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Rio, 5/4/2007
 

João Wesley, um tição tirado do fogo (Bispo Barbieri)

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JOÃO WESLEY, UM TIÇÃO TIRADO DO FOGO (*)

Bispo Sante Uberto Barbieri

“O Mundo é minha paróquia”
João Wesley


Entre os grandes evangelistas e reformadores da Igreja Cristã está João Wesley, filho de Susana e Samuel Wesley, dos quais já falamos em páginas anteriores, e certamente figura entre os mais destacados. Sua figura singular atrai, todavia, a lealdade de muitos milhões ao redor da Terra, como alguém que soube interpretar a Cristo e apresentá-lo às multidões com a graça perdoadora e redentora que aparece no Evangelho.

Como a maioria dos grandes reformadores e evangelistas da História, ele não estava interessado no estabelecimento de um novo corpo eclesiástico que levasse seu nome, e sim numa renovação da vida da Igreja e na formação de uma consciência aberta aos influxos da graça divina. Que seu movimento se concretizasse mais tarde em uma nova denominação foi conseqüência de fatores que ele não pôde controlar. É importante recordar, em conexão, que João Wesley, como seu irmão Carlos, jamais abandonou as fileiras da Igreja Anglicana a cujo ministério se consagrara. Demonstra isto que diverso era seu propósito ao iniciar o movimento que outros, e não ele, batizaram-no com o nome de Metodista.

Nasceu João Wesley no já descrito povoado de Epworth, a 17 de junho de 1703. Sob a vigilância e tutela de sua mãe iniciou-se primeiramente nas lides do intelecto. No dia em que completou cinco anos, como soia (costumava) acontecer com todo filho de Susana, teve de aprender de cor todo o alfabeto. E o primeiro livro de leitura que teve na vida foi a Bíblia. Cresceu numa atmosfera impregnada de piedade e disciplina. Sua mãe, como nos lembramos, era muito rigorosa em seu método educativo, e bem depressa João teve de aprender a chorar em silêncio quando era castigado sob o conceito bíblico, segundo o qual, quando a mão paterna ou materna castiga, fá-Io para saúde de quem recebe a correção. O amor de seus pais era, portanto, temperado com essa rigidez disciplinar, que fazia parte da herança deixada a sua família por seus antepassados. A vida, mais do que gozo, era disciplina que devia conduzir o indivíduo aos caminhos celestiais e salvá-lo das tentações "do mundo, da carne e do diabo". Diz o seguinte um comentarista da vida familiar dos Wesley:

"Não se julgava, então, que merecesse o nome de educação o que não estivesse baseado no cristianismo e santificado pela Palavra de Deus e pela oração. A religião familiar, no lar dos Wesley, formava parte essencial de sua disciplina. E era caso de consciência instruir as crianças e dependentes sobre a natureza de seus deveres sociais, morais e espirituais. Também tinham por prática separar dias especiais para a oração, para a humilhação em épocas de calamidades, e para a ação de graças ao ser recipientes de benefícios especiais. " (1)

Já vimos como Susana escreveu a seu esposo em 1712 que ela tomara a resolução de separar uma hora por semana para estar a sós com cada um dos filhos. João tinha essa entrevista com sua mãe à noite de quinta-feira. Contava nessa época apenas 9 anos. Entretanto essa foi uma das vivências que mais impressionaram o menino, e sua recordação duraria toda a vida. Mais tarde, quando ele se encontrava longe do lar e em meio de lutas de seu apostolado evangelizante, escreveu a sua mãe rogando-lhe que ainda separasse para ele aquela hora, de maneira que ela pudesse acompanháIo com seus rogos e orações, ou escrever-lhe sobre coisas de ordem espiritual. Acostumou-se, desde cedo, a separar cada hora do dia para algo em particular. Buscava, desse modo, aproveitar ao máximo seu tempo, para não desperdiçá-lo por falta de disciplina ou em frivolidades.

