IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Rio, 15/9/2011
 

O artista: servo dos que sofrem (Prof. Gilberto Freyre)

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Senhor Presidente, meus caros companheiros de mesa, meus amigos. Temo desapontá-los lendo as notas que escrevi para esta ocasião; é que eu sou mais escritor, se é que sou escritor, do que orador. Não temam, porém, porque as notas são curtas e o fato de que eu vou lê-las não quer de modo algum dizer que eu me esquive a ser bombardeado, como é já expressão usual, com perguntas no fim da leitura destas notas. Elas são mesmo notas de desafio e provocação. Considerem-se por elas, os meus amigos presentes, desafiados e provocados, antes de me desafiarem e provocarem.

O que mais me encanta nesta reunião de cristãos evangélicos que agora se realiza no Recife, é a Exposição de Artes que acabo de visitar, que constitui uma das expressões mais características, e, eu aqui, desde já, me congratulo com a sua principal organizadora. Realmente é encantador o honesto e inteligente empenho que esta reunião revela da parte dos cristãos evangélicos brasileiros de se identificarem com a realidade brasileira, com a cultura, com a própria tradição brasileira, continuada da portuguesa e que tendo se constituído sobre base católica não se fecha a sugestões acatólicas, como não se fecha a um processo renovador ou mesmo revolucionário que seja de fato brasileiro, e de fato corresponda às aspirações evangélicas. Pois não é certo desta tradição que não se concilie com o modo dos cristãos evangélicos serem ao mesmo tempo cristãos e brasileiros.

A cultura brasileira é, ou deve ser, como a educação de que fala, em livro interessantíssimo, o Prof. Anísio Teixeira, uma cultura aberta a todos os que aqui vivem e convivem, e não fechada a muitos para se ourissar em privilégios de alguns. Somos uma tradição, somos uma cultura, e somos uma realidade caracterizada em suas principais expressões, pelo espírito e até pelo gosto de convivência democrática. O espírito e até o gosto de convivência democrática permitiu que aqui convivessem, como agora convivem brasileiros das mais diversas cores, das mais diferentes etnias, das mais diferenciadas culturas de origem, sem que essas diversidades prejudicassem nossa unidade, ao contrário, reforçando-a, fazendo com que ela seja uma unidade flexível, dinâmica, viva, e não monolítica nem artificial. É uma constante lusitana esta. Delas tem havido desvios lamentáveis: a Inquisição em Goa, por exemplo.

Mas a predominância vem sendo esta. Aonde chegou o português fez mais da sua fé cristã do que da sua condição ética de europeu, a base principal da sua presença entre povos não europeus é da sua convivência com populações não européias. Não se fechou dentro de um rito ou superior europeísmo e afastou dele indivíduos e outras raças, outras cores e de outras culturas. Do maior dos seus missionários no oriente, o hoje santo da Igreja Católica João de Brito, se sabe que, se queimava o mais possível de sol e bronzeava o mais possível a pele com pinturas tropicais, contanto que não parecesse mais europeu com pretensões a superior, e melhor se apresentasse como cristão, fraternalmente cristão, aos povos de cor. Por causa de missionários como este (e nem todos foram como ele), é que ainda hoje, em certas partes do Oriente que tive a oportunidade de visitar há poucos anos, não se diz dos descendentes e dos continuadores de portugueses, que conservam a língua portuguesa, que falam português, e sim, que falam cristão.

É, pois por este gosto de convivência democrática com outros povos que o português transmitiu-lhes além do seu sangue, valores cristãos, e valores europeus, sem lhes impor monoliticamente um cristianismo que só se concebesse vindo de europeus maciçamente brancos e ligados a uma civilização européia da época burguesa, capitalista e paliotécnica. Daí ter sido possível em áreas não européias marcadas pela presença portuguesa um desabrochar de costumes mistos, ao lado de populações mestiças, de danças e de cantos não europeus acrescentados aos do ritual europeu, da Igreja Católica e artes híbridas, ao lado de saberes também híbridos; exemplo o saber médico desenvolvido por Garcia de Horta na índia, combinações que raramente se encontram nou-tras áreas de expansão européia.

O Brasil foi beneficiado por esta constante portuguesa que se tornou brasileira, brasileiríssima até e é hoje expressivamente brasileira. Seu próprio catolicismo, o próprio catolicismo do Brasil vem recebendo afetos e proveniências não europeias e acomodando afetos aos seus ritos, a sua arquitetura, a sua escultura sagrada, sugestões não européias que somente agora a Igreja Católica vem oficialmente apoiando e até estimulando em outras partes do mundo, como na África. Isto sem que o catolicismo sofra no que é essencial à sua universalidade; apenas se deve distinguir desta universalidade aquilo que a Europa burguesa e capitalista vinha pretendendo impor a outros povos, em grande parte através dos seus vários sistemas de capitalismo, ou antes, de cristianismo imperial.

