IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Metodismo
Rio, 5/4/2007
 

Jorge Whitefield, o filho de um taverneiro (Bispo Barbieri)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

JORGE WHITEFIELD, O FILHO DE UM TABERNEIRO (*)

Sante Uberto Barbieri

"Oh! Quem me dera um poder igual à minha vontade! Desejaria voar de um pólo a outro anunciando o Evangelho sempiterno do Filho de Deus!".
Jorge Whitefield

É difícil medir as projeções de bem moral e espiritual resultantes das reuniões que os Wesley e alguns poucos de seus colegas tiveram no chamado "Clube Santo", cuja existência se prolongou por cerca de oito anos (1728-1735). Certamente, porém, o resultado mais positivo e permanente, além do que esse círculo piedoso trouxe à vida dos fundadores do Metodismo, foi a incomparável influência que exerceu na vida e obra de um estudante pobre, que em 1732 penetrou com temor e tremor os umbrais da Universidade de Oxford, matriculando-se no colégio de Pembroke. Seu nome era Jorge Whitefield. Nasceu a 16 de dezembro de 1714, na localidade de Gloucester, Inglaterra, na taberna "Bell".

Por certo que esse não foi ambiente mui propício para a formação de seu caráter juvenil, visto como uma taberna, naqueles dias, era ainda muito pior do que as encontradas nos bairros baixos das grandes cidades modernas. Se, como diziam João e Carlos Wesley, eles eram "tições tirados ao fogo", certamente Jorge, mais que esses dois irmãos, foi tição tirado ao inferno. Sem dúvida, mesmo cercado por uma atmosfera completamente insalubre, manifestava-se em sua alma estranha inquietude pelas coisas superiores do espírito, e em seu Diário que mais tarde escrevera, conta-nos que amiúde se exorbitava em exercícios espirituais, embora caísse, dia após dia, sob a influência de seu meio ambiente. De seu Diário podemos recolher alguns vislumbres de sua vida, antes de iniciar-se como estudante universitário. Entre seus dados autobiográficos encontramos os seguintes:

"Meu pai e minha mãe mantinham a taberna chamada "Bel". Meu pai morreu quando eu tinha dois anos de idade. Minha mãe ainda vive e por muitas vezes me contou o quanto sofreu durante catorze meses de enfermidade, depois que me trouxe ao mundo. Costumava dizer, desde quando eu era pequenino, que ela esperava alguma consolação de minha parte, mais do que de qualquer outro de seus filhos. Isto, sob as circunstâncias de haver eu nascido numa taberna, tem-me sido útil muitas vezes para esforçar-me por vir ao encontro das esperanças de minha mãe, seguindo assim o exemplo de meu Salvador, que nasceu numa estrebaria junto a uma estalagem." (1)

Evidentemente transpira algo de exagero este depois de haver alcançado grau de vida muito superior à que estava acostumado, ao ver-se de posse de um título universitário e ao ser agora recipiente privilegiado de ordens eclesiásticas. Dos dias de sua infância e juventude não conservava mui grata memória:

"Seria muito longo mencionar os pecados e ofensas de meus dias mais juvenis. São mais numerosos que os cabelos de minha cabeça." (2)

Evidentemente transpira algo de exagero este juízo de si mesmo. Sem dúvida está afinado com o conceito do homem que apresenta dentro do quadro total formado por seu pensamento teológico. Ao lado dessa descrição pessimista de seus dias juvenis, encontramos esta obra que se refere a ele quando tinha 16 anos de idade, citada pelo Dr. Stevens:
"Começou ele jejuando duas vezes por semana durante trinta e seis horas seguidas. Orava muitas vezes por dia, recebia a Comunhão (Ceia do Senhor) a cada dez dias e jejuava quase até à inanição durante os quarenta dias da Quaresma. Enquanto durava esse período se havia proposto, como questão de consciência, nunca ir menos de três vezes ao dia ao serviço público de adoração, além de obrigar-se diariamente a ter sete vezes devoções particulares." (3)

E assim, entre altibaixos (altos e baixos) em sua conduta e em suas lutas agônicas por sobreviver ao ambiente adverso, chegou quase aos 18 anos. Finalmente, ajudado por pessoas que descobriram nele grandes possibilidades, entrou para a Universidade.