Por duas vezes a casa pastoral foi incendiada pelo populacho da paróquia durante a infância de João Wesley. Uma vez queimou-se apenas em parte, e outra (em 1709) totalmente, ficando destruídos os móveis, livros e manuscritos do pai. Na segunda ocasião a mãe estava enferma, e com dificuldade pode escapar, não sem chamuscar as mãos e o rosto. João achava-se dormindo no segundo piso. Quando perceberam isto, o pai tentou resgatá-lo, mas era impossível: o fogo já havia tomado conta da escada que levava ao andar superior. Então convidou os que haviam acudido ao local a ajoelhar-se e pedir a Deus que recebesse em seu seio a alma do filho. Nesse momento se ouviu o choro do menino que assomava (apareceu) desesperado pela janela de seu quarto. Ato contínuo um homem subiu sobre os ombros de outro com tempo suficiente para alcançá-lo e descê-lo, livrando-o do perigo. Feito isto, o teto caiu em chamas para dentro da casa. E à luz das chamas que devoravam os restos da mansão, ajoelharam-se o grupo da casa pastoral e os vizinhos, a convite do pai: "Vinde, vizinhos, ajoelhemo-nos e agradeçamos a Deus que me deu meus oito filhos. Que se vá a casa! Sou suficientemente rico!" (2) E Wesley recordaria mais de uma vez, ao longo da vida, este terrível incidente. Num de seus retratos mandou gravar como emblema uma casa em chamas e a legenda: "Um tição tirado ao fogo!"

Aos 11 anos, isto é, em 1714, teve de deixar o lar e ir para Londres, onde freqüentou como aluno interno até 1719 a escola Charterhouse. Naqueles dias a vida de um interno era mui severa, e os meninos eram tratados com disciplina rígida, quase como se estivessem num mosteiro. A situação se agravava ainda mais quando o aluno procedia de lar pobre. Muitas vezes devia sofrer vexames da parte daqueles que se sentiam superiores por sua posição social ou haveres de seus pais. João era por índole um tanto tímido, e durante esses anos freqüentemente teve de suportar a fome, porque seus colegas - coisa que era permitida nos internatos daquela época - tiravam-lhe a comida do prato. Como era de constituição franzina, e por conselho paterno, cedo de manhã corria certo número de vezes ao redor do edifício principal da escola, para fortalecer as pernas e os pulmões. Hoje em dia consideraríamos tal disciplina inadequada, e trataríamos de ver que um menino, em tais condições, tomasse mais alimento e vitaminas! Porém essas eram outras épocas e os meninos não eram tratados como tais, e sim como adultos em miniaturas. Tinham de aprender na rudeza da vida a fazer-se fortes e homens.

Por certo que foram anos de prova esses passados na Charterhouse. Ainda mais, durante os mesmos fortaleceu-se-Ihe o ânimo e ele se preparou para aquela disciplina que lhe seria necessária mais tarde, quando teve de fazer frente a tanta oposição e perseguição. E periodicamente, como que para alentá-lo, chegavam as cartas de seus pais, exortando-o a permanecer fiel a sua tradição religiosa no meio de tantos meninos que não haviam tido, nem remotamente, a mesma influência cristã. O certo é que João Wesley não guardou em sua memória recordações mui gratas daqueles anos. Olhava para eles sem nostalgia, com sentimento de alívio; que sorte que haviam ficado para trás na história de sua vida!

Em 1720 entrou para a Universidade de Oxford, assim como o haviam feito seus antepassados, permanecendo ali, com pequenos intervalos, até 1735. Nos átrios universitários não encontrou muito incentivo para aprofundar a vida religiosa. Nunca chegou a perverter-se pelos costumes livres, quando não licenciosos e profanos, de seus colegas. A religião era para ele, mais do que gozo interior, a observância de regras estritas. Durante os anos que esteve ali se inclinou, primeiro para o formalismo e, depois, para uma disciplina férrea. Essa religião deixava nele, com freqüentes assomos (indícios, suspeitas) de crise, um sabor de descontentamento. Buscava cumprir os requisitos legais, entretanto sua alma parecia ter fome de algo que não conseguia obter, e que ele não sabia exatamente o que era. Como conseqüência se excedia em atos de caridade e misericórdia, especialmente entre os pobres, os encarcerados e os enfermos. O motivo era sempre mais do que, por um sentimento de solidariedade, buscar aplacar a "ira de Deus" através desses atos e aparecer justificado ante os olhos divinos. Essa luta entre uma religião formal e uma vivência pessoal interna da presença de Deus, perduraria muitos anos depois de concluir seu curso de Bacharel em Artes. Durante aqueles anos sua peregrinação espiritual sofreu muitos altibaixos (altos e baixos), apesar de haver-se ordenado diácono em 1725 e presbítero em 1728.

