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Rio, 7/4/2007
 

Ano sabático e ano do Jubileu: tempo de libertação para o oprimido (Rev. Odilon Chaves)

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ANO SABÁTICO E ANO JUBILEU: TEMPO DE LIBERTAÇÃO PARA O OPRIMIDO (*)

Rev. Odilon Massolar Chaves


Todos nós sabemos da escravidão que houve no Egito. Sabemos que Deus viu a aflição do Seu povo e desceu para livrá-lo das mãos dos seus opressores, através de Moisés, para levá-lo para a terra prometida (Ex 3.7-8). Contudo, com o passar dos tempos, os próprios componentes do povo de Deus passaram a escravizar aos seus irmãos.

Para resolver este grave ato contra o próximo, foi instituído o "ano sabático" (Ex 23.10-12; Ex 21:2-6). Era o ano do perdão, da restituição. Ao fim de cada sete anos, o credor restituiria o que havia emprestado ao próximo (Dt 15.1-2), para que não houvesse pobres (Dt 15.4). Ainda por cima, emprestaria a seu irmão hebreu o quanto bastasse para a sua necessidade (Dt 15.7-8).

O "ano sabático" instituía ainda que no sétimo ano fosse libertado o hebreu ou hebréia que havia sido comprado (Dt 15.12), fornecendo-lhe do rebanho, eira e lagar (Dt 15.14).

Ninguém deveria oprimir ao jornaleiro pobre e necessitado (Dt 24.14). Os direitos do estrangeiro, do órfão e da viúva deveriam ser respeitados (Dt 24.17).

Todas estas leis deveriam ser ouvidas pelo povo de sete em sete anos, no ano da restituição, na Festa dos Tabernáculos, para que todos aprendessem e temessem a Deus (Dt 31.10-13). O "ano sabático" tinha como princípio que, assim como Deus havia libertado o povo no Egito, o povo de Deus também deveria libertar os escravos (Dt 15.15; Dt 24.18). Era uma forma de eliminar a opressão e escravidão que os senhores faziam com aqueles que haviam se tornado escravos, devido a alguma dívida (cf. II Rs 4.1). Era uma forma de eliminar a pobreza em Israel (Lv 23.22; Dt 14.28-29; Ex 22.24).

O livro de Levítico amplia esta idéia social, com a finalidade de restituir os direitos e fazer justiça aos oprimidos. É instituído que de cinqüenta em cinqüenta anos se celebre o "ano jubilar", ou seja, no 50° ano seria proclamada liberdade na terra a todos os seus moradores. Cada um voltaria a ter a sua casa e terra de volta (Lv 25.10).

O "ano do jubileu" determinava ainda que não se vendesse a terra eternamente, pois a terra é de Deus (Lv 25.23). Se alguém ficasse pobre, este não se tornaria escravo e sim seria tratado como um jornaleiro e peregrino até o jubileu (Lv 25.39-40).

Este ideal, porém, jamais foi cumprido plenamente. O povo, então, lançou a sua esperança para um enviado de Deus, a fim de que ele trouxesse um Reino onde todos tivessem liberdade e terra para morar e cultivar. Um Reino onde vivessem em dignidade, justiça, paz.

Como surgiu a ênfase no Reino de Deus e no Messias? Foi a partir da instituição do rei em Israel que veio todo o conceito e ênfase no Messias e no Reino de Deus.

O que significa "Messias"?

A palavra Messias "corresponde ao vocábulo hebreu “mesiah”, que significa "ungido", traduzido pelos gregos por Cristo (Christus, em latim). Etimologicamente as palavras "Messias", "Cristo" e "ungido" têm exatamente o mesmo sentido: elas se aplicam a um ser marcado por uma unção." (1)


AS TRÊS CRENÇAS SOBRE A VINDA DO MESSIAS
A realeza messiânica teve origem três séculos após o êxodo. O povo estava insatisfeito com a organização existente em Israel; que era baseada no clã: um conjunto de famílias sob a liderança de um chefe comum. Um conjunto de clãs formava uma tribo. As tribos, porém, não tinham um chefe comum. Havia apenas os juízes (exemplo: Sansão, Débora, Gideão, etc.), que eram líderes carismáticos e que surgiam apenas para liderar e comandar o país em momentos difíceis.

