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Rio, 10/11/2006
 

A CAMINHADA DO MESSIAS DE JESUS: UM NOVO ÊXODO

Bispo Paulo Lockmann


 

"E logo o Espírito o impeliu para o deserto e esteve no deserto durante 40 dias, sendo tentado por satanás, esteve com as feras, e os anjos lhe serviam. E depois de João ser entregue, foi para a Galiléia anunciando o Evangelho de Deus dizendo: porque o tempo está pleno e é chegado o Reino de Deus, arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1:12-15).

1 - Onde tudo começou

O ponto de partida do ministério de Jesus, o Jordão e em seguida o deserto, estabelece o primeiro enlace redacional com o Êxodo conforme constataremos depois.

A seguir o texto nos mostra o código onomástico João Batista, e o verbo paradidomi = entrego, regido pela voz passiva, a qual sugere a idéia de tendo sido entregue. Sim, antes de passarmos ao início da caminhada do Messias Jesus na Galiléia, devemos nos perguntar: o que Marcos quer revelar com a denúncia da prisão de João Batista? Uma interpretação literária diria: Marcos que enfatizar que o ministério de Jesus dá prosseguimento ao de João Batista, na linha de uma História da Salvação. No entanto, ainda fica uma questão; a prisão de João, mesmo que colocada em outro momento por outros evangelistas (Mc 6:14-29), tem uma historicidade defendida por vários exegetas. Deste modo, o início do profeta marginal, ao que ele deve suceder na seqüência do plano salvífico de Deus.

Uma primeira conclusão histórico-política: a missão de João Batista, e por conseqüência a de Jesus, ocorre um visível confronto com os ricos e os poderosos, a quem o anúncio do profeta incomodava, por isto, a prisão dele é a conseqüente morte, com o fim de calá-lo.

Outra grande revelação nos traz o texto, através do código onomástico e topográfico-cultural, Galiléia. Aí se inicia i ministério de Jesus, e seu ministério galileu vai caracterizar-se por uma contínua caminhada de libertação, um novo Êxodo.

Esta demarcação é importante e significativa em todos os sinóticos. Marcos escreve: "...Jesus foi à Galiléia..." (Mc 1:14). Lucas enfatiza o poder do Senhor: "...Jesus voltou para a Galiléia cheio do poder do Espírito Santo..." (Lc 4:14). Mateus descreve semelhante a Marcos, apenas muda o verbo, diz ele: "...Jesus retirou-se para a Galiléia..." (Mt 4:12).

A Galiléia na época de Jesus era território de Herodes Antipas, o qual dominou 39 d.C. Sua economia era centrada basicamente na agricultura, embora o comércio ocupasse um lugar de destaque, visto que as rotas de caravanas de comerciantes cruzavam suas terras através da famosa "Via Ápia".

Começar na Galiléia significou que Jesus fez uma adesão parcial, era a terra das tensões e conflitos sociais responsáveis por rebeliões e lutas que desde a dominação dos Selêucidas sacudiram toda a terra de Israel, principalmente a Galiléia.

As razões de tais conflitos são várias. Mas as principais foram a dominação das terras por grandes proprietários estrangeiros, somada ao sistema de impostos que transferiu a legítima produção da terra para as mãos dos dominadores e donatários do poder político, os quais eram os romanos, Herodes e seus partidários e a oligarquia do Templo. isto redundava no crescente empobrecimento do povo da Galiléia, apesar das riquezas naturais amplamente suficientes para o sustento do povo. A questão do domínio da terra por grandes latifundiários é testemunhada pela parábola dos lavradores maus (Mc 12:1-2), a qual, á parte interpretações, mostra claramente o conflito social na Galiléia.

Quanto aos impostos pagos aos romanos, eles eram de 25% da colheita de cada ano, além disto havia cotas para alimentação das tropas romanas de ocupação, mais múltiplos pedágios. Somemos a isto o dízimo do Templo e mais ofertas alçadas, temos o quadro das tensões já mencionadas. Com isto a Galiléia viu crescer o número de enfermos, desempregados e lavradores sem terras.

Quando lemos que as multidões seguiam Jesus (Mc 3:7), estas eram compostas por pobres e famintos, vítimas da estrutura econômica e política estabelecida em Israel (Mc 8:1-2).

Não há dúvida de que este estado de coisas gerou uma diversidade de privilegiados, os Herodianos que achegados à família de Herodes usufruíam de coisas que hoje chamamos de mordomias, entre os quais citamos: "a família dos Boetos e que por influência de Herodes Magno chegam ao supremo pontificado, em 22 antes de Cristo". Outros ligados à administração romana sediada em Cesaréia marítima e depois em Jerusalém e finalmente os controladores do Sinédrio, anciãos e as famílias sacerdotais, ambos de tendência saducéia. Em contraposição a estes privilegiados, temos a grande maioria da população vivendo em "terrível pobreza" como nos diz o historiador judeu Baron e sua clássica "Histoire d' Israël, vie sociale et religieuse".

2 - A caminhada do Messias Jesus

"... anunciando o Evangelho de Deus..."

