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Rio, 3/2/2007
 

É o Deus do Antigo Testamento violento e vingativo? (Rev. Tércio Siqueira)

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Esta questão é pertinente, mas é extremamente delicada. Por isso é preciso tratá-la com seriedade. Sabemos que o Antigo Testamento (AT) não é um livro que apresenta um formulário teológico e legal. Pelo contrário, ele contém muitos e diferentes testemunhos de fé. O uso da violência é uma opção de vida assumida por pessoas e grupos nos tempos bíblicos, porém, definitivamente, os violentos não foram avaliados como bem-aventurados.

Em meio à variedade de conceitos que o AT mostra, vamos analisar e avaliar as diferentes posições sobre a violência e a vingança.

A) No AT, a vingança é uma obrigação. Tomando esta frase, pura e simplesmente, o/a leitor/a pode ficar chocado. Entretanto, ela tem que ser tomada dentro do contexto bíblico e da cultura semítica. Analisemos alguns exemplos: primeiro, a niqmat dam – vingança de sangue – era realmente uma obrigação dentro da sociedade tribal israelita (Sl 79,10), cujo objetivo único era garantir o respeito pela vida (Ex 21,12; Lv 24,17; Dt 19,11-12). A lógica dessa obrigação está baseada no princípio que somente o sangue do infrator pode limpar o sangue derramado do morto (Gn 9,6), devolvendo, assim, o equilíbrio e a paz na comunidade. Não poderia haver redenção fora desse procedimento. A legislação dizia que a vingança deveria ser através do parente mais próximo, conhecido como goel – o resgatador. Dessa forma, o pai deve vingar a morte de seu filho e um filho seu pai (1Rs 2,5-9), até a quarta geração (Ex 20,5; 34,7), embora Dt 24,16 e 2Rs 14,6 restringem esta lei. Segundo, o AT legisla a vingança nos casos de estupro ou outras transgressões ou violações graves. A morte não é a única razão para estabelecer um caso de vingança (Gn 34,1-5, 25-27; 2Sm 13,1-20). Terceiro, é importante lembrar a legislação sobre a vingança de sangue não foi um princípio básico na formação da comunidade israelita. Com o objetivo de restringir essa prática, foi criada a possibilidade do infrator fugir para uma cidade de refúgio, ou asilo, evitando, assim, sua morte (Nm 35,9-34; Dt 4,41-43; 19,1-13; Js 20,1-9)

B) No AT, a vingança é proibida.

É importante reconhecer que, no AT, há princípios básicos, definitivos e universais (“Não matarás” – Ex 20,13), ao lado de regulamentos temporais, particulares e localizados (“olho por olho, dente por dente” – Ex 21,24). Assim, a vingança não é uma norma definitiva e absoluta. Analisemos alguns exemplos: Primeiro, de maneira circunstancial, o clã abriga a lei da vingança de sangue. Provavelmente, os abusos na aplicação desta lei provocaram a sua proibição (Lv 19,18) dentro do grupo familiar. Todavia, isto não isenta o infrator de ser submetido a uma séria disciplina (Gn 4,10-14). Segundo, a corte ou tribunal (no hebraico, din), paulatinamente vai assumindo um espaço definitivo na solução dos crimes ou quebra da ordem na sociedade. Os profetas anunciam que Javé vai abrir um processo, rib contra o seu povo (Os 4.4; Jr 2,9). É bom lembrar que a justiça de Javé tem o caráter salvífico, e não punitivo.

C) No AT, Deus é vingador do povo oprimido.

