IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Reino de Deus
Rio, 15/9/2011
 

A revolução do Reino de Deus: Conteúdo revolucionário do ensino de Jesus sobre o Reino de Deus (Rev. João Dias de Araújo)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

A revolução que Jesus trouxe ao mundo está revelada o seu ensino sobre no Reino de Deus.

“O conceito dominante da mensagem de Jesus é o reino de Deus”.

“O reino de Deus é o primeiro e mais essencial dogma da fé cristã”.

A expressão "Reino de Deus”, ou “Reino dos Céus”, está na primeira mensagem de Jesus (Mc 1:15) e na última conversa que teve com os discípulos antes da morte (Mc 14:25) Entre essas duas ocasiões a expressão aparece nos lábios de Jesus 13 vezes, segundo o testemunho de Marcos; 34 vezes, segundo o relato de Lucas; e 48 vezes segundo o testemunho de Mateus. Mais de um terço das parábolas de Jesus tratam do Reino de Deus. Sua pregação sobre o Reino marca nova época nas relações de Deus com o homem (Mc 11:12-13; Lc 16:16).

Uma lida rápida nos Evangelhos deixa no leitor a impressão forte da ênfase de Jesus sobre o Reino de Deus. O Reino de Deus está próximo. O Reino de Deus é chegado, está presente, está sobre os homens, entre os homens, dentro dos homens. O Reino de Deus está no futuro; ainda virá. Os homens entrarão nele e sairão dele. O Evangelho que Jesus prega é o Evangelho do Reino. O Reino de Deus pertence às crianças, aos pobres, aos humildes de espírito, e aos perseguidos por causa da justiça. Só poderão entrar no Reino os que se fizerem como crianças, os que nasceram de novo. A comunhão do Reino é expressa na refeição com Abrão, Isaac e Jacó e com o Filho do Homem. Nas parábolas o Reino é comparado com várias figuras e situações. Enfim, o pensamento, as palavras e as ações de Jesus têm como centro o reino de Deus.

QUE QUER DIZER “REINO DE DEUS”?
A expressão “Reino de Deus” no uso de Jesus não é fácil de ser definida. Ela parece ser um símbolo elástico e poético, antes que o veículo de um conceito fácil e limitado.
Não é fácil sistematizar o ensino de Jesus sobre o Reino, que, como vimos na sua quase totalidade nos é apresentado em parábolas.

“Muitos têm tentado uma definição, sem muito êxito”.

Para Kant, o Reino de Deus é o “estado ético”.

Walter Rauschenbusch diz que a vontade de Deus é a transfiguração da ordem final sobre o pecado. É a reconciliação do mundo com Deus. E a conseqüência dessa reconciliação é: nova era, novo céu, e nova terra, que são novos porque se submetem à paz de Deus.
O termo Reino é ambíguo, mas naturalmente sugere um território ou uma comunidade governada por um rei. O termo grego “Basiléia” é também ambíguo; mas não há dúvida de que a ex-pressão é uma frase bem estabelecida no uso judaico: “O malkuth dos céus”. Mallkuth como outros substantivos da mesma formação, é propriamente um nome abstrato, significando “majestade”, e “realeza”, “autoridade real”, e “soberania”. A expressão “Malkuth de Deus” liga o fato de que Deus reina como rei. No sentido, ainda que não em forma gramatical, a concepção substantiva na frase “Reino de Deus” é a idéia de Deus, e o termo Reino indica o aspecto específico, atributo ou atividade de Deus, em que ele é revelado como Rei ou como soberano Senhor do seu povo, ou do universo que ele criou.

Para entendermos o conteúdo revolucionário do ensino de Jesus sobre o Reino de Deus, temos de estabelecer uma relação entre o pensamento dele e o pensamento dos seus antepassados e contemporâneos.

Jesus quando falava nesse assunto não usava uma expressão nova, nem lançava palavras no vácuo, mas usava uma expressão e uma série de conceitos correntes na vivência histórica do povo judeu.

Os contemporâneos de Jesus usavam a expressão Reino de Deus em dois sentidos principais:

1 – Deus é o Rei de seu povo. Israel e seu governo real são efetivos enquanto Israel é obediente à vontade divina como revelada na Torah.
2 – O Reino de Deus é algo que ainda será revelado. Deus é mais do que rei de Israel. Ele é rei de todo o mundo. Mas o mundo não o reconhece como Deus... Neste sentido o Reino de Deus é uma esperança para o futuro. É em si mesmo o “eschaton” ou último de que trata a escatologia.

Jesus não aceitou todas as idéias dos seus contemporâneos sobre o Reino de Deus. Corrigiu algumas e rejeitou outras.

a) Rejeitou a idéia rabínica de que entrar no Reino de Deus é submeter-se à Torah. “Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças de modo algum entrarão no Reino dos Céus.” (Mt 18:3). “Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus.” (Jo 23:5).

b) Rejeitou toda a idéia de força e violência para o estabelecimento e o processo do Reino de Deus. “Embainha a tua espada, pois todos os que lançam mão da espada, à espada perecerão. Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria mais de doze legiões de anjos”? (Mt 26:53-54). “Meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas, agora, o meu Reino não é daqui.” (Jo 18:36).

c) Rejeitou toda idéia de que o Reino de Deus significava a vitória triunfal do judaísmo e a supremacia política universal dos judeus.