Já havia tido, antes disso, alguns estudos tanto com um professor particular como na escola de Santa Maria de Crypt. Esses estudos foram muito irregulares, pois os interrompeu várias vezes por uma causa ou outra, principalmente porque se via obrigado a ajudar a mãe nos misteres (necessidades) da estalagem. Esta experiência lhe serviu na Universidade, pois ali, para poder manter-se e obter sua educação, teve de trabalhar como criado. Durante o tempo que pisou os átrios universitários viveu mui modestamente, castigando o corpo à moda monástica (como um monge no convento), deixando de comer frutas e outras coisas, escolhendo a pior qualidade de alimento, embora, se houvesse esejado, pudera obter, segundo disse, uma variedade separada de manjares. Vestia-se pobremente, mais do que necessário, interpretando literalmente a expressão bíblica que diz: "O Reino de Deus não é comida nem bebida". Segundo ele, essas renúncias conduziam a uma vida espiritual mais profunda e intensa. Sem dúvida, esse tratamento ascético de seu físico (para cuidar da alma entendia que precisava desprezar e até maltratar o corpo) fê-Io sofrer ao longo da vida. E morreu prematuramente, consumido pelos trabalhos que seu corpo mal podia agüentar.

Antes de ir para a Universidade já tinha conhecimento da existência do "Clube Santo", visto como sua fama ultrapassava os âmbitos dos claustros (recintos fechados, limites) universitários. Geralmente se considerava a maneira de viver dos que compunham esse círculo, como se fossem uns extravagantes e fanáticos. Whitefield passou mais de um ano antes de ter contacto com o grupo, por sentir-se indigno, devido à sua condição de servente (criado, empregado doméstico) de aproximar-se de pessoas que julgava tão distintas (importantes). Devemos recordar-nos de que por aquela época (1734) Carlos e João já eram bastante adultos e possuidores de seus graus e ordens, enquanto que Jorge era apenas um estudante no princípio de sua carreira. Ademais, pesava sobre ele o fato de haver nascido num ambiente detestável e viciado. Seus parentes não ostentavam nenhuma posição social respeitável. Com certa "inveja santa" Whitefield os contemplava de longe, quando os via passar para ir participar dos serviços divinos (orações e culto) na igreja de Santa Maria.

O primeiro contacto com o grupo foi através de Carlos Wesley, que sentiu por ele especial atração. Decerto se devia ao fato de serem ambos congeniais (terem gênios semelhantes), sendo um ardente poeta e outro orador fogoso (ardoroso). Os dois eram mui fervorosos de espírito e exaltados em sua maneira de ser, sentir e expressar. Através da amizade que travou com Carlos, que o tomou fraternalmente sob sua custódia espiritual, transpôs os umbrais do "Clube Santo", fez-se membro dele, vindo, portanto, a participar de seus métodos de estudo e de comportamento.

Dizia que esses companheiros, que eram os que "sua alma anelava", iam robustecendo-o (fortalecendo-o) diariamente no conhecimento e no temor de Deus e lhe ensinavam a suportar toda privação como bom soldado de Jesus Cristo". (4)

Embora lhe fosse difícil, a princípio, submeter-se a essa disciplina, logo se afez a ela. E com os demais, viu-se a empregar uma hora por dia, pelo menos, visitando os enfermos e encarcerados, bem como lendo páginas devocionais e das Escrituras às famílias pobres da vizinhança. Apesar dessa associação e disciplina rígidas, das boas obras que praticava diariamente, ainda perdurava em sua alma um sentido de frustração, uma atormentadora incerteza de que estaria realmente salvo da "ira divina", pois que, apesar de tudo a que se submetia com tão exímia diligência, parecia-lhe existir um abismo intransponível entre sua fragilidade humana e a glória divina.

