IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 15/12/2006
 

Dona w Ministérios ( Romanos 12. 3-8)

Bispo Paulo Lockmann


 

1) Introdução: A Graça e os Dons.

Esta perícope tem um antecedente longo, porém interessante. Do capítulo 9 ao 11 de Romanos Paulo volta a tratar da questão do judaísmo, que ele já tratara nos capítulos 2, início do 3 e 4, onde apresenta os protótipos de fé no Antigo Testamento. Nesses três capítulos Paulo explica a situação dos judeus frente a salvação em Jesus Cristo. Eles rejeitaram, e por conseqüência foram rejeitados. Rejeitaram, porque confundiram graça por merecimento; não foram capazes de se reconhecer pecadores e de aceitar a justiça do Evangelho, julgaram possuir justiça própria, serem já salvos, e assim rejeitaram a graça. Enfim, foram orgulhosos e vaidosos.

Paulo vai começar o capítulo 12 convidando a uma experiência diária de devoção e submissão a Deus, integralmente, e que esta devoção se expresse em uma transformação diária, onde a maneira de pensar é renovada, como conseqüência desse culto e devoção diária.

O grande problema do judaísmo, com o qual Paulo se confrontou, é que já tinha a fórmula feita da fé e da justiça de Deus; o novo foi rejeitado. Assim, rejeitaram o plano e a vontade de Deus.

Ao rejeitarem o plano de Deus, rejeitaram a graça, e rejeitando a graça recusaram os dons, já que esses são charismatas, dons da graça.

Deste modo, começa Paulo a instrução sobre os dons espirituais em Romanos.


2) Os Dons e Ministérios - Como a graça em nós.

O que está por trás do ensino sobre os dons espirituais = charismatas, nesta perícope, é a existência de membros que julgavam ser superiores aos outros, seja por sua formação de origem judaica, seja pela relevância do seu dom para a igreja. Isso fica claro não só por causa dos capítulos antecedentes, mas também pela direta expressão de Paulo: "...digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo, além do que convém, antes, pense com moderação." Acredito que, hoje, continua sendo um problema grave da Igreja, principalmente do movimento de dons e ministérios entre nós. Eliminamos os cargos para eliminarmos o problema do status, ou mesmo hierarquia leiga da igreja, mas os Dons podem tornar-se veículo de promoção pessoal, também, produzindo diferentes categorias de cristãos.

O meio para enfrentar isso está no próprio texto: primeiramente é a graça, Paulo fala que pela graça dada a ele é que estava chamando a atenção. Precisamos ajudar o povo a conhecer melhor a graça, principalmente por ser uma doutrina bíblica fundamental para o Metodismo. Dom é carismata, graça somente graça, ninguém é pastor por merecimento, ninguém é evangelista por merecimento, mas exclusivamente pela graça. A outra observação dada por Paulo para ajudar a enfrentar este problema é a sua recomendação: pensarem com moderação; é profundamente evangélica esta observação, porque estimula a disciplina pessoal, a humildade. O modo como pensamos acerca de nós mesmos, acerca do nosso ministério e acerca dos outros ministérios deve ser um modo humilde e com mentalidade de servo, que é a única maneira correta de um ministro ou ministra pensar. A maneira entusiasta, porque não dizer carnal, com que valorizamos o nosso ministério, e com que menosprezamos o dos demais, é a raiz de todo o partidarismo e contenda em nossas igrejas. Aqui se faz urgente uma conversão a Cristo, a sua graça e a moderação com que devem ser conhecidos os filhos de Deus.

Faz-se necessário, também, enfatizarmos que os Dons Espirituais são, na verdade, capacitação para o serviço à Igreja e ao Mundo, nunca uma apropriação individualista, um lugar de poder pessoal. As palavras ministro ou ministério traduzem as palavras diakono e diakonia. Os dons são dados a servos, tão-somente servos, Senhor só há um: Jesus.


3) Tendo, porém, diferentes dons.

O outro aspecto fundamental é que os ministérios são diferentes, e Paulo diz que são como os membros do corpo: cada um cumpre uma função. Esta figura é também usada por ele na orientação sobre os dons em ICoríntios 12.

