(Hideíde Brito)
Agar e Abraão nos tempos da poligamia
No tempo de Abraão, a poligamia era aceita em diversas culturas. Um homem, entretanto, deveria resguardar a capacidade de cuidar das mulheres e jamais poderia privilegiar uma e prejudicar a outra. É claro que a realidade, mostrada pela própria Bíblia, deixa evidentes os conflitos afetivos desse tipo de relação (Ana e Penina, Raquel e Lia...). Entretanto, Agar era uma esposa, mas uma concubina, uma escrava da casa, que além dos deveres domiciliares, poderia ser dada sua senhora ao marido desta para gerar filhos. Essas crianças seriam consideradas filhas da esposa, não da concubina. Essa praxe garantia a legitimidade das crianças no contexto familiar patriarcal e em termos de herança. Isso tinha muito a ver com a garantia de uma descendência. A mortalidade das mulheres e crianças, tanto no parto como nos primeiros anos de vida dos infantes, era um grave problema social e poderia gerar desequilíbrio nos povos. Daí, em alguns casos, o uso desses expedientes.
Agar e o processo de crescimento com Deus
Agar, sendo mãe de um filho de Abraão, deveria ter sido protegida e resguardada por Sara. Entretanto, os ressentimos que esta nutria, por sua própria condição de infertilidade, fizeram com que ela descumprisse a praxe de seu tempo. Por duas vezes há relatos de expulsão de Agar por Sara (Gn 16-14 e 21.1-21). Sara não reconheceu Ismael como seu filho e o rejeitou quando finalmente sua própria gravidez aconteceu.
Agar, no primeiro relato, é humilhada por Sara e foge de sua presença. Na condição de fugitiva, era passível das mais severas penalidades. Em sua fuga, acha abrigo junto a uma fonte (Gn 16.7). O texto é pródigo em expressões que revelam o cuidado de Deus a ela: um anjo a “achou” (v.7), ele a chama pelo nome e informa conhecer sua condição de escrava (v.8), faz-lhe promessas de futuro (v.10), fala que Deus entende a aflição que ela vive (v.11). Em resposta às previsões do anjo, ela invoca o Senhor a partir de um título que reflete tudo que vivia: Deus é “aquele que vê” (v.13).
Muitas mulheres hoje vivem situações como a de Agar. Socialmente empobrecidas ou afetadas em sua auto-estima, elas fogem em busca de lugares de refúgio. Mas no caminho do discipulado, uma coisa tenho aprendido: Deus quer que cresçamos e, para isso, ele às vezes nos força aos enfrentamentos, por mais difíceis que sejam. O anjo diz a Agar que, fugindo, ela ficaria mais fragilizada em sua gravidez. Por mais difícil que fosse, seu caminho era voltar e humilhar-se sob sua senhora (v.8-9). Agar aprenderia a capacidade de viver numa situação opressora, mas garantiria a seu filho condições de superar a dureza dos primeiros anos de vida, quando muitos bebês morriam de diversas doenças. Ela precisava de tempo para ensinar a ele o que fosse necessário para sobreviver e preparar a si mesma para o futuro. Podemos ter certeza de que o enfrentamento que Deus quer para nós não é uma humilhação sem propósito, pois “ele vê”. Enquanto se sujeitava aos desmandos de Sara, Deus forjava em Agar um caráter forte, baseado em promessas fiéis e verdadeiras. E Ismael crescia junto a Abraão, de modo a despertar naquele os sentimentos paternais que, de outro modo, jamais floresceriam.
De fugitiva a expulsa
Porém, quando cresceu Ismael, uma rusga de crianças novamente aguçou o espírito enciumado de Sara. Desta vez, Agar não foge, mas é expulsa, levando nas costas apenas pão e água (Gn 21.8-21). Pode parecer difícil, e realmente o é, mas agora ela, ao mesmo tempo, se torna uma mulher livre, dona de seu próprio destino. Como fugitiva, ela tivera de se esconder e torcer para não ser encontrada. Mas, apesar da humilhação de ser expulsa, agora ela poderia andar para a frente e não ter de se preocupar com o que ficou para trás.
No seguimento a Deus em toda a história, as pessoas tiveram de enfrentar desafios que lhe pareciam insuperáveis. Com Agar, o final do pão e da água indicava o fim da vida. Ela se afasta para não ver o filho adolescente morrer (v.15-16). Mas Deus intervém e lhe concede a água necessária para a caminhada (v.17-19). Deus abre seus olhos para ver (v.19). Seguir a Deus é sempre um processo de ter as vistas abertas para as possibilidades em meio aos desafios.
Agar parte para uma nova vida. Não uma vida fácil, mas era livre. Ela vive o tempo todo no deserto. Primeiro Berseba, depois Parã, nas regiões egípcias, sua terra natal. Ela assume o controle de sua família, educa seu filho e determina com quem ele vai se casar. De escrava, ela passa a agir como senhora, “dona do seu próprio nariz”.
Ser e enfrentar, duas premissas do seguimento
Agar me inspira a pensar que as mulheres sofridas, desprezadas, vendidas e humilhadas de nosso tempo não precisam se envergonhar de si mesmas, nem viver no auto-flagelo. Elas podem descobrir quem são aos olhos de Deus e aos seus próprios olhos. O Senhor lembrou a Agar que ela era uma escrava quando sua condição era de fugitiva. Ele a fez enfrentar longos anos de provação mas, igualmente, de preparo. Na segunda vez, quando a encontra, o anjo a chama tão somente pelo seu nome, fazendo com que ela reconheça que agora vive uma nova situação. Não é mais “Agar, serva de Sara”, mas aquilo que era em seu coração desde o início: Agar, a pessoa. Nossa história pode ser transformada. Não precisamos ser definidas a partir de situações, rótulos e determinações impostas por este mundo que jaz no maligno. Podemos ser simplesmente quem somos e deixar Deus fazer de nós o que ele quer. Agar se tornou uma matriarca num tempo em que o patriarcalismo imperava. Mudou sua história. E nós?
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