O povo queria algo mais sólido, mais permanente. Apesar de ser contra, Samuel cedeu às pressões e Saul foi ungido o primeiro rei. Ele, porém, foi uma decepção, por isso, foi destituído (1Sm 13.13-14).

Davi, sim, encarnaria a esperança messiânica perfeitamente. Graças a ele, o império de Israel começou a estender-se a outros povos (2Sm 8.6-14). Ele transformou Jerusalém e encarnou os sofrimentos, dores e esperanças dos menos favorecidos.

Como Davi, porém não era eterno, o profeta Natan profetiza que a sua descendência permaneceria para sempre, através de um descendente, que estabeleceria o Reino (2Sm 7.11-12; Is 9.6-7).

Com o passar dos séculos, vários acontecimentos provocaram a mudança de crença, em relação ao Messias e ao Reino. Estes acontecimentos foram: a irregular administração dos sucessores de Davi, a divisão do reino (922 a.C.), a queda de Samaria (722 a.C.), a queda de Jerusalém (597 a.C.) e o exílio e a queda da realeza (586-538 a.C.). Assim, quando Israel estava sem algum rei, surgiu a profecia sobre o Filho do Homem. Ele viria do céu (Dn 7.13), enviado por Deus, mas assumiria as necessidades e esperanças do povo. O seu Reino jamais teria fim (Dn 7.14),

Por volta do ano 586 a.C., o povo de Deus foi levado cativo para a Babilônia (Sl 137). Neste período, o profeta Isaías escreve sobre o Servo. Ele promulgaria o direito para os gentios (Is 42.1-3); seria o mediador da Aliança com o povo (Is 42.6) e luz para os gentios (Is 42.6). Ele abriria os olhos ao cego (Is 42.7) e tiraria da prisão o cativo (Is 42.7). Ele restauraria a terra e repartiria as grandes terras rústicas (Is 49.8). Ele seria também dado como oferta pelo pecado (Is 53.10), etc.

Esta é a salvação ampla que o Servo traria ao povo. Uma salvação social e espiritual (Is 49.6; Is 61.10), Sim, a vinda do Servo transformaria a tristeza em alegria (Is 61.3); a angústia em louvor (Is 61.3); a vergonha em honra (Is 61.7). Ele edificaria e restituiria o que havia sido destruído (Is 61.4). Na terra, tudo se possuiria em dobro (Is 61.7), etc.

João Batista, quando iniciou a sua pregação, citou Isaías 40.3 (cf. Lc 3.4-6). Jesus definiu a sua missão citando Isaías 61.1-2 (cf. Lc 4.16-19). Sim, o Messias instauraria o "ano sabático da graça" e o "ano do jubileu".

Quando Jesus veio, estas três crenças estavam presentes na vida do povo e de Jesus: "Jesus, filho de Davi" (Mt 12.23; Mt 21.9); "O Filho do Homem" (Mt 8.20; Mc 8.38; Lc 17.24) e o "Servo sofredor" (Lc 12.43; Lc 17.10).

Jesus se identificaria mais com a figura do Servo e com a figura do Filho do Homem. A figura de Davi, apesar de ser importante, limitava-se muito mais à libertação nacionalista de Israel, enquanto o Reino que Jesus veio trazer era para a libertação de todos os povos (cf. Is 49.6).


O NASCIMENTO DO LIBERTADOR
DOS OPRIMIDOS
Quando Jesus estava para vir ao mundo, o povo na Palestina vivia oprimido. Era oprimido pela lei judaica, pelos senhores, pelos demônios, pelas enfermidades, pelo pecado e pelos romanos.

Para termos uma idéia, dos vinte e cinco mil habitantes de Jerusalém, cerca de quinze mil eram pobres carentes, cinco mil eram mendicantes e apenas dois mil detinham os frutos da renda e privilégios. Cerca de 75% dos rendimentos dos produtos agrícolas eram transferidos às elites na forma de imposto e taxas.

