IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 5/10/2011
 

A comunidade como criação do amor de Deus (Walter Klaiber e Manfred Marquardt)

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A comunidade como criação do amor de Deus

O que distingue a comunidade cristã de outras instituições sociais comparáveis é, em última análise, não a sua estrutura, nem os seus ritos sociais, nem outras marcas exteriormente reconhecíveis, mas é a sua origem no amor recriador de Deus.

Na pessoa de Jesus, no seu trato com homens, mulheres e crianças; em suas palavras e atos e na entrega de toda a sua vida, terminada na morte na cruz, tomou forma humana o amor salvador e redentor de Deus. A comunhão de vida entre Jesus e seus discípulos se tomou o começo de uma nova comunhão com Deus a que são convidados todos os homens: "convertei-vos e crede no Evangelho” (45). Os homens e as mulheres que tinham acompanhado Jesus em sua atividade terrena e com os quais ele se encontrou como ressuscitado, constituíram o início da Igreja de Jesus Cristo; tinham recebido o Espírito Santo, que lhes abriu a verdade da mensagem pascal: o Senhor verdadeiramente ressuscitou (Lc 24.34); Deus confirmou a entrega de seu filho e a reconciliação do mundo consigo, e a partir de então está aberta a porta da comunhão com Deus a todos os homens (46).

Esta nova comunidade se entende como a comunidade dos colaboradores e das colaboradoras de Deus em sua obra; esta comunidade é, ao mesmo tempo, apelo à conversão e sinal prévio do Reino vindouro de Deus. A sua fé e o conhecimento que junto com ela lhes foi conferido, bem como a experiência de suas vidas - tudo isso os obriga a uma vida que corresponda ao Reino de Deus e os tome responsáveis segundo o padrão do que lhes foi confiado. Eles vêm da experiência fundamental de terem sido aceitos por Deus e seu amor e entendem este incondicional e ilimitado amor como base de sua existência como indivíduos e como comunidade. O amor de Deus os transforma e lhes possibilita uma obediência, transformadora do mundo inteiro. A comunidade que tenta viver segundo a ética do amor, e sua conduta segundo as normas do amor, recebe poder pelos dons de Deus no culto divino, no uso dos meios de graça e na comunhão com outros cristãos onde sempre de novo se renova a experiência da aceitação por Deus - onde sempre de novo recebem a incumbência de celebrar o serviço divino no dia-a-dia, dentro do mundo em que vive.

A comunidade cristã vive como comunidade visível- sujeita a falhas e insuficiências, das quais não está livre a Igreja. Por isto também a comunidade de Cristo é uma comunidade oculta: o fato de ser membro da mesma não é certo somente pelo fato de visivelmente se pertencer a ela, pois os cristãos, pelo seu comportamento, não só tomam reconhecível a natureza da Igreja de Cristo, mas também podem encobri-Ia e deformá-la (47). Mesmo quando se tomam os maiores cuidados na recepção dos membros da Igreja (48), só podemos ver "o que está diante dos olhos" (l Sm 16.7).

Por conseguinte, nas exposições sobre comunidade e Igreja (visível), é absolutamente necessário - não só por causa da veracidade, mas também como orientação espiritual - distinguir entre a essência da Igreja de Jesus Cristo (isto é, a identidade que lhe é própria como Igreja e que lhe pertence de forma imutável), de um lado, e suas manifestações históricas, do outro, e que sempre correspondem mais ou menos à sua essência, e algumas vezes nem mesmo tem qualquer correspondência com ela. Como grandeza histórica, a Igreja nunca está livre de deformações de sua essência, porque os homens que a ela pertencem são pecadores. Além disso, como grandeza social, nunca está isenta de ser usada pelos homens, por motivos outros que não cristãos, e assim pode ser instrumento de abusos contra suas finalida-des. Por isso é imprescindível descrever a Igreja da forma como ela é segundo a sua natureza e como deve ser em suas realizações históricas (e isso ainda com as devidas limitações). (49)

A Igreja como corpo de Cristo
A origem da Igreja cristã, isto é, seu começo e base permanente, não está, portanto, nas decisões de homens, mas na ação de Deus para a salvação do mundo, fato que se deu em Cristo, uma vez e para sempre. A comunhão de homens que pertence a Deus, não consiste mais, unicamente, nas doze tribos de Israel. Um novo povo, originário de todo o mundo, foi acrescentado ao povo de Deus, como os profetas predisseram e os testemunhos neo-testamentários a viram surgir. O Cristo exaltado aos céus uniu muna nova comunhão, de caráter especial, homens de diferentes culturas, raças e nações. Por isto é correto dizer:

'“A Igreja é o corpo de Cristo, a comunidade que continua na história a mensagem de salvação e que incorpora neste novo organismo todos os que se deixam salvar” (50).
Já nos livros do Novo Testamento, a Igreja foi descrita com diferentes termos, dos quais cada qual faz ressaltar determinado aspecto; nenhum abrange toda a natureza da Igreja e todos devem ser completados pelos outros conceitos, a fim de definir o mais abrangentemente possível a realidade em vista.

No termo grego ekklésia (51), o aspecto de “comunidade reunida, conclamada” (gathered church) é ressaltado; koinonia (52) acentua o caráter de comunhão dos membros, participação e partilha mútua, além de participação comum na salvação dada por Cristo; 53 o termo “povo de Deus" (54) por sua vez, deve fazer sobressair a continuidade (e a diferença) com respeito ao povo da antiga aliança (55).

Esses conceitos - selecionados dentre um número maior de termos empregados - são os que utilizaremos nas seções seguintes, sem porém fazê-Ios objeto de qualquer sistematização.

A imagem do "corpo de Cristo" (1 Co 12.12-27) é especialmente apropriada para evidenciar a particularidade e a estrutura interna e externa da nova comunidade: ela é um organismo vivo, uma comunhão de pessoas, ligadas entre si por Cristo e constituída por homens que o representam no seguimento de Jesus, que se cumpre no dia-a-dia dos fiéis individuais, bem como na sua vida em comum e no seu comportamento comunitário.
As primeiras comunidades cristãs se viam como "o corpo de Cristo"; viam-se ligadas tão estreitamente entre si e com Cristo como os membros de um corpo, destinadas a viverem em comunhão uns com os outros (56). Apesar do aumento do número das comunidades cristãs, e apesar das divisões dentro do cristianismo, a Igreja de Cristo é uma só, porque o seu Senhor é um só. Ele a fundou pela ação reconciliadora; ele a chama à vida através de seu Espírito e a mantém em comunhão consigo. Pelo relacionamento de todos os membros a Cristo, cabeça da Igreja, a sua unidade é um dom conferido por ele. A unidade do corpo de Cristo não precisa ser restabelecida por nós, antes deve ser (re) descoberto e formalizado, na medida em que os crentes nele se aceitam mutuamente como unidos em Cristo.