d) Rejeitou a idéia de despotismo que colocava Deus ou o Messias como um monarca absoluto: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo; tal como o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20:26-28).

e) Rejeitou a idéia de que no Reino de Deus a lei mosaica e a lei rabínica seriam entronizadas e universalmente observadas. Em vez da Lei, eis o programa de Jesus: "o Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o Ano Aceitável ao Senhor.” (Lc 4:18-19).

f) Rejeitou a idéia de que no Reino de Deus haveria abundância de conforto material, riquezas, luxos, embora falasse Jesus numa situação melhor para o homem. "Tende cuidado e guar-dai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui” (Lc 12:15). “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24).

g) Para Jesus o Reino de Deus não é uma utopia irrealizável, mas uma responsabilidade presente. "Nem todo o que diz “Senhor, Senhor!” entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus” (Mt 7:21).

h) Diferentemente dos seus contemporâneos, Jesus afirmou a presença do Reino de Deus na terra e não o localizou apenas no futuro. "Se, porém, eu expulso demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Lc 11:20). “... porque o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:21)

Assim, como vemos, Jesus não se guiou às ideias dos seus contemporâneos, mas apresentou reformulações novas e profundas ao conceito do "Reino de Deus”.

Mas, não havia somente uma diferença entre o, ensino de Jesus e o pensamento dos seus contemporâneos. Quase invariavelmente no Antigo Testamento a idéia do Reino de Deus descreve seu Reino universal sobre todas as criaturas (Sl 96:97).

No Novo Testamento a idéia do Reino descreve um ato definido na História, o ato pelo qual Deus manda o Messias, a quem Ele delega seus poderes reais aqui sobre a Terra. Isto é, a idéia do Reino de Deus no Novo Testamento implica na presença do divino poder aqui sobre a terra, seu exercício na História e através dela.

Entremos agora a considerar as sementes da revolução que estão no ensino de Jesus sobre o Reino.

1- A SOBERANIA DE DEUS - Este é o primeiro aspecto. Deus é o Rei da História e da Supra-História. Rei do Tempo e da Eternidade. O ponto central do ensino de Jesus é a convicção forte de que Deus governa. Todos devem ser submetidos a esse governo que está presente na Terra e que será consumado.

Gustaf Dalman disse: “A expressão Reino de Deus é equivalente à Soberania de Deus”.
No seu livro “As Palavras de Jesus”, Dalman nunca traduz o "basiléia tou theou” como Reino de Deus, mas como Soberania de Deus. Ele quer dar ênfase a esse aspecto importante do ensino de Jesus.

Jesus disse: “Meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18:36). Isto é, não procede deste mundo, não tem origem terrena. Não é reino como o de César, ou de Herodes, mas é de Deus. Com a enunciação de tal princípio, Jesus inaugurou a substituição de uma ordem inferior, cujo fundamento é humano, por uma ordem superior cuja base é divina. O Reino de Deus é teocêntrico e teocrático em contraposição ao reino dos homens, que é antropocêntrico e antropocrático.

A revolução de Cristo foi a centralização teológica da vida humana. O centro da vida humana foi mudado daquilo que é terreno para aquilo que é divino. O centro da vida humana não é um princípio filosófico, não é um código moral, não é a observância da Lei, não é qualquer pessoa humana por melhor que seja, mas é Deus, o Deus vivo e verdadeiro.

O Reino de Deus é de Deus. O reino messiânico de Jesus não é apresentado com natureza terrena e política. O Reino depende de Deus exclusivamente.
Com isto lançou a revolução espiritual para todas as épocas.

Hoje (ano de 1962), a situação internacional, continental, nacional e individual é de grande tensão. Há tensão entre o capitalismo e o comunismo, entre o colonialismo e o imperialismo, entre o nacionalismo e o internacionalismo, entre o racismo e o antirracismo, etc. Na América Latina há tensão entre a luta pelo progresso independente e a luta pelo progresso dependente. No Brasil a crise atinge todas as áreas da vida nacional, e especialmente na realidade chamada Nordeste. Como discípulos de Cristo e filhos do Reino de Deus, devemos proclamar a Soberania de Deus. Ele dirige os povos. Ele dirige os monarcas e os líderes dos povos, mesmo que eles não percebam. Ele dirige seu povo nas crises da História. Ele intervém na História. Deus é o começo, o centro e o fim da História. Quando chegou a plenitude dos tempos ele enviou o seu Filho. O fim da História está nas mãos de Deus. A crença na Soberania de Deus deve ser o ponto básico da nossa fé na época em que vivemos.

A vida humana está descentralizada e subdividida. Precisamos voltar à unidade da vida. A vida do homem está dividida em compartimentos: vida secular, vida religiosa, vida pública, vida particular, vida de corpo, vida de espírito, vida profissional, vida vocacional, etc.. Tudo isto estrangula a unidade da vida humana. Na Bíblia não há essas separações. Deus é o começo, o centro e o fim da vida humana. “Nele vivemos, nos movemos e existimos.” (At 17:28). Na Bíblia a vida humana pertence a Deus. Todos os homens são propriedade de Deus, embora muitos não reconhe-çam essa propriedade. O Reino de Deus é a Soberania de Deus. A Soberania de Deus expressa na terra através do ato de fazer a vontade de Deus. Vemos claramente esse ensino na oração que Jesus ensinou: “Venha o teu Reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10). Uma frase explica outra. A vinda do Reino de Deus à Terra é vontade dele cumprida na Terra como é cumprida no céu.