A noção de que Deus é vingador de Israel está presente nos hinos (Sl 94,l; 99,8; Na 1,2) e que a vingança pertence somente a Ele (Nm 31.3; Jr 11,20; 20.12; 50,l5.28; 51,11; Ez 25,14). Sempre que os fiéis recebiam qualquer tipo de agressão, eles recorriam ao princípio básico da fé: a Deus pertence a vingança (Dt 32,35; 2Sm 22,48; Sl 18,47). O Novo Testamento, embora em menor grau, reafirma esta fé (Rm 12,19; Hb 10,30). De um certo modo, a vingança divina está ligada ao praguejamento, muito comum nos salmos de lamentação (Sl 12,3). Da mesma forma, o anúncio profético do Dia de Javé (Am 5,18-20; Jl 2,6-2; Sf 1,15; Ez 22,24) mostra a tentativa de atemorizar ou demover os inimigos para converterem-se de seus maus caminhos. Provavelmente, a noção do Deus vingador, em Israel, foi importada dos povos vizinhos. A evidência disso está na relação entre o crente e o seu deus, encontrada no nome do deus amonita. A raiz nqr (vingar) aparece acoplada ao nome de deus, certamente com a finalidade de invocar a proteção divina.

D) No AT, Javé é homem de guerra.

O conceito de Guerra Santa, no AT, está no próprio nome de Israel. O substantivo Israel é composto do imperfeito ysra cuja raiz é srh que significa lutar. Assim, o nome Israel carrega o significado de Deus lutará. Ao abordar a história de Israel, não é difícil perceber que a luta foi um dos meios para alcançar a terra prometida. Também, não é preciso fazer esforço para compreender que a luta de Israel foi pela sua própria sobrevivência, a partir do final do século XIII a.C. A essas batalhas foi dado o nome de millhamot yhwh – guerras de Javé (Ex 17,16; Nm, 21.14; 1Sm 18,17; 25,28). A Guerra Santa é vista por Gerhard Von Rad como uma guerra de defesa, e não de conquista. Tal tradição, testemunhada em Js 10,14, encontra-se resumida na frase Javé é homem de guerra; Javé é o seu nome (Ex 15,3). Por isso, o Cântico de Débora denomina as vitórias alcançadas como sidqot yhwh, isto é, atos justos (salvíficos) de Javé (Jz 5,11).

Pistas

1) Certa vez, ouvi um professor de Antigo Testamento propor uma explicação para “Deus vingador” do AT. Segundo ele, o “vingar” ou “odiar” de Deus deve ser entendido como “amar” em dose menor. Particularmente, eu não tomaria este argumento.

No AT, as queixas de um/a sofredor/a, dirigida a Deus contra sos seus inimigos, faziam parte das orações de lamentação, que foram incluídas nas liturgias do culto. O doloroso isolamento do/a queixoso/a levava-o/a a uma única esperança: a intervenção salvífica de Javé, como ocorreu com os escravos no Egito: Disse Javé: ‘Eu vi, eu vi a miséria do meu povo... Ouvi seu clamor por causa dos seus opressores; pois conheço as suas angústias’ (Ex 3,7). Todas as vezes que Javé interveio em favor do seu povo oprimido, houve perda de vidas humanas, especialmente, por parte dos inimigos opressores. Um detalhe precisa ser salientado: o AT quer destacar que a proposta de Javé é resgatar a dignidade dos escravos hebreus e fazer com que esse testemunho possa servir de exemplo. O propósito divino não era eleger um povo para ter infinitos privilégios. Porém, o projeto de Javé sempre foi o estabelecimento do xalom, paz, vida plena – entre todas as pessoas e seres criados. A justiça corresponde às intervenções salvíficas de Deus.

2) A leitura e a interpretação da Bíblia exigem dedicação, perseverança, humildade e sabedoria por parte do leitor/a. É fácil afirmar que o Deus do AT é vingador, guerreiro e discrimina os povos estranhos a Israel (Ex 15,3; 17,16; Nm 21,14; 25,28). A Bíblia não é um livro fácil de entender e interpretar. Se assim fosse, ela não seria considerada sagrada. Por isso, temos que tomá-la com humildade e seriedade. Na tarefa de interpretação da Bíblia não há lugar para vaidosos e prepotentes. Segundo o Salmo 19, o estudo da Palavra de Deus dá sabedoria às pessoas simples (v.8). Diante da leitura da Bíblia, o melhor conselho está nas palavras do hino 141 (Hinário Evangélico): Enquanto, ó Salvador, teu livro ler; meus olhos vem abrir, pois quero ver na mera letra além, o que Senhor,, nos revelaste em teu imenso amor.