João Wesley, nas Regras Gerais, enfatiza o sermos respeitadores das idéias alheias. Entendemos que esta recomendação se aplica também na relação entre os diferentes ministérios. O reconhecimento que um ministério diferente determina prioridades missionárias diferentes, é o caminho para uma relação mais justa e amorosa entre os ministérios. Certamente era isso que preocupava Paulo, e o fez escrever os versos 3, 4 e 5 como introdutório, onde ele coloca a questão no nível certo, ou seja, dons e ministérios é a atuação da graça de Deus em nós, e será tanto mais eficiente quanto for a nossa consciência da dependência que devemos ter desta graça.


O Ministério da Profecia.

"Se profecia seja segundo a proporção da fé". Paulo sempre atribuiu maior importância a Profecia. Não há dúvida de que temos de reconhecer que a profecia adquire uma característica diferente no Novo Testamento, retratando a nova dinâmica do Espírito na Igreja Primitiva e o mundo greco-romano, onde se desenvolve este ministério.

Prophêtes = Profeta - É um substantivo composto da raiz phê = dizer, mais o prefixo pro, que é um advérbio de tempo que tem o sentido antes. Assim, o sentido etimológico da palavra prophetes é "aquele que prediz" ou "proclama de antemão". Vejamos um pouco do uso no mundo grego desta palavra e seus correspondentes. Pitia, pitonisa e seu pneuma mautikon eram videntes oraculares, presentes em diversos cultos greco-romanos. A jovem que se acercou de Paulo em Filipos, e foi por ele liberta, era uma pitonisa = adivinhadora. Alguns fazem distinção entre a pitonisa e os profetas, propriamente ditos, sendo que as pitonisas estavam vinculadas a um oráculo religioso e eram quase que em sua maioria mulheres. Os profetas, no mundo greco-romano, tinham, na grande maioria, as seguintes características: 1) o profeta não era responsável pelo conteúdo da mensagem, por tê-la recebido dos deuses; 2) o profeta não tomava iniciativa, como as pitonisas, ele respondia as perguntas; era um consultor; 3) sua palavra dirigia-se sempre a uma situação histórica do presente; 4) o profeta era chamado pela instituição oracular pela religião e não por um deus.

O Profeta no Antigo Testamento - A palavra nâbî = Profeta usualmente é considerada derivada do verbo nâbâ, que corresponde a chamar, proclamar ou profetizar.

Anteriormente entendia-se como ativo aquele que chama ou proclama. Na verdade, hoje, a pesquisa gramatical hebraica tem optado por uma regência verbal passiva, e o profeta passa a ser reconhecido como aquele que foi chamado, e, assim, é o veículo através do qual a mensagem é proclamada, e ainda aquele a quem são anunciados os desígnios de Deus.

Existem, ainda, os termos ishã e lôhim = homem de Deus (de onde vem inclusive o nome de Elias), ou rõ eh ou hõzeh, vidente. Homem de Deus era um título distinguido, elogioso (Deuteronômio 33.1; Neemias 12.24), além do próprio Elias, cujo nome vem da mesma raiz. Elizeu é chamado 29 vezes de homem de Deus, e também o profeta de Judá, sem nome (IReis 13.1-31). O vidente diferencia-se do profeta pela capacidade de revelar segredos ocultos e eventos futuros (ISamuel 9.6-20). No caso dele ressaltam-se as visões, ao passo que no caso do profeta enfatizam-se as palavras (Isaías 30.10 ou ainda Jeremias1, Isaías 6).

Vários personagens na história de Israel receberam o título nabi - Abraão (Gênesis 20.7), Moisés (Deuteronômio 34.10), Arão (Êxodus 7.1), Miriã (Êxodus 15.20), Samuel (ISamuel 3.20), Elias (IIReis 1.9), Eliseu (IIReis 3.11). Além desses profetas clássicos e antigos, houve os profetas escritores: Isaías, Jeremias, etc... Havia também em Israel os profetas de grupos místicos e estáticos, os quais andavam por Israel usando instrumentos musicais para entrarem em êxtase, e tal êxtase era contagiante; até o rei Saul foi envolvido (ISamuel 10.5, 19.18), de onde saiu o provérbio popular no Israel Antigo: "Até Saul entre os profetas?" Outra forma primitiva é a dos profetas em comunidades monásticas fechadas. Tais grupos se formaram em torno de um profeta líder, como Eliseu (IIReis 2.15ss).

