IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902


Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Profetismo
Rio, 14/9/2011
 

Os profetas em épocas de transformações políticas e sociais (Rev. Joaquim Beato)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

QUEM SÃO “OS PROFETAS”?
Duas coisas devem ficar definidas desde já, neste começo de conversa: quem são “os profetas” e o que eram os profetas? Dizer quem são, para nós, os profetas, não é muito difícil, mesmo porque se trata de uma escolha que poderia ser feita arbitrariamente. Ao dizermos, porém, o que “os profetas” são para nós, os profetas hebreus, não estamos de modo algum fazendo uma escolha arbitrária, pois que na história das religiões, embora o fenômeno do profetismo não seja exclusivamente israelita, não há nada que se possa comparar, nem de longe à obra deles. Os profetas de Israel não constituem somente o movimento de mais alto valor espiritual que jamais eclodiu no seio das religiões semíticas; nem somente a fase mais criadora e normativa da religião de Israel. Embora não tendo sido os originadores da religião do Antigo Testamento, foram eles que, aprofundando à luz de novas situações, o conteúdo da revelação universal, forneceram a linha principal pela qual o cristianismo se insere na corrente central da tradição judaico-israelita; e é deles pela mediação do cristianismo que recebemos o conceito de unidade e propósito na História, e a interpretação da História do povo de Deus como âmbito e meio especifico da revelação divina.

QUE ERAM OS PROFETAS
Dizer o que eram os profetas não é tão simples, por causa de uma persistente distorção, que nossos dicionários na sua maioria, ajudam a perpetuar e difundir. Na acepção popular, profecia é, antes de tudo, “predição de futuro” e profeta é “aquele que prediz o futuro”. Embora reconhecendo, que a palavra grega usada na LEX para designar os profetas verdadeiros possa prestar-se a tal equívoco, e que a etimologia da palavra hebraica ainda constitui um enigma para os especialistas, certas passagens bíblicas (Ex 4:15-16; Ex 7:1; Amós 3:7-8) deixam claro que os profetas eram concebidos e se concebiam a si mesmos como porta-vozes de Deus, e como aqueles que, de posse do segredo do Senhor, eram os únicos capazes de perceber o sentido íntimo dos acontecimentos da história do povo de Deus, e os únicos chamados para proclamá-lo a seus contemporâneos. Graças à interpretação profética, as crises da história de Israel foram compreendidas como atos do Deus que age em juízo e em misericórdia contra o seu povo e pelo Seu povo (Am 3:1-2; Am 5:6-11; Os 11:1-9): "Ouvi a palavra do Senhor. Ouvi a palavra que o Senhor fala contra vós outros, filhos de Israel, contra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: “...De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”. Daí ser impossível uma boa inteligência da mensagem dos profetas sem um razoável conhecimento da situação histórica que lhe serve de fundo.

Que a predição não era, portanto, o elemento fundamental da profecia, mas que o era a proclamação da verdade religiosa, pode-se ver de passagens como Dt. 13: 1-3; 18: 21,22. Elas mostram que o cumprimento da predição de um profeta não seria suficiente para demonstrá-lo falso. Por outro lado, essas passagens demonstram que a predição tinha de referir-se ao futuro imediato, pois o que se estava tentando resolver era como os contemporâneos do profeta, aqueles que o ouviam, podiam saber se ele fora ou não enviado por Deus (Dt 18:21).

A predição aparece só nos oráculos proféticos de ameaça ou promessa. É evidente que, pôr força, ambas têm de estar associadas com a situação histórica em que se encontram os profetas e seus ouvintes. A ameaça segue-se, normalmente, a acusação e a promessa, a exortação. A predição contida na ameaça ou na promessa constitui um apelo ao arrependimento, que pode obstar o cumprimento da ameaça e é necessário ao cumprimento da promessa.

O monoteísmo é menos importante no Antigo Testamento do que o fato de que foi Yahweh que tirou Israel da casa do Egito e, por isto, Israel deve amá-lo com todas as veras d'alma (Dt 6:4-5) e, demonstrar esse amor na mais completa obediência (Ex 28:1-17). Que ninguém se escandalize, pois em o Novo Testamento se vê, também, a mesma coisa. Não é o monoteísmo que faz o cristão, mas o confessar a Jesus como Senhor (Rm 10:9; Jo 1:14; Jo 20:31; At 8:36-37; 2Co 5:19; Fp 2:9-11; 2Tm. 2.5-6). É possível ser monoteísta sem ser cristão, como era possível ser israelita fiel sem ser monoteísta teórico. O que não era possível ao verdadeiro israelita era não amar e servir exclusivamente a Yahweh. Esse fora o Deus que amara Israel, quando ele era menino, e chamara seu filho do Egito. A fé em Yahweh era por isso, um extremo amor, um interesse vital, uma dedicação total, que se nutrira da memória de seus feitos gloriosos de poder e graça na história de seu povo.

