IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Missão e Evangelização
Rio, 11/11/2010
 

Missão e Ecumenismo - Desafios e compromissos (Roberto E. Zwetsch)

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P. Ms. Roberto E. Zwetsch[1]

Introdução

Como teólogo de confissão luterana, é uma alegria e uma honra contribuir para uma revista teológica católica-romana. É sinal de abertura, confiança no diálogo e compromisso com a busca da verdade. O desafio que me foi proposto já vem do próprio título: missão e ecumenismo. Pois, dependendo do ponto de vista, estes dois termos, tão presentes na teologia contemporânea e centrais nas relações entre as igrejas cristãs do século XX, podem entrar em conflito. Se missão é entendido como simples conversão a um determinado credo, numa ótica proselitista, por exemplo, fica descartada a possibilidade de relacioná-la com ecumenismo. A polêmica, o exclusivismo e o separatismo prevalecem. Se, porém, entendermos missão como a ação de Deus mesmo que nos chama por igual para sermos seu povo enviado para anunciar o evangelho da salvação ao mundo para que ele seja salvo, libertado e participe da glória do seu reino, não só na eternidade, mas já em meio à provisoriedade do tempo histórico, então ecumenismo – como busca da unidade no testemunho do evangelho de Deus - se torna um convite inadiável e comprometedor que nos convoca a todos de maneira integral e desafiadora.

Neste artigo, evidentemente me inclino à segunda opção. Tanto por razões teológico-bíblicas, quanto por experiência pessoal. Permitam-me uma breve reminiscência biográfica. Durante meu período de formação teológica com vistas ao pastorado, tive a rara oportunidade de realizar um ano de intercâmbio de estudos. Na época (anos de 1970), a Faculdade de Teologia da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil –, de São Leopoldo/RS, havia iniciado uma experiência de intercâmbio de estudantes com o Nordeste, mais particularmente, para estudarem no Instituto de Teologia do Recife – ITER – quando era Arcebispo de Olinda e Recife o saudoso Dom Hélder Câmara.[2]

Em 1974, passei um ano estudando no Recife, tendo como professores, entre outros, Eduardo Hoornaert, Humberto Plummen, Ivone Gebara, Sebastião Gameleira Soares, Irmão Michel Bergmann (Taizé), Irmã Maria Valéria Rezende. Morei com o Padre Reginaldo Veloso e seus companheiros, no Córrego do Genipapo, periferia norte da cidade, na grande Casa Amarela, onde conheci de perto os inícios das comunidades eclesiais de base no âmbito da Igreja Católica Romana. Para me sustentar, consegui um trabalho junto à ACR – Animação dos Cristãos no Meio Rural, antiga Ação Católica Rural (observe-se já naquela época a abertura ecumênica presente nesse setor do catolicismo do Nordeste) trabalhando com o Pe. José Servat. Conheci o trabalho ecumênico da Equipe Fraterna a convite do Pastor luterano Albérico Baeske, então pároco do Recife, e do monge beneditino Marcelo Barros, em cuja casa o grupo ecumênico de Recife e Olinda se reunia (com participação de católico-romanos, luteranos, metodistas e anglicanos).

Para um jovem estudante do sul do Brasil, aquele ano foi um marco em sua vida de fé, de estudo de teologia e de iniciação na causa ecumênica. Pois, desde então ecumenismo não é apenas algo que diga respeito a boas intenções ou necessidade teológica. Ecumenismo é experiência de vida compartilhada em fidelidade ao evangelho de Cristo, de oração em comum, de busca de entendimento e partilha de sonhos conjuntos por um país mais decente, justo e humano, numa palavra, por uma humanidade mais solidária. Quer dizer, a experiência de conviver com o diferente, de conhecê-lo de perto, na partilha da mesma mesa e da mesma casa, no estudo em conjunto tanto da Bíblia quanto da teologia e da história, na celebração da fé e do partir do pão, no assumir das mesmas causas de libertação do povo oprimido, fizeram com que eu me desse conta de uma verdade que não é tão óbvia como parece: que para ser cristão preciso do outro diferente de mim. Que não me basto a mim mesmo. Que só podemos responder ao chamamento para seguir Jesus, em amor e fidelidade numa realidade gritante e complicada, se soubermos andar junto com irmãos e irmãs, ainda que pensem e creiam de modo diferente de nós. Esta descoberta da solidariedade da fé (para além da ortodoxia, que merece ser considerada sempre!) na fé e a partir da fé comum me marcaram definitivamente. É reportando-me a esse reconhecimento que pretendo alinhavar no que segue alguns pontos para reflexão. Adianto que a convivência com a comunidade no meio popular católico romano não me afastou da confissão luterana, antes me fez estudá-la com mais profundidade para encontrar nela aquilo que diz respeito ao conjunto da igreja de Cristo e como é possível ser fiel a Cristo a partir das distintas experiências eclesiais, sem desfazer ou diminuir quem quer que seja.

1. Breve retrospectiva histórica

Se o século XIX foi considerado o grande séculos das missões protestantes, período durante o qual o protestantismo se expandiu para os quatro cantos do mundo, fazendo surgir novas igrejas na África, Ásia, Oceania e mesmo em algumas partes da América Latina, o século XX pode ser caracterizado como o século do Ecumenismo. Em breves traços, vale a pena relembrar este processo sui generis, pois é a partir deste pano de fundo histórico que precisamos analisar o movimento ecumênico atual e suas perspectivas futuras na América Latina.