Além desses havia os profetas rituais que atuavam junto do culto ou da corte, também chamados profetas do rei (IReis 1.8, IReis 22.24). Alguns, apesar desse vínculo, eram independentes (ISamuel 16.1-4): Simei (IReis 1.8), Natã (IISamuel 12.1ss).

Diante desse amplo quadro da função do ministério profético é que o dom de profecia deve ser entendido no Novo Testamento. Podemos então dizer que o dom é um só, mas a forma de sua expressão era certamente diferente na vida da Igreja primitiva.

Quando em Mateus se fala do seguimento a Jesus, Mateus molda sua narrativa num modelo de seguimento profético, cujo paradigma é a chamada de Eliseu por Elias (IReis 19.19-21). Do mesmo modo o texto de Mateus deixa antever a presença forte do ministério profético na sua comunidade judaico-cristã (Mateus 5.12, 10.41). Este ministério profético itinerante da comunidade Judaico-cristã, Siro-Palestinense de Mateus, teria um perfil mais próximo do Ministério profético vétero-testamentário, conforme confirma o texto (Mateus 7.15-23; 10-14; 10.23). Mesmo no tempo do Pentecostes, antes da destruição de Jerusalém pelos romanos, havia este estilo de profeta vétero-testamentário, na comunidade cristã palestinense. Um deles, Agabo, adquiriu alguma notoriedade, pois seu ministério é registrado duas vezes em Atos dos Apóstolos (cf. 11.28ss; 21.10-11).

Esse estilo de atuação não vai se repetir nas igrejas gentílicas, pois o quadro da experiência religiosa cultural era diferente. Por exemplo, o que ocorria em Corinto, a grande confusão de línguas e profecia levou Paulo a fazer recomendações de ordem no culto, entre elas proibiu as mulheres de Corinto de falar no culto. Aqui devem ser observadas algumas coisas muito importantes: primeiro, a etimológica, a palavra prophêtes tem terminação feminina n = ê, mas é regida pelo artigo masculino. O que se deduz disso? Que esta função de profecia teve nos oráculos gregos um exercício preponderantemente feminino, prova disso é a regência da palavra. Grande número das mulheres que profetizavam em Corinto teve experiência anterior como pitonisas. E isso estava trazendo uma grande confusão na igreja de Corinto, por isso Paulo as proíbe de falar na igreja. Apesar disso, não há dúvida de que para as comunidades cristãs gentílicas, cuja maioria desconhecia o paradigma do profeta vétero-testamentário, e muitas nem Escritos Hebraicos possuíam, o ministério do profeta se acercou de alguma maneira das experiências da função nas religiões pagãs. Reconhecer isso é reconhecer caráter universal da experiência cristã e sua capacidade de aculturar-se. Exemplo disto é que rapidamente a Igreja se organizou em torno de núcleos de tradição diferente, como Antioquia, Éfeso, Alexandria, Roma, etc...

Paulo afirma, ainda, que a Profecia deve ser fruto da fé, com isso ele estava dando um parâmetro que segue sendo vital para a igreja, ou seja, o ministério do Profeta é uma decorrência da experiência da fé que é cativa da graça, a qual justifica o pecador e o vocaciona para diferentes ministérios. Profecia, é, assim, um ministério a serviço da fé. Neste sentido é que deve ser praticado e entendido. Não se pode atribuir ao ministério do profeta, nem se exigir dele que dê prognóstico sobre casamento, emprego, como aliás é usual entre alguns grupos. Esse tipo de prática está mais para oráculo grego do que ministério bíblico. A profecia pode conter, sim, revelação, ou, se quiserem, predição, mas esta, quando ocorre, nunca é encomendada, mas sim de modo inesperado como Agabo procurou Paulo (Atos 21.10-11). É o profeta que é enviado com uma mensagem, e não é o povo que encomenda a mesma. É fundamental que tomemos estes critérios bíblicos para o exercício da profecia como ministério, e acima de tudo, o profeta deve ter sempre a sua profecia avaliada pelos Presbíteros da Igreja, neste caso o Pastor e sua equipe pastoral. Atenção: O Ministério profético não dirige a igreja!