A FÉ QUE O PROFETA COMPARTILHA COM SUA GENTE
Essa fé que transfigurava a história de Israel e a transformava na manifestação do propósito de Deus, o profeta a compartilhava com seu povo. Sua origem vinha de Moisés. Embora, tirando dela conclusões inteiramente diversas a tantas vezes opostas às do vulgo, ele, o profeta, não deixaria de recitar com o adorador comum esta confissão que alguém denominou “O coração do Pentateuco”, a saber, Dt. 6.20-24; Js. 24: 2-13. Assim, pois mesmo divergindo tão radicalmente, muitas vezes da mentalidade e da atitude do povo em certos momentos cruciais era de dentro de um patrimônio comum de fé e de experiência, de teologia e de história que o profeta apelava para seus contemporâneos israelitas; e era em nome de seu Deus e do melhor de sua herança cultural que lhes apelava. Os profetas eram, pois, verdadeiros homens de Israel.

OS PROFETAS NAS CRISES POLÍTICAS
Crendo que nos acontecimentos históricos se revelara a intenção, o propósito de Deus para com seu povo, os profetas não se limitavam a interpretar esses acontecimentos.
Procuravam influir neles por todos os meios. Dispunham-se a imiscuir-se até mesmo na política, não por despeito de serem líderes religiosos, mas pelo fato mesmo de que o eram, e procuravam influir não só pela palavra, mas também pela ação.
Aliás, o movimento profético em Israel estava associado com a política desde seu nascimento. A primeira referência a um bando de profetas aparece em relação com a ameaça dos filisteus, ameaça tão séria que exigiu o estabelecimento da monarquia. Bandos de profetas, com os quais Saul encontraria no dia de sua escolha (lSm 10: 5-13), empenhavam-se em despertar o fervor patriótico do povo e incitá-lo a empenhar-se numa guerra santa contra os filisteus. E foi Samuel, o profeta-juiz, que ungiu os dois primeiros reis de Israel em resposta a essa necessidade.

A estrutura política de Israel era, até então, simples. Israel era uma confederação de tribos-livres com um culto comum e um santuário central. Nas horas de emergência, as tribos eram convocadas para a ação em nome do Deus do pacto. Essa estrutura que resistira bem enquanto os adversários a enfrentar foram as tribos do deserto ao sul e da Transjordânia, e de príncipes canaanitas, diante dos filisteus demonstrava-se inadequada. Não havia uma autoridade central permanente. Nas horas de crise a resposta das tribos independentes à convocação de Yahweh dependia da fidelidade delas ao pacto (Jz 5:16-17 e 23). E era natural que quanto mais distantes geograficamente do epicentro da perturbação tanto menos interessadas se demonstrassem em atender ao apelo e ao chamado à guerra santa.
O teste final da confederação de tribos foi a invasão dos filisteus. Estes eram parte do que os egípcios denominavam “povos do mar”. Vinham das ilhas do Mar Egeu. Inundaram a Grécia e destruíram na Ásia Menor, o Império Hitita; atacaram o Egito, pela Líbia e por mar. Repelidos, um grupo deles, conhecido como “filisteus”, enquistou-se no litoral sul de Canaã, pouco depois de 1.200 A.C. de onde começou a tentar conquistar a terra.

Culturalmente superiores, os filisteus mantinham, além disso, ciumento monopólio do uso do ferro, o que lhes garantia supremacia militar incontestável (lSm 13:19-22). Foi, pois nesta séria emergência que se estabeleceu a monarquia. Isto é, a antiga estrutura simples da federação de tribos livres deu lugar a uma forma de governo mais centralizada e a liderança passou dos carismáticos para uma dinastia, ficando com o profeta a função de porta-voz daquelas coisas da antiga ordem carismática que deviam ser preservadas em a nova, para conservação do caráter específico de Israel como povo de Yahweh. Entre essas coisas a mais importante, talvez, era a idéia expressa por Gideão (Jz 8:23) que rejeitou o reino dizendo: “Yahweh será o vosso Rei”. A ideia de Yahweh como rei de Israel é uma idéia central; que vem desde os tempos da Anfictionia (1) . O rei só seria aceito como ungido de Yahweh, cuja voz ele, deveria obedecer e o alçançaria por mediação do profeta. Por ocasião da morte de Saul, o perigo filisteu não fora conjurado; ao contrário, seu domínio separava de novo, o norte do centro e sul da Canaã, visto como mataram Saul no Monte Gilboa dominavam a cidade de Betsehem no vale do Jordão.

Coube a Davi submeter os filisteus e estabelecer um governo central forte. Davi concluiu também a conquista de Canaã e submeteu os arameus, amonitas, moabitas, edomitas e amalequitas. Pela primeira vez, a Palestina foi unificada, e os israelitas passaram a desfrutar um nível mais alto de vida propiciado pela revolução econômica resultante da introdução do ferro no uso popular. Nós passamos nesse período em 1.200, da idade do bronze para a idade do ferro. E foi a vitoria sobre os Filisteus que tornou fácil o uso popular do ferro, cujo monopólio os Filisteus mantinham para seu domínio militar sobre Israel.

NATÃ
No fim do reinado de Davi, em 961 A.C, coube ao profeta Natã uma importante parte nas maquinações que levaram Salomão ao trono (e realmente foram intrigas palacianas que levaram Salomão ao trono) (1Rs 1:11-31)
Mas ao fim do reinado de Salomão, coube a outro profeta insuflar a divisão do reino, restando à dinastia davídica somente o domínio sobre Judá (1Rs 11:28-12.24). Um profeta que lutava contra a ordem política em nome de Yahweh.