Desde meados do século XIX, aproveitando a expansão nunca vista do capitalismo europeu e norte-americano, as igrejas protestantes passaram a enviar missionários e missionárias para muitas partes do mundo, num movimento entusiástico que mobilizou milhares de pessoas, sobretudo de jovens estudantes dos EUA, que, sem grandes conhecimentos teológicos ou preparo, se dispunham a ir aos campos de missão para lá, no meio de populações que desconheciam a fé cristã, anunciarem o evangelho do Senhor Jesus. Este movimento massivo e ininterrupto, entretanto, não contava com os problemas que começaram a surgir de modo imprevisto. Mais para o final do século XIX começou a perturbar a consciência cristã o escândalo da divisão entre pessoas e igrejas cristãs que disputavam entre si povos e territórios. Chegou-se ao cúmulo de certas organizações missionárias repartirem entre si territórios a fim de evitar brigas por pessoas convertidas. Assim, em certas áreas prevaleceram luteranos, em outras, anglicanos, e ainda em outras metodistas ou presbiterianos. Espíritos mais sensíveis não suportaram este verdadeiro escândalo, começando daí as gestões para o que mais tarde veio a ser o movimento ecumênico.

O movimento ecumênico moderno nasceu no seio de entidades e igrejas protestantes. Durante o século 19, em que países protestantes se tornaram potências econômicas e políticas mundiais, diferentes igrejas evangélicas desses países enviavam missionárias e missionários a grandes regiões não cristãs do mundo, como a Ásia, a África e as ilhas do Oceano Pacífico. Muitas vezes, numa mesma cidade ou aldeia, pessoas de igrejas cristãs diferentes anunciavam a mesma fé, o mesmo batismo, o mesmo Deus Trino, Pai e Mãe de todos. Essa experiência dolorosa do testemunho dividido do Deus-comunidade motivou muitas igrejas evangélicas da Europa e dos Estados Unidos a se aproximarem cada vez mais umas das outras.[3]

Foi assim que, em 1910, na cidade de Edimburgo, Escócia, aconteceu a 1ª Conferência Missionária Ecumênica do século XX, com o propósito de debater o tema “A evangelização do mundo nesta geração”. Foi uma conferência convocada não por igrejas, mas por sociedades missionárias européias e norte-americanas que dominavam o cenário das missões mundiais e que já tinham realizado outras conferências regionais como a de Londres (1888) e a de Nova York (1900). É significativo mencionar que em Edimburgo não houve a participação das jovens igrejas da África, Ásia e América Latina. Elas foram “representadas” pelos missionários do primeiro mundo. Note-se o paternalismo missionário que vigorava na época. A América Latina não representava preocupação maior porque considerada continente “cristão”, uma vez que a Igreja Católica Romana fazia-se presente aí desde a colonização. As vozes que apoiavam esta posição para não entrar em conflito com o catolicismo, exigiram tal postura em troca do seu apoio às missões mundiais. Setores que discordaram e que não se sentiram contemplados nessa política geral adotada, gradativamente foram instaurando uma nova visão da missão cristã, redundando daí cisões no próprio protestantismo.

As duas grandes guerras mundiais (1914-18 e 1939-45), que destruíram não só países e milhões de vidas, mas comprometeram seriamente a recém inaugurada caminhada ecumênica, retardaram o processo de busca de unidade cristã em testemunho, doutrina e ação. Somente após o término da 2ª Guerra, reiniciaram-se as conversações e encontros que culminaram na formação, em 1948, do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, em assembléia reunida em Amsterdã, Holanda. Sua sede fica em Genebra, Suíça.

Desde então o CMI vem desenvolvendo um enorme e incansável esforço pela causa da unidade cristã em todo o mundo, no sentido da palavra bíblica de Jesus em sua oração sacerdotal, sempre lembrada quando se fala ou se escreve sobre o tema: “a fim de que todos sejam um ... para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17,21). As Conferências Ecumênicas Missionárias seguintes à constituição do CMI, que foi uma junção de pelos menos dois grandes movimentos anteriores: Fé e Ação e Fé e Constituição, crescentemente e muito atentas à realidade de um mundo em constantes transformações, debateram temas da maior importância. Em 1952, a Conferência de Willingen, Alemanha, fixou o conceito ainda vigente da missio Dei. A igreja cristã vive da missão de Deus e para a missão de Deus, por meio do envio de Jesus, o Filho, no poder do Espírito Santo. Afirmou-se aí que não existe pessoa cristã, discípula de Jesus Cristo, que não seja ao mesmo tempo missionária. Missão faz parte da autocompreensão e da definição do que seja igreja.

É impressionante notar como anos mais tarde este entendimento seja assumido na definição de igreja do Concílio Vaticano II (AD Gentes, Lumen Gentium).[4] Já a última Conferência Missionária Ecumênica do século XX, realizada em 1996, na cidade de Salvador/BA, trabalhou um tema candente e comum a todas as igrejas cristãs. Num contexto de pluralismo religioso e enorme diversidade cultural, a par de uma realidade social e econômica de diferenças gritantes em termos de pobreza, marginalização e exclusão, Salvador 1996 procurou encarar de frente o grande desafio missionário que nos introduziu ao século XXI: como o evangelho interpela as culturas e como as culturas, por sua vez, ajudam a adquirir uma compreensão relevante e encarnada do evangelho num mundo globalizado marcado por contrastes sociais cada vez mais graves e conflitivos.

