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Rio, 7/4/2007
 

Jesus e a Boa Nova do Reino de Deus (Rev. Odilon Massolar Chaves)

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JESUS E A BOA NOVA DO REINO (*)

Rev. Odilon Massolar Chaves


A partir das promessas do "ano sabático", do "ano do jubileu" e do reinado de Davi, Jesus ao vir ao mundo estava concretizando as promessas e esperanças do povo no Antigo e Novo Testamento, assumindo a figura do Servo e do Filho do Homem.


O EVANGELHO LIBERTADOR
Jesus definiu a sua missão citando o texto de Isaías 61, 1-2, que fala do Messias:
"O Espírito do Senhor esta sobre mim, porque de me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar o ano de grata do Senhor."
(Lc 4.18-19)


Jesus aqui fala de "pobres", "presos", "cegos", "liberdade", "oprimidos". Sim seu evangelho, sua Evangelização seria ampla, seria libertadora.

O texto e a missão de Jesus não podem ser entendidos só no sentido "espiritual", como se o nosso Deus se preocupasse somente com o interior do ser humano. O Salmo 146, que esta muito de acordo com o texto de Lucas, mostra um Deus preocupado principalmente com os necessitados:
"O Senhor faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor liberta as encarcerados. O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos. O Senhor guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva."
(Sl 146.7-9)

Sim, estes esperavam a consolação de Israel (Lc 2.25). Esperavam "a vingança do Senhor (Sl 58.10) e a justiça que sabem poder vir apenas de Deus (Sl 40.10; Sl 109.31; Sl 69.33)." (1)

Esta justiça, que é a marca principal do Reino de Deus, não significa só uma justa distribuição, dando a cada um o que lhe pertence, Significa muito mais na Bíblia. "Significa também compaixão, fidelidade, bondade, ajuda, amor e todo o necessário para levar o outro à sua devida integridade." (2) Jesus veio concretizar o "ano sabático" e o "ano do jubileu" na vida do povo sofrido que esperava em Deus. Isto é tornar realidade o Reino do Deus. É fazer justiça, que leva o ser humano) a recuperar a imagem de Deus, vivendo em plenitude.

As bem-aventuranças devem ser entendidas dentro deste contexto. Sim, Jesus anuncia que os que têm tome serão fartos (Lc 6.21); os que choram, devido a sua situação, irão rir depois (Lc 6.20-21; Mt 5.5) e os mansos herdarão a terra que lhe foi tirada, devido a alguma dívida ou opressão (Mt 5.4). Sim, os que querem justiça serão fartos (Mt 5.6).

O "ano do jubileu" prometeu:
"Neste ano do jubileu tornareis cada um à sua possessão."
(Lv 25.13)

Sim, os mansos possuirão a terra!

Mas "manso" não significa uma pessoa pacata, quieta. Os mansos que herdarão a terra são aqueles que foram destituídos dela e que fazem parte do remanescente fiel de Javé. São os "añaw". O Salmo 37, nos versículos 9, 10, 11, 22, 28, 29 e 34, deixa claro isto, quando diz:
"Porque os rnalfeitores serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra...
Mais um pouco de tempo e já não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar, e não a acharás. Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz...
Aqueles a quem o Senhor abençoa possuirão a terra; e serão exterminados aqueles a quem amaldiçoa.
A descendência dos ímpios será exterminada. Os justos herdarão a terra...
Espera no Senhor, segue o seu caminho, e ele te exaltará para possuíres a terra...”

Este Salmo coloca o Ímpio em oposição ao "manso". Ímpio é o incrédulo, o sem fé. "Manso", ao contrário, é aquele que confia no Senhor, aquele que espera no Senhor.

Por isso, este Salmo coloca "os que esperam no Senhor", "os justos", como aqueles que possuirão a terra.

Estas promessas de Jesus mostram que o Evangelho que Jesus veio trazer é um evangelho que se preocupa com a situação total do ser humano. Sim, Jesus veio trazer e tornar realidade o Reino, que "significa para os ouvintes de Jesus a realização de uma esperança, no final do mundo, da superação de todas as alienações humanas, da destruição de todo o mal seja físico, seja moral, do pecado, do ódio, da divisão, da dor e da morte. O Reino de Deus seria a manifestação da soberania e senhorio de Deus sobre esse mundo sinistro, dominado por forças satânicas em luta contra as forças do bem." (3)

O REI E O REINO DE DEUS
Jesus é o Rei deste Reino, desta Boa Nova! Ele é o Messias, o Cristo! A função principal de um rei é a de assegurar aos súditos o cumprimento da justiça. O rei é quem deve estabelecer o equilíbrio, deve ser o defensor dos que não podem defender-se; é o protetor dos pobres, viúvas, órfãos, oprimidos. Ele deve garantir aos fracos os seus direitos perante os poderosos; deve reprimir o rico que prejudica os direitos do povo, enfim, deve propor leis que acabem com a pobreza e a exploração.

O povo viu em Jesus este Rei:
"Bendito o rei que vem em nome do Senhor."
(Lc 19.37-38)

Aos "fiéis de Javé”, Jesus declara que o Pai agradou em lhes dar o Reino (Lc 12.32).