A unidade dada por esta ligação com Cristo deve expressar-se na convivência dos fiéis, das comunidades e das igrejas. Não exige a uniformidade de serviços e dogmas, pois a multiplicidade pode exprimir a complexidade própria de todo ser vivo, o que se manifesta também na Igreja de Cristo. Mas, tal multiplicidade deve ser mantida unida pelo "vínculo da paz", que ajuda a manter a unidade em espírito:

"Um só corpo, um só espírito, tal como fostes chamados a uma só esperança de vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai que é sobre todos, por todos e em todos" (Ef 4.4-6).

Tudo o que leva à separação e ameaça quebrar esta comunhão, bem como o que é meramente explicitação da multiplicidade - são assuntos que devem ser debatidos e aceitos na submissão e obediência à mensagem do Evangelho, válido para todas as igrejas, em espírito de diálogo recíproco.

Na unidade dada por Cristo - que liga diferentes homens numa comunhão de amor - podem desenvolver-se os dons de todos os membros e podem ser utilizados no serviço mútuo e em favor dos homens que estão fora da Igreja.

Pela aceitação da unidade, dada previamente por Cristo, pode ser superada a tensão resultante das próprias convicções e das diferentes concepções dos outros cristãos. Sobre o fundamento da unidade em Cristo também são possíveis tanto a correção própria como a auto-crítica, conforme a mente de Cristo (57). Tanto a mera coexistência sem tensões, como a oposição sem amor, devem ser superadas no espírito da diversidade reconciliada.

1 - Comunidade dos que buscam e crêem
O amor de Deus que nos busca, eis o conteúdo próprio do Evangelho”. 58 Esta foi a experiência dos irmãos Wesley e assim eles o entenderam. Dois caminhos de busca aqui se cruzam: a busca do homem por Deus que o criou e destinou à comunhão consigo, e a busca do homem, no qual despertou a ânsia de libertação e de vida com sentido, de ser reconhecido, aceito e amado (59).

Nesta busca de Deus se toma claramente inteligível o que é a graça, no sentido de um amoroso voltar-se de Deus para o homem. Ele o segue, como o bom pastor segue as ovelhas que se perderam e o perderam (60), despertando neles o desejo por Deus.

"Esta graça (preveniente) desperta em nós o primeiro desejo de agradar a Deus, produz o primeiro clarão de compreensão da vontade de Deus ( ... ) uma séria aspiração por liberdade de pecado e morte, e nos impele ao arrependimento e à fé" (61).

Wesley, por diferentes motivos, colocou grande peso na ação da graça preveniente, que inicia o despertamento para Deus e sua realização na vida. Tanto a sua pregação evangelística como a reunião dos despertados, a sua notável ação social e sua fundamentação ética - tudo isso se toma compreensível a partir deste conceito teológico, que tudo unifica (62). A Simpatia de Wesley para com os fracos na fé, com os que caíram na incerteza, com os que questionavam e buscavam, era coisa evidente para os homens de seu tempo: ele os tomou a sério e lhes ofereceu um espaço social em meio a pequenas comunidades e grupos, no qual podiam fazer suas perguntas, falar de experiências e idéias, e, no diálogo com a Bíblia e de uns com os outros, podiam dar passos na fé, crescer e amadurecer espiritualmente. Desta forma o corpo de Cristo tomava forma experimental e, nas comunidades renovadas e animadas pelo Espírito de Deus nasciam novas relações sociais, que tinham suas raízes na nova relação com Deus que a todos ligava entre si - ainda que fossem de intensidade diversa e tomassem diferentes formas individuais, mas de onde tiravam o seu valor e sua força. No amor vivido, Deus vai ao encontro do homem, dele se aproxima, e por isso os homens podem se achegar a ele e uns aos outros.

Dentro dessa tradição, a Igreja Evangélico-Metodista procura estruturar a organização em círculos concêntricos: os membros da Igreja receberam o Batismo e, pela confissão pública de sua fé, deram o passo decisivo para a comunhão mútua dentro de comunidades e igrejas (63); quem (ainda) não está preparado para dar este passo, mas está em condições de colaborar no trabalho da Igreja, se assim o quer, recebe (na Igreja Metodista alemã) o status de "simpatizante da Igreja" (64) e se faz inscrever como tal no rol da Igreja; 65 também há os assim chamados "amigos da Igreja", que desempenham um importante papel no trabalho e na vida da Igreja, em quase todas as comunidades, aos quais pertencem os cristãos que permanecem membros de outras igrejas, mas querem estar próximos dos metodistas.

O olhar da Igreja, entretanto, vai muito além dessas pessoas, para se dirigir àqueles que - sem ter qualquer laço, mais ou menos intensivo, com ela - podem e devem ser atingidos, dentro do âmbito social em que se encontram. A não-aceitação por Wesley de limites fixos das paróquias (“O mundo é minha paróquia” – lit. : “Eu lanço meu olhar sobre o mundo como minha paróquia”) (66) permanece para os metodistas um apelo a que saiam de seu meio para o além-fronteiras, onde o amor de Deus quer alcançar os homens. Por isso, no entendimento dos metodistas, pertence à Igreja cristã um espaço de encontro e de tolerância, onde podem entrar e encontrar-se pessoas a fim de que possam conhecer e se aproximar da Igreja sem medo de serem cobradas ou obrigadas, no período anterior à decisão de se filiarem a ela (67).

O dom da nova comunhão com Deus só pode ser recebido em consentimento livre da fé. A graça de Deus liberta o homem; ela não força ninguém a aceitar a fé. Fé e comunhão com Deus incluem a convicção pessoal de que a mensagem de Cristo é verdadeira e que eu sou uma criatura querida e amada por Deus, sua imagem e semelhança. Não existe nenhum constrangimento, o qual contradiria a essência da comunhão voluntária com Deus. Mas, sem fé pessoal, a salvação oferecida por Cristo não pode ser recebida. Com a resposta da fé - pela qual os homens reagem ao chamado de Deus - vem também a aceitação da comunidade dos crentes. Uma fé em Cristo, que só pudesse ser vivida em âmbito privado, simplesmente não existe. Seu espaço vital é a Igreja de Jesus Cristo, bem como todo o vasto campo de existência.