Esta Conferência foi ousada ao realizar um ato de penitência histórico e pedir perdão aos povos negros da África pelo que representou o tráfico negreiro para milhões de pessoas para cá trazidas à força nos porões dos navios negreiros, forçando-as a tornar-se braço escravo no maior e mais lucrativo sistema comercial que havia até então, isto é, o comércio de escravos/as. A Conferência assumiu também um grande compromisso: respeitar as culturas e procurar compreender sempre mais e melhor essa relação mútua entre evangelho e culturas. Afirmou com toda clareza que “o Espírito derramado no dia de Pentecostes faz de todas as culturas veículos potenciais do amor de Deus, daí que nenhuma cultura pode pretender a exclusividade de veicular o relacionamento de Deus com os seres humanos”.[5]

O ecumenismo na América Latina não tem sido um processo fácil. Sendo o catolicismo romano hegemônico desde a chegada dos povos da península ibérica, no final do século XV e início do século XVI, a vinda de protestantes sempre foi vista com grande desconfiança e até repulsa. No entanto, a realidade histórica tornou inevitável a presença de pequenas comunidades protestantes ao longo dos séculos e, mais intensamente, desde meados do século XIX. Os evangélico-luteranos já se fizeram presentes no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul desde 1823/1824 com a vinda de colonos alemães e suíços.[6] Registre-se também a vinda de anglicanos e episcopais de origem norte-americana. Mas o Brasil só foi efetivamente afetado pela presença de cristãos protestantes após 1850, quando começam a chegar missionários com a finalidade explícita de propagar a fé evangélica. Vem daí o surgimento das Igrejas Congregacional, Presbiteriana, Metodista, Batista e Episcopal. Em suma, pode-se identificar pelo menos dois tipos de protestantismo no Brasil: a) o protestantismo de imigração (luteranos, anglicanos); b) o protestantismo de missão (presbiterianos, metodistas, batistas). Desde 1910, uma novidade aparece com a chegada dos primeiros missionários de origem pentecostal, com a formação das primeiras Igrejas da Assembléia de Deus e da Congregação Cristã do Brasil. E desde a segunda metade do século XX, é notório o avanço pentecostal e, sobretudo, dos anos de 1970 para cá, o desdobramento do pentecostalismo autônomo ou neopentecostalismo, produto da era eletrônica com o uso massivo da TV.[7]

O movimento ecumênico na América Latina demorou para deslanchar. Mas sob os ares renovadores do Concílio Vaticano II, pode-se afirmar que as Conferências Episcopais de bispos católico-romanos em Medellín (1968) e Puebla (1979) serviram como sinais alentadores para as igrejas protestantes, abrindo canais de diálogo e mesmo de presença protestante. Como se sabe, desde Medellín observadores protestantes são convidados para as conferências de bispos, enquanto aqui no Brasil, a CNBB tem convidado igualmente representantes das igrejas do CONIC para participarem fraternalmente das Assembléias dos bispos em Itaici, São Paulo.

No campo protestante, as iniciativas ecumênicas vão crescendo gradativamente, desde o primeiro Congresso do Panamá, em 1916, ainda com presença minoritária de latino-americanos (menos de 20%), até as atuais Assembléias do CLAI ou os Congressos Latino-Americanos de Evangelização – CLADE do movimento evangelical, nos quais as igrejas protestantes latino-americanas e até mesmo setores das igrejas pentecostais assumem de pleno direito a busca da unidade dos diferentes no Espírito de Cristo Salvador. É importante registrar, contudo, que é apenas na segunda metade do século XX que os contatos e as articulações se firmam, principalmente a partir das CELAS – Conferências Evangélicas Latino-Americanas, a primeira delas realizada em Buenos Aires, em 1949. CELA II acontece em Humpaní, Lima, em 1961, enquanto CELA III, se reúne em 1969, novamente em Buenos Aires, já organizada pelo movimento conhecido como UNELAM – Comissão Provisória Pró-Unidade Evangélica Latino-Americana. Faz parte desta história, cheia de avanços e limitações, o registro dos movimentos leigos que contribuíram para a causa ecumênica: ULAJE – União de Juventudes Evangélicas da América Latina (1941); MEC – Movimento Estudantil Cristão, ligado à Federação Universal de Movimentos Estudantis Cristãos (FUMEC); ISAL – Igreja e Sociedade na América Latina (1961) (esta instituição desempenhou um importante papel no surgimento da Teologia da Libertação, que, como pouco se menciona, nasceu ecumênica!); ASEL – Ação Ecumênica latino-Americana (1975); MISUR – Missão Urbana na América Latina (1976) que se inseriu na COPEC – Coordenação Popular Ecumênica Continental em 1977 (México); CELADEC – Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (1962, Lima), organismo que acaba de completar 40 anos, em sua assembléia realizada em Porto Alegre, RS.

UNELAM desempenhou um importante papel para o surgimento do CLAI – Conselho Latino-Americano de Igrejas, que teve início em Oaxtepec, México em 1978, na fase organizacional e, efetivamente constituído, em 1982, em Huampaní, Lima, Peru. O CLAI representa para o protestantismo o que CELAM significa para o catolicismo romano. A constituição do CLAI foi considerada como “sinal do Reino, pois com ela se vai fazendo realidade a oração de Jesus Cristo de que sejamos um para que o mundo creia. O CLAI quer representar a unidade para a missão, que é também unidade em solidariedade para a justiça”.[8] Hoje, mais de 150 Igrejas evangélicas participam do CLAI, inclusive com participação crescente de setores pentecostais mais abertos ao ecumenismo. Em sua última Assembléia, realizada em Barranquilla, Colômbia, o CLAI debateu o tema “Livres para construir a Paz”, significativo justamente porque corajosamente escolheu este tema num país conflagrado por guerrilhas e violenta repressão das forças do Estado. No documento final, assim define sua missão no início do século XXI:

“... o CLAI é e deve ser um espaço de diálogo e interação das igrejas e comunidades de fé, animado por uma teologia profética e comprometida que denuncia a opressão social, econômica, política e de qualquer outra índole e enfocado na preeminência do amor, da paz, da justiça e da vida plena. Essa visão de profecia e anúncio deve dar-se num espírito de respeito às culturas, à diversidade, em diálogo transparente... O CLAI deve manter sua missão anunciadora da boa notícia e colaborar com suas igrejas no desenvolvimento de uma pedagogia que nos leve da retórica à ação, da erudição bíblica à função sanativa e restauradora em todos os âmbitos e experiências em que estão imersas. Nesse agir pastoral e sanativo com nossas igrejas reafirmamos o compromisso evangélico, ecumênico e profético que nos vem de Oaxtepec e Huampaní”.[9]