Finalmente, aos 20 anos de idade, teve uma experiência religiosa que foi decisiva para o restante de seus dias. Essa maneira de viver lhe daria a segurança que buscara tão afanosamente (laboriosamente, dedicadamente), e seria o ponto de partida de todo o seu ministério. Ele mesmo conta essa experiência em suas memórias:

"Certo dia, atormentando-me uma sede fora do comum e sentindo uma viscosidade desagradável em minha boca, fiz todo o possível para alcançar alívio, mas foi tudo em vão. Veio-me, pois, a sugestão de que quando Jesus Cristo exclamou "tenho sede", seus sofrimentos estavam próximos do fim. Sem poder impedi-lo, caí de joelhos junto à cama, gritando; "Tenho sede! Tenho Sede!” Pouco depois disso achei e senti em mim mesmo que havia sido libertado do peso que tão grandemente me oprimia. O espírito de pesar me foi tirado e soube o que era verdadeiramente regozijar-me em Deus, meu Salvador, e por algum tempo não pude deixar de cantar salmos onde quer que estivesse. Assim terminaram, pois, os dias de meu pesar. Nesse ínterim, o Espírito de Deus tomou posse de minha alma."

Isto aconteceu sete semanas depois da Páscoa de 1735. Como aconteceria três anos mais tarde com os Wesley, Whitefield não pode conter a alegria de seu achado, e teve de proclamar a graça divina a todos os que estavam sob a maldição do pecado e por presa do desespero. No princípio da primavera desse mesmo ano de sua conversão, Whitefield voltou ao lugar de seu nascimento, Gloucester, aonde o médico o enviara na esperança de que afrouxasse sua "exagerada disciplina religiosa". Foi nesse período de descanso forçado que encontrou sua paz com Deus.

Logo a fama de suas pregações alcançou as multidões e estas vieram atropeladamente para ouvi-lo. Essa popularidade, apesar da humildade que o caracterizara até então, convencera-o de que realmente devia ser um escolhido de Deus, instrumento de que o Senhor lançara mão para fazer coisas maravilhosas. Essa foi a tremenda tentação de sua vida, e traços de exaltada opinião de si mesmo aparecem nos escritos que enfeixam suas memórias. Essa exagerada auto-estima carreou-lhe tremendas críticas especialmente de parte dos que não podiam suscitar a mesma popularidade. Parecia a alguns que ele agia abusivamente com a impressionável imaginação do povo comum. Mas inegavelmente ele o fazia movido por um irresistível sentido de vocação e por seu entranhável amor a Cristo, a quem dava o crédito de havê-lo trasladado dos tormentos terreais e eternos, a uma vida de santidade na terra e de glória no Céu. As palavras fluíam em torrentes de sua boca, a gente chorava extasiada e comovida, ficando às vezes como fulminada sob o empuxo de sua eloqüência. Seus contemporâneos afirmam que jamais houve outro que impressionasse mais com sua mágica palavra do que Jorge Whitefield. O povo vinha de consideráveis distâncias para ouvi-lo e nunca se saciava com o que ouvia, apesar de ele pregar sermões longos.

Não era costume da Igreja Anglicana ordenar ministro muito jovem; geralmente não o fazia antes dos 23 anos de idade. Não obstante, o bispo de Gloucester, Martin Benson, um dia mandou chamar Whitefield, que estava apenas com 21 anos, e lhe disse que se estivesse disposto a receber ordenação, ele não teria objeções em fazê-lo. Parece que nesse assunto interveio Lady Selwyn, mulher da nobreza, que o escutara e ficara profundamente impressionada com sua prédica. Esta foi a declaração do bom bispo:

"Embora eu tivesse afirmado que jamais ordenaria alguém menor de 23 anos de idade creio, sem dúvida, que é meu dever ordenar-te quando quiseres vir para receber as sacras ordens." (6)

E para selar sua boa vontade, deu-lhe de presente cinco guinéus. O jovem ficou atrapalhado, mas finalmente aceitou a oferta.

