmar a sua própria glória. Por sua misericórdia, triunfou sobre a sua humilhação e é exaltado e apontado como aquele que se tornou livre na morte de Cristo.

Esta é a mensagem da Páscoa, o fim do processo de reconciliação do homem com Deus, ou seja, a redenção do homem. O homem é agora uma criatura redimida. Está livre de tudo aquilo que tinha domínio sobre ele, como a maldição e a morte. Ele passa a fazer parte do Reino de Deus. O homem não é mais seriamente olhado por Deus como um pecador. Ele agora é um homem justificado. Isto é mais do que ser simplesmente perdoado. Como nos diz o antigo hino, “Tu não somente perdoas, purificas também ó Jesus”.

O homem está em Cristo Jesus, que morreu por ele e, em virtude de sua ressurreição, pode viver para a glória de Deus. Nesse terceiro dia, começa uma nova vida para Jesus, uma nova vida para o homem, uma nova era para a humanidade. O velho mundo foi completamente banido e exterminado na morte de Jesus. Na Páscoa, fica claro que a vitória de Deus em favor do homem já foi ganha. A Páscoa é a grande promessa de nossa esperança. Mas simultaneamente esse futuro já está presente na mensagem da Páscoa. É a proclamação de uma vitória já alcançada. A guerra acabou, embora alguns, que não souberam da notícia, ainda lutem aqui e ali. A partida está ganha embora o jogador oposto ainda faça alguns movimentos. O relógio da parede chegou ao fim de sua corda embora o pêndulo ainda esteja balançando. Estamos vivendo no tempo interino entre o velho que já passou e aquele em que tudo se fará novo. A mensagem da Páscoa nos diz que os nossos inimigos, o pecado e a morte, foram derrotados. Eles ainda se comportam como se a partida ainda não tivesse sido decidida. Precisamos reconhecer a presença deles mas precisamos deixar de ter medo deles.


7 - A proclamação da vitória

A ressurreição de Jesus revela e completa essa proclamação de vitória. É por isto que Paulo exorta a Timóteo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos” (2 Tm 2.8). Na ressurreição de Cristo já teve início a nossa própria ressurreição. Ela já foi antecipada, anunciada, garantida. Tudo o que os cristãos que nos trouxeram até aqui viveram, creram, amaram e sofreram jorrou dessa única fonte, a ressurreição de Cristo. Toda a vida cristã é faísca desse fogo, é reflexo do túmulo vazio.

A vida só é vida mesmo na medida em que cremos na ressurreição. A vida sem ressurreição não é nada. “Se Jesus não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé” (1 Co 15.14), já dizia o apóstolo Paulo. A ressurreição de Cristo é a glória para nós. É a resposta às nossas perguntas. Quem foi condenado, crucificado, morto e sepultado na sexta-feira santa?

Não só Jesus, mas com ele e em sua pessoa, todos nós. Nós fomos aniquilados naquela cruz. E por isto, na Páscoa, ressuscitamos todos nós. Depois de tudo arrasado, começou tudo de novo para nós. Tudo. Mas de maneira inteiramente nova. Com esse pobre material que nós somos, Deus faz tudo novo.

Mas o que Deus exige desse material ressuscitado? Deus quer que esqueçamos o medo, as preocupações e a fome pelo poder e pelo renome, porque tudo isto já foi crucificado, morto e sepultado. Deus quer que aceitemos a alegria e a paz que nos foram presenteadas por ocasião da Páscoa. Ele quer que trilhemos o seu caminho pois todos os outros são verdadeiros becos sem saída.

A pequena frase da carta a Timóteo diz: lembra-te! Mantém na lembrança, na agenda, no caderninho de notas, pense nisto, não se esqueça. Podemos nos esquecer de muita coisa nesta vida mas não podemos nos esquecer do Cristo ressuscitado. Todos os erros, equívocos, maldades, parcialidades, medos, agitações com que nos torturamos e com os quais amarguramos a vida dos outros tem sido por que não nos lembramos de que Ele ressuscitou.

É claro que um dia vamos morrer. Porém, mais do que isto, nós já podemos viver. Nós e todo o mundo. Por isto a humanidade tem todo direito de alimentar sua esperança. Deus nos deu esse direito. Na Páscoa.

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