2 - Cristianismo como compromisso
"Cristianismo como compromisso" é expressão supérflua, pois na realidade não existe cristianismo sem compromisso. Numa sociedade que em grande parte ainda se julga cristã, contudo, o fato de pertencer à Igreja é freqüentemente visto como se alguém pudesse ser cristão sem qualquer compromisso pessoal. Por isso, é necessário e lógico falar de um ser-cristão comprometido. O que é isto?

Antes de mais nada, é vida em comunhão com Cristo, pertencer ao corpo de Cristo.
"Deus estendeu sua mão ao crente, ligou-se a ele e não quer largá-Io de novo. Surge assim uma fé comprometida (...) o que significa que minha vida está totalmente ligada a Deus e que eu, cheio de alegria, quero e posso viver como filho seu." (68)

Esta ligação com o "iniciador e consumador da fé" (Hb 12.2) e com sua comunidade, é a artéria vital da existência do cristão, o canal adutor da energia para suas tarefas e para supostas deficiências e os desenganos, que estão igualmente ligados à nova existência.
Quando o apóstolo Paulo afirma que os crentes estão em Cristo e Cristo nos que crêem (69), ele fala da mesma ligação estreita e vital sem a qual a existência cristã é impossível. Esta ligação tem tanto uma significação eclesiológica (70), como pneumatológica (71), pois a sua concreção terrena se mostra seja na auto-compreensão, seja na imitação de Cristo por discípulas e discípulos, que devem estar prontos, como "representantes de Cristo", para a coragem da esperança e para o serviço do amor, na certeza alegre da fé, cada qual em seu lugar, com suas capacidades e fraquezas. Se cada um agir assim em sua situação particular, nascerá a solidariedade, isto é, a unidade dos diferentes que, pertencendo ao mesmo Senhor, suportam as tensões entre eles existentes e as tomam frutuosas para a comunidade e para o mundo ambiente. Assim se exprime em meio ao mundo o senhorio daquele que "de muitos membros cria um só corpo” (72).

Cristianismo comprometido significa ainda uma segunda coisa, ligada à primeira: homens que pertencem a Cristo e dele vivem não permanecem descomprometidos, numa atitude de vida estranha a quaisquer obrigações; antes,, experimenta que sua própria vontade mais e mais é orientada pela sua própria vontade é orientada pela vontade de Deus, quando vivem em comunhão com ele. Esta nova orientação não nasce do fato de que uma vontade estranha lhes é imposta, mas que sua própria vontade se modifica de dentro deles. Esta orientação é dada pelo próprio Cristo e por ela fica claro que qualquer tipo de constrangimento é aqui estranho, e contraditório em si mesmo. Trata-se de um crescimento e de um amadurecimento no amor a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento, bem como no amor a todos os homens, dos quais nos tomamos próximos (Lc 10.36 paralelamente).

Do ponto de vista do compromisso metodista, isto, naturalmente, não significa que a vida de união com Cristo fique confinada ao nível meramente privado, ou que possa ser vista como "sem relação real com a cultura e as realidades sociais do mundo caído” (73). Çristianismo comprometido é, ao mesmo tempo, um programa para toda a existência humana, em todos os seus aspectos: pessoal, comunitário e social.

Já as primeiras comunidades cristãs reconheceram que tudo isso não nasce por si mesmo, nem que nos é dado desde o início, com nossa conversão ao cristianismo. As controvérsias que encontramos nas comunidades de Jerusalém, de Corinto, ou da Galácia, bem como as exortações de Paulo às comunidades que se compõem dos santos de Deus - até mesmo as discussões entre os próprios apóstolos e as controvérsias entre líderes da Igreja Antiga - tudo isso mostra que não se trata simplesmente de aplicar regras antigas e mandamentos velhos e de orientar o próprio comportamento segundo eles - mas sobretudo, de deixar modificar o próprio pensamento vontade e ação pelo amor de Cristo, o qual não nega os conflitos, não os camufla, nem suprime pela aplicação da força, mas busca solucioná-los segundo a orientação que se encontra no Evangelho. Por isso, "todos os membros da Igreja se esforçam, com toda a atenção, cuidado, minúcia e com paciência (tudo isso, reunido, ainda é pouco!), para manter a sua união no espírito e no vínculo da paz; manter o espírito de humildade e suavidade, de paciência, de respeito mútuo e do amor (...). Somente assim podemos ser membros vivos daquela Igreja e permanecer como tais nela, que é o corpo de Cristo" (74).

A profissão de fé comprometida e livremente aceita está ligada também à participação ativa nas tarefas e encargos da comunidade, conforme decisões e promessas feitas por ocasião do ingresso na mesma. A decisão tomada, e feita com toda a seriedade, também deve, depois, ser vivida a sério. Por isso não é indiferente à Igreja o modo como os seus membros se comportam nela; pelo contrário, “um membro que relaxa as obrigações, assumidas na recepção à igreja, deve ser objeto de cuidados pastorais, a fim de trazê-lo de volta à participação na vida da comunidade" (75). O compromisso com a comunidade impõe essa preocupação e não abandona os indivíduos simplesmente a si mesmos. Neste ponto, quase não há limites para o exercício de uma sã fantasia do amor. Em todo o caso, é necessária grande paciência e tolerância na espera de que haja progressos - paciência esta desconhecida pelo rigorismo de algumas igrejas livres [NT - que não têm vínculo oficial com o Estado], quando procedem a "expurgos" do rol eclesiástico.
Finalmente, é preciso observar que todos os esforços na reconquista de um membro para sua participação na vida da Igreja, ele forma pessoal, tem por única finalidade o homem em si mesmo e a sua salvação, e não o problemático ideal de uma "comunidade de puros” Somente tal finalidade pode, por sua vez, justificar a exclusão da comunidade, como último remédio, quando não teria mais sentido o encaminhamento a uma outra comunidade, ou Igreja. A decisão da comunidade que leva à exclusão de um membro (76), é meramente um voto humano, pois o julgamento divino pode ser diferente, como também em outros casos. Dos julgamentos humanos vale o que Paulo escreve à comunidade de Roma (Rm 14.4): "Cada qual fica de pé ou cai para o seu Senhor, que o pode levantar e manter em pé". Com isso, mais uma vez, fica claro que, mesmo quando a vida cristã se externa em bom comportamento, ou quando consegue encarnar-se em forma de parceria social e solidária, ela deve ter suas raízes e tirar sua vitalidade do íntimo das pessoas, do coração, da vontade, sendo o ponto decisivo aquilo que habita dentro do homem e de lá age sobre o mundo de fora (77).

