IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Rio, 13/9/2011
 

Cristo e o processo revolucionário brasileiro (Rev. Almir dos Santos)

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(*) Leia nota abaixo

Excelentíssimo Sr. Dr. Cid Sampaio, M. Digno Governador do Estado de Pernambuco. Excelentíssimo Sr. Cap. Jorge de Castro, digno representante do Comandante da 7ª Região Militar, Excelentíssimo Sr. Deputado Dr. Paulo Guerra, digno Representante da Assembleia Legislativa deste Estado, prezados companheiros, componentes desta Mesa, minhas senhoras, meus senhores.

Coube-me a honra incomparável de ser, nesta hora, o intérprete da Comissão Organizadora da 4ª Reunião de Estudos do Setor de Responsabilidade Social da Igreja da Confederação Evangélica do Brasil. E é sempre aconselhável que o orador, num auditório que lhe é estranho e para o qual também é ele totalmente estranho em grande medida, que comece por se apresentar, por dizer quem é, de onde vem e o que pretende. Apresento-me, distintos amigos e irmãos, perante vós, como um ministro do evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, como representante do nosso Deus comum, que é o soberano Senhor de todas as coisas, autor da nossa própria vida, perante o qual a nossa lealdade última se firma e se estabelece. Não ides ouvir, portanto, um técnico em economia, em problemas sociais ou relações humanas; ides ouvir alguém que sob uma perspectiva definida, a perspectiva da fé cristã, irá examinar os problemas que nos assoberbam a mente e o coração, nos dias que correm. Sou brasileiro e brasileiro da quarta geração; do lado de minha mãe há índios, caboclos, de cujo sangue me orgulho nesta hora, sentindo-o correr nas veias. Do lado de meu pai, remotamente, quem sabe, algumas gotas do sangue africano ainda hoje circulam em minhas veias.

Nesta categoria, amigos e irmãos ouvintes, de ministro do Evangelho e de brasileiro, que eu me apresento perante vós para tratar do tema proposto: Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro.

Invertamos, apenas para ordem do nosso estudo, o tema e comecemos por examinar aquilo a que chamamos o processo revolucionário brasileiro. No ano de 1954, na cidade de Evanston nos Estados Unidos tivemos o privilégio de ouvir um grande líder da Igreja Evangélica daquele país. Já naquela data, há oito anos a temática daquele orador sacro era a seguinte: “Liderança para uma Época de Revolução”. O que mais impressionava era o fato de ser este tema proposto a ouvintes dos Estados Unidos da América do Norte, país cujo padrão de vida era, e ainda o é hoje, o mais elevado que se possa imaginar, e cujos problemas são notadamente diversos daqueles enfrentados pelos sul-americanos, latino-americanos, africanos e asiáticos. Ainda me recordo nitidamente da introdução em termos candentes do orador ao seu auditório: “A revolução social é um fato no mundo de hoje. Ninguém a pode impedir. É uma coluna que caminha para a vitória e seus passos não podem ser embargados de forma alguma. Nós, americanos do norte, geralmente identificamos essa revo1ução social como comunismo, quando uma coisa nada tem a ver com a outra. Esta revolução está sendo realizada pelos povos do mundo que sofriam fome e resolveram ultrapassar este problema; que viviam nus e reconheceram o direito que têm da vestimenta e do abrigo; que viviam na miséria e concluíram não ser este estado, normal ou da vontade de Deus para a vida humana”.

É maravilhoso e extraordinário, é realmente extraordinário, que oito anos passados, um cidadão americano, um líder evangélico, fizesse estas declarações. É, portanto, lamentável, tristemente lamentável, que ainda hoje, em nosso país, existam aqueles cuja sensibilidade se choca ao ouvir as palavras: PROCESSO REVOLUCIONÁRIO E REVOLUÇÃO SOCIAL.