AIAS SILONITA
Salomão tornara-se monarca no estilo luxuoso e despótico, tão comum ao Oriente Próximo, mas tão contrário à maneira de vida de Israel. Estabelecera uma corte faustosa, um imenso harém, e dividira seu reino em distritos fiscais. O objetivo desta última medida era sem dúvida, centralizar o poder na coroa, substituindo o velho sistema tribal pelos distritos administrativos, que alteravam deliberadamente os limites de metade dos antigos territórios tribais. Acrescente-se a isso seu programa de trabalho forçado (1Rs 5:13-18). Embora os povos conquistados fornecessem certamente muitos milhares de escravos para execução do programa de construções de Salomão, o texto nos informa que cerca de 30.000 israelitas eram obrigados a trabalhar de graça para o rei um mês em cada três. Havia ainda, oitenta mil nas pedreiras e setenta mil que levavam as cargas. Eram aproximadamente, portanto, 180.000 homens israelitas, talvez um décimo da população do tempo de Salomão, o que corresponderia hoje (1962 D.C.), entre nós a 7.000.000 de brasileiros em trabalho escravo para o Estado. O aviso de Samuel tornara-se realidade (1Sm 8:10-18). Um rei como os monarcas orientais, limitaria drasticamente a liberdade do povo, secularizaria seu modo de ser, e solaparia os próprios fundamentos da comunidade pactual. Por meio da ação de Aia, o silonita, o Deus de Israel se fez conhecido nos acontecimentos políticos que abalaram os próprios alicerces do reino que Salomão procurara construir a tão alto preço.

ELIAS, ELISEU
Do fim do reinado de Salomão e da divisão do reino, em 922 A. C., demos um salto quase de um século, e vamos ao tempo do reinado de Acabe sobre Israel (869 a 850 A. C.).
Acabe era filho de Onri, o “Davi” do Reino do norte. Onri conseguira o que nenhum dos reis de Israel fizera antes dele, isto é, estabelecer uma dinastia. Foi ele que construiu Samaria num local estratégico. Fez paz com Judá e estabeleceu a política de boa vizinhança com os Fenícios casando seu filho Acabe com a filha de Itobaal, rei do Tiro, a tristemente famosa Jezabel. Os registros assírios, muitos anos depois de sua morte, referiam-se ao reino do norte como “a terra da casa de Onri”, e dos reis de Israel como “filhos de Onri”. A aliança com os Fenícios, selada como o casamento de Acabe com Jezabel, não poderia deixar de ter consequências desfavoráveis para o Javismo (a religião de Israel). Toda gente conhece a luta de Elias contra Jezabel e os profetas de Baal e de Azerá, de modo que não é preciso repetir que realmente foi um período de crise para o Javismo, esse período de prosperidade econômica no tempo de Acabe. Por isso, vemos a atividade dos profetas Elias, Eliseu e outros, insuflando os ânimos e preparando a derrubada da dinastia onrita (1Rs 19:15-17; 2Rs 8:7-15; 2Rs 9:10). Este golpe de Estado promovido pela iniciativa dos profetas afetou o reino vizinho da Síria (2Rs 8:7-15), e o reino irmão de Judá (2Rs 9: 27-29; 2Rs 11:1-16). Suas conseqüências políticas não foram boas para Israel como se poderá ver no século seguinte; e sua violência foi condenada por Oséias, um século depois (Os 1:3-5). Mas os profetas do século IX, no reino do Norte, tomaram ativamente a iniciativa de produzi-lo.

ISAÍAS, DE JERUSALÉM
Como a fé profética pode tornar-se atuante nas crises políticas pode-se ainda ver melhor, talvez, na carreira de Isaias, de Jerusalém. Em diversas ocasiões este profeta teve de aconselhar reis em Judá quanto ao curso que devia ser dado à política internacional do reino. A primeira foi a crise siro-efraimita. Em 738 A.C. Menaém, rei de Israel, e Rezim, rei de Damasco, pagaram tributo à Tiglate-Pileser, rei assírio, reconhecendo sua soberania. Mas essa capitulação, embora tivesse firmado nas mãos de Menaém e de seu filho Pecaias, o trono de Israel, era grandemente impopular, e isto devido ao fato de que o tributo era levantado por meio de pesados impostos sobre os ricos.