Concluindo, o ministério profético é também aquele que, exercendo o papel de portador da Palavra de Deus, fere a terra com a "vara de sua boca", ou seja, repõe a prioridade da justiça, a ordem de Deus no meio da desordem e injustiça da sociedade. É um ministério com dupla ação, internamente na comunidade da fé, e externamente na sociedade em geral e ao "rei". Aqui é que está o desafio do ministério profético, hoje, ir além da ação interna da igreja, ser capaz de ser portador de boas-novas aos oprimidos e más-novas aos opressores.


O Ministério Diaconal.

"Se ministério, dediquemo-nos ao ministério". Este dom aparece somente nesta lista, em Paulo, e volta a aparecer na referência breve que o Apóstolo Pedro faz em sua primeira carta (IPedro 4.11). Em ambos os lugares o termo é o mesmo, diakonia ou o verbo diakonéo, serviço ou servir.

No que consiste este dom, já que todos os dons são diakonia - serviço - ministério? Entendemos que existem diferentes trabalhos da vida da igreja que não estavam classificados como fruto de um dom espiritual específico. Todos esses trabalhos eram sérias necessidades da igreja? Quem os fazia tinha que ser muito mais espiritual, porque passava na maioria das vezes despercebido, embora trabalhasse muito. Mas sem seu trabalho os outros ministérios não poderiam atuar. Por exemplo, os copistas dos textos bíblicos trabalhavam a vida toda copiando as Sagradas Escrituras. Alguns deles tinham que exercer outra profissão, porque não recebiam nada pelo seu trabalho; estes eram servos, ou seja diakonos, no sentido do dom e não necessariamente da função.

Assim, a existência deste dom-serviço tem como origem, sem dúvida, o primeiro Concílio da Igreja em Jerusalém, conforme está descrito em Atos dos Apóstolos 6. Ali, a igreja teve um problema: ou o ministério apostólico-pastoral deixava sua tarefa de pregar, orar e ensinar para servir às mesas, ou organizava um novo serviço - diakonia - na igreja, para servir a estas mesas. Optaram pela segunda hipótese. E o que fizeram? Criaram o ministério dos Diakonos, que, depois do ministério apostólico, é o mais antigo ministério da Igreja. Este ministério deveria ser sempre exercido por homens e mulheres íntegros, cheios do Espírito Santo e de sabedoria (Atos 6.3).

Não há dúvida de que a este ministério foram atribuídas também funções pastorais, vejam as responsabilidades a ele atribuídas mais tarde por Paulo em uma de suas mais tardias cartas, que é ITimóteo 3.8-13. Ou ainda na própria carta aos Romanos, onde Paulo diz que Febe estava servindo - diakonon - a igreja em Cencréia, o que pode ser traduzido por pastoreando a igreja em Cencréia. João Wesley criou os pregadores locais, os quais chegaram a ser pastores locais. O Metodismo inglês conserva esta figura do pastor local e do presbítero, ministro. Entendemos que este grupo de pastores - pregadores locais se poderia incluir no amplo ministério diaconal.

Concluindo, podemos dizer que o ministério diaconal foi no primeiro século um ministério de apoio pastoral, e em algumas circunstâncias chegando a confundir-se com o mesmo.

O Ministério do Ensino.

"O que ensina esmere-se no fazê-lo". Embora tenhamos afirmado que o ministério dos diakonos é o mais antigo dos ministérios organizados, podemos dizer que o ministério do ensino, e o próprio dom, é anterior ao ministério diakonal. Pode parecer que estamos nos contradizendo, mas, não; na verdade, o ministério do ensino ficou num primeiro momento vinculado ao ministério apostólico, após a morte de Estevão e a dispersão da igreja é que este ministério adquire identidade própria. Embora em sua grande maioria tenha estado vinculado ao ministério pastoral, a quem realmente cabia a catequese, como, por exemplo, mostra claramente o sermão de Paulo aos presbíteros da Ásia Menor, em Atos 20, ou ainda as recomendações de Paulo a Timóteo e a Tito (ITimóteo 4.13; Tito 2.7).