Entre as influências que o ajudaram em sua formação religiosa destacam-se três autores: Thomas Kempis, Jeremias Taylor e William Law, além de seu contacto com os morávios (cristãos de origem na Morávia, Alemanha, cujo grande líder foi o Conde de Zinzendorf) e de uma experiência missionária na colônia da Geórgia, região que hoje em dia faz parte da América do Norte. Esses escritores, de caráter profundamente religioso e às vezes especulativo, habituaram-no a pensar agudamente nos problemas da vida e da morte, relacionados com a revelação cristã. Os morávios o levaram a busca de uma religião que fosse expressão da fé pessoal em Cristo. E sua experiência missionária lhe ensinou que, antes de poder evangelizar outros, o evangelista deve ter uma convicção pessoal, profunda e íntima. Mui significativa é a confissão que escreve em seu Diário, em fevereiro de 1738, ao voltar de sua aventura missionária na América, vendo novamente as costas da Inglaterra: "Fui à América para converter os índios, mas, oh! quem me converterá a mim?"

Somente depois de muito buscar nos escaninhos de sua consciência, de praticar longamente com seus amigos morávios, de participar em reuniões de oração e exortação com eles, chega à plenitude de sua experiência religiosa. Foi nessa inolvidável (inesquecível) noite de 24 de maio de 1738, enquanto se realizava uma humilde reunião num salãozinho de uma ruela de Londres, chamada AIdersgate, dirigida, presumivelmente, por um leigo, cujo nome se desconhece, quando mediava (lia) a leitura do prefácio de Lutero à epístola de São Paulo aos Romanos, que sentiu o amor de Deus "derramar-se em seu coração".

É bem conhecida a descrição que ele mesmo faz dessa experiência. Narra-a em seu Diário:
“Cerca das nove menos um quarto (20:45h), enquanto ouvia a descrição que Lutero fazia sobre a mudança que Deus opera no coração através da fé em Cristo, senti que meu coração ardia de maneira estranha. Senti que em verdade eu confiava em Cristo, em Cristo somente para a salvação e que uma certeza me foi dada de que ele havia tirado meus pecados, em verdade os meus, e que me havia salvo da lei do pecado e da morte. Comecei a orar com todo meu poder por aqueles que de alguma maneira especial me haviam perseguido e insultado. Então testifiquei diante de todos os presentes do que pela primeira vez sentia em meu coração." (3)

Desde esse momento sentiu-se novo homem e saiu dali "jubiloso" para ir em busca de seu irmão Carlos, que na época estava enfermo, para informá-lo acerca de seu achado em Cristo. Sentia-se com novos brios e indescritível entusiasmo. Mais tarde, interpretando sua própria vivência religiosa através dos anos, diria que antes de Aldersgate sua relação para com Deus havia sido a de um escravo para com seu senhor, e depois dessa época, a de um filho para com seu pai. Foi a transferência de uma religião do temor para uma religião de amor, de uma relação legal para uma relação de fé.

Não temos espaço suficiente para seguir toda sua trajetória espiritual desde 1724, quando terminou o curso de Bacharel em Artes, até 1738, quando teve sua gloriosa experiência. Já fizemos referência as suas ordenações. Mencionaremos ainda que em 1726, apenas um ano depois de sua primeira ordenação, foi nomeado tutor ("Fellow") na Universidade de Oxford, no Colégio de "Lincoln", função que interrompeu entre 1727- 1729 para ser ajudante de seu pai na paróquia de Epworth. Samuel alimentava esperanças de que o filho o sucedesse após sua morte. Mas João voltou a Oxford em 1729, insistindo com seu pai em que não se ajeitava mais viver longe dos átrios universitários.