No dia 20 de junho de 1736 foi ordenado por aquele bispo. Na semana seguinte recebeu seu título de Bacharel em Artes da Universidade de Oxford, e no domingo seguinte à sua ordenação, aquele que cinco anos havia sido o pobre servente de uma taberna, pregou na Igreja de Santa Maria de Crypt, precisamente localizada mui próxima daquela (da taverna de Gloucester). Enorme multidão foi ouvi-lo. Foi ordenado presbítero no dia 14 de janeiro de 1739 pelo mesmo bispo Benson.

A gente que o via passar pelas ruas chamava-Ihe "o rapaz pregador", e muitos, não só ao ouvir dizer que ele passava, saíam à porta para vê-Io. Jamais se havia visto na Inglaterra um jovem ministro crescer na estima do povo comum como conseguiu Whitefield. O segredo estava em que falava ao coração dos humildes, conhecedor que era da natureza de sua miséria espiritual e da magnitude da graça divina.

Não podemos acompanhá-lo nos três primeiros anos de seu ministério na Inglaterra, por causa do limitado espaço destes estudos. Estranho como pudesse parecer, repentinamente o jovem Whitefield sentiu forte inclinação por abandonar a terra natal e ir também como missionário para a Geórgia, a colônia inglesa na América do Norte. Seus amigos não puderam compreender a razão desse abandono e fizeram todo o possível para detê-lo, mas ele se fez surdo a todas as ofertas e rogos que lhe faziam. Com dificuldade despediu-se de seus grandes auditórios e admiradores, especialmente daqueles que haviam assistido a seus primeiros triunfos oratórios em Gloucester e Bristol. Ele mesmo refere ao que se passou com ele depois de haver pregado em Bristol o sermão de despedida:

"As multidões me seguiram até a casa chorando e no dia seguinte tive de entreter-me com elas desde as sete horas da manhã até à meia-noite, falando e dando conselhos espirituais às almas que haviam sido esquecidas." (7)

Pouco antes de partir para a América, Whitefield chegou a pregar até nove vezes por semana, e aos domingos de manhã. Mesmo antes de clarear o dia, podia-se ver a gente enchendo as ruas em direção à igreja. Sua popularidade havia crescido tanto que já não podia ir à igreja a pé; tinha de fazê-lo às ocultas, dentro de uma carruagem, para evitar os "hosanas da multidão".

A pesar de haver embarcado para a América no dia 30 de dezembro de 1737, não conseguiu sair das costas da Inglaterra antes do dia 2 de fevereiro de 1738. No dia anterior havia-se encontrado com João Wesley que voltara da Geórgia. Este tentou dissuadi-lo e quis convencê-lo de que não fosse às novas terras, já que sua experiência havia sido negativa, mas Whitefield, decidido a tudo, já havia cortado as amarras e não se deixou impressionar pelas palavras do amigo. Atingiu primeiramente Gibraltar e só em princípios de maio de 1738 chegou a terras americanas.

Não ficou muito tempo na América. Em princípios de dezembro de 1738 está novamente de volta a Londres. Apesar de ter acolhida favorável por parte do Arcebispo de Canterbury e de regressar do Novo Mundo com maior prestígio do que granjeara antes de partir da Inglaterra, verifica, ao voltar, que sua popularidade em Bristol havia declinado e que, pelo menos, cinco igrejas, nas quais costumava pregar antes, lhe fecharam as portas.