Na América Latina há um setor expressivo do protestantismo que fez uma caminhada diferente em termos ecumênicos. Desde o surgimento do CMI em 1948, este setor, que se alinha em torno de sociedades missionárias, igrejas livres, missões de fé e algumas igrejas pentecostais, teve muitas dificuldades para acompanhar a corrente maior do movimento ecumênico. O movimento evangelical, assim chamado pela ênfase na evangelização e na implantação de novas igrejas como objetivos maiores da missão, tem como referência a criação em 1921 do Conselho Missionário Internacional, que tinha à frente o incansável missionário norte-americano John R. Mott. Este Conselho decidiu se integrar ao CMI em 1961, mas uma parte significativa dos evangelicais não aceitaram esta incorporação, ainda que para facilitar o processo o CMI tenha criado uma Unidade específica para a tarefa evangelizadora chamada Missão e Evangelização. Assim, em 1974 estes grupos e igrejas se reuniram na Suíça e firmaram o Pacto de Lausanne, uma carta de consenso que continua válida até hoje. Na América Latina este movimento adquire relevância através dos CLADEs - Congressos Latino-Americanos de Evangelização, cujo primeiro encontro se deu Bogotá, em 1969, enquanto o CLADE IV se reuniu em Quito, no ano de 2000, sob o tema “O testemunho evangélico para o terceiro milênio: palavra, espírito e missão”. Em termos de ecumenismo, entre outras associações e organismos evangélicos, é importante destacar o surgimento e a atuação de um grupo de teólogos evangelicais que vem fazendo um esforço crescente em direção ao ecumenismo, abrindo o diálogo com setores pentecostais e mesmo católico-romanos. Refiro-me à Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL), nascida em 1969, como alternativa ao movimento de ISAL. A FTL é responsável pela contribuição evangelical a uma compreensão socialmente engajada e profética do evangelismo na América Latina.[10]

O debate em torno de missão e ecumenismo neste início de século XXI deverá assumir a diversidade como ponto de partida para sua reflexão e ação. Vivemos em tempos plurais e, simultaneamente, fragmentados por divisões, descrenças, desafetos, desesperança. Para superar nossas fraquezas, há que sentar juntos e procurar o que pode nos ajudar nesta hora de poucas luzes e desafios inadiáveis. Certamente, o pensamento, a história e a causa ecumênicas, examinadas criticamente e ainda que frágeis como a pomba da paz, poderão nos servir de fonte, estímulo e fortalecimento.

2. Desafios do contexto em que vivemos

No início dos anos de 1990, o prof. Gerhard Tiel, da Escola Superior de Teologia, fez uma interessante pesquisa por todo o Brasil a respeito do Ecumenismo na perspectiva do reino de Deus.[11] Sua questão era entender o ecumenismo de base que, normalmente, procura se diferenciar do ecumenismo institucional. Ele esclarece que o ecumenismo de base é visto pelas pessoas que dele participam desde suas práticas concretas. Por exemplo: “ecumenismo de base é quando o povo trabalha junto, luta junto por uma causa” (p. 100). Mas Tiel vai adiante afirmando que não dá para entender este tipo de ecumenismo sem sua conexão com o ecumenismo eclesiástico, das reuniões, estudos e declarações oficiais das igrejas. Um de seus entrevistados esclarece assim: “O ecumenismo de base, assim como o entendo, começa pelo conhecimento e respeito mútuo das distintas tradições eclesiais ou eclesiásticas que haja. A isso deve-se acrescentar um compromisso com a luta, uma opção pelos pobres (...) Não creio que o ecumenismo seja ‘simplesmente trabalhar com os pobres’ e nos respeitarmos. Creio que também ... é a contribuição para a vivência da fé das distintas tradições” (p. 100).

De qualquer forma, é importante encararmos como pessoas cristãs e como igrejas de Cristo a realidade em que estamos inseridos e da qual fazemos parte tanto como cidadãos e cidadãs de fé, quanto como instituições cristãs. Um evangelho que passe ao largo das situações concretas vividas por nossos povos e, especialmente, pelas maiorias empobrecidas e fragilizadas por modelos econômicos e sociais injustos, não reflete o anúncio de Jesus de Nazaré. Conseqüentemente, ao buscarmos aprofundar nossa missão em termos de uma visão aberta e ecumênica, ponto de partida é abrir os nossos olhos e corações para esta gente a quem Deus nos envia. Ou, de outro ponto de vista, em meio a esse povo que Deus nos envia como quem anuncia esperança de “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pedro 3.13).

Seguindo este raciocínio, se poderia entender o ecumenismo de forma integral. Um depoimento colhido por Tiel revela o seguinte: “Este ecumenismo, que eu chamo um ‘ecumenismo de base”, mas ao mesmo tempo um ‘ecumenismo integral’, ele não é algo fora da necessidade urgente de socorrer ou de apoiar, ou de ser solidário com os trabalhadores, ele envolve nossa situação de fé, nossa vivência de fé, nesse sentido que ele não é apenas um ecumenismo funcional” (p. 100). O depoimento é de Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás Velho. Ele se completa com um outro, do Pastor luterano, já falecido, Bertholdo Weber: “O ecumenismo que não se encarna nas bases e que não é um ecumenismo do povo e com o povo, não terá futuro. (...) O mais importante é a experiência comum da presença de Deus nas bases, entre os pobres, oprimidos, entre aqueles que sofrem, os marginalizados e discriminados. Onde o rosto de Cristo transparece nos seus ‘irmãos mais pequeninos’, é lá onde o Senhor da igreja nos espera para o servirmos em resposta ao amor com que Ele nos serviu primeiro” (p. 100).

Baseado nesses posicionamentos o autor definiu o ecumenismo de base como

“a prática comunitária de pessoas que estão comprometidas com uma libertação estrutural e que, no decorrer dessa ação comum e com base nela, fazem a experiência da uma unidade que, também em questões de fé, vai além das igrejas e independe de dogmas” (p. 101).