Wesley é homem moderno e o manifesta no fato de que na sua ética, à pessoa individual é atribuído o maior peso. Tanto em teoria como no trabalho prático e na instrução moral de seus colaboradores, ele coloca um valor extraordinariamente grande em que cada homem em particular - seja de que raça ou nacionalidade, ou camada social, for - é considerado imagem e semelhança de Deus, dotado de alma imortal e de dignidade imperdível (78). A importância única e exclusiva atribuída a cada indivíduo humano, nunca, porém, é vista como excluindo as relações sociais, em que os homens estão envolvidos, e que devem viver determinados pelo amor, que experimentam pessoalmente e devem fazer valer aos outros.

A fundação das "classes" e a celebração da aliança de Deus com os seres humanos, são apenas dois exemplos significativos desse tema, que perpassa toda a sua teologia. O seu escopo era pela piedade atuante, que renova a vida dos homens, tanto dos indivíduos como das comunidades, e o faz de forma real e concreta, renovando também as circunstâncias e as estruturas em que os homens vivem. Isso, para Wesley, sempre começa pela renovação do indivíduo, que se deixa conformar com Cristo e propõe a se deixar dirigir pela mente de Cristo em seu agir e pensar (79).

Mesmo que hoje notemos certas restrições a este ponto de partida de Wesley, continua importante afirmar que, pelo fato de Deus ter ligado a si os homens em liberdade e amor, estes podem aprender a valorizar a si mesmos como seus filhos, e neste amor podem dispor-se a servir aos outros em liberdade de doação, a estabelecer relações com eles e cultivá-Ias no mesmo espírito (80).

Embora a renovação do crente segundo a imagem de Cristo se dê essencialmente como aquisição de uma nova personalidade na totalidade de seus pensamentos e sentimentos, de seu código de valores e convicções básicas próprias, é certo que esta recebe a sua forma definitiva e perceptível apenas na condução prática da vida.
''A vontade do homem necessita ser modificada por um poder a ser manifestado nele, e que o transforme no seu mais íntimo, como requer a mensagem justificadora e vivificante da graça de Deus, que nos restitui a nós mesmos e na qual nos tornamos partes dele” (81).

Cristo, em quem o Reino de Deus se tornou presente, se tornou o modelo do homem na totalidade de sua humanidade, na realização da reconciliação, na superação do egoísmo e na fundação de uma comunidade de todo o criado, através do amor. Assim como o amor de Cristo é a base da salvação dos crentes ele se torna também o critério último da formação do caráter cristão ê de seu comportamento responsável. Estar em Cristo, eis a base para uma nova existência, em que o velho - e isto significa, também, aquilo que foi deformado pelo pecado - mais e mais deixa de existir e surge o novo, isto é, cresce marcado pelo espírito de Deus.

3 - Batismo e recepção de novos membros na comunhão da Igreja
Depende unicamente da graça de Deus que os homens encontrem o caminho para a fé e para a comunidade cristã, graça que antecede a toda ação humana e cria a possibilidade de receber a salvação. Esta salvação, que está fundamentada na reconciliação em Cristo (2 Co 5.19-21) - e que liberta das cargas e cura das feridas do pecado pelo qual o homem foi afastado da comunhão com Deus - é oferecida a todos os homens no anúncio do Evangelho e apropriada pessoalmente no Batismo (Mt 28.19; At 2.38). No Batismo, pelo qual o homem é recebido na comunhão da nova vida com Deus, se exprime o aspecto objetivo e visível do evento da salvação. O fim do Batismo que a Igreja realiza por incumbência de Cristo, é tornar visível a justificação e a aceitação dos que estavam separados de Deus, o que só se realiza pela graça. Deus que nos deu a vida terrena, quer dar-nos também a vida eterna, na aquisição da qual nossos próprios esforços não são necessários, nem teriam qualquer sentido. No Batismo o homem pecador é entregue como propriedade a Cristo crucificado e ressurreto e uma nova vida lhe é conferida pelo poder de Cristo e de seu Espírito.

Tal como a Ceia, o Batismo é "palavra visível de Deus", sinal válido, instituído por Cristo, da nova comunhão, em que ele recebe os batizados. A esta recepção deve corresponder o sim da fé nos batizados, pelo qual se recebe a salvação de Deus. Batismo, fé e comunidade pertencem, portanto, objetivamente, um ao outro; nenhum dos três pode existir, dentro da compreensão da tradição neo-testamentária, sem os dois outros.
O Batismo é "penhor e sinal eficaz de que a ação salvadora de Deus se aplica pessoalmente ao batizado” (82). Além disso, ele deve ser respondido com o sim da fé do homem, o qual assim faz valer livremente para si o que Deus fez em seu favor. Assim ele afirma, ao mesmo tempo, a sua nova identidade de filho de Deus, que lhe foi conferida no Batismo. Juntamente com os nomes do Deus trino, é pronunciado o nome do batizando, com o que fica claro que pertence a Deus, que em sua fidelidade vai atrás do homem, e com amor paciente espera ser correspondido neste seu amor.

Na tradição metodista, neste conceito é vista a aliança de Deus que coloca o fundamento de uma comunhão renovada entre Deus e homens, tanto na aliança antiga com Israel como na aliança nova para todos os povos. O Batismo é o sinal desta nova aliança da graça de Deus, da qual não são excluídas nem mesmo as crianças.

Já em seu tratado "Sobre o Batismo”, Wesley (83) chamara de “entrada na aliança de Deus” um dos efeitos do Batismo; mais tarde, em conexão com o “culto de renovação da aliança” (84), esta relação foi intensificada (85). Neste sentido, o culto (de renovação da aliança) com a Santa Ceia é entendido como certificação da graça do Batismo e como um novo compromisso de viver para Cristo e não para si mesmo.

O culto de renovação da aliança com Deus é para a atualização da palavra salvífica de Deus recebida no Batismo (das crianças) e para renovação das promessas do Batismo, 86 e ainda para a satisfação da necessidade dos cristãos, que receberam o Batismo infantil, de experimentarem a grande alegria nesta, como que, repetição do Batismo (87), pois aí se trata da integração, vivida pessoalmente, na salvação; tudo confessado publicamente numa reunião festiva da comunidade. Tal cerimônia é ainda hoje em dia, frutuosamente celebrada nas igrejas metodistas, e chamada de "renovação da aliança batismal" durante a qual jovens e adultos são batizados e recebidos na Igreja. 88 Com isso se cria um remédio contra o perigo de desvalorização do Batismo, que surge da praxe batismal pouco diferenciada - o que, aliás, freqüentemente é aduzido como argumento para um segundo Batismo. Quando Batismo e fé, bem como integração compromissada na comunidade, são tomados a sério - então o Batismo deixará de ser algo que não tem referência ao compromisso da fé.