Esta impopularidade da política de Menaém e de seu filho facilitou a revolução chefiada por Pecá, que assassinou Pecaias em 737 A. C. Pouco depois, enquanto a Assíria estava envolvida com inimigos do Norte, Pecá e Rezim de Damasco tentaram formar uma coligação antiassíria nos moldes de uma que fôra bem sucedida no século anterior, e que enfrentara Salmanasar III, em 853 A.C., em Qargar, com bom êxito. Pecá e Rezim, em 733-732 investiram contra Jerusalém, ou para forçarem Acaz, rei de Judá, a entrar na aliança, ou para colocarem um títere em seu lugar (Is 7:6). O coração de Acaz e de todo o povo tremeu de medo (Is 7:2). Aterrorizado, o rei queimou seu filho em sacrifício (2Rs 16:3), esperando com esse rito pagão conjurar a ira divina (cf. 2Rs 3:26-27). Nessa situação desesperada, Acaz só via duas alternativas: a derrota diante dos invasores ou um pedido de socorro a uma grande potência. Isso o levava a inspecionar o suprimento d’água da cidade, essencial no caso de Jerusalém ter de resistir a um assédio, a um cerco militar. Nesse momento crítico, Isaías vai a seu encontro com a mensagem necessária e relevante para a hora (Is 7:3-9). O caminho é abandonar alianças humanas e depositar inteira confiança em Yahweh (Is 3:9). Tal fé exige completo e inabalável devotamento a Deus na confiança de que ele é o verdadeiro Rei (Is 28:16; Is 30:15). É esta atitude que Martin Buber intitulou “Teopolítica”. Sua aceitação cancelaria o plano de Acaz de apelar para a Assíria em favor de Judá. Yahweh subverteria a aliança siro-efraimita. Acaz, porém não podia crer nisso. Apelou para Tiglate-Pileser, com imensos prejuízos para Judá (2Rs 16:7-13; Sf 1:45; Ez 8:15-16; Jr 44:15-20).

Em duas ocasiões teve Isaías de aconselhar Ezequias que se afastasse de coligações. Ezequias subira ao trono em 715 A.C. e empreendera grande reforma religiosa. Assim como as alianças políticas envolviam o reconhecimento das religiões ou das divindades nacionais dos aliados, as reformas religiosas com sua ênfase num culto exclusivo e depurado de Yahweh tinham implicações políticas, nacionalistas e libertárias.
Que Ezequias era governante politicamente enérgico pode se ver no fato de ter garantido o suprimento d’água a Jerusalém, que constituiu um problema para o seu antecessor, construindo o túnel de Siloé, de uns 590 metros, escavando na rocha viva. Ampliou as muralhas e reforçou as fortificações de Jerusalém (2Rs 18:1-8; 2Rs 20:20-21; 2Cr 32:30; 2Cr 32:5)

Em 711 A. C. Ezequias foi tentado a participar de uma revolta contra a Assíria, insuflada pelo Egito e que estourou na cidade de Asdode, na Filistia (Is 14:28-32). Para dramatizar o juízo de Yahweh contra a conspiração, Isaias teve de realizar um ato simbólico (cap. 20): Ele andou nu e descalço durante três anos, para mostrar que o povo do Egito e da Etiópia iria para o cativeiro como, resultado daquela rebelião contra o rei da Assíria. Em conseqüência da influência de Isaías possivelmente, Ezequias evitou envolver-se demasiadamente na revolta e Judá escapou de ser invadida pelos exércitos de Sargão, que destruíram Asdade e outras cidades dos filisteus. Quando Sargão morreu em 705 A.C. parecia ter soado a hora final do Império Assírio. Por toda parte estouravam revoltas. O rei Marduk-apal-iddiana (o Merodaque-Baladã da Bíblia), de Babilônia, era o líder. A história da embaixada que ele enviou a Ezequias, e do veemente protesto de Isaías contra ela aparece em 2Rs 20:12-19 (cf. Is 39.1-8). O Egito, que sob o rei etíope Sabaco, desejava recuperar a glória antiga, parece que enviou também embaixadores a Ezequias para garantir a participação deste na revolta geral, fiel ao seu método de hostilizar a Assíria por meio de intriga diplomática. O oráculo que aparece em Isaias 18 parece provir desse tempo.

Condenou especialmente a recepção favorável que tiveram os enviados do Egito mencionados no capítulo 18, assim como denunciou as negociações secretas com Marodaque-Baladã (2Rs 20:12-19). Eloquentes são suas palavras contra os que procuravam a ajuda do Egito (Is 31:1-3). Tais esforços políticos eram evidência clara de que os homens não confiavam no “Santo de Israel”. Em Is 30:1-15 o profeta Isaías enfatiza a loucura de procurar “abrigo à sombra do Egito”. Um eco de seu conselho a Acaz aparece em Is 30:15, que é um resumo do significado da “fé” para o profeta.
“Em vos converterdes e sossegardes está a vossa salvação. Na tranqüilidade e na confiança, a vossa força; mas não o quisestes.”

A história do Crescente Fértil tem sempre estes dois pontos: ou na Mesopotâmia a Assíria ou Babilônia, ou o Egito no Sul. De modo que o povo de Deus era sempre envolvido na trama da política internacional, girando sempre entre esses dois pontos; uma facção a favor do Egito, uma facção a favor da Síria e facção defendendo uma política independente de confiança integral no Deus de Israel.

Apesar de tudo, o rei Ezequias se deixou envolver na conspiração. E assim, após haver dominado a situação na parte oriental do império, Senaqueribe marchou para o oeste. Marchou triunfantemente através da Fenícia, desceu à Filistia onde venceu um grande exército egípcio na cidade de Ecrom; daí avançou para o interior pela região montanhosa de Samaria e Judá, e ameaçou Jerusalém. Em Miquéias 1:10-16 e Is 10:28-32, temos passagens que refletem a inexorabilidade e a velocidade do avanço assírio. Os anais de Senaqueribe relatam que nessa campanha foram tomadas 46 cidades fortificadas de Ezequias, e numerosas pequenas cidades satélites, e foram levadas em cativeiro 200.150 pessoas (2Rs 8:13). Pouco mais restava do que Jerusalém, isolada de todo socorro externo. Senaqueribe diz que prendeu nela Ezequias como um “pássaro engaiolado”. Em linguagem mais forte ainda, Isaías, compara a catástrofe à destruição de Sodoma e Gomorra (Is 1:4-9). Mas desta vez, surpreendentemente, o profeta não aconselha a rendição da Assíria.