Tal ecumenismo – seja nas instituições, seja em grupos minoritários – vive de sinais proféticos (p. 101). Pois não pode limitar sua ação apenas a uma camada social, uma vez que a fé não se deixa prender por requisitos de classe, sexo, etnia ou qualquer outro critério. A fé é um chamado à liberdade que se traduz em libertação na vida e na história de pessoas e grupos socialmente inseridos. Em decorrência, a partir da pesquisa mencionada, o autor pode afirmar que “base” aqui não são simplesmente os “pobres”, no sentido de classe social definida a partir da condição sócio-econômica, ”mas compreende em sentido orgânico ou integral todas as pessoas comprometidas com a libertação estrutural dos oprimidos. A ecumenicidade dos grupos de base – continua ele – é fundamentada em termos formais-sócio-políticos ou então eclesiologicamente´” (p. 101). Pode-se, pois, concluir que, num ecumenismo assim entendido, a prática de libertação, a pertença à igreja e a vivência da fé no evangelho do reino fazem parte de uma só caminhada de fé, como se costuma dizer seguidamente nas comunidades de fé e vida. E este tipo de ecumenismo é bastante exigente, expressando-se amiúde em celebrações vibrantes, que dão alento às minorias comprometidas com a busca da unidade.[12]

Vivemos num tempo e numa sociedade que se caracterizam por intensa diversidade cultural, política, social. O contexto em que somos desafiados a exercer nosso testemunho comum apresenta contradições de todo tipo, sejam os desníveis provocados por pobreza e miséria das grandes maiorias populares, seja a cultura dominada pela mídia e pelos setores secularizados que detêm os meios de difusão cultural e de informações. A sociedade atual, denominada de pós-moderna por certos intelectuais, não se satisfaz com velhas fórmulas ou ritualismos. As religiões de massa se expandem devido à oferta de novos símbolos de sucesso, de respostas imediatas a problemas concretos vivenciados pelas pessoas e de um inebriante emocionalismo persuasivo que domina as celebrações cúlticas.

Isto significa que não haverá respostas fáceis no futuro, tanto na busca de um ecumenismo integral quanto na definição da missão na perspectiva do evangelho do reino. Os desdobramentos que se espera dos setores de nossas igrejas comprometidos com o ecumenismo estão a exigir uma visão ampla dos problemas humanos, uma disponibilidade ecumênica para rever axiomas teológicos e a sincera busca de nova espiritualidade que considere a pluralidade de saberes, a complexidade da sociedade pós-moderna e a abertura para o diálogo como método de debate e prática de vida. Danilo R. Streck, educador cristão, traduz este desafio afirmando que se trata hoje de “pastorear a esperança”. A partir da pedagogia da esperança de Paulo Freire, ele compreende a educação da esperança como um

“cuidar da esperança frágil, de buscar a esperança perdida, de orientar a esperança sem rumo, de esperar contra toda esperança. Como cristãos não temos nenhum atalho que nos permita um conhecimento privilegiado da modernidade ou de qualquer outra questão da realidade. Vivemos as mesmas contradições e buscas de todas as outras pessoas. Nesse sentido ... nosso testemunho – enquanto gerado em nós pelo Espírito – não se orienta pelo que ‘sabemos’, mas por quem amamos e pelo que esperamos”,

conclui, citando o teólogo metodista argentino Néstor Míguez.[13] Quem sabe tenhamos aí uma boa pista para o nosso tema: lutar por uma educação cristã e cidadã que tenha em vista o ideal ecumênico como forma de responsavelmente participarmos da missão para a qual o próprio Deus Trindade nos convoca, no evangelho e por meio de nossas igrejas.

3. Missão e ecumenismo – pluralidade e utopia

O que foi dito até aqui nos conduz ao tema central deste artigo. Missão e ecumenismo são realidades concomitantes e mutuamente condicionantes. Quase poderia dizer que uma não vive sem a outra. Se entendemos missão como participação no envio missionário de Deus, cujo fundamento é o amor divino por toda a humanidade, amor este cabalmente revelado na encarnação de Jesus de Nazaré, precisamos dar um passo adiante e desenvolver uma compreensão da vocação cristã em chave ecumênica. Por uma razão muito simples: não podemos culpar Deus por nossas divisões, fruto de circunstâncias históricas e de idiossincrasias que aqui não é possível aprofundar. E mais: o acesso a Jesus não acontece de modo direto, mas sempre por mediações históricas e visíveis: sua palavra, os sacramentos, sua igreja enviada ao mundo. É por meio desses canais que Deus fala, que o Espírito age e que Jesus está no meio de nós (Mateus 18.20; 1 Coríntios 11.23ss; Atos 2.42-47). Esta é precisamente uma característica cristã: as pessoas não se bastam a si mesmas, mas vivem e caminham em comunhão (koinonia) sob um mesmo Espírito. Como afirma o apóstolo Paulo, “ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo. Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (1 Coríntios 12.3-6). Após exemplificar uma série de dons concedidos à comunidade cristã, Paulo conclui de forma absolutamente confortadora e animadora: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas cousas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada qual, individualmente” (1 Coríntios 12.11).

A caminhada ecumênica é e será uma caminhada espiritual, entendida aqui no seu sentido prático, histórico, sem esquecer nossos pecados (infidelidades, divisões, luta por poder, maledicências, calúnias, etc) nem muito menos os clamores que nos vem das ruas, das profundezas da noite em que vive nosso povo. Muito menos nos exime de alimentar no meio do povo, que “reza, canta e ri”, a alegria, a esperança e a busca de soluções para os problemas gerados por uma sociedade injusta e, em muitos casos, perversa. Tal caminhada espiritual pode por vezes exigir carregar pesada cruz, em termos de sofrimento, perseguição e incompreensões de toda sorte. Ainda assim, há que perseguir o alvo da vocação a que fomos chamados.