Embora o Batismo faça parte da recepção na Igreja, não o consideramos como necessário para a salvação. Quanto ao valor de salvação, atribuído a ele pela Palavra de Deus, este não depende de uma "correta" doutrina da fé, nem de determinadas concepções doutrinárias ou dogmáticas (que freqüentemente restringem a fé através de intelectualizações).

O fundamento decisivo da salvação é o amor incondicional de Deus, que no Batismo é atribuído a cada indivíduo e que o crente (mais tarde) aceita livremente, e assim reconhece a sua natureza de filho de Deus.

Baseados nesta compreensão do Batismo - apesar das duas práticas de Batismo infantil e Batismo de adultos - podemos falar de um só Batismo, pois "o que Deus faz no Batismo não se torna válido, só posteriormente, pela fé subjetiva, nem recebe daí caráter de verdadeiro”. 89 Por isso podemos concordar com a observação de F. Herzog: as crianças não pertencem à Igreja porque seus pais são membros a mesma; mas, certamente foi "uma intuição correta" da Igreja compreender que a renovação do homem não depende do fato de que alguém é dono de razão desenvolvida, ou de capacidade madura de raciocínio; não é preciso ser adulto para participar naquilo que acontece no Batismo.

"Decisiva para o Batismo de crianças é somente a certeza de que mesmo a palavra divina não entendida age sobre a consciência - sobretudo no âmbito da comunidade cristã”. 90
Foi de maneira muito feliz que teólogos e leigos metodistas da França - depois de muitas conversações e diálogos sobre concepções concorrentes de Batismo - assim formularam o sentido a ser dado tanto no Batismo de crianças como de adultos:
"É certo que a fé é sempre a resposta à ação salvadora de Deus; mas o momento da resposta da fé pode ser adiada. Os que foram batizados como crianças dão a resposta no momento em que o Espírito de Deus lhes abre os olhos e o coração à salvação, que já lhes foi oferecida. Também os batizados na idade adulta devem, segundo Romanos 6, ser sempre de novo exortados a darem a sua resposta de fé em obediência. Não é necessário que a fé primeiro crie as bases sobre as quais Deus possa atuar, porque o fundamento foi posto em Jesus Cristo, de uma vez para sempre. Visto sobre este fundo, também o Batismo de crianças é Batismo no sentido bíblico. É evidente que os seus efeitos devem ser recebidos sempre de novo na fé. (91)

Esta conexão característica e polar entre palavra de salvação (no anúncio do Evangelho e no Batismo) e aceitação de salvação (na fé e na confissão pessoal dos batizados), também aparece na estrutura da Igreja Metodista: a recepção na Igreja pressupõe não só o Batismo mas também a profissão de fé - o Batismo como afirmação visível e válida do amor de Deus; a profissão como expressão audível e pessoal da resposta de fé do homem. (92)

"O Batismo - afirmamos junto com as outras igrejas - é o fundamento irrenunciável para se tornar membro da Igreja; é conferido uma só vez e para sempre, sem repetição, assim como Cristo morreu uma só vez e para sempre”. (93)

Quem foi batizado em criança e se decidiu pela confissão pessoal da fé, está apto para a recepção na comunidade dos crentes; quem, sem ter sido batizado, encontra o caminho para a fé em Cristo, receberá o santo Batismo, como primeiro passo para entrar na Igreja. (94)

"Por isso, Batismo e recepção como membro da Igreja constituem basicamente um só evento, mesmo quando separados pelo tempo, como no caso do Batismo infantil. O Batismo não pode, por si só, ser considerado suficiente, mas em união com fé, vida e anúncio, na comunidade”. (95)

O sim da fé encontra a sua expressão visível e constatável na solenidade da recepção como membro da Igreja. Quem encontrou a Deus e a si mesmo novamente, agora encontra nos outros cristãos a comunidade daqueles que estão unidos na caminhada para chegar à meta de suas vidas, isto é, a comunhão plena e perfeita com Deus.

A institucionalização da recepção de cristãos adultos na Igreja é um aspecto essencial com que se auto-define a Igreja Evangélico-Metodista. 96 Base para essa recepção não é submeter sua fé à prova - coisa impossível a homens - mas manifestar a aceitação da salvação, dada em Cristo de forma visível no Batismo e audível na confissão de fé, para que sua credibilidade seja testemunhada pela comunidade.

Os que foram recebidos como membros da Igreja se comprometem a levar uma vida sob a condução do Espírito de Deus e a participar na vida e no serviço da Igreja. 97 Os outros membros da Igreja se comprometem a aceitar os recém-professos como irmãs e irmãos e levá-Ios "a experimentar o amor e o companheirismo cristão, em comunhão cordial".98 Cada batizado é assim responsabilizado "a reconhecer e atestar, por toda a sua vida, a salvação atribuída no Batismo, de amar a Deus e conduzir-se como quem pertence a Cristo e à sua Igreja”. (99)

A conclusão, por um culto divino, do processo de educação religiosa de crianças da idade de 12-14 anos - freqüentemente chamado "consagração" - não deve ser identificada com recepção como membros da Igreja, pois se trata de dois processos diferentes, embora festejados solenemente. Entretanto, no mesmo culto divino podem ser "consagrados" jovens que terminaram sua instrução religiosa e outros, homens e mulheres, jovens ou adultos, podem ser recebidos como membros plenos da Igreja, ficando assim claro a todos os participantes que quem recebe o diploma da instrução religiosa não é por isso, ainda, recebido na Igreja (100). Nesse culto fica igualmente evidente que a comunidade cumpriu a promessa, feita por ocasião do Batismo das crianças, de instruí-Ias na fé cristã (101). Ao mesmo tempo, a comunidade espera em oração pela decisão pessoal e se prontifica a oferecer a esses jovens, em seu meio, espaço para viver e se desenvolver, até pedirem a sua recepção como membros plenos e responsáveis, por decisão livre pessoal (102). Desta forma, ficam satisfeitos os dois lados da ação salvadora de Deus: o amor incondicional, que em Cristo reconcilia todo o mundo com Deus e oferece a salvação a todos os homens, bem como a capacitação e a plena e livre escolha dos crentes para um sim próprio e pessoal, em que fazem valer para si o amor de Deus e a aceitação sua como filhos e filhas amadas.