Diante do quadro histórico-econômico-político, mostrado por nós de forma breve, fica uma pergunta: o que poderia ser uma Boa-Nova (Evangelho), para o povo pobre da Galiléia?

Optar pela Galiléia foi um ato de compromisso feito por Jesus, era uma adesão aos pobres, enfermos e oprimidos. Galiléia não era um lugar distinto, segundo a frase de Natanael: "...de Nazaré pode sair alguma coisa boa?" (Jo 1:46). Este compromisso de Jesus é característico dos que são guiados pelo Espírito, eles se alinham com os injustiçados, os ptoxoí = pobres. Nesta linha de pensamento é que R. Vidales afirma:"o pobre é o sacramento do pecado coletivo".

Com isto temos a primeira Boa-Nova do Messias Jesus sua adesão aos pobres: "O espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres..." (Lc 4:18). Os pobres da Galiléia e de todo o Israel podiam se alegrar, pois chegara: "...o ano aceitável do Senhor". Este ano da graça era sem dívida um jubileu permanente, um tempo de libertação, e de cura: tempo de saciar a fome de injustiça, e a fome de pão (Mc 8:1-12).

Neste caminho chegamos a outra Boa-nova: - os pobres deveriam deixar de ser pobres. Tal afirmação pode parecer para alguns uma temeridade. Entretanto, era a única coisa que poderia consistir numa Boa-Nova, para os famintos agricultores da Galiléia, e para os pobres de qualquer época. e não há dúvida que também para Jesus, prova disto é o convite ao jovem rico: "Uma coisa ainda te falta; vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres..." Isto era o que faltava para ele ser um cidadão do Reino de Deus, o qual Jesus inaugura através de sua vida e ministério. Neste convite há um apelo de uma reparação, uma denúncia e uma conversão. A reparação estava no fato de que a riqueza deste jovem iria, uma vez distribuída, tirar alguns pobres de total desamparo. A denúncia consistia em que, se ele tinha de sobra, era porque alguém tinha de menos, ou seja, a riqueza é sempre iníqua (Lc 18:23-30). E finalmente uma conversão à pobreza e à missão de Jesus, ou seja, a construção de uma nova sociedade, sobre bases mais justas: O Reino de Deus.

3 - "É chegado o Reino de Deus"

O verbo (eggizo = chego - aproximo) usado por Marcos tem sua tradução orientada pelo outro verbo (pleróo = completo - cumpro - cheio - encho). O segundo verbo aponta sempre o momento certo, transbordante. Deste modo, não podemos aceitar os que traduzem eggizo por está "próximo", e não estamos sozinhos nesta maneira de traduzir, C.H. Dodd e outros defenderam esta tradução. Pois, se o tempo está pleno, o reino não está próximo, mas "é chegado". Vincent Taylor propõe a seguinte tradução: "... cumpriu-se o prazo, já chega o Reinado de Deus...".

Qual a razão do posicionamento?

Primeiro sublinhar que o Reino é uma realidade histórica. Fugindo a todas as interpretações triunfalistas, alienadoras e desencarnadas da realidade concreta que o anúncio quis e quer apontar. Segundo, que o Reino é um projeto concreto inaugurado por Jesus a partir da Galiléia do século 1.

A idéia da presença do reino é enunciada além do nosso texto em Mc 9:1 onde Jesus declara que alguns de seus ouvintes não iriam morrer sem ver que o Reino havia chegado. Mas não há dúvida, existem claras alusões à presença do Reino, na parábola do Semeador (Mc 4:3-9), na Semente que crescer em segredo (Mc 4:26-29). Isto pode ser reforçado pela evidência de que os milagres e a expulsão de demônios eram, para o judaísmo de características farisaicas e também popular, sinais demarcatórios da presença do Reino de Deus. Vejam a frase de Jesus quando acusado, pelos Fariseus, de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios: "... se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus" (Mt 12:28; Lc 11:20).

Deste modo, fica evidente que o Reino de Deus é o núcleo da mensagem de Jesus, no sentido de que a História da Salvação culminou com a encarnação do Messias Jesus, e tem uma continuidade qualitativamente superior no anúncio do Reino por este Messias, e na radicalidade com que ele vive e apresenta os sinais característicos do reino de Deus.

Com isto, fica evidente que o projeto do Reino, como projeto de Deus, é principalmente para Marcos, o prosseguimento da grande marcha de libertação iniciada por Deus através de Moisés e que agora tivera continuidade na caminhada do Messias Jesus. Vejam mais objetivamente como isto se concretiza no texto.

O quadro geográfico que antecede o anúncio do Reino tem profundas relações com o Êxodo e a ordem: "Diga aos filhos de Israel que marchem" (Ex 14:15). No início da marcha de Moisés e o povo (Ex 14:19), no batismo de Jesus (Mc 1:9-11), a presença do Espírito é sublinhada. Moisés e o povo descem ao mar, Jesus (e o povo) desce às águas (EX 14:22; Mc 1:9). Moisés e o povo são tentados no deserto. Jesus também é tentado no deserto, só que sem pecar.

