IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 10/11/2006
 

A realidade das Igrejas e os desafios atuais

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Fui convidada para falar no ano passado (outubro 2005) , na pré-assembléia latino-americana do Conselho Mundial de Igrejas, sobre o tema-título deste texto. Partilho aqui um resumo do que eu expus, muito baseada nos desafios que vejo como metodista brasileira. Uma versão mais acadêmica deste texto foi publicada na revista Caminhando, da Faculdade de Teologia (v. 11, n. 17 – 1º semestre, 2006).

O tema é instigante e torna possível diferentes olhares e abordagens. Os desafios decorrentes da realidade das igrejas e aqueles que se colocam frente a elas são muitos e certamente provocam abordagens como as questões de gênero, as questões étnicas, a crise da pastoral da libertação, as tendências teológicas predominantes, o testemunho missionário, o modelo político-econômico, o pluralismo religioso.

Na impossibilidade de abordar todas essas questões, que certamente não são uma lista fechada, optei por refletir sobre o desafio para a missão das igrejas. Afinal, participar da missão de Deus é a razão de ser da igreja, a sua vocação. E a missão compreende todas essas abordagens e as tantas outras que poderíamos listar.

Ocorre que a compreensão e a prática da missão sempre esteve em crise na América Latina. A compreensão de missão das igrejas teve por base o projeto colonizador dos espanhóis e portugueses e o projeto missionário expansionista das igrejas protestantes do norte. Pensando no nosso caso, protestante, a pregação da conversão era a forte ênfase da mensagem missionária. Conversão à fé protestante que deveria ser traduzida em duas atitudes: abandono do Catolicismo e, com isso, um abandono do jeito de ser, de viver, de pensar, de expressar latino-americano e assimilação das formas de ser igreja trazidas pelos missionários do norte.

Apesar de algumas igrejas terem realizado tentativas de latinoamericanização, a compreensão de missão ainda é limitada ao projeto expansionista proselitista (construção de novas igrejas) e à pregação do abandono do catolicismo para adesão à fé protestante. Portanto, apesar de sermos capazes de listar exemplos e expressões que superam esta referência, ainda é forte a desconexão com o jeito de ser e de viver da população e o fechamento às demandas sociais e culturais.

A este quadro é adicionado um elemento que conforma o atual contexto das igrejas na América Latina: a assimilação de uma nova forma religiosa, a religião de mercado. Suas características básicas são: a busca de resultados mensuráveis por parte das lideranças (crescimento numérico e patrimonial), busca de visibilidade na esfera social (campanhas eleitorais e presença na mídia), a pregação de uma religião intimista, marcada pela busca de respostas imediatas a problemas concretos, valorização do consumo e de busca de ascensão social como prova das bênçãos de Deus sobre a vida dos adeptos.

Um dado é concreto na realidade das igrejas em nosso continente como conseqüência desse processo missionário: o crescimento do número de evangélicos, especialmente dos pentecostalismos e dos movimentos avivalistas e de renovação carismática, e a conseqüente perda de hegemonia do catolicismo apesar do fortalecimento de suas expressões religiosas.

E este crescimento da presença dos evangélicos tem reforçado aquela primeira visão de missão como expansão missionária. Hoje os mais diferentes grupos falam e promovem as “missões”. Por que missão no plural? Os mais diferentes frentes para a expansão da Igreja no mundo. Este é o resumo das definições encontradas nos mais variados documentos das igrejas e de sociedades missionárias.

Esta postura ratificou a visão limitada e distorcida que as igrejas carregam de compreender a Evangelização como uma tarefa separada na Igreja. Essa compreensão privilegia o evan¬gelismo e a expansão missionária como sendo “a” tarefa de Evangelização e “a” Ação Missionária. Essa visão limitada passou a dar o tom de uma prática evangelística muito próxima aos modelos de uma religião de mercado na forma dos cultos e no oferecimento de cura, exorcismo e prosperidade para a população em programações especiais. Daí o uso do lazer gospel (show de cantores evangélicos ou “noites de louvor”) para atrair possíveis novos membros.