‘“Nem todo o que me diz “Senhor, Senhor!” entrará no Reino do Céu, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu” (Mt 7:21). Por isso Wa1ter Rauschenbusch disse que “o Reino de Deus é a humanidade organizada, segundo a vontade de Deus”. Embora não seja só isso, há verdade no que ele diz. A aspiração principal de Jesus é ver o homem submisso à Soberania de Deus, fazendo a vontade divina. Jesus não só ensinou que o homem deve fazer a vontade de Deus, mas deu o exemplo. Desde os 12 anos, no templo, depois no seu afanoso ministério, e, finalmente, no Getsêmani e na cruz, vemos Jesus curvando-se perante a Soberania de Deus e fazendo a sua vontade. Jesus trouxe o Reino de Deus e mostrou como ele está sendo estabelecido pela submissão à vontade de Deus. "Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mt 7:24). “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? E estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai Celeste, esse é meu irmão e mãe” (Mt 12:48-50).

O apóstolo Paulo e seus companheiros chegaram à cidade de Tessalônica. Os habitantes desta cidade foram às autoridades para fazer uma acusação: “Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui” (At 16:17). Por que levantavam esta acusação contra aqueles que chegavam à cidade de Tessalônica pregando o Evangelho? Geralmente este versículo não é citado completa-mente, o que pode originar alguma falsa interpretação. A palavra grega “anastado” que se traduz por alvoroçado tem significado muito mais variado que muitas palavras em português. Significa, entre outras coisas, transtornar, virar pelo avesso, pôr tudo de perna para o ar; significa modificação completa na ordem das coisas. Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram até nós. E todos estes, diziam os pagãos de Tessalônica, todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro Rei, Jesus. Eles estavam alvoroçando, transtornando o mundo, porque estavam apresentando outro rei. Porque quando César quer se colocar como dono da consciência humana, quando ele quer se colocar no lugar de Deus, então a tarefa do cristão que pregava naquele tempo, era justamente esta: dizer que há outro rei. E há outro mesmo. O Jesus glorioso, glorificado Senhor Jesus. Daí eles estarem proclamando no mundo esta Soberania de Deus. E aqui está a primeira semente da resolução que Jesus trouxe ao mundo. Submeter todas as ordens e todas as coisas e fazer com que todos saibam que Deus é o Rei Soberano, que Ele governa, que toda a vida humana deve estar sob a orientação deste Deus Criador e Senhor do Universo e de toda realidade.

II - O REINO DE DEUS VISA O HOMEM - A soberania de Deus é uma ordem de coisas sob a qual o homem (ser humano) é colocado. O Evangelho fala em “sentar-se à mesa” e “comer o pão” (Mt 8:11; Lc 13:28; Lc 22:15-16). Fala que os homens são filhos do Reino e pertencem ao Reino (Mt 22:3,8,14) Os homens estão ou não estão preparados para o Reino, são dignos ou indignos do Reino (Mt 9:62). Os homens podem ser lançados fora do Reino (Mt 16:19).

Consideremos em que aspectos o Reino de Deus visa o homem.

1- Humanismo – O ensino de Jesus sobre o Reino de Deus objetiva o homem em toda a sua expressão individual e social. Jesus mostrou que o seu alvo era o homem. “Eu vim para que tenham vida em abundância” (Jo 10:10). “Porque o Filho do Homem veio para buscar e salvar o que se havia perdido” (Jo 15:19). “... para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). “E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4:23). Jesus veio ao mundo por causa dos homens, exclusivamente; por isso o Verbo se fez carne. Com a vida e o ensino de Jesus inaugurou-se o verdadeiro humanismo. Jesus via no homem o ser criado à imagem de Deus, o ser que foi criado para uma vida superior de comunhão com Deus e com o próximo. O homem coroa o rei da criação. Por outro lado Jesus encarava o pecado do homem. O homem rebelado contra Deus, inimigo de Deus, e, por isso, infeliz e sofredor. Mas, a tarefa de Jesus é restaurar o homem e salvá-lo. Fazê-lo voltar à comunhão com Deus e com o próximo. Levar o homem a viver debaixo da Soberania de Deus. Jesus era o “segundo Adão”, que veio restaurar o “primeiro Adão”, “para que todos cheguemos à unidade da fé, e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estrutura da plenitude de Cristo” (Ef 4:13).

Vemos, no mundo de hoje, florescer dois tipos de humanismo: o marxista e o existencialista. Para o humanismo marxista o homem é um objeto, é um produto da sociedade. Produto da evolução da matéria e da História, o homem é resultado final de toda realidade. Marx, seguindo a orientação de Hegel, fez do homem um objeto. O homem é criado pela estrutura social. Se a estrutura social for boa o homem será bom, se for má, o homem será mau. A finalidade do homem está na submissão ao Estado. O homem ideal é produzido pela estrutura ideal. Ele é objeto dessa estrutura.

O humanismo existencialista ateu faz do homem um projeto. O homem não é produto da sociedade nem foi criado por Deus, pois é o homem quem cria a si mesmo. Ele é produto do seu próprio Eu. O homem é seu próprio criador e é o criador de sua existência particular; não há natureza humana essencial. O homem cria a sua própria natureza. Ele é um projeto, segundo Sartre, porque é projetado na vida sem nenhum sentido e precisa buscar o ente.