Em qualquer hipótese, ficará confirmada a veracidade da interpretação profética dos acontecimentos em que o profeta e seus ouvintes estejam envolvidos. Nisso se vê, por outro lado, uma vez mais, que o profeta é, antes de tudo, um intérprete do presente, da história contemporânea, que ele e ouvintes estão vivendo.

Não se pode negar, porém, nem é nosso interesse fazê-lo, que os profetas tenham falado, às vezes, de um futuro mais distante, não causal ou imediatamente relacionado com sua situação contemporânea. No entanto, comparadas com o volume total da literatura a que chamamos profecia, na Bíblia, essas predições não justificam a transformação dos profetas em meros prognosticadores gratuitos de um futuro além do horizonte histórico e das situações concretas e existenciais de seus ouvintes e contemporâneos.

OS PROFETAS – HOMENS DO SEU TEMPO
Definir assim o que eram os profetas pode parecer a muitos, reduzi-los injustamente a figuras do passado. Não se poderá fazer justiça aos profetas, porém, sem ter sempre presente que sua mensagem foi dirigida aos seus contemporâneos, dentro das condições e circunstâncias em que viviam. O reconhecimento desse condicionamento temporal dos profetas é essencial à correta interpretação de sua mensagem e é o único modo de protegê-lo de um interesse malsão (que não é sadio) em seu ensino, interesse que o desfigura, colocando no seu centro os elementos periféricos, e na periferia, os elementos centrais.

OS PROFETAS – HOMENS DO POVO
Outra limitação, se assim se pode dizer, muito importante, é o fato de que os profetas eram homens que falavam a Israel como porta-vozes do Deus de Israel. Este era um Deus particular, com nome particular e com povo particular. O fato de no sexto século A.C. se ter chegado a afirmar sua unicidade e conseqüente soberania universal, foi mais uma conclusão de fé coerente e aventurosa do que uma conclusão da lógica fria, silogística e cerebral.

Isto é uma evidência de que sua perspectiva não era política, mas religiosa. O poder dado a Assíria provinha de Deus, e era, portanto, um poder que seria anulado ou retirado quando aprou-vesse a Deus. Para ver que ele tinha razão, basta ler os relatos em 2Rs 18:19; Is 36:37. Jerusalém foi salva.

JEREMIAS
O grande profeta de Judá que acompanhou os últimos dias da nação até o fim, isto é, até a queda e destruição de Jerusalém, em 586 A.C., ter-se-ia poupado de amargos sofrimentos se tivesse fugido de imiscuir-se ativamente na política. Mas Jeremias não teria sido fiel a seu chamado, caso não tivesse ido até às últimas conseqüências práticas de sua mensagem. Principalmente no reinado de Zedequias, de 597 a 586 A.C., período de que provém grande parte do material que aparece nos capítulos 1 a 25, especialmente os capítulos 21-24, nos quais ele defendeu sozinho e corajosamente uma posição política que tem sido confundida com pacifismo ou colaboradorismo. Mas, não era nada disso, pois para o profeta, acima dos expedientes e concessões que o momento podia ditar, estava a convicção de que a Babilônia era agora para Judá o que no século anterior tinha sido a Assíria para Israel. Nabucodonosor era o “servo” de Yahweh (Jr 27:6-7), o instrumento de seu propósito na história. A Mensagem do profeta para Zedequias e para os líderes do povo era, portanto: “Metei o vosso pescoço no jugo do rei da Babilônia, servi-o... e viverás.” ( Jr 27:12-22 ).

Em 588 A.C, com a subida ao poder de um novo Faraó egípcio, Apries, chamado Hofra em Jr 44:30, o Egito retomou sua política militar de agressão, abandonando a de intriga diplomática dos predecessores imediatos de Hofra. O despertamento militar do Egito, com a nova possibilidade de mudança no jogo de poder da política internacional deu nova esperança às nações que estavam debaixo do jugo da Babilônia desde o ano de 612 A.C, quando se deu a queda de Nínive. Estourou a revolta cujo centro desta vez era Amom e Judá.

