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Rio, 17/10/2011
 

Pós-Modernidade e o Desafio da Aliança (Rubem Martins Amorese)

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O que é a pós-modernidade? Resposta: não sei. E tem mais: ninguém sabe. Se soubessem, não a chamavam de "pós alguma coisa". Chamavam-na pelo nome. Mas chamam-na de pós-modernidade porque só sabem até a modernidade.

O que é o pós-domingo? Resposta: é a segunda-feira. Mas imagine que estivéssemos vivendo a primeira segunda-feira da história; como a chamaríamos? Acho que a chamaríamos de pós-domingo. Por quê? Porque saberíamos que é o dia seguinte ao domingo, mas não saberíamos muito mais a seu respeito, por o estarmos vivendo pela primeira vez. Eventualmente, ao final do dia, saberíamos que houve uma feira, parecida com a do domingo. E lhe colocaríamos o nome de segunda-feira.

Pois bem: sabemos o que seja a modernidade, pois vivemos bastante esse "dia" da humanidade. Também notamos que anoiteceu e que surgiu um novo dia, que agora estamos vivendo. É o dia seguinte à modernidade. Como é ele? Ainda não dá para dizer. É por isso que ainda não tivemos coragem de lhe dar um nome - o que me parece sensato -, e o chamamos de pós-modernidade.

No entanto, já podemos, sim, provisoriamente, dizer algumas coisas sobre este dia seguinte de ontem.


Tecnologia e Consciência

Estamos falando de um fenômeno ideológico de origem tecnológica. É como se a tecnologia implantasse em nós sua consciência. Aquilo que sabemos, pensamos, desejamos; nossos valores, nossa forma de interpretar os fatos sociais, as nossas relações e até mesmo os fatos da natureza; tudo isso é feito a partir de alguns padrões de pensamento que absorvemos por vivermos em uma sociedade pós-moderna. Ou seja, a uma sociedade pós-moderna corresponde um modo de pensar e sentir pós-moderno.

O fenômeno tem seus "portadores": a tecnologia industrial, a rápida urbanização, os meios de comunicação de massa, o mercado globalizado e o meios de transporte são alguns deles. Em conjunto, eles têm a capacidade de colocar perto de nós e a um só tempo, o que antes era diferente e distante: e nossa cabeça é moldada por essa presença e simultaneidade. Um exemplo é a "moderna" cidade de São Paulo, onde você convive com raças, classes sociais, jeitos de vestir, gostos culinários, formas de educação, crenças, aspirações, valores etc. os mais distintos. Essa proximidade, quantidade e simultaneidade de diferenças nos obriga a um processo de adaptação, para sobrevivermos.

São raras as pessoas que conseguem manter a cabeça fora da "água", para pensar e sentir diferentemente do seu tempo e do seu meio. A grande maioria não pensa criticamente. Isto é, não sabe e não se preocupa se realmente aquilo que pensa e sente são seus ou são absorvidos do meio em que vive (família, colégio, trabalho, televisão etc.). No entanto, essa distinção se torna importante quando começamos a desconfiar que a "água" em que estamos imersos está a conduzir nossa vida para direções que não queremos.


Pós-Modernidade

Falar de pós-modernidade é falar de uma "mente" coletiva, conformada pelos fenômenos da pluralização, privatização e secularização. A pluralização nos transforma em uma sociedade-supermercado; a privatização, numa sociedade-zoológico, e a secularização, numa sociedade aquariana. A primeira, vive sob o império das diferenças; a segunda, sob o império das indiferenças, e a terceira, sob o império dos sentidos.


Sociedade Supermercado

Tempos pós-modernos são tempos de pluralidade. Vivemos num grande supermercado, onde oferece-se tudo; desde penteados até novas técnicas de educar os filhos. A simultaneidade e presença ficam por conta dos meios de comunicação de massa.

E nossa cabeça muda. Passamos a ter uma consciência tão fragmentada quanto os diversos mundos a que pertencemos: somos parte de sociedades diferentes umas das outras e que lutam para nos conformar; desenvolvemos, assim, uma consciência de que para tudo há opções no mercado. Há opções para sabonetes, para alimentação, de visual, de roupas, de postura social, de sexo, de profissão, de cor dos olhos, de sexo do bebê, de tudo. Numa sociedade pluralista como a nossa, a única coisa que nos resta em comum, é a imensa capacidade de optar. Nada mais é obrigatório. Cresce entre nós a consciência, normalmente inconsciente, de que para tudo, na vida, há opções. E essas prateleiras abarrotadas e fragmentadas fazem de nós pessoas volúveis, inconstantes e superficiais. Borboletas. Aprendemos a trocar de marca, de produto; a experimentar cheiros, cores, gostos, estilos novos. E como o fenômeno é inconsciente, fazemos o mesmo com relacionamentos, afetos, doutrinas, idéias, valores etc. Achamos que temos o direito de experimentar tudo o que for lícito.


Sociedade Zoológico

O que acontece quando todas as opções são igualmente válidas (horizontalizadas, como se diz), e nenhuma é, em si mesma, superior às demais (como acontece com as diversas marcas de macarrão em uma prateleira)? Acontece que você é quem decide. E mais: você é quem determina os critérios pelos quais vai escolher. Pode ser pelo cheiro do sabonete, pelo preço do salame ou pela capa colorida do livro. Quando as opções são horizontalizadas, as escolhas se fazem por critérios íntimos. Há cada vez menos consenso sobre um número maior de coisas. Você decide. Você é soberano. E ninguém ousará criticá-lo, porque quem quiser ver respeitadas suas opções, terá que respeitar as alheias. Aliás, faz parte do "ser pós-moderno", saber conviver com a pluralidade; com as opções dos outros. "Respeitar para ser respeitado" é o lema.