De todos os modos, podemos dizer que Paulo pensava nesta carta na importância que este ministério tinha para uma comunidade tão heterogênea como a igreja romana. Prova disso é que a carta aos Romanos pode ser classificada como a mais perfeita catequese cristã do Novo Testamento. Todos os grandes teólogos da Igreja dependeram dela e a comentaram, da Patrística ao Escolasticismo, e deste a Reforma. Até os dias de hoje a carta aos Romanos é uma excelente síntese da fé cristã, compreensível a gentios e judeus, sendo assim, um bom exemplo de como se exercer o ministério do ensino com esmero e dedicação. Podemos imaginar a pesquisa e o esforço de Paulo para traduzir os fundamentos da fé cristã de maneira profunda, clara e simples a leitores tão diferentes como judeus, romanos e outros gentios.

Hoje, quando pensamos em Ministério do Ensino, surgem diferentes espaços naturais a este ministério na igreja. Primeiramente a Escola Dominical. Precisamos nos perguntar: A quem está formando a nossa Escola Dominical? Que habilitação ministerial cristã estamos oferecendo?, ou ainda: Como tornar a Escola Dominical mais dinâmica, mais atraente aos seus alunos?

Estas e outras questões precisam ser respondidas pelos membros do ministério de ensino de nossas igrejas, no qual devem estar presentes pastores, pastoras e bispos.

Além da Escola Dominical temos espaços como os estudos bíblicos semanais. Notamos, com tristeza, que onde ainda existe reunião semanal de estudo bíblico, esta é a menos freqüentada das reuniões semanais. Vemos, no entanto, que onde estes estudos são bem planejados, a freqüência chega a superar a de outras reuniões. Trata-se também de dinâmica e preparo para tal tarefa.

Finalmente, entendemos que o espaço dos grupos societários, que sempre esteve vinculado a área de Educação Cristã, deveria ter uma integração com a ação do ministério do ensino.

O Ministério ou Pastoral da Exortação.

"O que exorta, faça-o com dedicação". Alguns, equivocadamente, têm tomado estas advertências aos ministérios como sinônimo de ministério autônomo. Incorrem em grave erro os que assim pensam. Primeiro, porque como já vimos, Paulo adverte sobre a diversidade e mutualidade dos dons e ministérios. Segundo, porque muitos ministérios estavam vinculados a um ministério já reconhecido pela igreja. Como exemplo disso, constatamos que no início o ministério apostólico era também ministério pastoral, e também ministério do ensino. Assim, não se pode criar um ministério de exortação, como se este fosse um ministério autônomo. Não existe a possibilidade de alguém dizer: "o meu ministério é só exortar".

E as razões são várias, como veremos a seguir:
1) A expressão exortar traduz o verbo Parakaleo - exorto, rogo. Sempre teve um uso para designar a fusão de estímulo e encorajamento. Nesse sentido era usado para designar a ação de encorajar os cristãos num momento de luta e perseguição, tendo em vista a perseverança na fé, a fim de que não desanimassem.(1);

2) Fica difícil entender hoje seu significado, quando o uso e sentido que se dá à expressão é quase semelhante a xingar, exigir, cobrar. Quase sempre quem se assume como exortador se coloca como superior a igreja, objeto de suas exortações. É flagrantemente um desvio do sentido dado no Novo Testamento;

3) Desse modo, o ministério de exortar deve ser visto como um ministério do desafio e do encorajamento a igreja, e deve ser sempre vinculado ao Ministério Pastoral.

Assim, tanto o pastor como alguém de sua equipe pastoral, ao exercer tal ministério, deve entender sua função como a prática do apoio e estímulo a igreja para a missão. O povo, após uma palavra de exortação deve se sentir encorajado e estimulado para a missão, nunca desanimado e derrotado.


O Ministério da Mordomia.

"O que contribui, faça-o com liberalidade". Trata-se de um ministério que, conforme afirma Kasemann, compunha uma lista de "carismatas" gerais da igreja. Esperava-se que todo o cristão pudesse ultrapassar a justiça judaica dos 10% do dízimo. Paulo declara que os verdadeiros circuncisos são os que são de coração, e são, os que entregaram, não somente os seus bens, ou seu dízimo, mas sua própria vida ao Senhor Jesus.