Nabucodonosor agiu rapidamente para sufocar a revolta. Nesse mesmo ano de 588 A.C., sitiou Jerusalém. Zedequias tinha esperança de que, como acontece por ocasião do cerco de Jerusalém por Senaqueribe em 701 A.C., Yahweh lançasse miraculosamente a retirada de Nabucodonosor. Mas Jeremias nunca vacilou em sua convicção de que o caminho único e certo era a rendição à Babilônia (Jr 21:8-9). Com o avanço do exército do faraó Hofra (Jr 37:5) para Jerusalém, tomando novo alento com a situação, Zedequias mandou uma mensagem a Jeremias, pedindo-lhe que orasse pelo povo. A reposta de Jeremias foi violenta (Jr 33:5-10), e foi a última gota. Era evidente que o profeta era “perigoso” demais para continuar andando “livre entre o povo”. (Jr 37:4). Aproveitando-se de um simples pretexto, os príncipes o prenderam. É de notar-se em tudo isto a fraqueza de Zedequias que sendo rei, e ansioso por ouvir a palavra de Yahweh por Jeremias (Jr 37:16-21; Jr 38:7-28), não teve coragem moral de opor-se a seus nobres pró-Egito e de defender a vida e a liberdade do profeta do Senhor (Jr 37:14-16; Jr 38:1-6 e 24-27). A coragem sobre-humana de Jeremias tirada de sua própria fraqueza (Jr 37:20), só poderia provir de sua íntima convicção de que naquela situação política estavam envolvidos princípios transcendentes a que ele devia mais fidelidade do que a segurança e sobrevivência de seu povo. E a história confirmou sua convicção.

OS PROFETAS NAS GRANDES CRISES SOCIAIS
A TRADIÇÃO NÔMADE PASTORIL

Três diferentes sistemas de vida vieram a encontrar-se na sociedade israelita, em conseqüência da conquista de Canaã da historia posterior. No período pré-canaanita (antes de estabelecerem-se em Canaã) os israelitas foram nômades ou seminômades. Seu sustento dependia dos rebanhos, e, apenas como suplemento secundário da lavoura branca, plantada onde paradas mais longas o permitissem. Esse tipo de sociedade pastoril tinha características próprias. A mais fundamental era a “consciência de família”, o laço de parentesco, o senso de fraternidade que governava a maior parte das atividades do grupo social.

A sociedade era uma família de famílias. As famílias formavam os clãs, os clãs formavam as tribos, as tribos formavam o povo, que era uma federação pactual de tribos. Economicamente, a riqueza da comunidade era de fato, riqueza de todos, não havia pobres ou ricos no clã, senão na medida em que o clã inteiro fosse pobre ou rico. A autoridade pertencia aos chefes das famílias, e na agregação maior, a tribo pertencia ao conselho de anciãos. Este decidia as, questões, segundo a moral e os costumes aceitos da tribo. Não havia poder absoluto e despótico. A vida no deserto e o forte sentimento da fraternidade no clã redundaram em forte a duradouro amor pela liberdade e pela justiça igualitária.

SOCIEDADE AGRÍCOLA E SEDENTÁRIA
Em Canaã, Israel encontrou uma sociedade agrícola sedentária. Ao aculturar-se, duas características fundamentais da sociedade agrícola sedentária chocavam-se contra a estrutura social pastoril serninômade: a ênfase na localidade, na vila, e não no clã, como ponta de aglutinação e de unidade; e o novo conceito de propriedade, da terra, o bem imóvel, permanente, diferente da propriedade em rebanhos, que podiam, da noite para o dia, ser tomados por assaltantes. Ao assimilar esse conceito, Israel modificou-o para harmonizá-lo com sua fé, transformando a propriedade de terra em usufruto apenas, sem direito de alienação (Lv 25:25; Dt l5:1-3; Lv 25:8-17 e 23). Não havia dono da terra em Israel. A terra era do clã, e o chefe de família só era dono da terra como representante do clã; não podia alienar senão temporariamente a terra. Então havia no clã, a distribuição mais equitativa para o labor pastoril.

SOCIEDADE COMERCIAL URBANA
O terceiro sistema de vida: a sociedade urbana comercial que aumentou as complexidades e tensões da sociedade israelita, e em que o espírito de Canaã encontrou sua expressão mais desenvolvida e característica (Pv 31:24). Esse tipo de sociedade urbana e comercial fez um grande impacto sobre os israelitas no reinado de Davi. Os fatores que contribuíram para tanto foram a conquista das restantes cidades canaanitas e sua assimilação por Israel, inclusive com seus costumes estabelecidos; o estabelecimento que, de uma capital que com sua corte e forças militares, não podia ser sustentada pelo solo imediatamente vizinho, mas dependia do superávit econômico de toda a terra; e o começo, no reinado de Davi, de relações comerciais internacionais em alta escala com os Fenícios, ou seja, os canaanitas do norte.

CRISE SOCIAL DO 10° SÉCULO A.C.
Mas foi no reinado de Salomão que Israel experimentou uma revolução social e econômica ainda maior do que a experimentada no tempo em que o povo passara da vida nômade para a sedentária. Os pesados impostos, o trabalho forçado, o despotismo que se manifestava num tipo de capitalismo de Estado, acabaram com a liberdade dos súditos, fazendo-os escravos do rei, e transformando a propriedade deles em propriedade do monarca, ou seja, do Estado. Só este tirava proveito da exportação de cobre de Edom, e, possivelmente, até da exportação de israelitas para servirem no Egito, como mercenários.

A importação de grande quantidade de ouro e prata provocou uma repentina inflação. Os cidadãos eram forçados a hipotecar suas terras, suas pessoas e seus filhos, para atender às exigências dos impostos. Os juros eram altos, e muitos israelitas livres perderam as terras e se tornaram escravos; enquanto outros que tinham tido alguma vantagem inicial, amontoavam terras e dinheiro. A fraternidade dos tempos do deserto desapareceu para sempre, dando lugar à permanente separação entre os poderosos e os oprimidos; os ricos e os pobres. A riqueza e o poder tornando-se a meta dos esforços do indivíduo, a pobreza, a injustiça e a luta de classes se estabeleceram para sempre na sociedade israelita.