Essa oposição se foi acentuando tanto que a 17 de fevereiro de 1739 já o encontramos em Kingswood pregando pela primeira vez ao ar livre. Esse lugar ficava perto de Bristol. Ali, noutros tempos, havia bosques onde o rei se entretinha em caçadas, mas agora era quase descampado, pois se exploravam minas de carvão e era habitado por gente "desregrada e brutal", muito diferente do restante da população. Esse gesto de pregar ao ar livre levaria, pouco mais tarde, João e Carlos Wesley a seguir o mesmo curso. Desta maneira, Jorge Whitefield foi quem levou de novo o Evangelho à rua, à praça pública, fora dos recintos tidos como sagrados e próprios para a proclamação da Palavra.

De pé, sobre uma elevação de terra, proclamou nesse dia o Evangelho a cerca de duzentos mineiros, gente que vivia em completo abandono e num meio ambiente degradado e soez (ignorante, vulgar). Dessa ocasião registra em seu Diário:

"Bendito seja Deus, porque o gelo foi quebrado e agora tenho o campo aberto. Alguns podem censurar-me, mas acaso há motivo? Os púlpitos me são negados e os pobres mineiros estão a ponto de perecer por falta de conhecimento." (8)

Esse proceder chamou imediatamente a atenção do povo comum. Diz-se que quando pregou pela segunda vez, mais de duas mil pessoas estiveram presentes, e na terceira houve de quatro a cinco mil, crescendo a assistência, segundo dados estatísticos daqueles dias, até a dez, quatorze e vinte mil assistentes.

A gente (multidão) não se importava com os fortes raios solares, e guardava tão profundo silêncio que chegava a enchê-lo de "admiração santa". Para ouvi-lo, subiam até em árvores e cercas. Tão logo começava a falar, reinava silêncio que perdurava ao longo de toda a exposição, que comumente se estendia mais de uma hora. Logo se fez notar a influência de sua prédica na vida daqueles pobres miseráveis, que jaziam tão abandonados a sua desditosa condição, parecendo que até Deus os havia desprezado e olvidado. Ante a enormidade do trabalho e a impossibilidade de fazer frente a todas as demandas, mandou pedir a João Wesley que viesse em seu socorro. Wesley, a princípio, julgou estranho esse proceder, e seu espírito repelia a idéia de pregar dessa maneira, e em terreno não consagrado.

Até 2 de maio de 1739 não se aventurou a seguir nas pisadas de Whitefield, dizendo em seu Diário: "Submeti-me ao mais vil". Contudo, mais, tarde o fez, e mais de três mil pessoas escutaram seu primeiro sermão ao ar livre, baseado no texto: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres."

A sorte estava lançada, e desde aí o movimento metodista não respeitaria nenhuma trava, crítica, oposição ou prova. Estavam abertas as comportas, e qual rio caudaloso, o movimento se estenderia por toda a Inglaterra e além dos mares. A Jorge Whitefield devemos, pois, a inovação desta "irregularidade" que o levou a imitar nosso Mestre, que jamais escolheu "lugares sagrados" para pregar; antes falava do Reino onde a gente o buscasse com seus problemas e necessidades.

Esse ministério "irregular" de Jorge Whitefield transplantaria ao Novo Mundo. E ele converteu-se no evangelista por excelência, sem pousada certa, sem jamais ter congregação própria, não se envolvendo em questões denominacionais, desejando tão-somente aproximar os pecadores do trono de Deus.

Um dos testemunhos mais dignos de fé que nos ficam sobre a natureza e resultados da obra de evangelização de Whitefield acha-se na autobiografia de Benjamim Franklin, um dos próceres (homens importantes) da independência dos Estados Unidos, que diz:
"Em 1739 chegou da Irlanda entre nós o Rev. Sr. Whitefield, que se havia distinguido como pregador itinerante. A princípio lhe foi permitido pregar em algumas de nossas igrejas, mas o clero, desgostado com ele, recusou imediatamente ceder-lhe o púlpito, pelo que se viu obrigado a pregar ao ar livre. As multidões de todas as seitas (grupos religiosos, doutrinas) e denominações que iam ouvir seus sermões eram enormes, e era matéria de especulação para mim, que era um do grupo, observar a influência extraordinária de sua oratória sobre os ouvintes e o muito que o admiravam e respeitavam, a despeito do abuso que mui amiúde fazia deles ao assegurar-lhes que, por natureza, eram meio bestas e meio diabos. Era maravilhoso ver a mudança que se produzia tão prontamente nos hábitos de nossos habitantes. De um estado religiosamente indiferente e despreocupado, parecia agora como se todo o mundo se estivesse tornando religioso, de tal maneira que ninguém, ao entardecer, podia caminhar pela cidade sem ouvir cânticos de salmos em muitos lares e em cada rua." (9)