Que é que caracteriza amigos e irmãos meus, em linhas gerais, esse processo revolucionário ora em andamento em quase todos os países do mundo, mesmo naqueles onde perdura a estabilidade política e econômico-financeira? Analisemos o aspecto brasi1eiro. Em primeiro lugar, acredito que uma análise mais profunda da situação e da realidade brasileira apontaria como primeira característica deste processo revolucionário uma revolta generalizada do homem contra a atual situação em que vive grande parte da população. Quem já teve oportunidade de viajar pelo interior desse país e se hospedar na casa de um fazendeiro ou no casebre do colono ou conviver com o homem comum das ruas; quem já dominou léguas e léguas de poeirentos caminhos sobre o lombo de um burro e sob um sol causticante, sabe que realmente nós estamos vivendo uma situação que não é a que desejaríamos ou gostaríamos que fosse a situação brasileira.

Há dias atrás eu fazia uma palestra para depois abrir um pequeno parlamento com um grupo de operários de São Paulo no célebre Parque Industrial do ABC. Introduzindo o assunto, muitos pontos houve em que os irmãos do auditório divergiam uns dos outros, mas a certa altura eu lhes fiz uma pergunta cuja resposta surpreendeu pela unanimidade com que foi proferida. Eu perguntara apenas: “Quem aqui está satisfeito com a situação do Brasil”?

Eu gostaria de repetir a pergunta e respeitosamente começar pelo Excelentíssimo Dr. Cid Sampaio, ilustre Governador desse Estado, Sr. Dr. Paulo Guerra, digno representante da Assembléia Legislativa, e continuar até o mais humilde brasileiro deste auditório: “Quem de nós está satisfeito com a atual situação do Brasil”?

A revolução social está em andamento, e é um grito de revolta, no bom sentido, de uma população que desperta para a consciência de que a miséria não é uma situação inelutável; de que a pobreza não é um quinhão distribuído por Deus com endereço próprio a seus filhos.

A segunda característica do processo revolucionário brasileiro é a luta em que nos empenhamos para fugir ao subdesenvolvimento. De vez em quando ouço dizer que o problema prioritário do Brasil é o problema moral; e até certo ponto eu gostaria de reconhecer como verdadeira essa afirmativa. Não devemos esquecer aquela celebre doutrinação de São Tomás de Aquino aqui citada de maneira insuspeita por um pastor protestante. "Há um mínimo de condições exigidas para a prática da virtude". Reconhecia o grande doutor da Igreja Católica Apostólica Romana a existência de vidas em condições desumanas, condições tão injustas, tão negativamente inferiores que levam o homem à prática de atos catalogados em desacordo com os padrões morais vigentes na sociedade.

Eu sou adventício nesta cidade do Recife. É a segunda vez que tenho o privilégio de estar nesta bela cidade, de caminhar em suas ruas, de demorar-me sob suas árvores contemplando suas tradições. Mas vós sabeis que nesta cidade existe em verdade um tremendo problema de ordem moral e que este problema é a decorrência legítima do subdesenvolvimento em que nos encontramos, da falta de recursos materiais para atender economicamente às vastas áreas da nossa população.

Uma terceira característica do Processo Revolucionário Brasileiro é sem dúvida alguma a afirmação que o Brasil, como nação, está querendo fazer de sua própria personalidade. Há duas palavras, meus amigos, que eu gostaria de lembrar nesta altura: AUTODETERMINAÇÃO E NACIONALISMO. Eu sei que são palavras passíveis de servirem de bandeira a fins mais impróprios; eu sei que a palavra nacionalismo muitas vezes tem abrigado sentimentos de fins inconfessáveis. Mas nesse momento quando falamos em nacionalismo, e autodeterminação, que-remos realmente, e de fato, afirmar a nossa independência de pensamento, de diretrizes, de maneira de agir, em meio às demais nações do mundo. Nesse momento nós queremos ser senhores de nossos destinos.
Não queremos permitir que ninguém diga como nós devemos andar. Se isto é pecado, amigos e irmãos, todas as nações do mundo estão em pecado. E nenhuma delas teria realmente a ousadia de moralmente nos atirar a primeira pedra. Chegou o momento em que nós brasileiros sentimos na consciência todo o nosso dever. Queremos escrever a nossa história com o nosso próprio papel.

Queremos ser BRASILEIROS. Conduzir os destinos da nossa pátria como melhor nos aprouver. Se errarmos, não seremos os primeiros. No entanto se acertarmos aí estará a recompensa pela vitória.