Diante desses dois tipos de humanismo devemos afirmar o humanismo cristão que está dentro do ensino de Jesus sobre o Reino de Deus. Para Jesus o homem não é objeto, mas é sujeito, a pessoa criada por Deus. Por isso, não se encontra a sua expressão total numa estrutura social, nem dentro de si mesmo, mas na comunhão com Deus que se reflete em si mesmo e na sociedade: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10:27). O homem não deve estar apenas relacionado com a sociedade e consigo, mas, em primeiro lugar, com Deus. O alvo do Reino de Deus é colocar o homem e a sociedade sob a Soberania de Deus.

2 – Evangelização – Provavelmente muitos leitores dos Evangelhos, se tivessem que dar uma resposta sobre qual o assunto principal do ensino de Jesus, diriam que era o seguinte: “Como poderá a alma salvar-se?”. Isto é o que eles procuram nos Evangelhos, e seria, naturalmente, o que julgam ser o grande assunto da pregação de Jesus – a salvação dos pecadores. Jesus, é certo, não se esqueceu deste problema, nem o deixou fora de suas cogitações. Mas, na realidade, o seu grande tema foi "O Reino de Deus”.

A obra de evangelização estava dentro da obra geral do estabelecimento do Reino de Deus na Terra. A igreja tem de encarar a evangelização neste sentido. Os Evangelhos afirmam que quando Jesus evangelizava estava “pregando o Evangelho do Reino”. Devemos considerar alguns aspectos do conceito bíblico de evangelização:

a) Evangelizar é proclamar o Reino de Deus. A primeira tarefa é esta: “À medida que seguirdes, pregai que está próximo o Reino dos Céus” (Mt 10:7). Foi essa a ordem de Jesus para os doze discípulos. A ordem de Jesus para os setenta discípulos foi: “...anunciai-lhes: A vós outros está próximo o Reino de Deus” (Lc 10:9). Recomendou também Jesus a indivíduos em particular: “Tu, porém, vai e prega o Reino de Deus” (Lc 9:60). Mas, ele mesmo deu exemplo quando iniciou as suas pregações dizendo: “O tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no Evangelho”.

Por isso Dalman afirma: o “basiléia thou theou” (Reino de Deus, Soberania de Deus) é o sujeito de uma noticia em conexão com os verbos evangelizar, anunciar, pregar. A Soberania de Deus o é o conteúdo de uma mensagem de boas novas.
A missão principal da igreja de Cristo é proclamar ao mundo a soberania e o governo de Deus sobre toda a realidade.

b) Evangelizar é humanizar. Não é possível separar a proclamação da humanização. Todas as vezes que aparece nos Evangelhos a proclamação do Reino de Deus, ela está relacionada com a situação humana e a humanização. Notemos alguns textos: “pregando o Evangelho do Reino e curando toda a sorte de doenças e enfermidades entre o povo.” Era assim que Jesus evangelizava “pregando e curando.” Não apenas pregando, não apenas curando, mas pregando e curando. Foi assim que Ele mandou que os 12 apóstolos fizessem: “Pregai que está próximo o Reino dos Céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos e expeli demônios” (Mt 10:7-8). Notemos a seqüência dos verbos: pregai, curai, ressuscitai, purificai, expeli. Aos setenta discípulos Jesus recomenda: “Curai os enfermos que nela houver e anunciai-lhes: A vós outros que está próximo o Reino de Deus” (Lc 10:9). "Curai e anunciai.” Jesus não humanizava primeiro para depois evangelizar, nem evangelizava primeiro para depois humanizar, mas, evangelizava humanizando e humanizava evangelizando.

O que os cristãos têm feito é separar o que não se deve separar; por isso a evangelização tem caído em dois extremos errados. O primeiro extremo é o que considera a evangelização apenas como proclamação, como pregação, separada da humanização. A tarefa da Igreja seria entrar, por exemplo, nos mocambos e dizer: “Jesus é o Salvador”. A tarefa terminaria na simples proclamação. O resto não compete à Igreja, mas ao governo e às instituições de caridade. Uma das maiores heresias afirmadas abertamente por muitos cristãos chamados ortodoxos e fundamentalistas é que “a Igreja nada tem a ver com os problemas sociais”. Dizer isto é mutilar o Evangelho de Cristo e a mensagem do Reino de Deus. Mas os cristãos que caem nessa heresia secular da igreja partem do princípio pagão da dicotomia da natureza humana que dá valor extremo à alma e despreza o corpo. Não sabem esses cristãos que Jesus não ensinou essa dicotomia, essa separação herética. Mas ensinou, sim, que o homem é uma unidade, um todo e que Ele veio salvar esse todo. Mesmo quando Jesus usava a palavra “alma”, queria significar a expressão total do homem, a vida, incluindo o corpo (comparar Mt 16:26 com Lc 9:25). Por isso a evangelização que não considera o corpo e a realidade integral do homem está incompleta e errada.