Tinha ali muito mais tempo e oportunidade para satisfazer a sede de saber que sempre o incitava a novos conhecimentos e estudos. Uma simples olhadela em seu programa (atividades, agenda) intelectual daqueles dias nos claramente porque a vida em Epworth não teve atração suficiente para retê-lo.

"Dava lições de grego e era monitor das classes; primeiro foi instrutor de lógica e mais tarde de filosofia. Demais, em seu plano semanal de estudos pessoais incluiu o hebraico, árabe, grego, latim, lógica, ética, metafísica, filosofia natural, oratória, poesia e teologia." (4)

João Wesley permanece em seu posto de tutor e instrutor até o mês de outubro de 1735, quando se retira com seu irmão Carlos e outros dois companheiros universitários para ir à Geórgia. Já fizemos referência a essa sua aventura missionária e sua volta à Inglaterra que culminou com a experiência religiosa em Aldersgate.

Desde 1738 até 9 de março de 1791, dia de seu falecimento, não recuaria em sua imortal obra evangelizadora, tarefa que levou a cabo em todo o Reino Unido da Grã-Bretanha. Contar essa dramática história, cheia de emotivas e estranhas peripécias e extraordinárias realizações no campo religioso, tomar-nos-ia muito espaço. Os que desejam penetrar mais fundo na vida deste homem têm à sua disposição grande variedade de livros e outros materiais. Temos espaço apenas para notar algumas das muitas características desse longo ministério. Antes, porém, daremos outra nota biográfica que pode ser de interesse para completar o quadro de confronto.

João Wesley, sempre tão sagaz e clarividente em seus contactos e conhecimentos da natureza humana, foi muito infeliz na busca de uma companheira que o secundasse (ajudasse, auxiliasse) em sua obra e lhe desse um lar onde refazer suas forças ao calor do afeto familiar. Não teve êxito algum em várias tentativas que fizera, tanto na Inglaterra como na América, e que terminaram por uma razão ou outra em desgostos e desilusões. Finalmente, casou-se em 1752 com uma viúva, mãe de dois filhos, que havia sido esposa de um comerciante de nome Vizelle ou Vazeille, mulher de certa inteligência, que aparentava ter dotes suficientes para dar-lhe o lar de que necessitava. Mas logo percebeu que essa não era mulher para seu temperamento e tarefas. Ele não era homem que pudesse estar inerte em casa. Dois meses após o enlace (casamento) estava novamente entregue de cheio (totalmente) à vida itinerante.

Ela o acompanhou por algum tempo, mas acostumada como estava a outro teor (ritmo) de vida, não pode, naturalmente, dar-se a esse constante peregrinar. O Dr. Stevens a descreve assim:

"Infensa (contrária, adversa) a viajar, desgostou-se igualmente com as ausências habituais do esposo. Por fim seu desgosto tomou a forma de ciúmes monomaníacos (seus ciúmes e desconfianças eram idéia fixa, obsessivos). Durante quase vinte anos o perseguiu com suas suspeitas infundadas e suas importunações intoleráveis. Ante essas provações destacou-se admiravelmente a grandeza genuína do caráter de Wesley, posto que sua carreira pública jamais cambaleou nem perdeu um jota (nada) de sua energia ou êxito durante sua prolongada desgraça doméstica. Uma vez e outra ela o abandonava, mas voltava em face das reiteradas insistências dele. Ela abria, interpolava e expunha, então, perante seus inimigos (os que se opunham a Wesley) a correspondência dele, e, algumas vezes, viajava até cem milhas para ver, de uma janela, quem o acompanhava em sua carruagem. Finalmente, tomando consigo porções de seu Diário e outros papéis, que nunca devolveu, deixou-o em 1771 com a promessa de que jamais voltaria. A alusão que a este fato ele faz em seu Diário é caracteristicamente lacônica. Não sabia, diz a causa imediata de sua determinação, e acrescenta: "Non eam reliqui, non dimissi, non revocabo" ("Não a abandonei, não a despedi, não a reclamarei de volta"). Viveu cerca de dez anos depois de deixá-lo. Sua lápide sepulcral rememora suas virtudes como mãe e amiga, mas não como esposa." ( 5)