Mas, que teria Cristo a ver com tudo isto? Eu me reporto a esta altura a um texto da palavra de Deus, caríssimos irmãos e amigos, que parece revelar a preocupação de Jesus Cristo com alguns dos problemas que nós brasileiros hoje enfrentamos. Diz o texto: “E indo Ele para Nazaré onde fora criado, entrou num sábado na Sinagoga segundo seu costume, e levantou-se para ler e lhe deram então o livro da profecia de Isaías, e abrindo o livro achou o lugar onde estava escrito. O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar aos pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e restaurar a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro devolveu-o aos escribas e sentou-se. E todos na Sinagoga tinham os olhos fitos Nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir”.

Alguns exegetas têm cognominado este texto, Lc. 4.16-21 e mais especificamente o versículo 18, como sendo o programa social de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Examinando rapidamente este programa concluímos: O primeiro ponto do programa de Jesus foi este que o Espírito do Senhor estava sobre Ele para anunciar as boas novas aos pobres. Alguém disse que quando nós não sabemos o que fazer com um texto bíblico que nos atrapalha, damos um sentido espiritual e passamos adiante. É o que barbaramente se tem feito com este texto tomando a palavra: pobres, aqui no seu sentido espiritual mais puro, e escapando numa fuga tremenda da realidade que a própria vida de Jesus e o resto do seu ensino nos trazem como documentação para interpretação deste texto: “O ESPÍRITO DO SENHOR ESTA SOBRE MIM PORQUE ELE ME ENVIOU A APREGOAR AS BOAS NOVAS AOS POBRES”..., ISTO É, AOS ECONOMICAMENTE DESERDADOS, mas, realmente, quais seriam estas “boas novas?” Deveriam eles tornarem-se contentes com a sua pobreza? É esta de fato a interpretação nossa? O que não aceitam de forma alguma, ou seja, a pecha (1) de que a religião seria um mero ópio – muito embora essa interpretação seja corrente em muito tipo de religião que conhecemos! – não estaria aí corroborada? Deveríamos nós admitir comodamente que os nossos irmãos estariam apenas contentes com a sua pobreza? Ofereceria Jesus apenas uma recompensa, em outro mundo como tributo a alguém que vivesse economicamente desertado aqui na terra?

Se isto fosse verdade, amigos e irmãos, o evangelho e a religião não teriam a menor relação com as nossas atividades humanas, nossos problemas, nossas necessidades. A única boa nova para o pobre é a de que a pobreza vai acabar. Porque a pobreza amigos, não é da vontade de Deus, a pobreza é da vontade do homem. Tecnicamente, hoje está provado que temos recursos para acabar com a pobreza do mundo. Precisamos aceitar a implicação moral deste ato e deste fato para realizar meus irmãos, esta primeira parte do programa de Jesus Cristo, anunciando aos pobres que a sua pobreza terá fim, que a sua pobreza há de acabar, que a sua pobreza pode e deve ser abolida.

É curioso que a maioria das pessoas que entoam loas (2) à pobreza não são pobres: a maioria das pessoas que fazem uma espécie de elogio à pobreza está realmente numa situação privilegiada; são realizadas na sua vida.

No segundo item do seu programa, Jesus diz que veio para proclamar libertação aos cativos, isto é, libertar os deserdados da ordem política e social.

Ninguém nega que em nosso país e em grande parte do mundo de hoje, existe um verdadeiro cativeiro. O homem explora o seu próximo e usa-o para os seus próprios fins. O programa de Jesus viria determinar o extermínio de toda exploração e faria do homem um fim em si mesmo. Esta é a doutrina pura e sã do evangelho, o homem não é um meio, não pode ser transformado num meio. Ele é um fim em si mesmo porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Um grande existencialista judeu e aqui devo explicar aos desavisados, que não existe apenas o existencialismo materialista e ateu de Jean Paul Sartre. Existe também um existencialismo cristão, um existencialismo católico, um existencialismo protestante e um existencialismo judeu - Martin Buber disse não ser possível analisar o homem na relação EU-ISTO, mas sempre na relação EU-TU, porque são duas personalidades. A relação EU-ISTO é a relação eu e alguma coisa, uma garrafa, um copo, uma cadeira, mas a criatura humana, por ser humana não poderia jamais ser tratada nesta relação.