Batismo não é novo nascimento; isto vale tanto para o Batismo das crianças como dos adultos. Mas, não deixa de ser "o símbolo do renascimento, de um novo nascimento” (103). A concepção wesleyana de Batismo fortemente arraigada na tradição anglicana - nunca se desenvolveu a ponto de constituir uma doutrina batismal sistemática e unívoca. Por isso, ainda hoje, existem no metodismo concepções teológicas que se distanciam grandemente entre si (104). Se olhamos para as exposições de Wesley sobre o Batismo como um todo e observamos suas tendências internas, parece correto dizer que ele conseguiu formular uma "correlação criativa entre elementos objetivos e subjetivos" (105), isto é, que sempre manteve estreitamente ligada a objetividade básica da graça divina - expressa sob forma de sinal no Batismo - bem como a necessidade do novo nascimento, a ser vivido como um evento próprio interior, pelo qual o Espírito Santo faz nascer a fé e assim dá ao evento salvífico o seu lado subjetivo. O Batismo é "obra exterior"; o novo nascimento é "obra invisível, operada por Deus como transformação da alma no interior do homem" (106). É verdade que Wesley nunca atacou a doutrina da regeneração batismal, no caso do Batismo das crianças e dos lactentes (107), mas ela não desempenha, na realidade, qualquer papel na compreensão da natureza da fé, porque o efeito da regeneração foi perdido pelo pecado e o Batismo infantil não toma desnecessário o novo nascimento na idade adulta - nem mesmo para aqueles que foram batizados como adultos.

Portanto, pode-se afirmar que Batismo (infantil) e renascimento se relacionam entre si no sentido de que os dois tratam de diferentes aspectos da ação da graça de Deus no homem; ambos marcam o início da entrada na fé cristã; ambos visam a fé pessoal e uma vida de amor, embora estejam, muitas vezes, separados no tempo (108). Com essas distinções, Batismo e renascimento constituem uma unidade, como elementos da ação salvadora de Deus no homem individual. Os efeitos de ambos são recebidos pela fé, confessados publicamente na profissão de fé em Cristo e selados na recepção como membro pleno da Igreja, que como a "renúncia a toda meia entrega" (bispo C. E. Sommer) realiza a inserção no corpo de Cristo.

A Igreja como comunidade de vida e serviço
A nova comunidade de irmãos e irmãs se compõe de pessoas que experimentaram em si o poder de Deus; sabem que são incondicionalmente aceitos por Deus, libertados para uma nova vida em fé, esperança e amor; mas sabem também que a nova vida apenas começou neles e que necessitam da comunhão com outros cristãos para sua defesa e cuidado. Por isso, uma das tarefas mais importantes da comunidade é dedicar-se aos jovens, aos inseguros e aos fracos em seu meio, aceitá-Ios e abrir-Ihes espaço, ao mesmo tempo espiritual e humano; em conjunto formam a nova "casa de Deus", na qual Cristo os reuniu, o "sacerdócio real" de todos os crentes, pelos quais Cristo continua a sua obra no mundo (IPe 2.5,10).

O cristianismo primitivo e o metodismo, inicialmente eram apenas movimentos, com o tempo se tomaram igrejas formais. Esse fato, como o mostra a história de todas as igrejas e comunidades, era inevitável, mas trazia consigo o perigo de congelamentos e estreitamentos. Na Igreja Evangélico-Metodista, as estruturas devem ser concebidas de forma a que toda a multiplicidade de dons e capacidades de seus membros seja colocada a serviço do Evangelho. Essa missão não se refere unicamente ao pequeno círculo dos ordenados, ou àqueles que desempenham algum cargo na instituição, mas visa a todos os membros. Cristo é a "cabeça da comunidade" e a autoridade decisiva da Igreja; é ele quem dirige e forma a comunidade pelo seu Espírito; ele dá a conhecer aos crentes a sua vontade e lhes confere a liberdade e as forças para cumpri-Ia.

A origem e a formação da comunidade se dá de duas maneiras: primeiramente pelos próprios membros, que pela pregação da Palavra de Deus compreendem o que Cristo quer e o seguem por convicção; a seguir, pelos membros chamados a uma função de liderança (pastores, superintendentes, bispos), que aplicam a Palavra de Deus a cada situação concreta e orientam a comunidade e os membros em particular a seguirem os passos de Jesus.

Portanto, a ordem eclesiástica é formada a partir de duas fontes: pela ação do Espírito Santo na comunidade que ouve a Palavra de Deus, e pela atividade deste Espírito em determinados cargos de serviço (funções).

1) O "sacerdócio universal de todos os crentes" (109) se baseia na vocação de todos/as os/as discípulos/as para ouvir e seguir o Evangelho e dele dar testemunho, em palavras e atos. Esta "vocação universal" é o "encargo", a "função" entregue a todos os cristãos, e que eles desempenharão segundo seus dons próprios. A graça de Deus convoca os dons e talentos pessoais, para que através deles o Reino de Deus seja construído no mundo.

2) Os cargos, ou funções, "especiais" não constituem fundamentos para posições especiais na Igreja, mas antes a Igreja deles necessita para o cumprimento de algumas tarefas. O irrenunciável compromisso da Igreja em razão do qual ela nasceu e vive - é o anúncio público do Evangelho, por palavras e sacramentos, é para isso que na Igreja Evangélico-Metodista são ordenados "ministros" (pastores e pastoras). (110) Esses recebem suas credenciais de seus respectivos bispos, e formam - depois de recebidos, para toda a vida, como membros da "conferência [concílio] anual" - um grupo de serviço responsável dentro da Igreja (111). Como membros do povo de Deus pertencem à comunidade eclesiástica, dentro da qual exercem as suas tarefas; como pregadores do Evangelho e enviados de Cristo, eles se distinguem da comunidade a que foram enviados. Mas, a sua autoridade não é outra senão a que é inerente ao anúncio verídico do Evangelho e às incumbências confiadas pela Igreja (112).

As duas formas constitutivas da Igreja dependem da ação do Espírito Santo, e por isso não podem ser exercidas uma contra a outra, mas em comum. Na Igreja Evangélico-Metodista, as respectivas tarefas são desempenhadas no sentido de que não existe superioridade, nem subordinação de funções entre si, pois todos os membros da Igreja podem participar das conferências [concílios], em diferentes níveis, para a tomada de decisões na Igreja. O diálogo fraterno que se trava - em respeito mútuo, com total transparência e auto-controle de todos - deve servir para que se "aumente a unidade de pregadores e membros das comunidades, e assim haja o crescimento de todos" (113), através de decisões comuns sobre doutrina, ordem e prática da Igreja. Tudo está baseado na certeza de que nesses encontros está atuante o Espírito de Deus.
Este procedimento "democrático" deixa igualmente clara a responsabilidade de todos, sobretudo dos membros das conferências [concílios], sem que com isso esteja garantida a total concordância com a vontade de Deus.