Estas coincidências, e outras que poderiam ser apontadas, não são ocasionais, elas estão aí para mostrar que a marcha dos filhos de Israel com Moisés é atualizada de forma mais excelente na marcha de Jesus a partir do batismo e do deserto, onde Jesus como Moisés é seguido pelas multidões. Ambas as marchas são de Libertação. Do mesmo modo, elas têm por fundamento a submissão a uma ordem do Senhor (Ex 14:15; Jo 1:17; Mc 1:38; Jo 5:36-37).

Os evangelistas mostram com clareza o ministério de Jesus como uma marcha dinâmica de Salvação (Mc 1:16; 1:21; 2:23; 3:7; Lc 13:22; Mt 11:1). Jesus assim como Moisés começam a trabalhar como um povo pobre, escravo e oprimido, são estes os alvos da Libertação do Senhor, tanto no Egito, como na Galiléia do século 1.

A mensagem que Moisés recebeu de Deus para entregar ao povo foi de conversão ao Senhor, ou seja: "Tomar-vos-ei por meu povo, e serei vosso Deus..." (Ex 6:70). Mas também de cumprir a promessa feita de dar-lhe a terra de Canaã, terra que emana leite e mel.

A mensagem de Jesus é o anúncio do Reino como presente. É o ideal do governo de Deus: "... vós sereis meu povo e eu serei vosso Deus" conforme o Êxodo. Mas também no anúncio do Reino está presente a idéia de conversão: "... arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1:15).

O anúncio do Reino é também marcado pela idéia de um tempo de abundância: "Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados vós os que agora tendes fome, porque sereis fartos" (Lc 6:20).

Hoje quando vemos a temática Reino de Deus, como central na pregação de Jesus, 'Temos aí uma resposta plena às humilhações que Israel vivia. Ou seja, explorado por uma nação estrangeira, que estimulou e ampliou a divisão em classes sociais do povo da Galiléia e por conseqüência todo Israel. Aumentando com isto a exploração das classes populares, fazendo assim crescer o número de doentes, desempregados e pobres em geral, conforme já sublinhamos. Sob todos os aspectos fica assim esclarecida a frase cunhada pelo evangelista com o seguinte tom: "... o tempo está pleno, é chegado o Reino de Deus..." (Mc 1:15) - aqui fica registrada acima de tudo a esperança das classes populares - ou ainda em expressões como: "uma grande multidão vinda da Galiléia o seguiu..." (Mc 3:7).

De fato não há como eludir a força do Evangelho, a mensagem contra nos ptoxói = pobres seus primeiros beneficiários e imediatos adeptos, são eles que compões a comunidade dos seguidores de Jesus, conforme o testemunho da tradição oral, testemunho confirmado pelos evangelistas.

Reconhecemos um caráter articulador das classes populares, primeiro na própria realidade vivencial-histórica da Galiléia-Palestina do século 1, e, depois, no anuncio do Reino e na prática do Reino implícita no ministério de Jesus (Mc 3:32; 2:16; Lc 22:23). Deste modo, temos de imediato uma chave hermenêutica que abre um sentido novo no Evangelho.

Isto é profundamente decisivo para a Igreja, na medida que ele é desafiada a ler o Evangelho com a abertura que a compreensão da historicidade do Reino, como projeto histórico vivido no Evangelho pelo Messias Jesus até a morte, lhe traz.

A verdade é que sublinhar isto torna-se fundamental, visto ser comum uma leitura do anúncio do Reino como uma realidade "espiritual" e transcendente, fazendo com que seu caráter histórico e mobilizador das forças populares seja domesticador, inibindo assim a Caminhada da construção do Reino iniciada por Jesus na Galiléia.

Conclusão: Conversão ao Reino como conversão à mudança na história

Como vimos, a caminhada do Messias Jesus foi uma marcha do compromisso com uma mudança na vida dos pobres da Galiléia, prova disto são os já mencionados sinais do Reino.

Os Evangelhos nos apontam o convite à conversão ao Reino, como um converter-se a um Deus que não está "lá em cima" ou "lá fora", mais a um Deus que nos provoca na história. Semelhantemente ao que já fizera como um povo de Israel no Egito.

Jesus inicia sua pregação apontando o emergir presente do Reino. E segue enunciando num processo que vai provocando rupturas na história concreta do povo, alvo primeiro de sua mensagem. São realidades que são radicalmente mudadas. O último passa a ser o primeiro, o Senhor tem que ser servo,o rico tem que se converter e partilhar com o pobre, os famintos são alimentados e o alimento que lhes era negado agora transborda. E assim, dezenas de quadros históricos são, alterados na medida com que o povo atenta para a mensagem do Reino e a ele vai aderindo.

Deus se coloca nesta marcha à frente do povo revelando na caminhada do Messias sempre coisas novas e historicamente concretas, à semelhança do que fizera no Êxodo. Em ambos os casos ele é um Deus provocativo e que chama o homem a construir uma história, onde a miséria e a pobreza podem ser superadas.

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