Agora já se pode falar um pouco mais alto no Brasil a respeito da África. Antes, há bem pouco tempo isto não era possível. Um cidadão em visita àquele continente não faz muito tempo, homem respeitável, assistiu um quadro estarrecedor para o século em que vivermos. Negros amarrados pelo pescoço, a passar tijolos, um para o outro; e aquilo era o que se considerava TRABALHO LIVRE na Angola do senhor Oliveira Salazar. Mas nós não precisamos sair das nossas fronteiras para encontrar os sinais da escravidão do homem pelo homem, da exploração do homem pelo homem. Jesus Cristo veio para proclamar liberdade aos cativos, para fazer quebrar os grilhões do escravo, para libertar o homem e despertar nele novamente aquela glória e aquela grandeza que é realmente a imagem e semelhança de DEUS.

Não importa a cor de sua pele, não importa a casa onde ele more, não importa o grau de cultura que ele tenha, ou a sua fortuna, pelo simples fato de ser ele criatura de Deus e redimido por Jesus Cristo Nosso Senhor, o homem é de valor infinito. É interessante observar que a sofisticação de nossa sociedade criou quadros como este: Se chega à nossa porta um cidadão bem vestido, de gravata, colarinho engomado, nosso filho o atende e volta correndo, “mamãe tem um senhor aí em nossa porta”. Mas se, se trata de um mendigo esfarrapado que veio pedir esmola ele simplesmente diz, “mamãe, tem um homem aí na porta”. E não é só a troca de palavras, mas a própria entonação da sua voz nos dá um sentido pejorativo a esta distinção que a ingênua criança, que se vai desenvolvendo para a vida, começa a fazer para classificar os indivíduos.
O terceiro ponto no programa de Jesus é a sua vinda para restaurar a vista aos cegos. Jesus veio, portanto, para trazer também uma nova ordem para aqueles que estão civicamente deserdados. Alguém declarou, e esta afirmativa não se modificou muito, que o Brasil é um grande hospital.

Visitei na cidade do Recife um estabelecimento que merece toda a nossa simpatia, todo o nosso apoio e toda a nossa admiração, a Casa da Criança. E ali pude ver em pequenas camas tipo maca, crianças desidratadas e subnutridas recebendo os recursos que a medicina pode dar e os recursos que os poderes públicos podem oferecer para ver se ainda se salva da morte prematura um punhadinho de irmãos nossos; e perguntei para a enfermeira: “Duas numa cama?” E ela respondeu: “O Sr. veio aqui num dia que está mais folgado; há dias aqui de ter três”. Amigos, certa vez em Minas, eu deveria fazer, como pastor, o ofício fúnebre de um enterro: morrera uma criança. Daí a uma semana morreu outra; daí a 15 dias morreu outra na mesma família. Na primeira vez eu procurei confortar aquela família dizendo que era a vontade de Deus. Mas da terceira vez eu não disse isto. Passei uma exortação na família e falei sobre as condições em que viviam os colonos do fazendeiro em cuja fazendo aquilo estava se verificando dia a dia. Mais tarde o fazendeiro veio me dizer: “Reverendo, quando morrer gente aqui na minha fazenda, eu não chamo mais o senhor, porque o senhor não conforta, o senhor ainda traz mais amarguras pra gente”. E eu respondi: “Meu irmão, o senhor não precisa de conforto, o senhor precisa é de outra coisa que eu não posso lhe dar”. Este quadro de miséria, de enfermidades, da falta de recursos que nos estão ceifando milhares de vidas é a verdade inegável diante dos nossos olhos. E Jesus disse que ele veio para trazer libertação aos cegos; apenas uma enfermidade ele tomou como símbolo para esse fenômeno das enfermidades que ceifam. Jesus Cristo também veio para por em liberdade os oprimidos.