Nesse seu entusiasmo evangelizador, foi além de sua própria teologia. Contrariamente a João e Carlos Wesley, Whitefield acreditava na eleição divina: eleição que permite que alguns se salvem e outros se percam para "a glória de Deus". De forma que somente aqueles que Deus elegeu "desde a fundação do mundo" podiam salvar-se. Isto, naturalmente, partia de sua própria experiência religiosa. Como podia ele, um réprobo (condenado, mau) de tão perversa estirpe (raiz, origem), ter chegado a ser pregador tão poderoso da Palavra senão que Deus em sua maravilhosa providência o houvesse eleito para isso? Certamente, por sua própria vontade, jamais teria chegado a ser o que foi. Só a graça imerecida de Deus o salvou e arrebatou, literalmente falando, de um dos círculos mais infernais da terra. Teoricamente, pregava àqueles que haviam sido eleitos que despertassem para a realidade de sua eleição e não menosprezassem, em sua ignorância, a graça divina que os distinguira com seu favor. Sem embargo, não era mui conseqüente com sua teologia e pregava como se todos houvessem sido eleitos para a salvação.

Essa diferença teológica o distanciou por algum tempo dos Wesley, distância que se produziu principalmente pela publicação de um sermão de João Wesley sobre a "Livre Graça" e a réplica que a ele havia feito Whitefield numa carta, publicada sem seu conhecimento, mas que foi causa para que em 1741 se acirrassem os ânimos e se suscitasse acre (áspera) controvérsia entre os amigos e camaradas. Apesar de tudo isso, a separação não duraria permanentemente, embora fosse causa principal de primeira divisão no movimento. Quando, em 1770, a Inglaterra soube da morte de Whitefield, pois morreu nas colônias inglesas da América, João Wesley pregou um sermão em sua memória, fazendo comovedora e encomiástica (elogiosa, louvável) apologia (defesa) de seu antigo camarada.

Apesar de seu grande talento ser o de pregador evangelista, um dos principais interesses do ministério de Whitefield se concretizou no estabelecimento dum orfanato que fundou ao começar sua obra na América, em Savannah, na Geórgia, e ao qual pos o nome de "Bethesda". Essa empresa (empreendimento) lhe custou muito trabalho, afã (cuidado, diligência), viagens, desgostos e controvérsias. Nunca se soube precisamente quantos meninos e jovenzinhos se beneficiaram com essa instituição, por cuja existência lutou nobremente até quase ao fim da vida, e cujo estabelecimento e sustento foi em grande parte devido a sua oratória.

Benjamim Franklin, que era amigo de Whitefield, sem por isso participar de seus sentimentos religiosos, pois se intitulava "livre pensador", publicou muitos de seus escritos e o ajudou em outras empresas (empreendimentos). Entretanto não estava de acordo com Whitefield em que se abrisse aquele orfanato na Geórgia, por ali faltarem materiais e obreiros para levar a cabo um plano de tão alto vôo, como o que o evangelista projetava. Whitefield teimou em abri-lo na Geórgia, e por isso Franklin lhe negou apoio. Mas quando Whitefield realizou na Filadélfia, cidade onde vivia Franklin, uma assembléia a fim de levantar dinheiro para aquela instituição, este resolveu ir ouvi-lo, mas com a determinação de não contribuir nem com um centavo para a empresa. O que aconteceu nessa reunião, Franklin o descreve assim:

