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Rio, 23/3/2007
 

Pecado Original ou Graça Original? (Derrel Homer Dantee)

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PECADO ORIGINAL OU GRAÇA ORIGINAL?
Derrel Homer Santee, Sociólogo e Teólogo


INTRODUÇÃO
Ao ignorar a obra prima de Deus, as belezas e as bênçãos da própria criação e, ao olhar somente para a pobreza do seu próprio interior, Agostinho, 350 anos depois da morte e ressurreição de Cristo, “inventou” a doutrina do Pecado Original. De lá para cá as trevas do Pecado Original praticamente apagaram a luz da Graça Original. Hoje se fala mais na desgraça do que na graça.


A doutrina do Pecado Original criou a sua própria desgraça. Esta doutrina levou os cristãos ocidentais a projetarem o seu vazio espiritual à natureza. A natureza se tornou suspeita e perdeu a sua qualidade sagrada. Ela se tornou algo para ser dominado e subjugado e não algo para ser zelado e reverenciado como manifestação da graça de Deus. Foi fácil ao ocidente aceitar a visão de René Descartes (1596-1650) e Sir Isaac Newton (1642-1727) de que a natureza não passava de uma grande máquina regida por leis naturais. A teologia ocidental e a ciência estabeleceram uma trégua e criaram duas categorias:
1) o sagrado, que ficava na área da teologia que cuidava das leis espirituais e
2) o natural, em que a ciência pesquisava as leis naturais.

O cristianismo adotou a atitude deísta em que Deus está ausente do mundo natural mas, ocasionalmente, faz intervenções e suspende as leis naturais para realizar milagres.
Esta atitude abriu caminho para a revolução industrial e sua conseqüente devastação do planeta terra e o caos ecológico, existentes hoje. A doutrina do Pecado Original muito contribuiu para a crise que está se agravando cada vez mais.

O nosso desafio é recuperar a Graça Original relatada na história da criação (Gn.1.4,10,12,18,21,25 e 31). Os seguintes textos bíblicos nos dão algumas pistas:

A chuva e a neve caem do céu e não voltam até que tenham regado a terra, fazendo as plantas brotarem, crescerem e produzirem sementes para serem plantadas e darem alimento para as pessoas. Assim também a ordem que eu dou não volta sem ter feito o que eu quero; ela cumpre tudo o que eu mando. "Vocês sairão alegres da Babilônia, serão guiados em paz para a sua terra. As montanhas e os morros cantarão de alegria; todas as árvores baterão palmas. Onde agora só há espinheiros crescerão ciprestes, murtas aparecerão onde agora só cresce o mato. Isso será para vocês uma testemunha daquilo que eu fiz, será um sinal eterno, que nunca desaparecerá". (Isaías 55.10-13)

Fazendo chover, mostras o teu cuidado pela terra e a tornas boa e rica. Com as chuvas do céu enches de água os rios, e assim a terra produz alimentos, pois para isso a preparaste. Regas com muitas chuvas as terras aradas, e elas ficam amolecidas pela água. Com as chuvas, amacias bem as terras, e por isso crescem as plantações. Como é grande a colheita que vem da tua bondade! Por onde passas, há fartura. Os pastos estão cobertos de rebanhos, e os montes se enchem de alegria. Os campos estão cobertos de carneiros, e os vales estão cheios de trigo. Tudo grita e canta de alegria. (Salmo 65.9-13)


Passamos a fazer algumas ponderações a respeito destas duas passagens:

O IMPULSO PREDOMINANTE DE DEUS É AGRACIAR

O profeta, Isaías, se dirige para um povo exilado derrotado, fracassado e desanimado. De acordo com a visão profética, esta situação era decorrente do seu afastamento do Deus Eterno. As palavras de esperança apontavam para as manifestações normais da natureza (chuva, sementes, crescimento, colheitas, etc.) como sinal da graça de Deus.
Independentemente dos nossos erros, o propósito contínuo de Deus é agraciar. Este propósito é sinalizado pela natureza; a chuva, neve, sementes, crescimento das plantas, as colheitas, etc. Os espinheiros e o mato são manifestações da agressão humana, mas os ciprestes e as murtas os vencerão. Este processo das dádivas da natureza é a testemunha da graça de Deus.

