IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Reflexões
Rio, 28/4/2018
 

O Povo do Livro

Pr. Roberto Carvalho Rocha


 

Como herdeiros da Reforma, os protestantes tomam para si as afirmações de Lutero contra as heresias da igreja de Roma. E em particular, lembramos as afirmações assim chamadas cinco solas, um conjunto de princípios fundamentais da Reforma. Uma destas em especial, a sola scriptura, foi um elemento determinante de uma prática duradoura da consulta bíblica como árbitro de nossa fé e sobre a qual quero tecer algumas considerações.

Sola scriptura nasce na necessidade de impedir que a tradição e o ensino possam ser determinantes em questões da fé quando em contradição ao livro sagrado. Lutero desejava que a igreja fosse conduzida pelas orientações contidas no livro de inspiração divina e que, na presença de contradições entre o livro e a tradição ou o ensino, a orientação bíblica fosse considerada como a diretriz superior a guiar o povo no exercício de sua fé. Evitava-se assim que acréscimos posteriores ao texto bíblico, contraditórios a ele, fossem tomados por prática, levando o crente a agir em oposição ao que orientam as sagradas escrituras, em uma espécie de pecado autorizado pelo novo texto emitido pela autoridade da Igreja Católica.

Com a difusão dos pensamentos da Reforma e com a Bíblia acessível a todos, dada a invenção da prensa no mesmo período e o nascimento de versões traduzidas do grego e hebraico para a língua do povo, o crente passa então a ter em sua mão a sua carta magna para a verificação do que se lhe é proposto como prática de fé em uma pregação ou texto orientativo. Deixa de ser um ouvinte ou leitor que precisa crer no discurso daquele que leu a Bíblia no interior do mosteiro e lhe repete o que supostamente a Bíblia diz, assim o afirmando  aquele como sendo a verdade de Deus, e passa a poder conferir coisa com coisa com seus próprios olhos. De certa forma (re)inaugura-se o antigo hábito do povo de Beréia (At 17:10-12) que conferia o que Paulo falava com o texto sagrado que tinham em mãos, não aceitando puramente o que se falava. Era esse povo que recebia elogios por parte do escritor do livro de Atos dos Apóstolos ao afirmar que eles eram mais nobres que os de Tessalônica. 

Nasce, portanto, um novo crente: aquele que confere, que quer a referência bíblica, que considera um discurso de fé mais legítimo se possui referência explícita com livro e versículo, que ele possa abrir, consultar e, a partir dele, julgar o que se lhe diz. Citações como “A Bíblia diz” precisam ter o endereço textual claro. Sem esses atributos o discurso perde uma parte de sua credibilidade e em casos mais extremos é completamente desconsiderado. Tem-se, portanto, o hábito de começar toda pregação com a citação do texto bíblico, sendo essa prática um modelo obrigatório, ensinado no seminário, difundindo-se como opção a famosa pregação: pega-se o texto, introdução, pontos 1, 2 e 3, e conclusão. 

Uma das consequências resultantes de tal hábito é o pregador que quer falar sobre um determinado tema cristão e que precisa achar um texto que ratifique sua fala. Não pode ele simplesmente falar a mensagem e citar partes da Bíblia que corroboram em sua mensagem geral com o assunto em voga. Precisa de um texto, uma perícope. De quando em vez, força-se o texto a dizer o que não diz para poder atender ao anseio do povo do livro habituado a todo sermão começar com a citação bíblica.  É o famoso Texto como Pre-texto. 

Outra consequência é a leitura do texto pelo pregador na abertura da prédica, com tom e atitude de quem cumpre parte obriga-tória e burocrática, numa expectativa de ir logo para a fala e interpretação narrativa. Ler o texto bíblico passa a ser a parte obrigatória e chata, desmotivando a audiência a perceber os ensinos preciosos ali contidos. 

Porém, o maior problema que vejo da prática resultante da sola scriptura é a perda do pentecostes. Este evento, narrado em Atos, no capítulo 2, foi decisivo para a expansão da Igreja. Aqueles que esperavam a volta de Jesus cumprindo sua ordem de esperar ao mesmo tempo sem saber o que fazer frente às ameaças romanas, se tornam pregadores com autoridade diferenciada ao terem contato com o Espírito Santo, podendo ter perante o povo o mesmo direito ao elogio proferido a Jesus em Mateus 7:29. Não se converte 3.000 almas de uma vez só, num só discurso, de uma hora para a outra, sem essa autoridade que até então Pedro não tinha. Na busca pelo que diz a Bíblia perdemos a busca pelo que o Espirito diz. No medo dos espíritos estranhos nas bocas dos interlocutores, evitamos ouvi-lo pelo receio de retornamos a práticas erradas chanceladas por frases que começam com “Deus me disse”. 

Se consultar a Bíblia fosse a certeza de estar fazendo o que Deus quer, seria bom. Mas as infindáveis discussões sobre o que o texto diz, desde os tempos mais remotos da vivência cristã, passando inclusive por discussões presenciais entre Lutero e Calvino, e que permanecem até hoje, me deixam claro que o texto sagrado não é fechado ou claro mais do que inspirações divinas. 

Precisamos ser o Povo do Livro e, também, o povo do Espírito. Precisamos ser o povo que se ajoelha e pede a Deus que seu Espirito nos fale, nos oriente, nos guie, nos cure e nos santifique sem que esse medo de ouvir errado nos paralise a ponto de não receber e ansiar por essa legítima forma do agir de Deus. Sem o Espírito Santo o livro não consegue nos levar além. 

Na história, o medo de entender errado nos decepou uma parte salutar e essencial do agir de Deus. Precisamos retoma-la. Precisamos ansiar que o Espírito Santo venha e nos leve ao povo de Beréia, onde um e outro se completam. 

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