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Rio, 12/3/2007
 

Ciência, ética e fé: o diálogo necessário (entrevista por Suzel Tunes)

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Ciência, ética e fé: o diálogo necessário

Suzel Tunes

A comunidade científica internacional conhece bastante o nome Warwick Estevam Kerr, considerado um dos maiores geneticistas brasileiros e o maior especialista mundial em genética de abelhas. Foi ele quem introduziu no país, em 1956, a abelha africana e desenvolveu a africanizada, a partir do cruzamento com a espécie européia – conseguiu, assim, uma abelha mais dócil e ótima produtora de mel. Warwick Kerr também se dedicou ao melhoramento genético de alimentos: entre seus trabalhos, destaca-se o desenvolvimento de uma alface 20 vezes mais rica em vitamina A.

Kerr foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa. Atualmente, aos 84 anos, ele trabalha no Instituto de Genética e Bioquímica da Universidade Federal de Uberlândia, onde leciona e faz pesquisas com hortaliças e abelhas sem ferrão brasileiras, como mandaçaia, jataí, urucu e tiuba.

O que talvez poucos saibam é que o professor Kerr é um metodista dedicado. “Conheci Warwick Kerr na minha adolescência, na Igreja Metodista Central de Piracicaba, onde foi guia-leigo, presidente da Junta de Ecônomos, conselheiro dos juvenis e professor da classe dos jovens na Escola Dominical. Suas aulas deixaram marcas indeléveis e lições de vida inesquecíveis para várias gerações que tiveram o privilégio de ouvi-lo”, testemunha o professor Gustavo Alvim, reitor da Universidade Metodista de Piracicaba.

Em reconhecimento ao seu trabalho e exemplo de vida, o prof. Warwick Kerr recebeu o título da Ordem do Mérito Metodista, no dia 26 de março, pelas mãos do presidente do Colégio Episcopal, Bispo João Alves de Oliveira Filho. A homenagem ocorreu em um culto de ação de graças realizado na Igreja Metodista Central de Ribeirão Preto. Na entrevista que você lê a seguir, o prof. Kerr fala de ciência, ética e fé.


P - Como cientista e cristão, qual sua opinião a respeito do criacionismo? Afinal, a teoria da evolução contraria a fé cristã?

R - Toda a minha vida estudantil, meu trabalho como educador e cientista, foi pautada na existência de um Deus fantasticamente poderoso, Criador do universo todo, que hoje tem 13,7 bilhões de anos e, pelo menos nesta Terra, tem uma vida biológica fantasticamente grande e bela. O criacionismo, interpretado ao pé da letra, sem levar em conta a ciência moderna, dá ao aluno duas idéias antagônicas: 1º - Aceitar um evolucionismo sem Deus, muito pregado nas escolas e universidades ou 2º - Interpretar o Gênesis à luz da ciência moderna, a partir do Big-Bang até o homem moderno. Interpretar o Gênesis I com 6 dias de 24 horas é desconhecer que para Deus não existe tempo (Salmo 90.4; 2 Pedro 3.8).


P - Qual é sua opinião a respeito dos transgênicos?

R - Os métodos de se produzir plantas transgênicas constituem um avanço na genética. Para o Brasil há um perigo: a falta de visão de vários grupos tentaram proibir os transgênicos. Não deu certo. Hoje, com todas as proibições, planta-se a soja da Monsanto em 35% das lavouras, do Brasil. Porém os “contra” criaram um mal: não permitiram ou atrapalharam a produção por cientistas brasileiros de variedades transgênicas de nossas plantas, deixando as firmas estrangeiras nadar de braçada.


P - O desenvolvimento da genética também suscita várias questões de ordem ética. Existe, por exemplo, o perigo de que o mapa genético como instrumento de discriminação. A questão da clonagem humana, ou do uso de embriões para trabalhos científicos com células-tronco, também divide a opinião de cientistas e religiosos. Em sua opinião, como a genética pode ser usada a favor da vida, sob uma perspectiva cristã?

R - Sua terceira pergunta não é pergunta: é uma constatação. O avanço da genética humana tem dois perigos grandes, se os dados de cada indivíduo estiverem disponíveis nos computadores. Primeiro: uma firma, sabendo que tais e tais genes diminuem a vida, ou pioram a mente, ou implicam em maiores gastos com a saúde, podem negar-lhes o trabalho, ou diminuírem seus ordenados. Segundo: as companhias de seguro poderão recusar seguros a portadores de genes que aumentem seus gastos. O jeito é ter um país mais honesto, que siga Atos 2.44-45, Atos 4.31-37. “E tinham tudo em comum...” Quanto ao uso de células-tronco, não tenho problemas éticos no uso de células tronco. Recentemente, os jornais informaram que um grupo de geneticistas brasileiros conseguiu usar células-tronco em um senhor e estas células já se dividiram e estão reconstituindo o coração de um portador de Doença de Chagas. Que lindo !


P - Você trabalhou vários anos na região norte. Como você avalia o trabalho da Igreja Metodista naquela região? De que maneira a Igreja pode colaborar para a proteção do meio ambiente e promoção da vida em comunidades indígenas, sem ofender a cultura local?

R - Eu acho que as igrejas evangélicas apresentam dois defeitos graves: a) Com raríssimas exceções, não se apresentam nos cataclismas nacionais: secas no nordeste e em partes da Amazônia; enchentes no sul, desabamentos, etc.; fomes; apoio ao MST e outros que propõem uma divisão da Terra. A Bíblia posiciona-se contra o latifúndio (Isaías 5.8) e contra o racismo. Moisés casou-se com uma negra e Miriam protestou – veja o que aconteceu com ela como punição em Números 12.1-15. Veja, também, Apocalipse 7:9-17; João 4:7-15). Quando mataram 14 índios ticunas fiz um banzé, não como metodista, nem como cientista, mas como brasileiro. Em fevereiro de 2003 alguns chefes indígenas homenagearam duas pessoas entre as que mais haviam defendido os povos indígenas: um índio e um “não-índio”. O índio eleito foi Davi Yanomami e o branco fui eu.


P - Quais os projetos de pesquisa que você desenvolve atualmente?

R - Deus colocou na minha vida uma família que me deu ótimas oportunidades, as abelhas Melíponas (abelhas sociais brasileiras, sem ferrão), as quais estudo até hoje. Também faço pesquisa com hortaliças. Dinheiro para o “mensalão” parece que houve. Porém, a porcentagem que é dedicada à pesquisa não chega aos 3% das nações desenvolvidas. Por isso, quando meu ar condicionado queimou (era época de calor intenso) perdi 5 kg de sementes da alface “Uberlândia 10.000”, que tem 5 a 20 vezes mais vitamina A. Sobraram quatro envelopes. Vamos plantar no próximo mês. Ela não pode desaparecer, pois foi presente de Deus que recebi quando estive no Maranhão. Numa horta de um senhor que plantara cinco mil plantas de alface, uma apareceu com coloração verde-escura – foi a avó da Uberlândia 10.000. Em agosto de 2002, novamente abençoado, encontrei um pequi (a terceira fruta mais comida pelos pobres no Brasil) sem espinhos no caroço. Por meio de enxertias, feitas pelo meu técnico Francisco Raimundo da Silva, enxertador de 1ª classe, já temos 23 plantas desta nova variedade.

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