IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Vida Cristã
Rio, 12/3/2007
 

O filho de Dona Susana ou questão de gênero... (Suzel Tunes)

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O filho de Dona Susana
ou
Questão de gênero é para todos (as)

Suzel Tunes (redatora do Jornal Expositor Cristão)


Eu não gosto de escrever a expressão “questão de gênero”... Também não gosto de usar linguagem inclusiva, com esses horríveis parênteses que ofendem a estética e o ritmo do texto. Eu gostaria de pensar que tudo isso é dispensável, já que não existem diferenças quando mulheres e homens unem-se na construção do Reino de Deus. Mas o fato é que a tal “questão de gênero” ainda é um problema em muitas igrejas cristãs. Ainda existem púlpitos vetados para mulheres, ritos que mulheres não podem realizar, palavras que elas não podem falar.

Como nasci mulher num lar metodista, acho que fui privilegiada. Meus pais, que não haviam conseguido completar seus estudos, fizeram todos os esforços para que eu completasse os meus – fossem quais fossem, pois eu nunca ouvi dizer que há profissões “femininas” ou “masculinas”. Fui privilegiada, também, porque, ainda criança, vi as primeiras pastoras metodistas. Eu sou da “geração bem-te-vi”: cresci estudando as lições de Escola Dominical da pastora Zeni de Lima Soares, primeira presbítera ordenada pela Igreja Metodista, em 1974.

Cresci, também, ouvindo as histórias de uma mulher fiel e determinada chamada Susana Wesley. Uma igreja que tem por fundador o filho de dona Susana realmente não poderia ser machista, não é? Um dos relatos da vida de Susana Wesley que mais gosto é aquele que fala das reuniões de oração que ela começou a fazer em sua cozinha, numa das viagens de seu marido, Samuel Wesley, pastor da igreja local. Era para ser uma breve devocional com os empregados da casa, mas o grupo foi crescendo, crescendo... até que juntou 200 pessoas e começou a incomodar a estrutura eclesiástica. Afinal, naquela época, lugar de mulher era mesmo na cozinha, mas sem substituir o marido na pregação! O pastor substituto escreveu uma carta ao Rev. Samuel, alertando que os encontros poderiam ser alvo de queixa legal na igreja. Preocupado, Samuel escreveu à esposa. E dela recebeu a seguinte resposta: “Se achas adequado dissolver esta assembléia, não me digas que desejas que eu o faça, pois isto não satisfará a minha consciência; mas envia-me a tua ordem explícita, tem termos tão claros e expressos que me absolvam de toda culpa e punição por negligenciar esta oportunidade de fazer o bem, quando tu e eu aparecermos diante do grande e respeitável tribunal do Nosso Senhor Jesus Cristo”. A história não registra uma resposta do pastor Samuel... E, certamente, o exemplo de liderança espiritual desta mulher leiga teve grande influência na origem e consolidação do movimento metodista iniciado por John Wesley.

Outro dia, eu soube que, quando foi lançada a festa Susana Wesley, um evento beneficente que auxilia várias ações sociais da igreja, houve reação contrária em algumas igrejas. Elas rejeitaram especialmente o primeiro logotipo criado para o evento: o desenho de uma senhora do século 18 dando instruções a um garotinho que a ouvia muito atentamente. Teve gente que achou que a Igreja Metodista estava “idolatrando” a figura de Susana Wesley. Teve gente até que, para ridicularizar – ou, quem sabe, por genuíno equívoco – disse que a Igreja estava criando uma “santa metodista”.

Confesso que, quando soube dessa história, ela me pareceu tão absurda que dei risada... Mas tenho a impressão que dona Susana Wesley não acharia a menor graça... E passou-me pela cabeça uma idéia provocadora: será que, na rejeição à figura que colocava a figura da mãe Susana numa posição de autoridade diante do pequeno filho John Wesley, não estaria, também, o traço de um machismo renitente? Não podemos nos esquecer que, em que pese nossa tradição metodista de participação feminina, em que pese o próprio exemplo de Cristo, nossa sociedade ainda é machista. Pense comigo: na empresa em que você trabalha tem creche? Os homens da empresa em que você trabalha já reivindicaram creches para seus filhos (ou essa é uma preocupação apenas das funcionárias)? E na igreja que você freqüenta: há homens cuidando de classes de crianças, ou do berçário? E dentro de casa: marido e mulher dividem igualmente as tarefas domésticas e o cuidado das crianças?

As pastoras Genilma e Rosângela acabaram de publicar uma pesquisa de monitoramento da participação feminina no 18º Concílio Geral da Igreja Metodista (você já viu pesquisa sobre “questão de gênero” feita por homens? Eu nunca vi...).Temos uma notícia boa e outra ruim. A boa primeiro: esse monitoramento só é possível numa igreja inclusiva e aberta como a nossa, que não teme se avaliar continuamente, que não teme reconhecer as próprias deficiências. A notícia ruim: mulheres ainda participam pouco, ainda que a maioria da membresia seja feminina (já ouvi falar até em 70%!). Por essas e por outras, continuemos usando linguagem inclusiva, continuemos ensinando às meninas que elas têm vez e voz – ao lado dos meninos – em todas as instâncias da sociedade e continuemos, sobretudo, compreendendo que “questão de gênero” não é papo de mulher em pé de guerra contra os homens. Questão de gênero é assunto de todos(as) nós para que possamos, um dia, – todos e todas – construir um mundo tão harmonioso que esse assunto terá sido superado.

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