A nossa vida urbana nos distancia da beleza das estações de plantação, crescimento e colheita. A selva urbana de asfalto, concreto e poluição cega os nossos olhos e anestesia a nossa sensibilidade. As paredes nuas dos nossos templos são frutos do vazio da nossa alma. Construímos barreiras que impedem que estes sinais de graça cheguem até nós. Somos cercados pelas obras das nossas mãos e dificilmente enxergamos as obras das mãos de Deus.

Possivelmente o salmista foi a inspiração do profeta Isaías, pois, usando esta mesma linguagem de louvor, fala em termos gerais e aponta todo o processo de chuva, sementes e colheitas como manifestações de Deus que revela a sua bondade (graça).
A teologia Wesleyana rompe com os reformadores que adotam uma postura radical quanto ao pecado original e a desconfiança na natureza. Wesley não acreditava na depravação absoluta da humanidade e na corrupção total da natureza. Os Wesleyanos colocam a criação como uma das fontes da revelação divina. Wesley escreve da “natureza de Deus à luz da criação”. Por ser tudo feito pela mão de Deus, nada em si mesmo é mau, pois a natureza representa uma harmonia perfeita. Deus, que é bom, comunica a sua bondade através de tudo que ele criou.

“Tal era o estado da criação,(…) quando seu grande Autor, inspecionando o sistema inteiro de uma vez, o pronunciou “muito bom.” Era bom no grau mais alto possível e sem qualquer mistura do mal. Cada parte foi perfeita para as outras, e conducente ao bem do todo. Havia uma “cadeia dourada” (usando a expressão de Plutão) “abaixada do trono de Deus;” uma série de seres perfeitamente relacionados, do mais alto para o mais baixo; de terra morta, por fósseis, plantas, animais, para homens, criados na imagem de Deus, e criados para conhecer, amar, e desfrutar o seu Criador para toda a eternidade.” (Sermão LVI) [tradução do autor]


A BÍBLIA FALA DA CRIAÇÃO COMO SE FOSSE VIVA E CONSCIENTE

A nossa visão do universo como mecanismo inanimado resiste a esta idéia, mas a Bíblia fala como se a criação fosse um ser vivo. Nestas duas passagens encontramos frases como; “As montanhas e os morros cantarão de alegria; todas as árvores baterão palmas” e “Tudo grita e canta de alegria”. No livro de Salmos encontramos outras manifestações deste conceito:

Louvem a Deus, ó céu e terra, ó mares e todas as criaturas que estão neles! (Salmo 69.34)
Tu fizeste o Norte e o Sul. Os montes Tabor e Hermom te louvam com alegria. (Salmo 89.12)
Eu sempre louvarei o Eterno. Que todos os seres vivos louvem o Santo Deus para sempre! (Salmo 145.21).
Todos os seres vivos, louvem o Eterno! Louvem ao Deus Eterno. (Salmo 150.6)
Ruja o mar e todas as criaturas que nele vivem. Cante a terra e os seus moradores. Rios, batam palmas! Montes, cantem com alegria diante do Eterno porque ele vem governar a terra! (Salmo 98.7,8)
Louvem ao Deus Eterno, todos os anjos do céu, todos os seus servos, que fazem a sua vontade! Louvem o Eterno, todas as suas criaturas, em todo lugar onde ele reina! Que todo o meu ser te louve, ó Deus Eterno! (Salmo 103.21,22)

Sol e lua, louvem o Eterno! Todas as estrelas brilhantes, louvem a Deus! Que os mais altos céus o louvem e também as águas que estão acima do céu! Que todos eles louvem o Deus Eterno, pois ele deu uma ordem, e eles foram criados! Ele mandou, e foram firmados para sempre nos seus lugares; eles não podem desobedecer. Louve o Eterno, tudo o que existe na terra: monstros do mar e todas as profundezas do oceano! Louvem o Eterno, relâmpagos e chuva de pedra, neve e nuvens, e ventos fortes, que obedecem à sua ordem! Louvem o Eterno, colinas e montanhas, florestas e árvores que dão frutas! Louvem o Eterno, todos os animais, mansos e selvagens! Louvem o Eterno, passarinhos e animais que se arrastam pelo chão! (Salmo 148.3-10)


Como podemos explicar isso? São meras expressões poéticas? Ou há algo que escapa da nossa mentalidade materialista? A grande verdade é que a nossa cultura “coisifica” a natureza e lhe nega sentimentos e consciência. A nossa maneira de definir o que é a vida e seus aspectos espirituais fica muita restrita e limitada.