O povo vivia sem muito sentido de vida. Uma esperança, porém, estava em seu coração: a vinda do Messias para inaugurar o Reino:
"Como o povo estivesse na expectativa e todos cogitassem em seus corações se João não seria o Messias."
(Lc 3.15)

Sim, o povo estava em expectativa, estava esperançoso. No nascimento de Jesus, vemos alguns relatos bíblicos que mostram esta fé, esta esperança do povo oprimido. No evangelho de Mateus está registrado:

"Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo
profeta: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: Deus está conosco!"
(Mt 1.21-23)

"Jesus significa literalmente 'Deus salva', 'Deus liberta’. Por isso, o Natal, nascimento do Salvador, é festa de libertação tanto como a Páscoa da ressurreição. A palavra ‘salva' em hebraico significa 'ter espaço', 'dispor de lugar’, 'estar em amplitude', ‘desenvolver-se sem impedimento', ‘gozar de liberdade', ou seja, libertar." (2)

Aliás, o livro de Mateus vê Jesus semelhante a Moisés. Assim como o Faraó determinou a matança das crianças (Ex 1.22), assim também Herodes determinou a matança das crianças (Mt 2.16-18). Assim como Moisés foi ao Egito libertar o povo (Ex 4.18-20), assim também Jesus foi e voltou do Egito para libertar os oprimidos (Mt 2.19-23). Assim como Moisés do monte Sinai deu a lei para o povo (Ex 19.20-25), assim também Jesus deu a nova lei de Deus no monte (Mt 5.1s).

O Evangelho de Lucas fala do Reino que Jesus veio estabelecer:
"Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, ele reinará na casa de Jacó para sempre e o seu reinado não terá fim."
(Lc 1.31-33)

MARIA E ZACARIAS REAFIRMAM A MISSÃO
LIBERTADORA DE JESUS

No cântico de Maria, a mãe de Jesus, está registrada a esperança dos pobres, dos oprimidos, dos humildes:
"Agiu com a força de seu braço, dispensou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens e famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia."
(Lc 1.51-54)

Maria aqui não fala só de belas coisas como "estrela", "anjo" etc. Fala de questões fundamentais para a vida do povo: deposição dos que governam mal; dar alimentação e bens aos famintos e tirar do rico o que ele tem demais. Seria para isto que Jesus viria, segundo o cântico de Maria. No nascimento de Jesus, o anjo foi anunciar a Boa Nova aos pastores. Isto não ocorreu sem motivo. Os pastores representavam a classe dos menos favorecidos:
"Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será dada a todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador que o Cristo-Senhor, na cidade de Davi."
(Lc 2.10-11)

A salvação aqui anunciada não deve ser entendida só no sentido "espiritual". No cântico de Maria, vimos que a salvação traria uma libertação ampla. O povo seria salvo social e espiritualmente. Deus não estaria indiferente ao sofrimento social do povo, como ele não foi no Egito.

Zacarias, profetizando sobre João Batista, o precursor de Jesus, mostrou o caráter desta salvação de Jesus, ao dizer:
"Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo, e suscitou-nos uma força de salvação na casa de Davi, seu servo, como prometera desde tempos remotos pela boca de seus santos profetas."
(Lc 1.68-70)

A seguir, Zacarias fala de uma salvação que está relacionada com a libertação do povo:
"Salvação que nos liberta dos nossos inimigos e da mão de todos as que nos odeiam."
(Lc 1.71)

Sim, o povo necessitava de uma salvação ampla. Deus não poderia ficar indiferente à situação do seu povo. Assim como Ele ouviu o clamor do povo no Egito e o libertou, através do Moisés, agora Deus enviava Jesus, o novo Moisés, para fazer uma libertação mais ampla ainda. A salvação que Jesus veio trazer foi para o presente e o futuro. Foi social e espiritual.

Veremos a seguir, Jesus definindo a sua Missão. Veremos a prática de Jesus, através de uma Evangelização libertadora.

Citações:
(1) FEUILET, R., Introdução à Bíblia, SP, Editora Herder, 1968, p. 38.
(2) ARIAS, M., Salvação Hoje, RI, Editora Vozes/Tempo e Presença, 1974, p. 35.


(*) Texto extraído do Capítulo 1 do livro "A Evangelização Libertadora de Jesus", escrito pelo Rev. Odilon Massolar Chaves e publicado pela Imprensa Metodista em 1985. Esse livro pode ser lido e copiado integral e gratuitamente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel (http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=1)

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