Se isto for verdade, o futuro do ecumenismo está em sua capacidade de assumir o chamado de Cristo ao testemunho comum em vista do que “Deus tem preparado para o seu povo”. Tal resposta vem sendo construída ao longo das últimas décadas num novo paradigma que o teólogo reformado sul africano David J. Bosch denominou de paradigma emergente e ecumênico de missão.[14]

Bosch examina o significado do Vaticano II para o ecumenismo do século XX e faz afirmações como esta: considerando toda a história pregressa de cisões e anátemas mútuos no cristianismo ocidental, “os eventos do Vaticano II constituem quase um milagre”. Ele continua: “é inquestionável que o Vaticano II falou sobre a igreja de uma maneira muito diferente do que fora costume. LG 15 afirma categoricamente que aqueles ‘que portam o selo do batismo que os une a Cristo (...) estão, deveras, vinculados a nós, de alguma forma real, no Espírito Santo’. À luz das diretrizes de AG 15, também se tornou impossível continuar vendo cristãos não-católicos como objetos de missão”.[15]

Nessa linha, também o Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio) é, sem dúvida, o “mais importante evento isolado na história um tanto alternante do movimento ecumênico”, citando o teólogo James Crumley.[16] Este documento atesta que a divisão é um escândalo perante a humanidade, que prejudica a causa mais sagrada da igreja de Cristo, isto é, a pregação do evangelho a toda a criatura. Pois, tal divisão compromete a credibilidade desse anúncio.

No novo projeto de um diálogo de aproximação e busca de uma caminhada conjunto, o Papa João Paulo II, em 1980, afirmou ser Martinho Lutero uma “testemunha da mensagem da fé e da justificação”, assim como em dezembro de 1983 foi capaz de publicamente elogiar Lutero em visita a uma igreja luterana. Gestos como estes permitiram avanços e aprofundaram a fraternidade do que veio a se constituir, então, como o novo termo que tratou de enunciar tanto a busca da unidade quanto a missão: este conceito foi o de testemunho comum. E o impulso para este testemunho é “a consciência da comunhão com Cristo e de uns com os outros”.[17]

Lamentavelmente, esta boas conclusões, fruto do diálogo e da busca por unidade, nem sempre se revertem em práticas ou ações conjuntas. Com freqüência, tanto em níveis institucionais como nas comunidades locais é bem difícil dar passos realistas, mas concretos no caminho aberto pelos consensos e declarações de intenção acima mencionadas. Por isto mesmo, o ecumenismo em meio à pluralidade de manifestações da mesma fé e da diversidade de situações e histórias de vida, será sempre uma busca, um ideal que está posto no horizonte da fé. Não obstante, ele vai se concretizando em cada ação de testemunho comum, em cada assumir das mesmas causas, em momentos de solidariedade e de partilha dos mesmos objetivos como a luta por justiça e paz, por exemplo. Não que este processo seja unívoco e sem tensões.[18] O que cabe ressaltar aqui é este propósito e desafio de – em meio a tensões e procuras – caminhar tão juntos quanto possível, ou como afirma Paulo, “andar no Espírito” (Gálatas 5.16. 25. Cf. também Efésios 4.1-6).

Bosch defende a idéia de que, nestes tempos pós-modernos, a nossa compreensão da unidade cristã necessariamente será entendida como unidade na diversidade reconciliada, cujo centro irradiador é e só poder o Senhor Jesus Cristo. Nele, por ele e para ele convergem nossa ação, nossa vida e nossa oração. Não de modo exclusivista e fechado a outras manifestações religiosas, mas como fidelidade e serviço na busca da verdade nossa e do mundo em que vivemos e do qual participamos como pessoas e como igrejas.

Se estiver correta a apreciação que aqui faço dos desafios que temos pela frente, haverá que tirar algumas conclusões práticas como por exemplo: a) o respeito pelo outro exclui atitudes como o proselitismo doentio ou a disputa por membros a qualquer preço; b) o foco da unidade na missão do reino não será a igreja, ou as igrejas, mas o serviço à humanidade; c) a solidariedade se dá no assumir das causas humanas; d) a unidade no evangelho se expressa na oração, no estudo das Escrituras e no amor-solidariedade para com os mais pobres.[19] Estas conseqüências práticas do espírito e da causa ecumênicas acontecem não por razões de boa vontade humana, simplesmente, ainda que precisemos dela em todo momento. Mas por amor a Cristo e seu reino de paz e justiça que nos foi prometido em e com Cristo. Por isto mesmo, cabe sempre de novo confessar, quando nos encontramos, que “a perda da unidade eclesial não constitui apenas uma vexação, mas um pecado. A unidade não é um acessório opcional. Ela já é, em Cristo, um fato, algo dado. Ao mesmo tempo, é um mandamento: ‘Sejam um!’. Somos convidados a ser um como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um, e jamais deveríamos nos cansar de buscar alcançar o dia em que as pessoas cristãs, em qualquer lugar, poderão reunir-se para compartilhar o Pão Uno e o Cálice Uno. Por ora, isso parece ser apenas um relampejo escatológico em um horizonte distante”, afirma Bosch. Mas nada impede, nem mesmo alguns retrocessos dos últimos tempos,[20] que com coragem e muita fé, ousemos colocar sinais dessa unidade na diversidade, com que tanto sonhamos e pela qual oferecemos nossos dons, talentos e inteligência.[21]

4. Olhando para o futuro – novas situações, novos compromissos

A caminhada ecumênica é árdua, sim, mas é também cheia de aventura, alegria e muita esperança. Quem está nesse barco, geralmente não consegue mais abandoná-lo. Tal é a experiência profunda que o movimento e o encontro com o outro proporciona. É interessante observar como pessoas, que nunca tiveram uma oportunidade de participar em culto de outra igreja ou em algum evento ecumênico, ficam deslumbradas com a maneira diferente de se falar e expressar a mesma fé no Cristo de Deus. Às vezes, é o canto e a música que atingem as camadas profundas da experiência litúrgica, outras é a meditação da Palavra e sua concreticidade nos diferentes testemunhos de vida, outras ainda é a própria acolhida e o sentimento de unidade que se cria sob a ação do mesmo Espírito. Seja como for, não dá para falar de ecumenismo e unidade sem passar pela experiência. Evidentemente, há momentos de tensão, de controvérsia e de discordâncias. Não é possível fechar os olhos diante da realidade da divisão e seus motivos históricos. Mas ainda assim, o mandamento do amor continua a ser o motivo maior pelo qual podemos nos encontrar para construir, inspirados pela ação do próprio Deus-comunidade, a unidade do testemunho comum.

