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Rio, 15/3/2007
 

A doutrina Wesleyana frente ao neoliberalismo (Rev. Nicanor Lopes)

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A DOUTRINA WESLEYANA FRENTE AO NEOLIBERALISMO
Rev. Nicanor Lopes, Pastor da V Região Eclesiástica

Pensar ou falar de herança Wesleyana em nossos dias pode parecer nostalgia. Porém eu creio que nostalgia e saudades fazem parte da vida humana. Achei interessante o artigo da revista “Voz Missionária” III Trimestre de 1997, sobre a terceira idade. A autora relata que: “algumas vezes pedimos ao pastor para fazer o culto de forma mais tradicional, com ceia e hinos para matar a saudade” (1)

Na saudade ficou também nossa herança Wesleyana frente ao modelo liberal que impera em nosso país, de forma aberta, desde os tempos coloridos do presidente cassado, Fernando Collor de Mello. É importante ter em memória que os novos “ventos de doutrinas” pegaram força nas Igrejas Históricas, bem como na Igreja Metodista, a partir deste período.

A imprensa denunciou algumas relações do governo colorido com o neo-pentecostalismo do Bispo Edir Macedo. A verdade é que a Igreja Universal só manteve relações empresariais com o governo colorido; libertá-lo dos gurus e pais de santo, carro chefe do neo-pentecostalismo, não foi possível!... O resultado desta operação perigosa é conhecida. O governo colorido caiu e o neo-pentecostalismo se fortaleceu. Diante disto eu concluo que a Igreja manipulou os mecanismos do modelo liberal com mais eficiência que o governo.

A FÉ E A SANTIFICAÇÃO

A doutrina Wesleyana afirma que: “somos santificados, bem como justificados, pela fé. (...) A fé é a condição, a única condição da santificação, exatamente como o é da justificação. É a condição; ninguém é santificado, senão o que crê; sem fé ninguém é santificado. E é a única condição; somente a fé é suficiente para a santificação.”(2)

Para o Metodismo, o ponto central do evangelho é a doutrina da salvação. Conseqüentemente, não há salvação sem justificação. Para entender o conceito Wesleyano de salvação é necessário compreender o que Wesley pensava sobre justificação e santificação. Ambos conceitos têm como pano de fundo a fé. Não é possível ser salvo, sem justificação diante de Deus. É Deus quem nos justifica, só Ele tem poder para justificar-nos mediante a graça em Jesus Cristo (Efésios 2, 8).

Assim sendo, a justificação é para Wesley a “porta da salvação”. Mas é necessário ir além da porta que, para Wesley, significava o caminho da santificação que nos restaura a imagem e semelhança de Deus. Porém, isto tudo ocorre por meio da fé. E, como somos salvos pela graça, por meio da fé, isto não vem de nós, é dom de Deus, tampouco vem de obras, para que ninguém se glorie (Ef. 2, 8-9). Diante disto, cabe-nos perguntar: como temos pregado o evangelho?

A pergunta pode também ser formulada assim: Existe chance para a pregação da fé, como dom de Deus, numa sociedade que tem como fundamento o modelo liberal, que enfatiza a concorrência como carro chefe das relações sociais e de mercado? Na política, o modelo liberal enfatiza a competição do mercado. O governo deve assumir a responsabilidade por setores onde a baixa lucratividade não atrai os grandes capitais, e nisto fica claro que a responsabilidade social é do Estado. E como resultado deste modelo temos uma sociedade em que o consumo é regido pela lei da oferta e da procura e as tendências de centralização, monopólios e crescente concentração da renda. Na Igreja o modelo liberal enfatiza a prosperidade como resultado de uma “santificação” plena.

A SANTIFICAÇÃO E A PROSPERIDADE

Diante disto, faz-se necessário o confronto entre nossa herança Wesleyana e o neoliberalismo vigente na sociedade brasileira, na qual a Igreja Metodista está inserida. Faz sentido crer em prosperidade, quando o evangelho propõe pregar a salvação com a advertência aos primeiros missionários para não levarem “nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais dois vestidos” (Lucas 9, 3)? Não será a ideologia da prosperidade, um instrumento de santificação do modelo liberal que afirma que o crente tem que ser o primeiro? Mas o Evangelho afirma que: “Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores.

Mas não sereis vós assim; antes, o maior entre vós seja o menor; e quem governa, como quem serve” (Lucas 22, 25-26). Quando a prosperidade passa a ser o selo da “santificação”, onde está a fé? E quando a prosperidade não vem, é porque ainda existem “pecados ocultos”. Afinal, somos ou não somos justificados pela fé? Maior heresia é ouvir sobre “maldição hereditária”, como um dos motivos da não “santificação”. Por isto, a prosperidade não vem para os “herdeiros malditos”. Faz sentido este tipo de mensagem para uma Igreja que crê que a salvação vem pela fé, bem como a santificação, e isto é dom de Deus?

CRISTO E A MALDIÇÃO

A herança Wesleyana afirma que: “Considerando que todo o mundo está culpado perante Deus, ao ponto que, se ele fosse observar todas as iniqüidades, ninguém subsistiria; considerando que pela lei vem somente o conhecimento do pecado, nenhuma libertação advém dela, de forma que ninguém será justificado diante dele por cumprir as obras da lei; mas agora, se manifestou a justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo.

Agora são justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus Cristo, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, para manifestar a sua justiça pela remissão dos pecados anteriormente cometidos. Agora, Cristo tirou a maldição da lei, fazendo-se, ele próprio, maldição em nosso lugar. Ele tem cancelado o escrito de dívidas que era contra nós, removendo-o inteiramente, encravando-o na cruz. Agora pois já nenhuma condenação há para os que crêem em Cristo Jesus.”(3)

O DESAFIO DA HERANÇA WESLEYANA

A herança Wesleyana desafia os metodistas a buscarem formas litúrgicas que não sejam a “santificação” do modelo liberal, isto é, buscar formas de adoração, louvor e edificação que enfatize a fé, o crer e não a concorrência com as bandas de Rock ou mesmo o Gospel.

A herança Wesleyana desafia os metodistas a crerem na justificação e na santificação como obra completa da fé, e não como um produto de prateleira que oferece eficiência para um determinado serviço e que tem muitos outros concorrentes.

A herança Wesleyana desafia os metodistas a crerem que não há outro caminho para a salvação que não seja pela justificação e santificação como sinal da graça de Deus que é oferecida a todos os que crêem. E esta oferta é sem truques e manobras que o modelo liberal impõe numa sociedade consumista.

Para refletir em pequenos grupos:
1.Quando a concorrência é o motor de uma sociedade, o que deve ser enfatizado?
2.Há valor para a graça de Deus num contexto de concorrência?
3.É possível compreender o termo “justificação pela metade”?
4.Se há “justificação pela metade” como isto acontece?
5.Se não há, como entender “pecados ocultos”, “maldição hereditária”, etc...?
6.Os frutos da santificação devem ser expressados na prosperidade material?
7. “Concorrência”;--o que esta palavra significa no contexto de nossa Igreja?

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Citações:

1 Voz Missionária, Imprensa Metodista, III Trimestre 1997, pg. 35.
2 Wesley, John, Sermões - Volume 2, Imprensa Metodista, São Paulo, pg.35.
3 op. cit, Sermões - Volume 2, pg. 51 e 52.

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