A pluralização traz em seu bojo a privatização: o fenômeno do zoológico. Tudo é permitido e válido, contanto que dentro da jaula. As feras e aberrações mais estranhas têm seu espaço: as jaulas da privacidade.

A privatização é necessária para que seja possível um convívio mais ou menos indolor dentro da pluralidade. Ela cria um fosso de segurança entre as pessoas, de forma que suas idiossincrasias não machuquem o outro.

No âmbito pessoal, a privatização é bênção quando estabelece um espaço para intimidade, para a privacidade, para a vida em família, para o foro íntimo, para convicções pessoais, para o hobby, para a música, para o amor etc. E ninguém tem o direito de se meter. É maldição quando nos torna tão independentes uns dos outros, que nos isola; faz-nos superficiais, inconstantes, incoerentes, instáveis, avulsos, solitários e caóticos. Permanência, fidelidade e estabilidade não são valores modernos.

Nesse ambiente, eu aprendo, desde a creche, a ser só, a tomar minhas próprias decisões, a não depender de ninguém, a não me expressar emocionalmente, a não expor sentimentos, a não contar com ajuda; a não ser fraco, enfim. O cidadão pós-moderno é solitário e caótico; é órfão.


A Sociedade Aquariana

Se há um supermercado religioso, e se as escolhas são íntimas, pessoais, individuais, "incriticáveis", então, porque não construir minha própria religião? Pego algo de bom daqui, uma doutrina dali, aquela orientação acolá, e monto minha fé íntima. Dá licença?

Nesse sentido, não se trata de afirmar que Deus morreu, como ocorreu na Europa, mas de afirmar que o Deus do Cristianismo, o Deus das Escrituras não tem mais espaço entre nós, a não ser como uma das muitas opções. O deus pós-moderno não exige mais nada e influencia muito pouco. Na verdade, é visto como um deus velho. Ou como um prestador de serviços celestiais, de quem exigimos qualidade ISO 9000. Não é mais ele quem nos elege, chama, redime, santifica e glorifica, para o louvor de sua glória; sou eu quem o escolhe na "prateleira" religiosa, se ele se comprometer com a minha glória. E quando cansar, troco de deus como troco de marca de sabonete.


Desafios à Igreja

Se é assim a "mente" criada pela pós-modernidade, então, que desafios ela traz à Igreja?

O primeiro é que, embora deseje, nosso cidadão pós-moderno não sabe como sair desta situação de isolamento, confusão moral e solidão em que se encontra. Ao privilegiar o espaço da "jaula", do privado, a pós-modernidade rompe os laços comunitários. E isso nos fragiliza e vulnerabiliza. À medida em que vamos nos isolando, vamos nos tornando doentes. Vai-se a nossa inteligência emocional.

Em segundo lugar, a pluralidade traz deficiências morais. Moralidade é um acordo, no qual abro mão de parcela de minha liberdade em prol de algo maior, do bem comum. O certo e o errado, o bem e o mal, só existem em sociedade. Só existem numa relação. Se em minha "jaula" só cabe um, então, dentro dela não existe moralidade.

Então eu pergunto: quem, hoje em dia, está disposto a abrir mão de sua privacidade para ter, em troca, ligações duradouras? Quem está disposto a se permitir controlar, para ter, em troca, o conforto do pertencimento? Quem está disposto a construir casamentos perenes, mesmo dentro da igreja?


Aliança

Se você parar para examinar a natureza e a qualidade das relações de hoje, notará que elas estão cada vez mais superficiais, não afetivas, não emotivas, instrumentais, triviais, rápidas. Ninguém mais vai fundo numa conversa, numa amizade. Já aprendemos que isso é perigoso: vamos nos expor, vamos nos vulnerabilizar. É melhor adotarmos o estilo de borboletas relacionais. Vamos pousando nas flores, mas logo levantamos vôo.

Por vivermos nessa sociedade, muitos de nós nos esquecemos que somos o povo da aliança. Povo do pão e do vinho. Mas se nos tornamos incapazes de nos dar, de nos tornar dependentes dos outros, de nos submetermos uns aos outros em amor, então já não seremos signatários dessa aliança: estamos fora.

A Santa Ceia, símbolo dessa aliança, já não terá significado e valor, quando cada um está cuidando de sua própria vida, porque ela fala de comunhão, que quer dizer "coisas em comum", que quer dizer doação, como a do Filho; que quer dizer ser membro do mesmo corpo, que quer dizer pertencer e possuir. Ora, se celebramos esses valores e vivemos outra coisa, comemos e bebemos juízo para nós, porque já não discernimos o corpo (I Coríntios 11).

Se já não há Aliança entre nós, e cada um cuida de sua vida, então já não há corpo de Cristo, já não há povo, já não há Igreja. E o mistério que estivera oculto aos antigos, que foi revelado com a destruição da parede da separação, a parede da inimizade (Efésios 2: 11-22), torna-se, de novo, mistério incompreensível a nós, cristãos pós-modernos. Teremos levantado, de novo, as paredes. Talvez não tanto de inimizades, mas de não-amizades, de indiferenças. E isso é igualmente satânico.

O desafio que a pós-modernidade coloca à nossa geração é um desafio à igreja. Se, por meio dela, o projeto eterno de Deus não se fizer manifesto na nossa geração, terá desaparecido da terra o testemunho do Cordeiro. E estaremos dizendo, com nossas vidas, que tudo não passou de um belo sonho.


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Sobre o autor: Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto - IPP em Brasília. Agradecemos ao autor pela autorização escrita para publicarmos os seus artigos no Monergismo.com. Outros artigos do autor podem ser acessados em http://www.amorese.com.br/.

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