Outro exemplo errado da evangelização entre os cristãos está em afirmar que o dever da igreja é humanizar sem proclamar, sem pregar. Foi o extremo do chamado “Evangelho Social”. É também mutilar o Evangelho de Cristo, dizer que a única missão da igreja é melhorar a situação social, e cuidar do corpo do homem. Porque não basta isso. Ainda há um meio termo entre essas duas posições extremadas que também está errado. Alguns dizem: “Preguemos a tempo e a fora de tempo e depois, se der tempo, cuidaremos dos problemas sociais”. Outros dizem: “Humanizaremos primeiro, e, quando a sociedade estiver evoluída e ideal, então poderemos pregar o Evangelho”. Ambos estão errados, porque não foi isso que Cristo fez. A obra de Cristo foi levantar o homem, restaurá-lo em todos os sentidos e em todas as suas implicações existenciais. Isto significa colocar o homem debaixo da Soberania de Deus, fazendo a vontade do Pai Celeste.
A Igreja precisa reformular e corrigir seus métodos de evangelização para que a sua obra se enquadre no ensino e na prática de Jesus.

3 – Sociedade. O ensino de Jesus sobre o Reino de Deus não considera apenas o indivíduo, mas também a sociedade. Não era possível que ficasse somente com o indivíduo, pois, o indivíduo não existe isolado do grupo. Na Bíblia não existe o homem solitário, mas solidário. O homem como indivíduo não é produto da sociedade, nem é o produtor da sociedade, mas é parte integrante da sociedade, sem a qual ele não pode expressar-se como ser humano. A mensagem do Evangelho somente atinge o indivíduo no contexto da sociedade. Os cristãos têm errado na ênfase demasiada ao indivíduo, sem relacioná-la com a comunidade. Eis alguns aspectos desse relacionamento:

a) Deus é Pai - um dos grandes ensinos de Jesus sobre o Reino de Deus é que esse Deus é nosso Pai - não é chefe tirano, arbitrário, nem déspota sanguinário, mas Pai. Todos nós somos filhos desse Deus. Há também os filhos rebeldes, que abandonaram a casa do Pai e se fizeram inimigos. Todavia, “Ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5:45).

b) Espírito familiar e cooperativista - O Reino de Deus é de fato uma família, não como um contrato legal, mas como um espírito de família. A vida em família é cooperativa. A família, conforme sublinha Stanley Jones, tem resistido ao embate dos séculos, justamente por não estar baseada no princípio egoístico da competição. Suponhamos, prossegue Stanley Jones, que numa família o filho mais velho, mais forte e mais hábil, tomasse em cada refeição todo o alimento que pudesse dos membros mais fracos, acumulando-o ao redor do seu prato, indiferente às suas próprias necessidades e às dos outros.

Felicitá-lo-iam os membros da família, dizendo: "Você venceu na vida?” Absolutamente. O espírito de família seria ultrajado por este e, estas atitudes antissociais. Esse espírito em 24 horas destruiria todas as famílias da terra. E, portanto, esperamos ter união em nossa ordem social e econômica, cuja essência é o espírito de luta egoísta. Não admira que ela esteja ruindo. Nenhuma ordem pode suportar uma prova dessas.

O princípio de família é cooperativo e não o de domínio do mais forte. Por isso os que entram no Reino de Deus lembram-se do próximo. Zaqueu tornou-se irmão dos pobres de Jericó, porque entrou no Reino de Deus (cf. Lc 19:8-10). Mas o moço rico não pôde entrar no Reino porque não quis considerar os pobres como irmãos (Mt 20:21-22).
Todavia, essa irmandade não é baseada em economia, mas na prática da vontade de Deus. Os que fazem a vontade de Deus são irmãos entre si e são irmãos e parentes de Jesus.

Eles fazem a vontade de Deus, por isso é que o princípio cooperativo familiar é praticado. É esse o princípio que ainda domina vários governos de igrejas contemporâneas. Nós podemos citar vários exemplos de igrejas em que o assalariado vive nesse regime cooperativo, em que os bens pertencem à comunidade e ele é apenas uma parte dessa comunidade. Como frisou numa palestra o Rev. Almir dos Santos, um pastor assalariado de uma igreja vive numa casa que é dá igreja; se ele usa um automóvel, esse veículo geralmente é da igreja, e os bens que ele usufrui da igreja, são da comunidade; enfim há uma prática dentro mesmo do próprio governo das igrejas, dessa idéia coope-rativista que é a idéia fundamental dessa irmandade que está no Reino de Deus.

Quando Jesus anunciou o Reino de Deus estava estabelecendo os princípios para a ordem social baseado nesse espírito familiar. Espírito que foi esquecido pela maioria das igrejas cristãs, que hoje tem definido ordens sociais baseadas em princípios de rapina.
Como afirma Ernest Troeltsch: “Contudo, um dos permanentes do ensino de Jesus foi esta idéia de um “Comunismo de Amor”. Esta idéia contém um elemento revolucionário...”.

