Embora eu já tenha escrito sobre o salmo 90 nesta coluna, não tive como fugir meus olhos dele ao receber o tema proposto para reflexão. Eu me lembrei deste poema, escrito por Frei Antônio das Chagas, no século 17. Quero falar sobre o tempo na conta de Deus e na nossa... Será que poderemos, pela fé, chegar – o Senhor e nós – ao mesmo resultado?
De geração em geração
De cara, o salmista declara a extensão temporal do cuidado de Deus para com seu povo. É um cuidado que passa de geração a geração. Deus se preocupa em ser o Deus da família. Para o povo antigo, essa era uma dimensão da eternidade. Antes da doutrina da ressurreição se estabelecer no povo de Israel (segundo os estudiosos, isso ocorre com clareza a partir do livro de Daniel, que traz explicitamente o assunto em seu último capítulo), a idéia de permanência de uma pessoa se dava pela memória familiar. Daí que morrer sem filhos era uma grande tragédia.
Também encontramos a expressão: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”. Ela nos mostra a presença perene de Deus ao longo de todas as gerações do povo, dando unidade e identidade à sua fé. Temos visto esta dimensão da fé em nossas famílias? Podemos dizer que o Deus de nossos avós será o Deus de nossos netos? Aqui entra, sem sombra de dúvida, o aspecto da transmissão dessa fé, cuja responsabilidade reside sobre cada geração em relação à próxima (veja o exemplo claríssimo a esse respeito no estudo que escrevi sobre o Salmo 78, um de meus preferidos...).
De eternidade a eternidade, tu és Deus
Os versículos 2 a 4 falam do tempo em relação ao ser do próprio Deus. Ele tem em si o caráter da eternidade e, quando confrontado com ele, o ser humano vê-se tão passageiro que sua existência não passa de um breve momento. O salmista ressalta que Deus é anterior à criação do mundo (v.2) e sua oração tem ecos no Gênesis, ao afirmar que Deus faz o homem voltar ao pó (v.3). A contagem do tempo para Deus é tão outra, tão além do ser humano, que mil anos equivalem a um dia (v.4). Moltmann, um dos principais teólogos luteranos da atualidade, afirma que Deus não conta horas, mas que já está lá, naquele último dia. Por isso Jesus teria dito que ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e é o Deus dos vivos, não dos mortos. Para Deus, já estamos no dia da ressurreição e não há morto algum. Deus vem ao nosso encontro desde esse futuro que ele preparou e no qual está. Nesse caso, não deveria importar muito a nós que a salvação plena que aguardamos pareça demorar, pois tal demora é aos nossos olhos, humanos, que andam no Chronos, o tempo do relógio. Deus não se move como nós – ele foi, é, será e vem... Que esperança maravilhosa, crer num Deus que não está limitado a nossa esfera de tempo, a qual, de fato, tanto nos aflige! Ele se move na eternidade e desde lá vem ao nosso encontro, propondo-nos um futuro: “Há esperança para o teu futuro!” (Jeremias 31.17).
A temporalidade humana
Diante da eternidade de Deus, a vida humana é ínfima. O autor do salmo usa três figuras para expressar essa fragilidade: a vida pode ser levada como numa enxurrada, como o despertar de um sono e como uma erva que nasce e morre no espaço de um dia. São expressões bastante duras, que nos levam a “nos colocarmos em nosso lugar”.
Eu me lembro do pr. Genildison Ribeiro, meu colega de classe no seminário e atualmente pastor em Vitória, na Igreja Central, certa vez dizer: “Eu acho que nós não acreditamos mesmo na vinda de Cristo. Nós dizemos que este mundo é passageiro, mas construímos templos e casas para durarem para sempre...” Aquela expressão sempre me vem à memória – de fato, nós, seres humanos, precisamos ser lembrados de nossa temporalidade. Vivemos como se a vida não fosse acabar nunca e não nos preparamos para encarar nossa finitude. O resultado é que vivemos vidas incompletas, frequentemente inacabadas, porque sempre achamos que teremos tempo amanhã.
Por outro lado, nossa temporalidade, às vezes, nos leva ao desânimo. Parece-me ser isso quando ouço em minha mente as palavras do salmista, enquanto as leio: “Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, à luz do teu rosto os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; acabam-se os nossos anos como um suspiro. A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos” (v.8-10).
As pessoas, de modo geral, têm medo de envelhecer. Receosas das limitações, dores e enfermidades decorrentes do processo de envelhecimento, bem como os aspectos físicos e emocionais daí decorrentes, fazem de tudo para retardar este momento da vida – desde injeções de produtos diversos, passando por massagens e terapias alternativas, até o uso de plásticas intermináveis, que terminam por tirar, muitas vezes, a própria identidade da pessoa. As rugas também contam que realmente vivemos, choramos, sorrimos, sentimos. Um rosto sem marcas é um rosto sem história, sem vida. É claro que podemos usar os recursos médicos e cosméticos a nosso favor, mas não deveríamos temer as pessoas que estamos nos tornando enquanto envelhecemos. Deveríamos agradecer a dádiva de envelhecer, num mundo em que a média da mortalidade urbana está entre os 16 e os 18 anos entre os jovens rapazes, vitimados pelas drogas e violência... O salmista pede a Deus que lhe ensine a contar os seus dias. Para mim, isso é mais relevante que nunca, pois significa não deixar passar sequer um dia em que a nossa vida não seja apreciada e sentida como um dom de Deus.
A esperança da felicidade
O tempo da alegria começa com o amanhecer de um novo dia. É possível encontrar saciedade na bênção de apreciar uma nova manhã (v.14). A repetição dessa bênção matinal tornaria felizes todos os nossos dias (v.14b), mas muitas vezes já acordamos com os dois olhos na agenda de compromissos e perdemos a luz da manhã!
O salmista pede a Deus que redima o tempo, não no sentido de diminuí-lo, mas de transformá-lo: o mesmo número de dias em que choramos deve ser o daqueles em que podemos sorrir (v.15). Acho interessante que a idéia da felicidade esteja no empate entre dias bons e maus – só se pode entender a plenitude da alegria quando se experimenta a profundidade da dor. Caso contrário, a vida se faz supérflua e tudo o que é superficial acaba evaporando no ar... Por isso, este salmo que fala sobre o tempo só poderia terminar mesmo com uma bênção, que é o desejo de que tudo vá bem desde agora e para sempre: Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos...
Hideíde Brito
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