"Eu tinha no bolso um punhado de moedas de cobre, três ou quatro dólares de prata e cinco dobrões de ouro. Enquanto ele prosseguia, comecei a abrandar-me e resolvi dar as moedas de cobre. Outro golpe de sua oratória me envergonhou dessa resolução e determinei, então, dar-lhe as de prata. E terminou tão admiravelmente que esvaziei inteiramente meu bolso na salva de ofertas com ouro e tudo. Ouvindo esse sermão estava também um senhor de nosso Clube, que tendo o mesmo parecer que eu quanto ao edifício de Geórgia, e suspeitando que se levantaria oferta, tomou a precaução de esvaziar os bolsos antes de sair de casa. Lá pela conclusão do discurso, sem dúvida, sentiu forte desejo de dar, e solicitou a um vizinho, que estava perto, que lhe emprestasse algum dinheiro para a oferta. Infelizmente o pedido foi 'feito talvez à única pessoa no grupo que teve a firmeza de não se deixar afetar pelo pregador. Sua resposta foi: "Em qualquer outra ocasião, amigo, eu te emprestaria liberalmente, mas não agora, pois me parece que estás fora de juízo." (10)

Por muitos anos Whitefield, fiel às suas idéias ascéticas, pensou em não se casar, mas finalmente resolveu fazê-lo. Mais por um senso prático da vida que por sentimentalismo. Nesse sentido orou para que Deus lhe concedesse uma esposa que lhe permitisse viver como se não a tivesse. Diz um biógrafo seu que certamente essa oração foi ouvida, pois a que veio a ser sua esposa pouco interferiu em seu trabalho, mas quando ela faleceu, confessou que sua morte lhe havia deixado a "mente em muita liberdade".

Sua vida matrimonial não se distinguiu, portanto, por alguma demonstração de profundo afeto, mas viveu em boa harmonia com a esposa. Casou-se no dia 14 de janeiro de 1741 com Elizabeth James, viúva que devia contar então seus 34 anos de idade. Dela teve um filho que morreu aos quatro meses depois de nascer, e não lhe nasceram outros.

Esteve casado vinte e sete anos, falecendo a senhora Whitefield no dia 9 de agosto de 1768, dois anos antes dele. João Wesley escreveu em suas memórias que era mulher cheia de "candura e humanitária". Vários testemunhos afiançam que ela foi esposa consagrada e cônscia de seus deveres, embora o marido, por sua itinerância, tivesse de deixá-la longo tempo sozinha em casa, tanto na Inglaterra como na América, pois ela não era muito dada a viajar.

Apesar de seus grandes esforços evangelizantes, quase sem precedentes, e de sua devoção em favor dos órfãos, além de outras empresas menores, sua obra não alcançou a transcendência que teve pessoalmente, e nem a obra que levaram a termo João e Carlos Wesley. Faltava-lhe gênio organizador, equilibrada calma e paciência para receber conselhos, visto como tinha a convicção de que para, todas as coisas receberia a direção de Deus, portanto, tudo devia ter uma solução feliz.

Sem embargo, sempre será lembrado na história da Igreja Cristã como um dos raros prodígios de oratória fulminante e quase demagógica. Pregava a tempo e fora de tempo, sem medida e sem preocupar-se com o esforço que isto exigia de seu físico, sempre enfermiço e sujeito a periódicos achaques. Calcula-se que num período de trinta e quatro anos, pregou dezoito mil sermões. Sua média semanal era de uns 10.

Na América assumiu o compromisso de viajar a cavalo num circuito de mil e quinhentas milhas (2.700 Km), para pregar incessantemente enquanto viajava. É incrível o que se conta acerca das multidões que se ajuntavam de todas as partes, quando corria a notícia de que ele se aproximava de alguma localidade. Vinham a pé, a cavalo, em carros, cruzando campos, vales e bosques, como que atraídos por uma força irresistível. E rara era a pessoa que o ouvia e não sentisse em si o desejo de arrepender-se de sua vida passada e aceitar a cruz salvadora de Cristo. Em certa ocasião, quando o médico o aconselhou a limitar suas pregações, escreveu em seu Diário: "Estou reduzido à curta ração de pregar somente uma vez por semana e duas vezes nos domingos".


