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Rio, 12/3/2007
 

Meu primeiro dia de aula (Heitor Pimenta Godinho)

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Meu primeiro dia de aula


Heitor Pimenta Godinho

Caminhei junto com meu pai pela Rua Presidente Vargas, em Três Rios, Estado do Rio de Janeiro. Entramos na padaria na esquina com a Praça São Sebastião. Ganhei um doce de leite em forma de losango, que foi embrulhado e colocado em minha pasta.

Com seis anos de idade estava a caminho de meu primeiro dia de aula. Atravessamos a praça, entramos em uma rua sentindo um odor adocicado e pisamos na calçada com um pouco de pó branco coberto por moscas em alvoroço em frente à usina de açúcar Pérola. Alcançamos a Rua Barão do Rio Branco.

Chegamos à escola, com portão e muros altos. Passamos pelo portão, atravessamos o pátio, entramos na sala onde fui apresentado à professora Lúcia, morena, magra, de cabelos e vestido compridos e com mancha de queimadura em seu pescoço, que dava aspereza à pele naquele local.

Na sala uma porta, janela, quadro negro de madeira fixado à parede, mesa e cadeira para a professora, uma grande mesa sem toalha, apoiada em dois cavaletes, como as de pingue-pongue, mas sem pintura. Em sua volta doze cadeiras.

Papai saiu, deixando-me ali com aquela moça de semblante transtornado e mais algumas crianças.

Poucos minutos depois tocaram a sirene da usina e a campainha da escola, para início das aulas do turno da tarde. Os acompanhantes das crianças dirigiram-se ao portão do pátio. Pela janela vi meu pai despedindo-se com acenos.

Tive ímpeto de sair correndo em sua direção, mas ele, de costas para mim, já se afastava. Minha visão embaçou com lágrimas. Tentei contê-las, fechando os olhos e comprimindo-os com as pálpebras, para que não rolassem e pensassem que eu era um menino medroso.

Sentei-me em uma das cadeiras. O início de tarde cinzento escurecia a sala. D. Lúcia acendeu a única lâmpada incandescente, enroscada em bocal de louça, encimada por uma luminária esmaltada na cor branca e pendurada por um fio no centro do teto, que balançava com o vento seguido de chuva e trovões. O desenho do filamento em movimento, projetado na parede quebrava a tristeza do ambiente.

A professora, com uma régua na mão direita, foi dizendo que “antes de dar a primeira aula precisava saber o nível de conhecimento da turma fazendo um ditado”. Esse foi meu primeiro desafio escolar. Tentei escrever as difíceis palavras pronunciadas em áspera voz alta:

“Abacaxi, helicóptero, hipopótamo, calhambeque, alvenaria, armação, Joana D´Arc, Afeganistão, caixa d´água, garimpagem”. Nunca lera ou escrevera aquelas palavras, que eram mais complicadas que as dos textos tipo “Eva viu a uva” que eu aprendera em casa, mas fiz o que pude.

Após a correção, a professora mostrou que eu errara a grafia de todas as palavras, que eu nada sabia, era muito fraco e merecia como nota um “zero” redondíssimo. Na hora do recreio comi o doce de leite, tirando um pouco do amargo da boca.

Voltei para casa triste com essa minha primeira nota em uma tarefa escolar. Nos meses seguintes, debilitado com fortes crises asmáticas, em noites insones no colo de meus pais, numa época em que não se usavam nebulizadores, deixei a escola para tratamento de saúde física e intelectual.

Reiniciei a carreira colegial no ano seguinte, fazendo o curso primário e o admissão ao ginásio em quatro anos.

Aquele marco “zero” de fracasso inicial foi uma experiência fundamental para minha vida, porque a partir dalí sempre obtive notas e desempenhos superiores àquele de referência, deu-me “anti-corpos” para aceitar com naturalidade os revezes e derrotas que ocorrem nas existências das pessoas normais e criou em mim uma rotina para o enfrentamento das disputas acirradas que teria pela frente, de modo a vencê-las apesar de todas as dificuldades aparentemente intransponíveis que pudessem aparecer.

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