Ao cristianismo evangélico do Brasil cabe desenvolver, e já está a se desenvolver, sobre vários aspectos, como religião capaz de escolher cada vez mais, sugestões brasileiras que se conciliem com seu caráter supranacional. Não há perigo para sua música de Igreja em assimilar da música folcloricamente brasileira, sugestões que a aproximem dos brasileiros mais rústicos, e que substituam nos seus hinos sugestões assimiladas da música folclórica de outros povos. Para tanto, não é necessário pactuar o cristianismo evangélico em qualquer parte do mundo de hoje com aquela democracia nacionalista que pretende fazer do nacionalismo em vários países uma seita, seita fechada, seita de fanáticos. Ninguém deve confundir esta espécie de nacionalismo anti-humanístico e anticristão, como autêntico, nem deixar que ele degrade cultos sinceramente cristãos em avivamentos mais políticos do que religiosos. A missão do cristianismo quer seja católico quer seja evangélico, continua a ser principalmente a religiosa, a espiritual, a mística; tudo o mais é secundário no cristianismo organizado em atividade evangelizadora.

O que não significa, porém que, a tudo o mais, o cristianismo católico ou evangélico deva ser indiferente, cuidando de salvar almas com tal afã que despreze os problemas concretamente sociológicos de convivência humana, e se desinteresse por aqueles aspectos nacionais de cultura que possam receber influência cristã de substância, guardando o essencial de suas formas particulares e arte de constituição de família, de sistematização de Estado, de organização e economia. E o cristianismo tanto pode adaptar-se a uma nação socialista como a uma comunidade neocapitalista. O cristianismo não é, evidentemente, barreira contra isto ou contra aquilo. Dizia há pouco um grande cristão:

"O cristianismo é fermento. o cristianismo é revolução, o cristianismo não teme revoluções porque é ele próprio a maior das revoluções; o cristianismo é tão revolucionário que faz os homens nascerem de novo”.

O cristianismo evangélico no Brasil já está na vez de se sentir, como cristianismo por excelência bíblica, na cultura brasileira. A influência da Bíblia sobre as gentes britânicas, em grande parte protestante, há quem atribua considerável importância entre as condições que tornaram possível a opulência da literatura em língua inglesa. É uma influência que está por se fazer sentir na arte e na literatura brasileira. A despeito do crescente número de cristãos evangélicos em nosso país, ainda não apareceu o brasileiro de gênio, que nascido evangélico, criado em meio evangélico, identificado com a interpretação evangélica da vida e da cultura brasileira, se afirmasse no Brasil grande poeta ou grande escritor em língua portuguesa, ou compusesse música brasileira, marcada por esta interpretação ou por esta inspiração, ou o arquiteto também de gênio que desenvolvesse para as igrejas evangélicas do trópico, um tipo de arquitetura que não fosse nem a imitação do tipo católico, nem reprodução do protestante anglo-saxônico ou germânico.

É curioso que até agora o cristianismo evangélico só tenha concorrido salientemente para enriquecer a cultura brasileira com insignes gramáticos: Otoniel Motta, Eduardo Carlos Pereira, Jerô-nimo Gueiros. É tempo de o cristianismo brasileiro evangélico ir além e concorrer para esse enriquecimento com um escritor do porte e da flama revolucionária, eu diria também, de Euclides da Cunha; com um poeta da grandeza de Manoel Bandeira; com um compositor que seja outro Villa-Lobos, que componha baquianas brasileiras que sejam interpretação ao mesmo tempo evangélica e brasileira de Bach. Também um caricaturista ou um teatrólogo revolucionariamente evangélico que pela caricatura ou pelo teatro denuncie abusos de ricos que para conservarem um privilégio de classe pretendem se fazer passar por defensores ou conservadores de tradições religiosas ou mesmo do que se intitula as vezes, pomposa e hipocritamente, civilização cristã.

Estou certo de que não é outro o sentido de universalismo cristão por um lado, e de particularismo não só nacional como regional por outro lado, que anima os promotores da atual reu-nião de cristãos evangélicos no Recife, e que se reflete na sugestiva exposição de arte que aqui se inaugura hoje. Congratulo-me com os organizadores desta exposição. Desejo-lhes boa sorte noutras iniciativas do mesmo caráter. Acompanharei desde agora com a maior simpatia àquelas suas atividades cristocêntricas, que se desenvolvem em benefício do Brasil, e adaptando-se ao Brasil.

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OBS: Texto extraído das páginas 59 a 63, do livro CRISTO E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO, Volume 2, resultado da Conferência do Nordeste, promovida em julho de 1962 pelo setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil - CEB.

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