Tem razão Arnold Toymbee em afirmar que “os elementos que fizeram do comunismo uma força explosiva não são criação de Hegel, mas elementos do Cristianismo e do Judaísmo”. Baseado no principio familiar é que vemos a Bíblia considerando o problema das riquezas dentro do conceito cristão sobre o Reino de Deus. A Bíblia condena todo acúmulo de riquezas nas mãos de poucos que a usufruem (Is 5:8; Mt 5:19; Lc 12:15-21).
O dinheiro não deve ser acumulado, mas repartido; não há capital (Mc 20:21-25; Lc 19:8). Devemos ser trabalhadores e a renda do nosso trabalho deve servir para o sustento condigno de nossa família. O que exceder deve ser sabiamente distribuído para ajudar os necessitados e para criar oportunidades para o bem de todos (Ef 4:28; Ts 4:11; 1Tm 6:7-10 e 17-19; At 4:34-87). No Antigo Testamento as idéias protegem o escravo e o assalariado. Após a conquista de Canaã não foi usado o sistema latifundiário, mas a terra foi distribuída equitativamente entre as famílias (Js 13:7; Js 19:48-49). Só poderemos entender o problema da propriedade privada na Bíblia à luz do ensino da mordomia. A terra é propriedade de Deus. Nós somos mordomos (Sl 24:1; Lv 25:23-24; 1Cr 29:11-14). Jesus deu ênfase ao trabalho e não ao capital (Jo 5:17; Jo 15:12-16).
Nesta linha de pensamento, convém salientar a interpretação desgraçadamente multissecular das palavras de Jesus em Betânia: “Os pobres sempre os tendes convosco" (Mc 14:7).

Muitos têm usado estas palavras para apoiar sistemas econômicos injustos, desprezar aos miseráveis. Jesus não estava defendendo a eternidade da pobreza. Ele que viveu debelando a miséria e que profetizou que muitos seriam benditos do Pai "Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estava nu e me vestistes...”. Naquela ocasião, em Betânia, Jesus estava se referindo a uma circunstância daquela época e daquelas pessoas, em referência aos pobres. Dizer com essas palavras que Jesus estava ensinando a perpetuidade da pobreza é colocá-la em contradição consigo mesmo, e é condenar todo esforço cristão para minimizar os sofrimentos dos pobres. Estaria errada uma comunidade que resolvesse erradicar a miséria e a mendicância do seu meio? Não... Melhorar a condição humana em todos os sentidos foi o anelo constante de Jesus.

4 - Justiça - Um dos aspectos mais importantes do Reino de Deus é a justiça. Muita ênfase é dada por Jesus à Justiça. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça...” (Mt 5:6). “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5:20). “Buscai, pois, em primeiro lugar o seu Reino e a sua justiça” (Mt 6:33). “Tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, e a fé” (Mt 23:23). Esta ênfase de Jesus ecoa nos escritos dos apóstolos. “Porque o Reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça...” (Rm 14:7). “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: Todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, também aquele que não ama a seu irmão” (1Jo 3:10).

Mas, que justiça? A justiça de Deus. O Reino de Deus é o estabelecimento da justiça de Deus na terra. Jesus é a revelação da justiça de Deus. Ele mostra que a motivação da justiça é o próprio Pai. “Para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus”. A justiça de Deus está baseada no seu amor.

A vida de Jesus foi uma luta contra as opressões do seu tempo. “Vinde a mim todos os que estão cansados e oprimidos” (Mt 11:28). Jesus lutou contra a opressão do pecado, contra a opressão da ignorância, da doença, da fome, da tirania de satanás e dos homens poderosos. A vida de Jesus é a manifestação do Deus que agiu com seu braço valorosamente. Dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos” (Lc 1:51-53). Na luta contra todas as opressões, Jesus declara: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; para proclamar libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos; para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o Ano Aceitável do Senhor” (Lc 4:18-19). No auge do seu ministério Jesus esclarece: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo anunciado o Evangelho” (Mt 11:4-5).

Jesus não vacila na condenação das injustiças das classes dirigentes. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas; porque devorais as casas das viúvas, e, para o justificar fazeis longas orações; por isso sofrereis juízo muito mais severo” (Mt 23:14).
Jesus expulsou os vendilhões do templo e os chamou de “ladrões e salteadores”. Foi uma denúncia aberta contra os sumo-sacerdotes Anás e Caifás, donos daquele comércio demoníaco. Jesus não tolerou a petulância de Herodes, e mandou-lhe um recado: “Ide e dizei a essa raposa...” (Lc 13:32). A paixão de Jesus pela justiça é expressão viva da implantação do Reino de Deus.

Essa é a função preponderante do “corpo de Cristo”, a Igreja, na Terra. Infelizmente não tem sido assim. Todavia, “um dos melhores sinais da igreja na atualidade, é que ela parece estar carregada de tristeza porque a justiça do Reino de Cristo é tão pouco praticada nos países cristãos”. Está surgindo, ante os olhos dos cristãos a visão de uma nova sociedade possuída e movida, muito mais do que esta atual, por aquele espírito que procede da consciência da paternidade de Deus e da fraternidade dos homens, espírito este que devemos a Jesus.

A igreja tem apoiado sistemas econômicos e políticos opressores, ou se tem silenciado pecaminosamente, muitas vezes diante, da injustiça, da opressão do homem pelo homem. A igreja deve fazer muito mais empenho para o estabelecimento da justiça nas relações familiares, nacionais e internacionais. Muitas vezes a igreja não tem sido instrumento eficaz para a prática da justiça entre os homens, antes tem sido instrumento para a injustiça. Instrumento para injustiça dos patrões contra empregados. Instrumento para o aumento da pressão dos ricos e poderosos. Instrumento para dar apoio aos imperialismos e colonialismos execrandos e desumanos.