Olhando para o futuro, e com a devida cautela, penso que precisamos estar preparados para aprofundar nossa busca pela unidade. Rompendo com estilos, talvez, anacrônicos de diálogo ecumênico, buscar efetividade nessa caminhada, enfrentando problemas comuns ao nosso povo, assumindo posturas mais abertas e compreensivas, aprendendo a rezar ou orar mais e em maior disponibilidade ao Espírito da Vida, procurando com amor convencer a outros que não acreditam mais na causa ecumênica, e sobretudo, aprendendo a conviver com e a acolher no Espírito de Cristo quem quer que seja, sem discriminações, sem arrogância, sem preconceitos.

Conclusão

Procurei neste artigo alinhavar, a partir da perspectiva histórica, uma certa visão do movimento ecumênico contemporâneo, dos desafios que ele vem assumindo passo a passo e as perspectivas que se abrem neste novo século. Creio que ficou evidente – assim espero – o quanto dependemos da ação do próprio Deus para que a causa ecumênica avance. Se formos olhar para as nossas humanas forças, para nossa dificuldade em aceitar o outro diferente de nós, para nossas teimosias e fraquezas, podemos desesperar. O que pode nos dar alento e força, então?

Um pastor luterano, precocemente falecido, ativo batalhador da causa e do pensamento ecumênicos, Breno Schumann, em livro escrito a quatro mãos com seu amigo Pe. Jerônimo Jerkovic’, em 1967, assim se manifestou a propósito das perspectivas ecumênicas como as imaginava na época:

“o fato de Cristo continuar a agir, através de nossa desunião, impede e proíbe que nos acomodemos ao que aí está. Torna questionável a auto-suficiência confessional. As confissões nunca poderão ser um fim em si mesmas. Toda Igreja confessional transcende a si própria. Embora não nos seja possível viver à margem das confissões ou além delas, a dinâmica da existência cristã só nos permite, por outro lado, viver através das confissões – tendo por alvo a unidade”.[22]

E o penhor dessa unidade na diversidade das confissões e tradições é a própria Palavra viva de Deus. Aqui, quem sabe, uma palavra de Lutero possa ser útil, porque coloca de forma simples e direta o que é a Igreja e a quem ela deve ouvir. Nos Artigos de Esmascalden, Lutero, reagindo à possível convocação de um concílio pelo Papa Paulo III, afirma o seguinte: “graças a Deus, uma criança de sete anos já sabe o que é a Igreja: os santos que crêem e as ovelhas que ouvem a voz de seu Pastor”.[23] O que se deduz dessa compreensão de igreja é que – para além de qualquer definição institucional – sua realidade surge totalmente subordinada à Palavra de Jesus Cristo, Verbo Encarnado, Servidor Primeiro, nosso Senhor e Libertador! É como se disséssemos: “tudo se resume no anúncio do Evangelho confiantemente aceito pelos fiéis”. Aceitação que envolve toda uma gama de conseqüências práticas e que se faz história no amor que liberta e na luta pela justiça que não tem fim.

Que o Senhor da Igreja, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, como dizia um antigo acróstico dos primeiros cristãos, seja a nossa luz e a nossa força na busca dessa unidade na missão!

Bibliografia

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VV.AA. Culto em ação de graças pela vida e pelo testemunho de Dom Hélder Câmara. Capela da Escola Superior de Teologia (IECLB), em 28/11/1999. Revista Eclesiástica Brasileira. Vol. LXI, fasc. 241. Petrópolis, março, 2001, p. 162-174.

CITAÇÕES: --------------------------------------------------------------------------------

[1] Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. É professor de Teologia Prática e Missiologia na Escola Superior de Teologia da IECLB, em São Leopoldo, RS, e doutorando no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação da EST. Este texto foi publicado na revista Caminhando com o Itepa, do Instituto de Teologia e Pastoral de Passo Fundo/RS, ano XX, nº 71, dezembro de 2003, p. 12-31. Todo o número foi dedicado à Missiologia. Há um texto do Pe. Alexander Mello Jaeger, da Diocese de Frederico Westphalen, sobre “Mundo Urbano e Missão”.

[2] Um grupo de amigos luteranos de Dom Hélder organizaram na EST, em São Leopoldo, culto em sua memória, um ano após o seu falecimento, em novembro de 1999. Cf. Culto em ação de graças pela vida e pelo testemunho de Dom Hélder Câmara. Capela da EST, 28/11/1999. REB. Vol. LXI, fasc. 241, março 2001, Petrópolis.

[3] CONIC – CLAI. Diversidade e Comunhão. São Paulo: Paulinas, Sinodal, 1998, p. 23.

[4] Cf. Paulo SUESS. Evangelizar a partir dos projetos históricos dos outros. Ensaios de missiologia. São Paulo: Paulus, 1995, 96s.

[5] Cf. meu artigo Evangelho, missão e culturas – o desafio do século XXI, in: Christoph SCHNEIDER-HARPPRECHT (org.). Teologia prática no contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal, ASTE, 1998, p. 221ss.