Finalmente, toda autoridade na Igreja se baseia no fato de que está a serviço da edificação da comunidade e é aberta à ação de Deus e de sua graça (114). Esta ação da graça de Deus só é possível quando os homens estão em permanente união com Deus, como artéria vital de todos os crentes, sem a qual a sua pretensa fé cristã não tem consistência, nem direção clara no caminho para a meta, nem energia para a caminhada na companhia de Cristo. Na comunhão de vida e serviço com Cristo e dos membros uns com os outros, a comunidade se toma o espaço vital da graça de Deus, na qual se toma possível a integração de todas as relações orgânicas do corpo de Cristo.

1 - O encontro da comunidade – o culto
O serviço divino pertence, segundo a concepção de Wesley, aos meios de graça. Aqui, dele tratamos como sendo a reunião semanal central da comunidade local, o momento de encontro e reunião de todos os grupos da Igreja e dos membros individuais.
A comunhão com Deus e a experiência da proximidade de seu Reino, na Igreja e no mundo, é celebrada semanalmente pelos cristãos no culto divino. Reúnem-se, e em uníssono louvam o seu criador, a quem pertencem o Reino, o poder e a glória para sempre. A comunidade toda se reúne para ouvir a Palavra de Deus, nas diferentes formas da celebração e participação que o culto pode ter. Na audição do anúncio da mensagem, na celebração dos sacramentos e na confissão comum de seu Senhor, recebem tudo o que necessitam, a fim de não perder o ânimo nem cair na desesperança, mas retomar sempre de novo a marcha no caminho que Deus quer que trilhem, neste mundo. Aí recebem nova alegria e nova motivação para permanecer ao lado de Cristo, no caminho para o seu Reino.

Além disso, o culto divino é também o lugar e a oportunidade a que todos sempre retomam, saindo de seu dia-a-dia entre os homens, de seus serviços na sociedade, a fim de partilhar entre si suas experiências, para infundir nova coragem aos cansados e esgotados, para viver momentos de paz e reunir novas forças - mas sobretudo para experimentar o socorro e a direção divina e assim de novo retomar o caminho da imitação de Cristo.

No culto divino comunitário podem e devem verificar-se diferentes experiências: recolhimento no silêncio da escuta atenta da Palavra de Deus, exortações para romper fronteiras na direção do mundo; re-encontro e reunião de irmãos, para posterior dispersão no meio da sociedade dos homens; busca de alívio dos pesados encargos diários e retomada entusiasmada de novos desafios, "lá fora", na dispersão ("diáspora") do mundo.

Esta é a visão "dinâmica" do culto divino, muito diferente das reuniões eclesiásticas em que diferentes "solistas" se isolam durante o serviço divino. Neste sentido, a comunidade metodista é, por definição, uma comunhão de pessoas que se reúnem no amor de Deus e de Cristo, um encontro de irmãos e irmãs - onde são batizados e recebidos na comunidade, onde celebram unidos a Ceia de seu Senhor e são enviados para servirem no mundo. Por isso, o culto divino não é mera tarefa a ser desempenhada por pastores e pastoras, 115 mas por toda a comunidade; nele cooperam e colaboram os membros individuais, os diferentes grupos e associações - desde a saudação à entrada do templo até o poslúdio do órgão, e outros encontros fraternais, após o culto. (116)

O centro do culto, sempre é constituído pelo louvor a Deus, pela audição da Palavra, pelas orações e pelos cânticos de vozes e corações, e no dar-se as mãos. (117)

Hoje em dia, em muitos lugares, pode-se novamente vivenciar a marca tradicional das comunidades metodistas do passado, onde o canto comunitário entusiasmado criava um ambiente de profunda emoção, animação e impulso para a missão (118); é desejável que este costume se firme cada vez mais.

Finalmente, o culto divino não fica deformado nem dessacralizado se nele é celebrado o encontro de toda a comunidade e são tratadas as tarefas comuns, feitas eleições de líderes para diversas funções, ou tomadas outras decisões. De fato, somente quando as ocupações do dia-a-dia, quando a palavra e a ação, o louvor e a vida são estreitamente entrelaçadas - somente então são sentidos como aspectos inseparáveis da vida comunitária, e se evita o perigo de separação completa de culto e vida, e o lento derrapamento para uma mentalidade meramente pragmática e organizatória.
Em nenhuma outra oportunidade a comunidade cristã experimenta melhor o que significa ser comunidade de Jesus Cristo do que quando o culto constitui o acontecimento central de sua vida, e quando se sente convocada pela Palavra de Deus, recebe os seus dons e é enviada para a sua missão entre os homens.

2 - Significação dos meios de graça
Em sua doutrina sobre os meios de graça, Wesley distinguia entre instituted means of grace, isto é, meios propriamente ditos da graça divina, e prudential means of grace, ou "meios de graça aconselhados". Ambas as formas são postas à disposição dos cristãos para que possam viver em permanente união com Deus (119). Através deles, a graça de Deus flui até nós como através de canais; são como artérias, que ligam o organismo da comunidade e os cristãos individuais com a cabeça, Cristo. Naturalmente esse processo não faz da graça de Deus como que uma substância, ou fluído divino que leva até nós a graça; antes, deve ser concebido como símbolos do fato de que Deus mesmo entra em contato direto e pessoal com aqueles que fazem uso desses meios. O Espírito de Deus se utiliza deles para levar-nos ao conhecimento claro da vontade divina e encher nossos corações com o seu amor.

Aos meios de graça pertencem sobretudo (120) os seguintes: culto divino público, Santa Ceia, oração, estudo da Bíblia e jejum.

1) No culto divino se reúnem os cristãos com as mais diferentes atitudes mentais e espirituais: os que ainda buscam a fé e os que já a possuem; os confusos e incertos, e os que têm certeza de sua salvação; os ainda onerados e os já libertados - todos vêm para o encontro com Deus e com os irmãos.