Foi tanta a displicência dos cristãos, que a palavra Justiça foi arrebatada da bandeira cristã para hoje ocupar lugar de destaque na bandeira vermelha do materialismo. A palavra justiça está mais na boca de ateus do que de cristãos. Chegou ao ponto de quando um cristão começa a falar em justiça ser considerado inimigo do cristianismo e elemento perigoso para a “sociedade cristã democrática”.

Mas, o Reino de Deus, anunciado por Jesus, é o grande Reino da Justiça, por isso é um Reino revolucionário.

III - O REINO DE DEUS É ESCATOLÓGICO - No ensino de Jesus sobre o Reino vemos claramente dois fatos: o Reino já está no mundo e o Reino ainda será consumado. Entre o presente e a consumação há um processo. Jesus inaugurou a primeira etapa com a sua vinda ao mundo, trazendo o Reino. O mesmo Jesus vai inaugurar a segunda etapa, quando vier na sua glória e consumar o Reino. “O Reino do mundo se tornou de nosso Senhor e de seu Cristo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11:15 ). “E, então virá o fim, quando Ele (Cristo) entregar o Reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo o principado, bem como toda a potestade e poder”. (1Co 15:24). O próprio Jesus afirmou: “E será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24:14 ). “Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com Ele, então se assentará no trono da sua g1ória; e todas as nações serão reunidas em sua presença” (Mt 25:31-32).
Este elemento escatológico do Reino de Deus é parte importante da revolução que Jesus veio trazer ao mundo. Este é o “messianismo” da igreja cristã. A força espiritual que amenizou o sofrimento de muitos mártires. Este é o messianismo que antevê o Reino de Deus consumado no universo, quando toda a realidade estará sob a Soberania de Deus. Jesus não é só o princípio, é, também, o fim; não é só o alfa, mas o ômega; o que era, o que é e, o que será.

Como observa Oto Piper devemos evitar dois erros, quando falamos no fim. O primeiro é pensarmos que Deus vai interromper abruptamente o curso do tempo e, de modo súbito e arbitrário, estabelecer o juízo final, sem ligação com o processo que o próprio Deus desenvolve dentro da história. Não podemos entender o fim, sem ligá-lo com aquilo que Deus vem fazendo, através do estabelecimento do seu Reino. O segundo erro é pensarmos que o fim é a terminação de tudo, é a extinção total. O fim, só é o término do pecado e da rebelião. Por outro lado, é a continuação do propósito de Deus a desenvolver-se nos novos céus e na nova terra, após a palingenesia (renascimento, regeneração) universal. Não é o término, mas a transformação.

A escatologia do Reino de Deus difere de todas as utopias humanas, porque não apresenta uma “idade de ouro”, “uma época sonhada” como que boiando nas nuvens de um futuro distante, mas apresenta a esperança do domínio da Soberania de Deus sobre todo o universo.

Por outro lado a esperança cristã é diferente da esperança materialista-comunista, porque esta sonha com uma “idade áurea” dentro do processo histórico, alcançada pelo esforço humano sem intervenção sobrenatural; ao passo que o messianismo cristão reconhece o elemento Pecado no processo histórico, e crê que somente Deus pode transfigurar a humanidade e estabelecer a nova Jerusalém.

Todos os homens sonham com “um bom tempo”. Todos aspiram a um “bom tempo” de liberdade, igualdade, fraternidade, amor, justiça, etc. Os cristãos acham que esse “bom tempo” virá na sua expressão total com o estabelecimento do Reino de Deus. Mas, o processo desse Reino já está presente, efetua-se na História e terá a sua consumação na supra-História.

Esse aspecto escatológico teve e ainda tem influência poderosa sobre os cristãos e sobre a igreja, porque mostra que Deus tem um propósito para a História. Isto dá ânimo para luta, e nisto está a dinâmica do Reino de Deus, isto é, que o Reino de Deus é o elemento que opera no mundo e continuará operando até a consumação final.

O Brasil espera por um tempo melhor. Há um messianismo brasileiro, especialmente no Nordeste. Esta área que há muito sofre sob o guante (luva de ferro) de grandes injustiças, flagelos e desprezos. Entre secas prolongadas e enchentes, o nordestino é o povo que espera por uma situação melhor. O messianismo nordestino é colorido com as tintas do sonho mais exaltado da felicidade e da fartura. Basta ler os poetas populares do Nordeste, que falam das aspirações mais profundas dos homens das caatingas e dos mocambos. Um exemplo típico desse messianismo nordestino está no poema “Viagem ao País de São Saruê”. São Saruê é a Nova Jerusalém dos nordestinos sofredores.

Eu vou pedir licença para ler uma parte deste poema de Manuel Camilo dos Santos. Este poema mostra como os poetas populares expressam as aspirações da gente pobre do interior ou das capitais. Como o poeta é capaz de colocar em versos os sonhos que para ele constitui uma visão da Nova Jerusalém. Eu vou ler a parte final, e que descreve esta cidade chamada São Saruê.

“Mais adiante uma cidade
como nunca vi igual
toda coberta de cristal,
ali não existe pobre
é tudo rico afinal.

Uma barra d' ouro puro
servindo de placa eu vi,
com as letras de brilhantes
chegando mais perto eu li,
dizendo: - São Saruê
é este lugar aqui.

Quando avistei o povo
fiquei de tudo abismado,
era um povo alegre é forte
sadio e civilizado,
bom, tratável e benfazejo
por todos fui abraçado.