CRISE SOCIAL DO 8° SÉCULO A.C.
A outra grande época de prosperidade econômica em Israel foi também acompanhada de males semelhantes, a respeito dos quais, temos farto testemunho na literatura profética do 8° século. Foi a época em que reinava em Israel Jeroboão II (786-746) e, em Judá, Uzias (783-742). Adade Nirari III, da Assíria, conquistara Damasco em 803 A.C., enfraquecendo-a de tal modo que os Sírios nunca mais foram ameaça séria em Israel. Em seguida, os armênios mantiveram os Assírios ocupados e enfraquecidos até que Tiglate-Pileser usurpasse o trono em 745. Essa trégua, em que Israel e Judá ficaram livres dos Assírios e Arameus foi suficiente para um renascimento dos dois reinos irmãos, só comparável à prosperidade do tempo de Davi e Salomão. Jeroboão II conquistou o norte da Galiléia e a Transjordânia, obtendo assim o controle das rotas comerciais. Tinha o cuidado de mantê-las livres de ladrões e salteadores, recebendo pelo serviço, como Davi e Salomão anteriormente compensadoras taxas. Samaria tornou-se um empório internacional, com todo tipo de mercadorias, suplantando muitos outros centros em quantidade e em qualidade. Em Ezequiel cap. 27, onde ele fala do rei de Tiro, podemos ver como o comércio já naquele tempo era bastante próspero. Samaria repetia esta situação.

A crescente prosperidade comercial foi acompanhada de maior luxo e imponência nos edifícios (Amós 3:15). Havia muitos palácios em Samaria (Amós 3:10), pertencentes não só ao rei, mas também aos novos príncipes mercadores que se tinham enriquecido no comércio. A pedra lavrada substituira os antigos tijolos e o cedro do Líbano o plebeu sicômoro (Is 9:10). Havia o luxo ilimitado dos ricos, tanto em Samaria como em Jerusalém. Havia a cupidez (2) os comerciantes gananciosos (Amós 8:5). Havia a dureza e a ambição das mulheres ricas (Amós 4.l). Os novos ricos atrás de riqueza e luxo espezinhavam os pobres. Havia as medidas e os pesos falsos; compravam por um padrão, e vendiam por outro padrão de medidas. O refugo de trigo, vendido como se fosse bom trigo (Amós 2:8). Os ricos sempre conseguiam sentenças favoráveis nos tribunais (Amós 2:6: Amós 8:6).

Além de tudo isso, havia outro grande mal, talvez maior: a extinção do pequeno proprietário. Os luxos da época e o crescente custo de vida levaram o pequeno proprietário a contrair dividas. Os pequenos tratos de terra eram absorvidos nos grandes latifúndios. Os proprietários ricos e os capitalistas das hipotecas devoravam homens e terras, mantendo o agricultor na terra como colono ou vendendo-o com sua família como escravos (Amós 5:11; 2Rs 4:1-7).

Havia assim, junto com o crescente enriquecimento de uns poucos, o crescente empobrecimento da maioria. No meio da abastança e do supérfluo, a miséria e a carência.

De par com o luxo e o ócio, a escravidão e a fome.

Essa total canaanitização era a negação absoluta da tradição do deserto. Contra ela eram os mais extremados em sua atitude contra a aculturação (Jr 35). Repudiavam toda a civilização, encontrando nela a causa de todos os males da situação. Ecos da negação da civilização agrícola, e da civilização urbana comercial, podem ser percebidos também, nas histórias de Caim e Abel e da Torre de Babel (Gn 4:1-16; Gn 11:1-9).


OS PROFETAS E A SUA REAÇÃO
Os profetas, também, como esses outros grupos, consideravam normativa a tradição do deserto. A época da peregrinação no deserto fora o tempo ideal (Amós 5:25; Os 9:10; Os 2:14; Jr 2:l-3). Mas eles não eram reacionários simplistas que considerassem possível ou suficiente um retorno à vida nômade, e sua condenação à ordem social se baseava no fato de que ela não encarnava nem protegia os valores humanos e sociais inerentes ao Javismo, à religião de Israel, e até os destruía. Os alicerces da estrutura econômica e política, segundo os profetas, deviam ser éticos e religiosos. Mas Israel tinha confundido um sistema devido mais elevado com uma civilização mais complexa, e tinha preferido as vantagens imediatas desta, aos valores fundamentais da religião de Israel.

OS PECADOS QUE ELES CONDENAVAM
Mas os profetas não se limitavam a condenar de maneira vaga e geral a estrutura social de seus dias. Apontavam pecados específicos e particulares, corajosa e desassombradamente. Pecados que podiam ser do homem comum ou dos líderes, do latifundiário ou do comerciante, dos nobres ou do rei. Eles condenavam apaixonada e veementemente, a opressão, a violência, a sensualidade, a ganância, o roubo, a desonestidade, a sede de poder, a desumanidade cruel, a falsidade. Pecados de homens e mulheres, pecados que podem aparecer em qualquer sociedade, dessa maneira, qualquer sociedade em que tais ou semelhantes pecados prevaleçam, cai sob a mesma condenação (Jr 7:9-10; Mq 3:11; Os 4:1-2; Amós, 8:5-6). Eles descrevem a situação ao vivo. Retiram o véu que encobre as aparências e exibem desnuda, a podridão e a corrupção (Amós 3:10; Os 6:8-9: Amós 2:6; Mq 2:8; Mq 3:l-3).