Temos que entender Romanos, também, dentro da polêmica entre Paulo e o Judaísmo.

Não há dúvida de que o ministério da contribuição supunha os que se dispunham a dar além do compromisso geral do dízimo, ou seja, eram os que contribuíam além do normal. Isso era visto como um dom espiritual, esses deveriam fazê-lo com total liberalidade.

Hoje, a Igreja Metodista se sente em condições difíceis quanto a contribuição dos seus membros, principalmente quando vivemos em um momento de exploração do povo em geral, e também com a mercantilização dos símbolos da fé.

Resumindo, religião fatura alto no Brasil, vende-se de tudo. Assim, mais do que nunca, devemos ter uma reflexão com nosso povo sobre este ministério da contribuição, para não sermos confundidos com os que andam mercadejando a Palavra de Deus. Mas, por outro lado, que não sejamos tímidos ao ponto de não enfatizarmos a contribuição com liberalidade, ao ponto de deixarmos espaço para que outros venham recolher recursos em nossas igrejas, ou ainda não arrecademos o suficiente para fazer a obra do Reino de Deus.

O Ministério da Presidência.

"O que preside, faça-o com diligência". Aqui, também, estamos no campo do ministério pastoral. Visto que não existe ministério da presidência ou governo no Novo Testamento que não esteja vinculado ao Ministério Pastoral e ao Presbítero, a quem cabe o governo da igreja, ou ainda mais especificamente o Bispo (ITimóteo 3.4).

Hoje, poderíamos, forçando um pouco, ampliar o sentido do texto e do ministério da presidência, dizer que quem exerce uma função gerencial secular, ou a função administrativa em nível de comando, precisaria do dom da presidência. Devemos, no entanto, reconhecer que em momento algum o texto fala disso, pois numa sociedade ditatorial, imperialista, não havia lugar para este tipo de função, muito menos para uma minoria discriminada como os cristãos. Paulo, quando escrevia aos Romanos, pensava especificamente no ministério da presidência da igreja, o qual, como sabemos, cabia aos pastores e bispos.

Finalmente, quando Paulo fala de presidir com diligência, ele estava pensando em duas expressões: esforço e zelo. Já bem dizia Jeremias: "Maldito o que faz a obra do Senhor displicentemente". Nós não precisaríamos advertir os ministros e ministras, mas os frutos que temos colhido como igreja deixam claro que nem todos estão presidindo com diligência.


O Ministério da Misericórdia.

"Quem exerce misericórdia, faça-o com alegria". Do mesmo modo que o serviço = diakonia, o exercício da eleôn = misericórdia era nesse momento muito desafiador, visto que a afluência da migração de pessoas a Roma tornara-a um centro de contraste entre pobres e ricos, a busca de serviço pelos pequenos artesãos era uma possibilidade não alcançada por todos; Roma crescia intensamente. Há, inclusive, os que defendem que o édito proclamado por Cláudio contra os judeus foi mais uma medida econômica-política do que uma séria desconfiança de conspiração dos judeus contra o Imperador. Na verdade, a medida visava diminuir a concorrência que os judeus (entre eles, muitos cristãos) faziam aos artesãos e comerciantes de Roma e da península Itálica em geral. Foram vítimas deste édito Áquila e Priscila (Atos 18.1).

Embora um pouco extensa nossas considerações históricas são necessárias para se entender em que quadro se desenvolve este ministério de ajuda e apoio aos que passavam necessidade. Paulo mostra que este ministério aos pobres deve ser feito com alegria, nunca com restrição, preconceito ou contrariado.

O ministério da misericórdia corresponde ao que Paulo, em ICoríntios, chama de socorro. Trata-se, assim, de um ministério que se organiza onde haja necessidade material de qualquer espécie.

Hoje, podemos inscrever no círculo deste ministério todas as ações de promoção humana, apoio aos marginalizados em geral. Este ministério deve atuar junto ao Ministério profético, em sua ação de denúncia e reivindicação da justiça.

NOTAS:
(1) Kasemann, E - An die Romer - J.C.Mohr - Tubigen, 1973

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