Sabemos que tão logo depois de Aldersgate, João Wesley teve de fazer frente ao antagonismo das autoridades eclesiásticas de sua própria Igreja, as quais achavam que sua pregação, apesar de ser nitidamente bíblica e sincera, era de tipo revolucionário e contrária aos cânones e ordenanças do eclesiasticismo oficial dominante. Viveu uma vida peregrina de itinerante. Até onde lhe permitiram suas energias, viajou "a tempo e fora de tempo", primeiro a cavalo e depois em carruagens. Calculou-se que andou cerca de 250.000 milhas, coisa assim de uns 400.000 quilômetros, e que pregou 42.400 sermões. Naturalmente que estes não seriam todos diferentes; talvez seria melhor dizer que pregou 42.400 vezes, visto como confessou que só pregava bem um sermão depois de havê-lo pregado umas trinta vezes. Possuía gênio organizador extraordinário que brotava de sua maneira de ser metódico, pois jamais deixou de observar o hábito de dividir todas as horas do dia entre suas diversas atividades, de tal maneira que sempre sobrasse algum tempo para meditação, oração e estudo. Aos 82 anos ainda escrevia em seu Diário: "Nunca me canso de escrever, de pregar e de viajar". Como ministro da Igreja Anglicana jamais teve uma paróquia regular (uma igreja local onde exercesse seu pastorado) e, apesar disso, não lhe cassaram as ordens. Mas quando lhe fecharam as portas da Igreja, declarou: "O mundo é minha paróquia". Proclamava assim não apenas sua independência das autoridades eclesiásticas mas também a amplitude de suas vistas.

Apesar de seu corpo estar sujeito a graves enfermidades, e mais de uma vez estar às portas da morte, era de uma resistência admirável. Quase até ao fim de sua longa vida esteve ativo, movendo-se de um lado para outro a fim de atender às múltiplas necessidades de seu ministério. Nunca pensava em si mesmo, nem na possibilidade de poupar energias. As necessidades humanas, fossem elas físicas, morais ou espirituais, não lhe permitiam pensar em si mesmo. Toda a vida era uma oferenda a Deus, que se consumia apaixonadamente no serviço a seus semelhantes. Comovedora é a anotação que registra em seu Diário, quando já contava 81 anos:
"Terça-feira, 4 de janeiro de 1785. Durante esta estação usualmente distribuímos carvão e pão entre os pobres da "sociedade" (grupo metodista). Mas considerei que nas atuais circunstâncias necessitavam tanto de roupa como de alimento. De modo que neste, assim como nos quatro dias seguintes, caminhei pela cidade e solicitei duzentas libras esterlinas para vestir aos mais necessitados. Sem dúvida foi trabalho duro, visto como a maioria das ruas estavam cheias de neve em gelo, na qual mui amiúde me afundava até o tornozelo, de maneira que meus pés andavam metidos na neve quase desde a manhã até ao anoitecer. Passei muito bem até ao entardecer de sábado, mas então tive de por-me na cama com violenta gripe, que agravava de hora em hora, até que tive necessidade de que o Dr. Whitehead viesse ver-me às seis horas da manhã. Sua primeira dose de medicamento me aliviou bastante e três ou quatro mais completaram a cura. Se ele chegar a viver alguns anos, não duvido que venha a ser um dos médicos mais eminentes da Europa."