É bem verdade que o AT registra muitas referências à guerra, seja nos livros históricos ou nos salmos. Entretanto, se alguém perguntar a um/a aluno/a da Escola Dominical quais os momentos decisivos e fundamentais na história bíblica, ele/a certamente mencionará o relato da criação, as histórias dos patriarcas e do êxodo, os profetas e Jesus Cristo. Em todos esses eventos, que marcaram a história da humanidade, a guerra não é ponto principal. Por exemplo, narrativa da Criação (Gn 1,1-2,25) não está envolvida com lutas e batalhas. O salmista assim descreveu a Criação: “Os céus são teus, a terra também é tua; a terra e tudo que nela está. Tu os fundaste. O Norte e o Sul tu criastes (...) justiça e direito são o fundamento do teu trono; bondade e verdade te precedem” (Sl 89,11-14). Da mesma forma, é surpreendente perceber que poucas ocorrências de violência são encontradas nas história dos patriarcas. Fica, então, a pergunta: Por que foram preservadas tão poucas cenas de violência nesses textos bíblicos? A historia da libertação do Egito é um dos núcleos do AT. É uma história que tinha tudo para exaltar a guerra, porém Javé, aqui, é relatado como Aquele que salva e restaura a dignidade de um povo que vivia na escravidão. O texto de Ex 4.18 aponta para um ponto significativo. Antes de iniciar a grande missão, Jetro despede de Moisés com a seguinte bênção: lek lesalom, isto é, vai para a paz!

Tércio Machado Siqueira

a) A criação. No Antigo Oriente Médio os mitos da criação contavam que a formação do mundo era precedida de lutas e batalhas dos deuses. Ao contrário disso, o relato de Gênesis 1 e 2 destaca que Deus criou o mundo, do modo profético, pela Sua palavra. Alguns salmos abordam este tema acrescentando um detalhe teológico muito importante: Os céus são teus, a terra também é tua; a terra e tudo que nela está. Tu os fundaste. O Norte e o Sul tu criastes (...) justiça e direito são o fundamento do teu trono; bondade e verdade te precedem (Sl 89,11-14). Quando este salmo aproxima a linguagem da criação – céu, terra, fundar, fundação – com o campo semântico de justiça – direito, justiça, bondade e verdade – ele quer dizer algo além da poesia (cf Sl 33;136). Assim, o relato bíblico da criação não provém de relações bélicas, mas da Palavra de Deus que profeticamente confere ao mundo criado uma ordem justa.

b) os patriarcas constituem-se em um dos fundamentos da fé bíblica, conforme testemunho dos cristãos da Igreja Primitiva (Hb 11.8-22). As tradições patriarcais vêm de um tempo em que as lutas entre tribos eram comuns. Contudo, é surpreendente perceber que poucas ocorrências de violência são encontradas nas tradições que o livro de Gênesis preservou. Fica, então, a pergunta: Por que foram preservadas tão poucas cenas de violência nesses textos bíblicos? Quem foi responsável por essa seleção de relatos? A aprofundar todas estas questões, entretanto, não podemos deixar de lado um detalhe: o fato mais significativo dos relatos patriarcais é a promessa feita aos pais (Gn 12.1-9).