Os três primeiros itens do programa de Jesus se referem aos aspectos da vida material, econômico e social. O quarto se refere ao aspecto da vida moral e reconhecemos, meus irmãos, porque não somos materialistas, que mesmo quando a criatura tenha tudo quelhe for necessário, tenha satisfeito as suas necessidades econômicas, sociais, políticas, ainda assim ela não estará totalmente curada, porque aqui está uma barreira que não pode ser transposta por um sociólogo, um economista, ou um político; é o fato do pecado que está de maneira quase indissolúvel arraigado à natureza humana. E se Jesus Cristo viesse apenas para libertar o homem do plano horizontal das coisas materiais, faria apenas uma das partes do programa que deve ser feito. E qualquer programa, hoje, que se esqueça da realidade do pecado na vida do homem, e da sociedade, porque a sociedade também é pecadora, estaria alienado dos problemas deste mesmo homem ou desta mesma sociedade.

Em certo país da Europa, um menino de boa família matou sua companheirinha. Ele tinha 15 anos e a garota 14. Levado ao tribunal o juiz recomendou um reformatório, e despachou o seguinte laudo na sentença: “Este menino não é o único responsável pelo crime que praticou. A sua comunidade é igualmente culpada”.

Qual o tratamento, meus irmãos e meus amigos, que estamos dispensando à nossa infância? Qual objetivamente a nossa atitude frente a esta realidade do pecado humano? A resposta está no poder do evangelho de Jesus Cristo, que regenera e coloca o homem ao alcance do poder de Deus e torna o homem absolutamente curado pela graça salvadora de Deus em Cristo.

O último item do programa de Jesus anuncia que Ele veio para apregoar o ano aceitável do Senhor. Se lermos Lv 25:10-11, encontraremos a base da interpretação de que era este o ano aceitável do Senhor a que Jesus se referia. Jesus tomou uma festividade comum do seu povo, o povo judeu, para lhes dar uma interpretação de alcance universal. Em Levítico o Senhor diz aos Israelitas: “O ano quinquagésimo vos será jubileu; não semeareis, não segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele colhereis as uvas das vinhas, nem as serão podadas”.

Fazendo uma pequena digressão sobre o Direito Social Judaico, veremos a existência naquele código de leis de uma trilogia maravilhosa que se fosse aplicada hoje, como convém, certamente resolveria muitos problemas. Havia em primeiro lugar os sábados, o dia do descanso: de sete em sete dias, um dia para descanso, norma que garantia ao homem trabalhador a liberdade do espírito. Esta é a função dos sábados. Antigamente na nossa pátria, nós tínhamos o domingo como dia santo. Nas grandes cidades hoje, imitando as grandes cidades da Inglaterra, nós estamos com o chamado “weekend”, o fim de semana, unindo o sábado ao domingo, não para o descanso do espírito, mas, às vezes, para as mais terríveis profanações. E ainda hoje em nossa sociedade este primeiro ponto da trilogia do direito social judaico não é respeitado, muitas vezes. Tenho conversado com alguns cren-tes da minha Igreja Evangélica. A dona de casa não pode deixar de ir a Igreja no domingo, mas a sua empregada tem que ficar em casa fazendo o almoço, o jantar, limpando a cozinha, cuidando da casa para a família. Bem, ela não é personalidade humana, ela não é filha de Deus, ela não tem qualidades a cultivar, ela não tem alma para salvar; se lhe sobra tempo, que vá à Igreja fazer o seu culto, caso contrário, primeiro a obrigação depois a devoção. Não estou inventando histórias, amigos, estou contando realidades, realidades que eu e vós conhecemos abundantemente em nossa sociedade que se diz cristã, nossa civilização que se diz cristã, mas que de cristã só tem o nome.

Havia outro item neste Direito Social Judaico que alguns chamam Setenás. Este tópico mostrava que de sete em sete anos o judeu não cultivava a terra; deixava a terra em descanso e o produto espontâneo naquele ano seria para os pobres, o proprietário não o recolheria. Esta era uma maneira de prevenir o homem da escravidão e da miséria. Esta interrupção do contrato de trabalho livrava o homem da opressão e dava ao trabalhador maior independência pessoal. Quando nós nos orgulhamos das atuais leis trabalhistas pensamos que se trata de conquistas da civilização moderna. Leiam a Bíblia, os que têm olhos para ver e encontrarão ali princípios fundamentais estabelecidos pelo próprio Deus através da vida do povo de Israel, do povo eleito.