Geralmente se levantava às 4h da manhã, e apesar de dizer que ele "nunca tinha tempo para estar apressado", estava sempre em movimento e ocupado. Como o fizeram um de seus avós, sua mãe, seu irmão Carlos e muitos outros de sua época, manteve um diário, que hoje está reunido em muitos volumes, e cuja leitura ainda causa admiração de quantos o lêem. Era, também, grande escritor de cartas, que foram recolhidas e formam uma coleção considerável, estando também impressas. Além disso, era escritor incansável, e tratou de muitos assuntos. Suas obras principais, porém, foram diversos comentários sobre os textos bíblicos, especialmente do Novo Testamento, e as coleções de sermões para pregadores itinerantes. Talvez nenhuma outra pessoa, por si mesma e por sua própria conta, haja publicado tantos folhetos e livros como ele. Não só os distribuía pessoalmente, mas também exortava a seus pregadores a que levassem sempre em suas maletas material impresso para propagar a mensagem cristã. Entre os manuais que publicou tratou de uma variedade de assuntos como teologia, poesia, música, história, moral, metafísica, filosofia, política, etc. Procurava por em linguagem popular as obras mais clássicas. Seu interesse na literatura não era pela literatura em si mesma, e sim para ilustrar (ensinar, dar cultura) o povo de suas “sociedades”.

Certamente, se ele se houvesse dedicado à carreira militar teria chegado a ser um grande estrategista, visto como na organização do movimento metodista demonstrou possuir acabado caráter de organizador. Por isso que sua obra perdurou, não porque somente era capaz de atrair para si as multidões a fim de ouvir suas mensagens, mas também porque sabia agrupá-las em sociedades, classes e bands (pequenos grupos), de tal maneira que mantinha constante supervisão sobre os aderentes e promovia desta maneira, o aprofundamento de seu caráter cristão e a divulgação das doutrinas bíblicas.

Quando descobriu que os ministros da Igreja Anglicana não estavam dispostos a acompanhá-lo em sua empresa (empreendimento) renovadora do espírito humano e dos costumes sociais, lançou mão de pregadores leigos, não ordenados, aos quais mantinha em constante movimento e dos quais exigia disciplina tão férrea quanto a sua, procurando suplementar-Ihes a falta de conhecimentos teológicos pelas leituras abundantes e estudos de caráter pessoal.

Não compreendia que houvesse pregadores capazes de cumprir com suas obrigações de proclamar a mensagem cristã, sem estudo constante e diário de seis horas, pelo menos. Isto se devia, em parte, porque ele mesmo se dedicava constantemente à leitura, não só em horas de sossego ou tranqüilidade, mas também quando viajava a cavalo.

Por certo não podemos dizer que João Wesley fosse um grande teólogo, como Calvino ou Lutero. Foi, antes de tudo, um evangelista, um homem que deu lugar proeminente à Bíblia, e de modo particular ao Novo Testamento. As "Notas" que escreveu sobre o Novo Testamento vieram a ser uma espécie de compêndio normativo obrigatório para qualquer pregador metodista. Em sua exposição bíblica não seguia nenhuma escola em particular. Era Cristo que, em realidade, dominava seu pensamento e interpretação, e seu espírito era a medida para julgar o valor de determinadas personagens ou idéias. Sua ênfase estava centralizada em Cristo e na salvação que cada ser humano pode receber somente pela fé nele. Apesar de o homem não se salvar pelas obras, estas são imprescindíveis para revelar o caráter dessa fé. A salvação não é oferecida apenas a uns quantos eleitos: a salvação está ao alcance de todo ser humano que atenda ao convite divino. Deus em Cristo chama a todos os homens, e são estes os que decidem acerca de seu destino, quer ao aceitar ou recusar a graça divina.