c) O êxodo. As tradições em torno da libertação do povo hebreu do Egito, incluindo os relatos do deserto, são celebrados como um milagre de Deus. Antes que um Deus herói e guerreiro, Javé, aqui, é relatado como Aquele que salva e restaura a dignidade de um povo que vivia na escravidão. O texto de Ex 4.18 aponta para um ponto significativo. Antes de iniciar a grande missão, Jetro despede de Moisés com a seguinte bênção: lek lesalom, isto é, vai para a paz! É certo que salom não implica ausência de guerra, mas, necessariamente, a intenção suprema da paz é buscar construir vida plena e íntegra, não somente para a humanidade, ma também para o mundo em toda a sua extensão.

d) O davidismo camponês. Na história de Israel, particularmente Judá, é preciso pontuar a questão do davidismo. Primeiramente, em Judá a figura influente, que fez história e marcou a vida dos habitantes dessa região, foi Davi que nasceu em Belém e se tornou rei em Hebron. Originalmente, Davi foi um guerreiro que o Historiador Deuteronomista trata como um defensor e protetor de minorias indefesas (I Sm 25.16). O historiador conta que 400 homens que se achavam em dificuldades financeiras e políticas agregaram-se a Davi (22.1-2). O fato é que as comunidades do campo, no interior de Judá, preservaram a memória do Davi pastor e protetor dos injustiçados, através de seu exército popular. Quanto ao davidismo sionita foi um produto das autoridades políticas e religiosas de Jerusalém. Enquanto os camponeses preservavam a tradição do belemita pastor, as autoridades em Jerusalém criaram ideologias em torno de Davi: do cetro, em lugar do cajado, do poderoso rei, em lugar do pastor; das batalhas sangrentas para submeter povos à humilhação do trabalho forçado, em lugar das lutas extraordinárias em favor dos irmãos oprimidos. As palavras de dois profetas de Judá caracterizam bem a tradição davidita do interior de Judá: Ele julgará entre os povos, e corrigirá muitas nações; estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e suas lanças em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra. (Is 2.4; Mq 4.3)

Tércio Machado Siqueira

FT / UMESP / 2001

A) No AT, a vingança é uma obrigação. Tomando esta frase, pura e simplesmente, o/a leitor/a pode ficar chocado. Entretanto, ela tem que ser tomada dentro do contexto bíblico e da cultura semítica. Analisemos alguns exemplos: primeiro, a niqmat dam – vingança de sangue – era realmente uma obrigação dentro da sociedade tribal israelita (Sl 79,10), cujo objetivo único era garantir o respeito pela vida (Ex 21,12; Lv 24,17; Dt 19,11-12). A lógica dessa obrigação está baseada no princípio que somente o sangue do infrator pode limpar o sangue derramado do morto (Gn 9,6), devolvendo, assim, o equilíbrio e a paz na comunidade. Não poderia haver redenção fora desse procedimento. A legislação dizia que a vingança deveria ser através do parente mais próximo, conhecido como goel – o resgatador. Dessa forma, o pai deve vingar a morte de seu filho e um filho seu pai (1Rs 2,5-9), até a quarta geração (Ex 20,5; 34,7), embora Dt 24,16 e 2Rs 14,6 restringem esta lei. Segundo, o AT legisla a vingança nos casos de estupro ou outras transgressões ou violações graves. A morte não é a única razão para estabelecer um caso de vingança (Gn 34,1-5, 25-27; 2Sm 13,1-20). Terceiro, é importante lembrar a legislação sobre a vingança de sangue não foi um princípio básico na formação da comunidade israelita. Com o objetivo de restringir essa prática, foi criada a possibilidade do infrator fugir para uma cidade de refúgio, ou asilo, evitando, assim, sua morte (Nm 35,9-34; Dt 4,41-43; 19,1-13; Js 20,1-9)

Pena de morte
O texto de Êxodo 21,1-22,16 (e v.19) forma uma coleção de sentenças legais casuísticas. Pela forma literária e conteúdo, essa coleção – conhecida como mixpatim - não tem analogia nos outros códigos do de leis do AT. Entretanto, é interessante observar que tem estreitas analogias nos livros legais do Antigo Oriente.

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