E aqui, pode-se acrescentar, essa visão limitada é reforçada no presente pela perspectiva do trabalho com “missões”, nas suas mais diferentes modalidades e fragmentações – “transculturais”, “nacionais”, “indígenas”, nas “janelas”, etc. Esta postura torna ainda mais forte a desconexão com o jeito de ser e de viver da população bem como suas necessidades – o que importa é o crescimento numérico.

As ações sociais integram este contexto da visibilidade evangélica. Os governos e as empresas, como resposta ao modelo político-econômico predominante, o capitalismo globalizado, têm programas sociais para amenizar os efeitos da exclusão social (as “fundações”, as “associações beneficente”, os “projetos comunitários”), sem atacar consistentemente e seriamente as causas e as estruturas dela. Da mesma forma, igrejas evangélicas tem investido em trabalhos sociais, com base na teologia avivalista do “evangelho integral”, difundida em especial pelo movimento evangelical. No entanto, boa parte desses projetos sociais se revelam desprovidos de análise crítica em relação ao funcionamento da sociedade e de atuação frente às causas dos efeitos que eles visam atingir. Como conseqüência, muitas são as igrejas que se utlizam da ação social como mera fonte de evangelismo ou como marketing institucional.

Como resultado de todo esse processo, os protestantes ganham confiança, e passam a sentir que podem ser uma presença expressiva na sociedade. A prova disso é apresentada por meio das estatísticas de crescimento de algumas igrejas, da presença cada vez maior na mídia (TV e rádio, revistas e jornais protestantes nas bancas, home pages na Internet, crescimento do mercado editorial), da atuação dos políticos evangélicos, cada vez em maior número.

Para pensar a realidade e os desafios atuais em relação às igrejas na América Latina é impossível desconsiderar os contextos acima descritos: a forma como o protestantismo foi implantado nessas terras, as tentativas de latinoamericanização e as “recaídas” sob a regência da doutrina neoliberal. Alguns pontos de partida podem ser inicialmente elencados para conduzir esta reflexão:

• a missão precisa estar conectada com as formas que as pessoas encontram para construir vida em comunidade – e isto é um paradoxo dos tempos ‘pós-modernos”: com todo convite ao individualismo, ao intimismo, à globalização, as pessoas buscam pertencimento, buscam comunidade. Isto pode ser comprovado em diversas experiências de contato interpessoal tanto via tecnologia quanto via presencial.
• As abordagens teológicas e pastorais precisam criticar o individualismo e o consumismo, incluídas as suas expressões religiosas.
• É preciso enxergar os sinais de esperança e mudança que advém das experiências dos pobres, que sobrevivem, resistem ao sistema – a reflexão teológica e pastoral precisa estar conectada com esta realidade.

A partir destes pressupostos, é possível destacar três desafios concretos, deles decorrentes:

Dimensão da fé pública e a responsabilidade social da Igreja
As práticas pastorais desenvolvidas pela grande parte das igrejas evangélicas hoje indicam que, diferente do passado em que era quase nula a presença protestante nos segmentos da vida do País, busca-se (e encontra-se) visibilidade na esfera nacional: há crescimento numérico, há presença na mídia, há representação parlamentar. No entanto, visibilidade não significa presença pública.
O que se percebe hoje é que esta busca de visibilidade tem reforçado uma privatização da experiência religiosa. A espiritualidade está no indívíduo, centrada em uma fé mágica e de consumo particular, que se limita à esfera da intimidade com Deus. Com isso as igrejas permanecem longe de uma dimensão pública.
Assumir uma pastoral que ganhe dimensão pública significa inserção da Igreja nos espaços públicos plurais, o que implica participação de cada cristão/cristã como cidadãos. Isto quer dizer assumir a responsabilidade social da Igreja, que não pode ser um corpo isolado, um espaço privado a mais, e deve estar centrada nos três elementos que sinalizam a presença do Reino de Deus no mundo: o kerygma, a diakonia e a koinonia. E sinalizar o Reino de Deus é a maior tarefa missionária a Igreja.
Anunciar os valores do Reino e sua justiça (que caminham na contramão de todo individualismo, consumismo e exclusão), trabalhar em todas as frentes para que a dignidade humana seja realidade (tendo como alvo a inclusão das pessoas em todas as dimensões da vida pública) e viver e promover a comunhão entre as pessoas e comunidades (desprezando toda a forma de exclusão e discriminação de pessoas e grupos) são as formas de participação na missão de Deus. Crescimento numérico, presença na mídia, representação parlamentar, e outras formas de expressão na esfera nacional, não estão descartadas, podem ser conseqüência desse processo, mas não devem ser condição ou finalidade da tarefa missionária.