Assim, crendo que a salvação é universal (franca e possível para todos), empenhou-se em proclamar e em que se proclamasse, com caráter de urgência, o Evangelho "a tempo e fora de tempo ", em qualquer lugar e a toda gente, visto como "Deus não faz acepção de pessoas", mas recebe a todo aquele que confessa seu pecado e aceita seu perdão e sua graça. O Espírito Santo está ao alcance de qualquer pessoa que se exponha a sua influência, e deve ser o poder dominante na vida do cristão, de tal maneira que chegue a exclamar, por sua presença em sua vida: "Aba, Pai ", isto é, que sinta intimamente que Deus é o Pai celestial que o ama, perdoa e salva, e que está sempre perto de quem o busca. Ademais, o Espírito Santo conduz pelo caminho da santificação e perfeição a toda pessoa que busque sua direção. Não obstante, João Wesley nunca afirmou que ele mesmo houvesse alcançado tal grau de perfeição, capaz de eximi-lo de toda vigilância e disciplina pessoal, embora cresse firmemente que a vontade de Deus é poderosa para converter um pecador em um santo completo (uma pessoa com a vida santificada). Como vemos, nada há de realmente novo na "teologia" de João Wesley, senão um destaque de elementos que deveriam estar sempre à flor da consciência cristã. Um dos bispos da Igreja Metodista ao considerar a natureza do Metodismo, escreveu:
"Não foi uma nova doutrina, mas uma nova vida que os primeiros metodistas buscaram para si e para os outros. Conseguir que fosse real, no coração e na conduta dos homens, o verdadeiro ideal do cristianismo, e manter a experiência pessoal do mesmo e estendê-la a outros - esse era seu propósito. A controvérsia deles não era com a Igreja ou as autoridades estatais, mas com o pecado e Satanás. Seu único objetivo era o de salvar almas." (6)
Em conexão com isto, cabe consignar aqui a própria opinião de Wesley: "Creio que o Deus misericordioso leva mais em consideração a vida e a maneira de ser dos homens que suas idéias. Creio que aceita mais a bondade do coração que a glória do mundo".

Esta declaração de Wesley revela, ainda, que ele era mui tolerante, quanto a idéias teológicas. Embora seja importante o que alguém pensa, é mais importante ainda o que esse alguém é. Dizia também: "Dez mil opiniões podem separar-nos, mas se o teu coração é como o meu, aperta-me a mão, porque somos irmãos".

Talvez não seja próprio que nesta época façamos as coisas da mesma maneira como esse grande homem as levava a cabo, nem seja recomendável usar as mesmas figuras de pensamento ao apresentar o Evangelho. Não obstante, o movimento metodista nos legou características que são de valor permanente, e que jamais poderemos ignorar ou desprezar, porque, em realidade, não emanam da mente ou vontade de João Wesley, mas da mente e vontade de Cristo, que nos ordenou que fôssemos por todo o mundo pregando o Evangelho a toda criatura.

Anualmente nossos irmãos metodistas da Inglaterra elegem um presidente de sua Conferência Anual. Ao assumir o cargo, o novo presidente recebe das mãos do anterior um pequeno livro surrado, como símbolo de autoridade: é o Novo Testamento que João Wesley usava em suas pregações ao ar livre, quando as multidões que não cabiam nos templos vinham a ele para ouvir a Palavra de Deus. Simbolicamente também recebemos de suas mãos esse Livro Santo para que passemos, com a mesma paixão e urgência, seu conteúdo às almas afligidas e aos corações extraviados.

Não podemos viver de uma tradição por muito heróica que seja. Em nós mesmos temos de ouvir a urgência inquietante do "Ai de mim se não pregar o Evangelho!”


NOTAS:
(1) Beal, William Rev., citado por Stevenson, G. J., Op. Cit., pág. 16.
(2) Etevens, A., "History of Methodism", VoI. I, págs. 59 e 60.
(3) “A New History of Methodism", editado por Townsend, W. J. e outros, VoI. I, pág. 200.
(4) “A New History of Methodism", VoI. I, pág. 178.
(5) Op. Cit., VoI. I, págs. 370-371.
(6) Mc Tyeire, H. N., “History of Methodism”, pág. 13.

(*) Texto extraído do capítulo III do livro "Extranha Estirpe de Audazes", escrito pelo saudoso Bispo Sante Uberto Barbieri.

O livro pode ser lido integralmente nesse site. O endereço do livro no site é http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=47

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