Alguns dos nossos poetas cristãos compartilham esta visão bíblica, como testificam alguns hinos do Hinário Evangélico:

As grutas, as rochas imensas… Proclamam…Um hino ao teu nome, Senhor! Nos céus, e no mar, e na terra, Nos bosques, nos prados em flor, No fragoso alcantil, Na amplitude celeste, um hino ressoa ao Senhor. No céu, as estrelas brilhantes, Dos mares o grande fragor, E as brisas entoem, ridentes, Um hino ao teu nome, Senhor! As aves alegres, na mata, por entre as ramagens em flor, Exultam, em coro, cantando Um hino ao teu nome, Senhor! (H.E. 120)

Vós criaturas de Deus Pai, Todos erguei a voz, cantai, Aleluia! Aleluia! Tu, sol dourado a refulgir, Tu, lua em prata a reluzir, Oh! louvai-o! Oh! Louvai-o! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Oh! Boa terra mãe que dá Infindas bênçãos, canta já, Oh! Louvai-o, Aleluia! Frutos e flores, juntos dai A glória a Deus, Senhor e Pai. Oh! louvai-o! Oh! Louvai-o! Aleluia! Aleluia! Aleluia! (H.E. 129)

Altamente os céus proclamam Seu divino Criador; Anuncia o firmamento Tuas obras, ó Senhor! Incessantes, noite e dia, Dão sinais do teu poder, Sem palavras proclamando Deus excelso no saber. Majestoso o sol caminha Pelos céus com resplendor; Exultando em seu percurso, Enche o mundo de calor. Tua lei quão preciosa! Brilha mais que a clara luz; Esclarece nossas mentes, Guia as almas a Jesus. (H.E. 138)


Muitas culturas antigas reverenciavam a terra como mãe e fonte da vida. Era sagrada e merecia ser respeitada e bem tratada. Mas, com o advento da era industrial, os ocidentais passaram a tratá-la como objeto a ser explorado para enriquecimento pessoal e vantagens imediatistas. Passaram a abusá-la, estuprá-la e prostituí-la. Ela está sendo desrespeitada, contaminada, poluída e envenenada. Para muitos cidadãos comuns ela se tornou um grande depósito de lixo. Encontra-se lixo industrializado, garrafas plásticas, isopor, etc. em qualquer lugar, até no meio do pantanal mato-grossense e nas mais remotas ilhas do oceano. Pior ainda é o lixo invisível, tóxicos químicos e nucleares.
Na década dos anos 60, como resultado da exploração espacial e a nova visão cósmica resultante, começou tomar vulto, na comunidade científica, a “teoria de gaia”, isto é, o planeta Terra como organismo vivo. A vida apareceu na terra há quatro bilhões de anos. Neste período, o nosso sol aumentou a sua temperatura em 25% mas, apesar deste aumento, por um processo de auto controle, o planeta Terra mantinha praticamente a mesma temperatura e mantinha seu equilíbrio ecológico. A Terra, como uma totalidade, reage ao estímulos e se auto regula. Isto é justamente uma das características de vida.

O processo de auto-regulação é a chave da idéia de Lovelock. Ele sabia, pela astrofísica, que o calor do Sol aumentou em 25 por cento desde que a vida começou na Terra e que, não obstante esse aumento, a temperatura da superfície da Terra tem permanecido constante, num nível confortável para a vida, nesses quatro bilhões de anos. E se a Terra fosse capaz de regular sua temperatura, indagou ele, assim como outras condições planetárias - a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos, e assim por diante – assim como os organismos vivos são capazes de auto-regular e de manter constantes a temperatura dos seus corpos e também outras variáveis? Lovelock compreendeu que essa hipótese significava uma ruptura radical com a ciência convencional: (CAPRA, Fritjof, A TEIA DA VIDA: Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos, Editora Cultrix, 1996, p.92)