SUA DENÚNCIA CONTRA
OS BENEFÍCIOS DAS INIQUIDADES
E o peso de sua denúncia recai também sobre os beneficiários do sistema existente. O rei e os que exercem autoridade; os gordos sacerdotes, os gananciosos profetas profissionais, e os “sábios” parasitários (eram líderes e orientadores da comunidade, e todos eram condenados); os que vivem no luxo sem se incomodarem com os necessitados à sua porta; e em especial as mulheres ricas, vazias e irresponsáveis; os juízes venais, os credores em coração, os donos de casas suntuosas, e os cúpidos proprietários de terras (Os 4:4-6; Os 5:1; Mq 3:5-6 e 11; Am 4:l; Am 6:1-7; Is 3:1-3 e 13-15). À sua ira contra os opressores e sua piedade pelas vítimas, os profetas acrescentavam a denúncia da apatia e degeneração popular. Se os príncipes eram Sodoma, o povo era como o povo de Gomorra (Os 4:5; Is 1:10).

Duas coisas importantes que devemos notar, ainda: os males condenados não eram simples aberrações individuais, comuns, mas excepcionais. Eram características da sociedade como tal, permeando sua estrutura política, suas atividades econômicas, sua cultura e seus padrões morais aceitos, e afetando profundamente a religião.
E não eram males que aparecessem como fruta estranha; eram males, infelizmente, correspondentes à forma e aos fins da própria ordem social, correspondentes aos princípios sobre os quais ela se assentava, e aos valores que ela representava e defendia.

CONCLUSÕES
O assunto é vasto, mas não tratamos senão de alguns aspectos que consideramos mais importantes para este nosso encontro. Não podemos, no entanto, encerrar sem apontar algumas conclusões que nos parecem fundamentadas, pelo menos parcialmente, no que acabamos de dizer.

1. Para os profetas, religião não era, principalmente, assunto de experiência íntima e interna, nem pura questão de ritual, mas era interpretação da condição humana total à luz do propósito de Deus.

2. Os profetas eram porta-vozes de Deus para uma situação específica. A palavra que eles traziam, vinda de Deus, era eficaz e operante; mas muitas vezes eles mesmos se tornavam instrumentos do propósito de Deus. Não apenas como porta-vozes, antes como atores nos dramas da História.

3. Os profetas eram, por isso, homens de ação. Sujeitos a limitações humanas, suas ações eram susceptíveis de erros; mas mesmo assim incorporavam-se ao propósito de Deus para o momento que viviam.

4. Os profetas eram homens de seu povo e do seu tempo. Sua “particularidade” é o segredo de sua universalidade.

5. A ação política dos profetas era realizada à luz de seu entendimento do destino de seu povo, segundo o propósito de Deus.

6. A pregação social dos profetas não era, propriamente, democrática ou humanitária; seu pressuposto básico era o “pacto” que tornara Israel o povo de Yahweh.

7. Para os profetas, justiça e juízo, amor e integridade, eram mais importantes que a estrutura política, a religião organizada, e a organização e as instituições econômicas da nação.

8. Por isso os profetas só tinham compromisso com o Deus que os chamara e enviara. Seu ministério não era uma busca de aceitação humana, mas um desafio a toda ordem humana, criada à parte de Deus.

9. O Deus dos profetas entrava na luta pela justiça social, como o grande Aliado dos injustiçados e expoliados. Seu propósito era (como ainda o é!), criar comunidade, isto é, uma ordem de relações com e entre os homens, em que sua justiça encontrasse perfeito cumprimento.

Que diriam os profetas em nosso tempo? Que fariam os profetas em nosso tempo? Qual o propósito de Deus para como o povo brasileiro? Que testemunho daremos diante da nossa presente ordem social? Estas e outras perguntas que nos devemos fazer seriamente, se é que somos parte de uma igreja, que em Jesus Cristo é herdeira legítima de uma missão profética, para com o mundo contemporâneo. Estas perguntas não podem ter respostas pré-fabricadas, mas constituem o desafio que vamos corajosamente enfrentar nestes dias, sob orientação do mesmo Deus que falou “muitas vezes, e, de muitas maneiras, aos pais, nos profetas” (Hb 1:1).

CITAÇÕES:
(1) Reunião dos Anfictiones, direito de ser representado no conselho deles. Anfictiones: cada membro do Conselho de representantes dos antigos Estados gregos, que se reuniam para deliberar sobre negócios de interesse geral.
(2) Qualidade ou caráter de cúpido. Ávido de dinheiro ou bens materiais, cobiçoso.

Presidente Soares, 19 de julho de 1962.


_______________________________________
OBS: Texto extraído das páginas 13 a 31, do livro CRISTO E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO, livro Volume 2, resultado da Conferência do Nordeste, promovida em julho de 1962 pelo setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil -CEB.

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.