Seu ministério foi repartido entre América e Grã-Bretanha. Cruzou o Atlântico treze vezes; seu itinerário na América compreendia desde o que é hoje o Estado de Geórgia até o Maine. Viajava para a Inglaterra, principalmente, a fim de levantar dinheiro para seu orfanato de Savannah e conservar vivas as relações na mãe-pátria. A América foi-lhe o campo predileto. De fato escreveu: "Agrada-me andar errante pelos bosques da América e muitas vezes penso que não devo mais voltar à Inglaterra".


E realmente não voltaria mais. Morreu no dia 30 de setembro de 1770, encontrando-se na época e apesar de seu precário estado de saúde, num giro evangelizante. É realmente impressionante o relato que temos de suas últimas horas de vida:

“Ele havia partido nesse mesmo dia para Newburyport, onde se esperava que ele pregasse no dia seguinte. Durante a hora da ceia, o pátio em frente à casa e mesmo a entrada encheram-se de gente que se empenhava em ouvir umas poucas palavras de seus lábios eloqüentes. Mas estava exausto e, levantando-se da mesa, disse a um dos clérigos que estavam com ele: “Irmão, diga a essa gente que eu não posso dizer-Ihes uma só palavra”. E tomando de uma vela apressou-se em ir a seu dormitório, mas antes de chegar lá parou; uma sugestão de seu coração generoso lhe dizia que não devia abandonar assim uma multidão ansiosa e faminta pelo pão da vida que anelava receber de suas mãos. Parou sobre os degraus para dirigir-lhes a palavra. Ele já havia pregado seu último sermão. Esta seria sua última exortação. Pareceria que algum estranho pensamento, algum vago pressentimento se houvesse apossado de sua alma com a apreensão triste de que esses momentos eram demasiados preciosos para que os usasse em seu descanso. Demorou-se na escada, enquanto a multidão o contemplava com olhos chorosos, como Eliseu ao contemplar o profeta Elias que ascendia ao céu. Sua voz, que talvez jamais vibrasse mais musical e emotiva, fluía incessantemente até que a vela que levantara em sua mão, consumiu-se totalmente. Na manhã seguinte ele já não era: Deus o havia tomado para si". (11)


Morreu de um ataque de asma. Cumpriu-se, assim, o desejo que expressara em certa ocasião, quando um companheiro lhe recomendou não se excedesse em suas atividades e não pregasse tão amiúde como o fazia: "Quero consumir-me antes de enferrujar-me".

Assim terminou a vida daquele que fora o verbo mágico e eletrizante do metodismo calvinista. Em sua época, nenhum outro pregador teve a distinção de viajar tanto quanto ele o fizera, e de pregar com tanta veemência e constância num circuito tão vasto e cheio de inumeráveis tropeços e imprevistos.

NOTAS:
1) Gorge Whitefield, "A Shart Aceaunt of God's Dealing with the Rev. Mr. George WhitefieId" (London 1740).
(2) Idem
(3) Stevens, A., Op. Cit. Vol I,
(4)
(5)
( 6) Citado por Stuart, C.H., “Geoge Whitefield”.
(7) Diário, Vol. I.
(8) Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol I
(9) Harvard Classics, Vol I
(10) Harvard Classics, Vol I
(11) Stevens, A., Vol I, Op. Cit.


(*) Texto extraído do capítulo V do livro "Extranha Estirpe de Audazes", escrito pelo saudoso Bispo Sante Uberto Barbieri.

O livro pode ser lido integralmente nesse site. O endereço do livro no site é http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=47

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.