Mas o ponto importante é o que se acha contido na expressão de Jesus “apregoar o ano aceitável do Senhor” – o ano do Jubileu. De 50 em 50 anos, acontecia um fenômeno curioso. Todas as propriedades voltavam aos seus primitivos possuidores; era uma redistribuição total das terras, segundo está aqui neste capitulo 25 de Levíticos; e um comentário que li referente a este dispositivo do Direito Social Judaico explicava ser ele o preventivo que não permitia fossem as famílias e seus patrimônios, extorquidos para sempre ou absorvidos e devorados pelos mais poderosos. Não sei se devo falar de Reforma Agrária, eu não entendo disso, mas, creio que há aqui alguma coisa parecida. Tais dispositivos do Direito Social Judaico proclamavam as condições essenciais da sociedade: a liberdade, a fraternidade, a igualdade moral de todos, de sorte que assim fosse assegurado o BEM COMUM, e faço questão de frisar a expressão Bem Comum que não passará de uma mera abstração ou de uma tabuleta política senão for a soma de todos os bens particulares.

Eis, portanto, meus irmãos, o programa de Jesus. Mas, onde está a fundamentação deste mesmo programa, onde Jesus o teria buscado? A resposta está em Isaías 61:1-3. Ocorre que o texto de lsaías foi um pouco além das palavras de Jesus. O texto de Isaías anuncia também o ano da vingança de Senhor, o dia da vingança do Nosso Deus. Cristo deteve-se onde deveria se deter, e onde nós queremos que tudo se detenha e onde nós gostaríamos que tudo terminasse; realmente o programa traçado por Jesus tem o seu feliz epílogo na anunciação do Ano Aceitável do Senhor, no ano em que todos os homens fossem participantes dos bens criados abundantemente por Deus para a satisfação das nossas necessidades. Que é, entretanto, o dia da vingança do Senhor? É a sanção da justiça divina às injustiças humanas.

Para terminar eu gostaria de dizer que diante do Brasil de hoje há um dilema, um dilema terrível do qual eu gostaria de escapar. O dilema que eu gostaria de não vos anunciar nesta hora, meus irmãos e amigos brasileiros. O dilema de escolher entre o ano aceitável do Senhor ou o dia da vingança do nosso Deus. O dia em que a sua justiça há de ser estabelecida sobre as injustiças humanas. O presidente Kennedy interpretou de maneira muito clara este texto, se bem que talvez não o tivesse em mente: “Aqueles que se rebelam contra a revolução pacífica da justiça serão responsáveis amanhã pela revolução injusta que pode vir”. Cristo tem uma resposta. Cristo tem um programa; mas o programa só não chega. Jesus traçou os pontos do programa e deu a dinâmica para a realização deste programa.

“O Espírito do Senhor está sobre mim” em nome de quem, com que poder, com que autoridade este programa será realizado? Há aqueles, meus irmãos, que querem aceitar o programa sem a dinâmica, sem o poder, e há os que querem aceitar o poder sem o programa. Este é o dilema do Cristianismo contemporâneo, especialmente em nossa pátria. Entendo que o plano sem o poder, sem a dinâmica é mera ficção e que o poder sem o plano é uma simples unidade. É preciso unir ambos, isto é, o programa de Jesus e o poder do Espírito Santo de Deus, para realizarmos esta revolução de Jesus Cristo, e anunciar à pátria brasileira o ANO ACEITÁVEL DO SENHOR.


CITAÇÕES:
(1) Desfeito, falha, imperfeição.
(2) Cantigas populares em honra dos santos

(*) Discurso proferido na abertura da Conferência do Nordeste, promovido pelo Setor de Respónsabilidade Social da Igreja, órgão da Confederação Evangélica do Brasil, na cidade de Refice, PE, em julho de 1962. Almir dos Santos era um pastor metodista que, naquela ocasião, respondia pela presidência desse Setor e mais tarde tornou-se Bispo da Igreja Metodista na I Região Eclesiástica da Igreja Metodista, que corresponde ao Estado do Rio de Janeiro.


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OBS: Texto extraído das páginas 1 a 12, do livro CRISTO E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO, livro Volume 2, resultado da Conferência do Nordeste, promovida em julho de 1962 pelo setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil -CEB.

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