[6] Cf. Martin N. DREHER. Igreja e germanidade. 2ª ed. São Leopoldo; Sinodal, EST, 2003.

[7] Cf. Antônio G. MENDONÇA e Prócoro VELASQUES FILHO. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, Ciências da Religião, 1990, esp. cap. 1, p. 11-59.

[8] Para as informações sobre o ecumenismo protestante, cf. Dafne Sabanes PLOU. Caminhos de unidade. São Leopoldo: Sinodal, CLAI, 2002.

[9] Walter ALTMANN. A trajetória do CLAI de 1988 a 2001: Indaiatuba, Concepción, Barranquilla. In: Dafne Sabanes PLOU. Op. Cit., p. 209.

[10] Como exemplo, faço referência a dois livros publicados no Brasil, mas produzidos no âmbito da FTL: Israel Belo de AZEVEDO (ed.). A missão da unidade. O debate entre evangélicos e católicos sobre a missão. Trad. Irmã Socorro do Rosal (Irmãs Franciscanas de Allegany). Belo Horizonte: Missão, 1989. Samuel ESCOBAR. Desafios da igreja na América Latina. História, estratégia e teologia de missões. Trad. Hans Udo Fuchs. Viçosa: Ultimato, 1997. Nesse livro, o autor faz uma saudável autocrítica do individualismo protestante e seu espírito competitivo que “impede a cooperação entre os evangélicos em missões” (p. 63) e, ao mesmo tempo, um elogio das comunidades eclesiais de base por sua vinculação com a Palavra do evangelho e abertura ao dinamismo do Espírito (p. 47). Para uma visão mais abrangente da teologia missionária evangelical, cf. Valdir STEUERNAGEL. A missão da igreja. Uma visão panorâmica sobre os desafios e propostas de missão para a igreja na antevéspera do terceiro milênio. Belo Horizonte: Missão, 1994. Cf. ainda Luiz LONGUINI NETO. O novo rosto da missão. Os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. Viçosa: Ultimato, 2002.

[11] Gerhard TIEL. Ecumenismo na perspectiva do reino de Deus. São Leopoldo: Sinodal, CEBI, 1998. As citações que seguem com as páginas entre parêntesis são deste livro.

[12] Um exemplo recente pude experimentar durante as celebrações do 6º Curso Ecumênico de Pastoral Popular, realizado em Passo Fundo, RS, de 01 a 04 de maio de 2003. No último dia, em torno da leitura do Evangelho de Lucas 24.13-35, que narra o encontro dos discípulos com Jesus na caminhada de Emaús, refletimos sobre a profecia da partilha do pão como sinal da sociedade nova que buscamos, sob a inspiração do reino e do Espírito do Cristo ressuscitado. A partilha do pão trouxe-nos aos mais de 250 participantes um questionamento: “Por qual ação seremos reconhecidos? Como quem anda sozinho, ou como quem age no partir do pão, na unidade, na ação?” Cf. Construindo a paz, celebrando a vida. Dignidade, Justiça, Trabalho. Revista do 6º Curso Ecumênico de Pastoral Popular. Passo Fundo, maio 2003, p. 7.

[13] Cf. Teologia prática e práticas pastorais na América Latina, in Christoph SCHNEIDER-HARPPRECHT (Org.). Op. Cit., p. 113.

[14] Cf. Missão transformadora. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2002, p. 442ss, especialmente, p. 546-557.

[15] Cf. Idem, p. 552.

[16] Cf. Idem, p. 552.

[17] Cf. Idem, p. 553.

[18] Cf. Idem, p. 555.

[19] Aqui caberia citar a proposta do Dr. Gottfried BRAKEMEIER que, entre outras, defende o “ecumenismo das causas justas”. Ele afirma que este tipo de ecumenismo é conhecido na América Latina como “ecumenismo dos movimentos populares”, que se concretiza nas lutas por promover a justiça, o direito, o bem-estar da sociedade, somando forças uns com os outros. Sua característica maior é ser um ecumenismo prático, mas movido por certo consenso em relação à ética. Contudo, em meio a práticas solidárias, não é possível esquecer a teologia. Por isto, a seu ver, ponto de partida é o acolhimento do testemunho do evangelho e sua sabedoria, que questiona consensos humanos e nos remete a ouvir qual é a vontade de Deus. Cf. Gottfried BRAKEMEIER. O imperativo ecumênico diante de pluralismo e fundamentalismo. In: Reinholdo Aloysio ULLMANN. Consecratio mundi. Festschrift em homenagem a Urbano Zilles. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 63-71.

[20] Penso, por exemplo, na nova encíclica publicada pelo Papa João Paulo II, em 2003, a Ecclesia de Eucharistia, que não reconhece nenhuma outra igreja como plenamente cristã a não ser a católica-romana. O documento suscitou reações como a de cristãos alemães, católico-romanos e protestantes, que decidiram, contra a ordem do Vaticano, celebrar juntos a eucaristia no Congresso da Igreja Ecumênica, realizado de 28/05 a 01/06/2003.

[21] Cf. Idem, p. 557. Aqui mais uma vez, a experiência dos pequenos grupos ecumênicos, dos encontros para estudo e reflexão, das celebrações que fazemos nos Assentamentos e Acampamentos dos Trabalhadores Rurais sem Terra e o próprio 6º Curso Ecumênico de Pastoral Popular são momentos privilegiados dessa utopia que vai se fazendo realidade, passo a passo. Mais uma vez aqui, vale o dito bíblico: caminhamos antes por fé e por aquilo que ouvimos do que pelo que vemos.

[22] Cf. Breno SCHUMANN. Martinho Lutero, da Reforma ao Ecumenismo. In: Breno SCHUMANN; Jerônimo JERKOVIC’. Martinho Lutero, 450 anos depois. Petrópolis: Vozes, 1967, p. 116.

[23] Citado por Breno SCHUMANN. Op. Cit.,p. 92, também para o que segue.

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