IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Rio, 14/7/2010
 

Carta para Eliza Samudio - umas mal traçadas linhas de alguém que se indignou...

Pr. Ronan Boechat de Amorim

Eliza, não sei se você era uma garota ingênua, uma mulher que quis dar uma de esperta, alguém inebriado pela fama e riqueza do outro, alguém que seduziu e se deixou engravidar depois de uma orgia sexual para tirar vantagens depois, usando o próprio filho como mercadoria de barganha... Não sei quem você era...

Mas alguém devia saber... Que precisava de conselho, de um choque ético, de amizade, de socorro... Alguém deveria ter lhe dito que quem anda com porcos come farelo, que quem anda com feras acaba devorado. É o que a gente vê, Eliza, desde que o mundo é mundo. Seja na Europa, na Ásia, no Brasil, no Rio, em Vespasiano. Não há como a gente andar com o iníquo e não sofrer sua iniquidade...

Alguém deveria ter lhe dito que os canalhas envelhecem... até se casam, têm filhos, enriquecem, jogam bola, ficam famosos, tornam-se ídolos, cuidam de uma imagem social de "bom moço"... mas é tudo fachada!!! O lobo pode até perder os pelos, mas jamais deixa de ser lobo, predador. Há flor que não se cheira. Há gente que ama num dia e no outro descarta quem ele apenas usou..

Alguém deveria ter lhe dito que quem brinca com fogo se queima. Que não há calculos e caminhos seguros diante da crueldade do outro. Que não há esperteza capaz de dominar a fera da desumanidade do outro.

Você já não tinha visto isso antes, Eliza? Já não tinha sofrido e visto os perigos sem fim de quem só tem vazio, buraco e abismo no lugar da alma? Você não percebeu que atrás da capa, do corpo, da pele, do pelo, tudo que havia era um predador?

Os que não têm alma Eliza, machucam o corpo na tentativa de devorar a nossa alma, menina. E mesmo sabendo que não conseguirão a nossa a luz, a cor, o calor, a música e o riso da nossa alma através do assédio, do cerco, do esmagamento de nosso coração, eles se satisfazem com a alegria da dor que causam em nós. Se não conseguem nossa alma, destróem-nos para arrancar o corpo da história e a alma do corpo das sensações e das relações com o mundo. Dão nossas carnes para os cães e concretam os nossos ossos na inútil tentativa de nos parar nossos movimentos, nossa respiração... de calar nossa voz... de humilhar nosso olhar.

Eliza, você deveria saber disso, menina! Você deveria saber pra poder fugir, pra gritar por socorro, pra poder resistir, e experimentar novos tempos, novos amores.

Não sei quem você era... mas tenho ouvido o que fizeram com você... o quanto a fizeram sofrer... da sua morte... do seu bebê que fica órfão...

Lamento, Eliza. Lamento por você. Lamento porque atrás de seu caminho vem muitas outras Elizas que não aprendem com a história, e que se iludem em tirar bom fruto de árvores venenosas.

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