A pregação da Palavra de Deus e a comunhão fortalecem a fé, incrementam a esperança e enchem de coragem, para continuar a caminhada no seguimento de Jesus. A adoração de Deus e a celebração de seus benefícios são partes importantes do culto dominical, dia da ressurreição de Cristo. Nos dias festivos do ano eclesiástico são relembrados, com ações de graças, seus atos para a salvação do mundo. O sentimento de ligação e de pertencimento a Cristo atinge também os doentes, os idosos e os ausentes por outros motivos, e os inclui no culto divino, unindo a todos na recep-ção da Palavra e na oração.

2) A Santa Ceia (Ceia do Senhor, eucaristia) - que nos primeiros séculos do cristianismo era celebrada semanalmente, e mesmo diariamente (121) - é a memória da paixão e morte de Jesus, a presencialização da redenção realizada em favor de todos os homens. Na Ceia, o Cristo ressuscitado se nos oferece no pão e no vinho, sinais da entrega, única e eterna, de sua vida por todos que recebem esses sinais com firme fé no que significam. Concede-Ihes o perdão dos pecados e os liberta para uma nova vida de fé. (122)

Na celebração da Ceia, a comunidade manifesta também a sua gratidão pela reconciliação do mundo com Deus e exprime a sua esperança na continuada ação salvadora de Deus. A valorização extraordinariamente grande que os irmãos Wesley conferiam à Santa Ceia nunca foi partilhada pelo metodismo da Europa continental. A causa disso não se encontra de que as primeiras pequenas comunidades, das quais nasceu, mais tarde, a Igreja, eram geralmente compostas somente de leigos; pois isso se deu com todas as methodist societies, até mesmo em medida mais ampla. Parece que a mentalidade pietista européia teve aí a sua influência, pois o pietismo sentia "uma contradição entre a santidade da Ceia do Senhor e a vida não-santa dos comungantes" (123) de modo que eram exigidas e pressupostas medidas de preparação (124) para a participação na Ceia. Nas igrejas oficiais da Europa, a solenidade da santa Ceia foi sendo cada vez mais separada do culto principal aos domingos, diminuindo fortemente a quantidade das celebrações da Ceia e dos seus participantes. Esses costumes eclesiásticos não deixaram de influenciar as comunidades evangélico-metodistas, wesleyanas e episcopais.

Nos últimos 20-30 anos operou-se uma mudança, tanto na compreensão da santa Ceia, como na forma e freqüência de sua celebração (125). A idéia de um rigoroso auto-exame prévio não desapareceu, mas se fixa menos em qualificações e dignidade pessoal e comportamental, do que na seriedade e sinceridade do desejo por aquilo que Cristo nos oferece graciosamente em sua Ceia. Não devemos esquecer que o desejo sério e sincero está numa relação com a conduta ética da vida.

Na celebração da Ceia - em que, por consideração com os abstêmios, geralmente se usa o suco de uva não fermentado - são valorizados e enfatizados os diferentes aspectos bíblicos da mesma: é celebrada em memória da morte de Jesus e como atualização da sua ação redentora; como festa comunitária que tem em vista a esperança escatológica. Tal como o Batismo, na santa Ceia, "a salvação de Cristo sempre de novo é atribuída pelas suas palavras", dada a ver e comer nos sinais do pão e do vinho. "O Espírito Santo nela nos certifica de nossa comunhão com o Senhor glorificado e de seu perdão" (126). Finalmente, a freqüência das celebrações da santa Ceia, embora tenha aumentado, não atingiu ainda a recomendação de Wesley de sua celebração dominical. (127)

O Espírito de Deus pode levar os homens, através da participação na santa Ceia, à fé e pode fortalecer a fé e a certeza da fé. Ele pode renovar a entrega a Cristo e aos outros, bem como renovar no compromisso em todos os setores da vida no mundo.
Wesley colocava grande ênfase no fato de que na Ceia, como meio de graça, era experimentado o poder da graça tanto preveniente, como justificante e santificante (128). E como o desejo sincero por esses efeitos da graça de Deus lhe parecia mais importante que qualquer tipo de preparação especial, ele levou os metodistas a celebrar a "Santa Ceia aberta", que não excluía ninguém que quisesse renovar ou experimentar a comunhão pessoal com Cristo, pois não ele, nem os oficiantes convidavam para a Ceia, mas o próprio Jesus Cristo, que é quem continua a convidar; e quando Cristo convida alguém este deve ter acesso à mesa da Ceia.

Com isso, a celebração da Ceia adquire também um caráter missionário, pois está aberta aos "inseguros e não convertidos que buscam a salvação” (129). A "dignidade" que lhes dá direito a participar da Ceia não se encontra na perfeição moral, ou na vida sem pecado, mas na sua carência e no seu desejo de receber o dom de Cristo. Contudo, a recusa do arrependimento e um comportamento que nega o amor aos outros se opõe ao sentido da Ceia e a transforma em condenação daqueles que se fecham à ação do Espírito. Quem trata indignamente a seus irmãos - e neles a Cristo - e assim não distingue o corpo do Senhor, este come e bebe para si mesmo o juízo de Deus (l Co 11.19).

Se pregação, Batismo e Ceia são os meios oficiais da graça - e como tais citados nos textos dos artigos de fé (130), - a Igreja Evangélico-Metodista dispõe de outros "meios de graça", confiados por Cristo à sua Igreja: a oração, o estudo da Escritura (Bíblia), as sociedades (reuniões de classes, grupos específicos de homens, mulheres, jovens etc.) bem como o jejum. Também esses não têm o seu sentido em si mesmos, como se o seu uso fosse meritório por si mesmo (131), mas representam uma possibilidade de abrir-se à Palavra e à ação do Espírito Santo e assim receber iluminação e forças no caminho do seguimento de Cristo.

Oração, estudo bíblico e jejum podem ser exercitados por cristãos individuais por e para si mesmos, mas também em comunhão com outros na família, em grupos e em toda a comunidade.

A graça de Deus agirá através desses "meios" naqueles que aspiram a ela. Com isso não se coloca qualquer limite à ação da graça, como se só pudesse ser recebida por esses "canais", pois pode alcançar os homens de muitas outras maneiras e transformá-Ios. Mas, os meios de graça citados foram por Cristo confiados à sua comunidade e lhes acrescentou sua promessa, de modo que atribuir-Ihes pouco valor seria não só prejudicial para o cristão mas opor-se à vontade de Deus. Pelo seu uso, Deus quer ir ao encontro de todos os homens em sua vontade amorosa e abençoadora e tornar a comunhão com ele uma fonte de vida inesgotável.

Tanto o desprezo como a supervalorização das formas exteriores da graça constituem perigo; são formas que esperam cumprimento; a graça de Deus necessita de canais e vasos receptores para alcançar os seres humanos. (132)


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