O povo de São Saruê
tudo tem felicidade,
passa bem, anda decente
não há contrariedade,
sem precisar trabalhar
e tem dinheiro à vontade.

Lá os tijolos das casas
são de cristal e marfim,
as portas barras de prata,
as telhas, folhas de ouro
e o piso de cetim.

Lá eu vi rios de leite
barreiras de carne assada
lagoas de mel de abelhas
atoleiros de coalhadas,
açude de vinho quinado
monte de carne guisada.

As pedras de São Saruê
são de queijo e rapadura
as cacimbas são café
já coado e com quentura,
de tudo assim por diante
existe grande fartura.

Feijão já nasce no mato
já maduro e cozinhado,
o arroz nasce nas várzeas
já prontinho, despolpado,
peru nasce de escova
sem comer vive cevado.

Galinha põe todo dia
em vez de ovo é capão,
o trigo em vez de semente
bota cachadas de pão,
manteiga lá cai das nuvens
fazendo rama no chão.

Os peixes lá são tão mansos
com o povo acostumados,
saem do mar vêm para as casas
são grandes, gordos e cevados
é só pegar e comer
pois todos vivem guisados.

Tudo lá é bom e fácil
não precisa se comprar,
não há fome e nem doença
o povo vive a gozar,
tem tudo e não falta nada
sem precisar trabalhar.

Maniva 1á não se planta
nasce e em vez de mandioca
bota cachos de beijus
e palmas de tapioca,
milho, a espiga é pamonha
e o pendão é pipoca.

As canas em São Saruê
em vez de bagaço e caldo,
umas são cana de mel
outras açúcar refinado,
as folhas são cinturão
de pelica preparada.

Os pés de chapéus de massa
são tão grandes e carregados
os de sapatos da moda
têm cada cachos “aloprados"
os pés de meias de seda
chega viver encalhados.

Sítios de pés de dinheiro
que faz chamar atenção,
Os cachos de notas grandes
chegam arrastar pelo chão,
as moitas de prata e níquel
são mesmo que algodão.

Os pés de notas de conto
carrega que encapota,
pode tirar-se à vontade
quanto mais velho mais bota
além dos cachos que têm
cascas de folhas tudo é nota.

Lá os pés de casimira,
brim, borracha e tropical,
raion, brim de linho e cáqui
e de seda especial,
já botam as roupas prontas
própria para o pessoal.

Lá quando nasce um menino
não dá trabalho a criar,
já nasce falando e já sabe ler,
escrever e contar,
canta, corre, salta e faz
tudo quanto se mandar

Lá tem um rio chamado
o banho da mocidade,
onde um velho de cem anos
tomando banho à vontade,
quando sai parece
ter vinte anos de idade.

Lá não se vê mulher feia
e toda moça é formosa,
alva, rica e bem decente
fantasiada e cheirosa,
igual a um lindo jardim
repleto de cravo e rosa.

É um lugar magnífico
onde eu passei muitos dias,
passando bem e gozando
prazer, amor, simpatias,
todo esse tempo ocupei-me
em recitar poesias.

Eu citei este exemplo porque é um assunto, que, aliás, preocupa a Confederação Evangélica do Brasil. Mas eu li para chegar a seguinte conclusão: Daí entendermos porque o messianismo comunista fala de perto ao homem do nordeste brasileiro. O nordestino é o povo mais messiânico do Brasil. Dai também notarmos com grande tristeza que os cristãos deixaram de lado a revolução do Reino de Deus, revolução que traz bênçãos para o presente e esperança para o futuro.

O cristianismo proclama que a História atual está no ínterim que tem como pontos limítrofes a ascensão de Cristo e a sua Parousia (a segunda vinda de Cristo). Entre a sístole e a diástole da eternidade palpita a História.

Não haveria razão de ser para a existência da igreja se não houvesse a esperança da Parusia. A sombra escatológica que atravessa a Bíblia tem sua expressão no “dia de Jeová” do Antigo Testamento e no “dia do Senhor” do Novo Testamento. Ambos expressam a Parousia divina.

Conclusão – “O Cristianismo e a Reforma são duas das grandes revoluções da História. São na verdade a mesma revolução. A primeira fecha a velha ordem das coisas, a segunda começa a nova ordem.” São palavras do grande historiador d'Aubigné. A revolução do Reino de Deus foi inaugurada há dois mil anos atrás com a presença de Jesus Cristo e continua alvoroçando o mundo. O que nós cristãos precisamos fazer hoje é, através das nossas vidas, dar mais oportunidades para o desencadear dessa revolução gloriosa.

Como filhos do Reino de Deus somos parte da rebelião dos tempos atuais. Devemos estar na vanguarda dos movimentos de transformação do mundo contemporâneo. O clima revolucionário do século XX é percebido através da revolução marxista-leninista, da revolução do proletariado, da revolução étnica, da revolução nacionalista, da revolução da autodeterminação, etc. Dentro desse vulcão em ebulição está operando a revolução do Reino de Deus, isto é, a Soberania de Deus sobre a História, dando a diretriz segura para a humanidade no presente e no porvir.

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OBS: Texto extraído das páginas 33 a 57, do livro CRISTO E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO, livro Volume 2, resultado da Conferência do Nordeste, promovida em julho de 1962 pelo setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil -CEB.

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