Dimensão comunitária e de solidariedade
Num mundo centrado cada vez mais no individualismo e na privatização dos espaços, a Igreja precisa se afirmar cada vez mais como um corpo, um organismo vivo, uma comunidade. A Igreja precisa ser vida expressa como uma comunidade de fé, adoração, crescimento, testemunho, amor, apoio e serviço. Nessa comunidade, mulheres e homens são despertados e alimentados, crescem, partilham e vivem juntos, expressam sua vida e constróem o corpo de Cristo e são capacitados para o serviço às pessoas e comunidades.

O texto de Atos 2.42-47, é bastante relevante na fundamentação desta dimensão. O bispo católico-romano Oscar Romero, morto em El Salvador, na sua 4ª Carta Pastoral, intitulada “A missão da Igreja no meio da crise no país”, disse: “viver em comunidade não é uma questão de opção mas uma vocação. O cristianismo, por sua natureza, demanda a formação de comunidade. O cristianismo não pode ser concebido sem a relação com os outros, e relacionar com essas pessoas em amor fraternal”. É tarefa missionária da Igreja tornar possíveis estes espaços de vivência comunitária e apoio mútuo (descartada a preocupação com tamanho e visibilidade) onde pessoas possam congregar, dialogar, apoiar-se umas às outras, participar, afinal, esta é a natureza da Igreja – a opção por formas massificantes, privatizantes, subordinadoras e silenciadoras de vivenciar a fé, é negar a vocação de ser Igreja e sua participação na missão.

O relacionamento com o outro deve ser a dimensão maior de uma espiritualidade que se contrapõe à situação desumanizante imposta pelo modelo econômico vigente.

Valorização da pluralidade religiosa
Num continente plural e diverso, as perspectiva ecumênicas do respeito e da valorização são fundamentais para qualquer esforço missionário. A crise na compreensão de missão, que gerou crises na relação igrejas-sociedades latino-americanas, com efeitos até o presente, demonstra o resultado da pastoral do desrespeito e da intolerância.

A experiência ecumênica tem demonstrado que partilhar o Evangelho não significa falar sobre ele mas vivê-lo. E viver o Evangelho significa sinalizar o Reino de Deus, acreditando que o Espírito de Deus se manifesta de diferentes formas por meio de diferentes canais – ele não se encontra apenas na Igreja. Portanto, todo proselitismo é incabível na perspectiva de liberdade inserida no Evangelho.
Nesse sentido respeito e tolerância devem se reverter em atitudes concretas em relação a culturas diferentes da cultura hegemônica ocidental e a experiências religiosas diferentes do padrão estabelecido pelo cristianismo anglo-saxão.

Com isto, deve ser derrubado o preconceito das chamadas igrejas históricas com as expressões pentecostais, que encontraram identidade com as expressões religiosas populares.
Com isto também deve ser descartada a visão de “missões” que prega ações específicas de expansão do cristianismo tendo como alvo grupos indígenas ou comunidades afro-latinas. O cristianismo precisa ser vivido entre essas populações, que carecem de solidariedade, respeito e tolerância – e aqui o critério ético é a vida. As igrejas precisam imbuir-se da dimensão ecumênica que as coloca como um corpo religioso dentre tantos que compõem a realidade do continente, e, portanto, tornar-se responsável pela justiça, pela paz e pela integridade dessa realidade.

Se as igrejas partem da premissa de que a América Latina é alvo da ação de Deus, elas deixam de se preocupar com a expansão de sua presença física, que tem a visibilidade como fim, e passam a atuar com uma presença pública, chegando mesmo a ter visibilidade, como conseqüência. Essa é uma dimensão profética da qual as igrejas não podem se abster e que deve estar imbuída de uma postura de transformação política do continente frente ao modelo econômico excludente e ter como prioridades as necessidades locais, as relações humanas e com a natureza e a diversidade expressões culturais.

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