Considere a teoria de Gaia como uma alternativa à sabedoria convencional que vê a Terra como um planeta morto, feito de rochas, oceanos e atmosfera inanimados, e meramente habitado pela vida. Considere-a como um verdadeiro sistema, abrangendo toda a vida e todo o seu meio ambiente, estreitamente acoplados de modo a formar uma entidade auto-reguladora. (LOVELOCK, James, HEALING GAIA, Harmony Books, 1991, p.12)


PANENTEISMO

O salmista proclama a onipresença de Deus: “Aonde posso ir a fim de escapar do teu Espírito? Para onde posso fugir da tua presença? Se eu subir ao céu, tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, lá estás também”. (139.7-8) O que quer dizer: “onipresença”? Deus está presente em todos os lugares. Alguns teólogos usam a palavra “panenteismo”. Pan = tudo, en = em e te (do “teos”)= Deus, ou seja, Deus em tudo (ou tudo em Deus). Panenteismo é a posição cristã diante do “ateísmo” que nega a existência de Deus e o “panteismo” que diz que tudo é Deus. O panenteismo reconhece a presença de Deus em tudo, desde as mais distantes galáxias, até dentro de cada átomo, Deus saturando a sua criação.

O CONTRASTE ENTRE PECADO ORIGINAL E GRAÇA ORIGINAL

PECADO ORIGINAL X GRAÇA ORIGINAL
Deus: distante, exigente e vingativo. Precisa ser agradado para não sofrermos punição. A vida se torna cheia de leis, normas e proibições. O ideal supremo é a perfeição. Deus: Pai e Mãe. Deus é a fonte de todo o amor paternal e maternal, fonte da nossa existência. O ideal supremo é o crescimento em todos os nossos relacionamentos.

A natureza: inimiga a ser dominada. Precisa ser moldada de acordo com os nossos desejos para promover o nosso bem estar. A criação: amiga a ser cultivada. Amizades precisam ser cultivadas. Para a natureza ser a nossa amiga precisamos ser amigáveis para com ela.

Outras formas de vida: objetos de exploração para o benefício próprio. Não têm valor em si. Seu valor está vinculado à sua utilidade para nós. Tudo mais é descartável. Outras formas de vida: vizinhas. A prática da boa vizinhança é válida em todos os níveis. A felicidade está em viver em harmonia e não em dominar, explorar e destruir.

Outros seres humanos: concorrentes. A luta social é pela ascendência e/ou a independência em relação aos outros. O mais importante é a “nossa” tribo, raça, pátria, família ou religião. Outros seres humanos: irmãs e irmãos. A solidariedade com os outros é o segredo do nosso bem estar também. O nosso bem estar depende do bem estar dos outros.

Si mesmo: o valor supremo. É egoísta. Egoísmo nada mais é do que auto desprezo disfarçado. Ao rejeitar a si mesmo como realmente é, a pessoa passa a desvalorizar tudo em sua volta. Pouco contribui para seu melhoramento. Tira sem retribuir. Si mesmo: filho/a de Deus. Ao nos valorizarmos a nós mesmos, seremos capazes de valorizar tudo o que Deus criou e continua a criar. Sendo produtos da sua graça seremos capazes de agraciar o mundo em que vivemos. “Deus amou ao mundo de tal maneira…”


Às portas do Terceiro Milênio o nosso desafio é manifestar a graça original como obra primordial de Deus. Deus é Amor, Graça e Bênção. A fixação doentia no “Pecado Original” produz desgraça e prega um Deus de maldição. Com a visão ampla do Deus da Criação seremos capazes de manifestar amor ao mundo, preservando o nosso lar – a Terra – respeitando todas as formas de vida que fazem parte do nosso sistema ecológico, sendo solidários com todos da família humana – aceitando-as como objetos do amor de Deus igual a nós. Somente assim poderemos nos tornar o sal da terra e luzes no mundo. A igreja, com seus dogmas e normas, ergue muitas barreiras e complica a vida, mas o nosso desafio é viver como Jesus viveu.

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