O Rei Jesus procurou trazer um Reino onde impere a justiça, a fraternidade, a igualdade, o amor e a paz. O Reino de Deus traz o estabelecimento da justiça no mundo, por isso, Jesus diz que os pobres são bem-aventurados (Mt 5.3; Lc 6.20). Eles esperavam ansiosamente esta Boa Nova que é o começo de novos tempos.

O Reino de Deus não deve ser entendido como algo futuro somente. E algo que começa aqui na terra. Jesus, ao criticar aos fariseus, mostrou que o Reino é algo para o agora, no qual se pode entrar nele, no momento presente:
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais o Reino dos Céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando."
(Mt 23.13)

Mateus, como um bom judeu, evita falar o nome de Deus, daí falar em Reino dos Céus, em vez de Reino de Deus, como Lucas fala. Os dois, porém, têm o mesmo significado.

O Reino não deve ser entendido também só no sentido "espiritual" e sim também material, Jesus deixa claro isto:
"Não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhas ou terras por minha causa ou por causa do evangelho, sem que receba cem vezes mais: agora, neste tempo, casas, irmãos, mãe, filhos e terras, com perseguições; e no futuro, a vida eterna.”
(Mc 10.28-30)

Evangelizar, portanto, segundo Jesus, é o ato de anunciar e tornar real o Reino de justiça e paz na vida das pessoas e no mundo. Jesus é o Messias, o Rei que veio instalar seu Reino aqui na terra. Assim, não se pode falar em evangelização, sem que o Reino de Deus esteja presente.

COMO É O REI DESTE REINO?
Pelas palavras e atos de Jesus, podemos perceber que ele se identificou muito com a figura do Filho do Homem (Lc 19.10) e do Servo (Mt 20.28). Isto significa que, apesar de ser divino, Jesus fez questão de ser igual a um de nós. Ele, por exemplo, sentiu a ingratidão dos nove leprosos que não voltaram para agradecer (Lc 17.11-19); ele ficou triste com a cegueira espiritual dos fariseus (Mc 3.5), mas se alegrou com os apóstolos (Lc 22.35).

Jesus se preocupou em falar a linguagem simples da vida da gente simples para assim poder explicar as coisas relacionadas com o Reino de Deus: cachorro e porcos (Mt 7.6); travesseiro (Mt 8.21); salário e operários (Mt 20.2), etc.

Jesus se relacionava muito bem com o povo e tinha grande popularidade (Mc 12.12), embora ele evitasse a popularidade e procurasse fazer seu trabalho sem ser percebido. Jesus vivia uma vida liberta dos preconceitos e tabus da época: reunia-se com os amigos para festejar (Lc 15.6); disse que os últimos seriam os primeiros (Mc 10.31); acolheu guerrilheiros (Mt 10.4), publicanos e mulheres em seu grupo de discípulos. Ele disse que a impureza vem de dentro do coração e não de fora da pessoa (Mc 7.19-22). Ele colocou a natureza em superioridade às realizações humanas (Lc 12.27). Ele acolheu pecadores (Lc 15.2) e deu atenção à mulher que se envergonhava de sua menstruação (Mc 5.21-34).

Jesus tinha grande preocupação social. Ele distribuiu alimento à população faminta (Mt 14.16-21) e se preocupou com a saúde do povo (Mt 14.14).

Jesus não era alguém de fazer "média" com ninguém. Ele criticou aqueles que usavam finas roupas (Lc 20.46; cf. Mt 3.4); repreendeu aos discípulos que queriam impedir alguém de anunciar o Evangelho (Mc 9.38-40). Ele não pegou em armas, mas se opôs ao governo (Lc 13.32) e líderes judeus (Mt 23.13). Sim, Jesus rejeitou os "rótulos" que foram arranjados para ele (Mt 22.41-46). Jesus pertencia à classe operária, pois era carpinteiro, como seu pai (Mt 13.55). Ele conhecia as coisas simples da vida e estava consciente de suas realidades e necessidades. Ele se alegrou com o nascimento da criança (Jo 16.21); conhecia a vida do campo (Lc 12.16-21); conhecia como se fabricava o pão (Mt 13.33); conhecia a vida do camponês (Mc 4.3), etc.

Este é o Jesus, o Rei que veio inaugurar o Reino de Deus!


Citações:
(1) ALLMEN, J. Von, Vocabulário Bíblico, SP, ASTE, Imprensa Metodista, 1972, p. 330.
(2) GONZALEZ, A. e outros, Profetas Verdadeiros, Profetas Falsos, Salamanca, Edições Sigueme, 1976, p. 93.
(3) BOFF, L., Jesus Cristo Libertador, RJ, Editora Vozes, 1974, p. 65.


A COMUNICAÇÃO DA BOA NOVA LIBERTADORA

A PREGAÇÃO DA BOA NOVA

Com a vinda de Jesus ao mundo, trazendo a Boa Nova do Reino de Deus para o povo oprimido, era necessário anunciar a sua chegada, para que todos soubessem dos novos tempos que começavam.

Uma das formas utilizadas foi a pregação do Evangelho. João Batista foi quem primeiro anunciou o Reino. Com ele e com Jesus (Mc 1.15), a pregação foi utilizada com o objetivo de levar à conversão:
"Convertei-vos, porque o Reino dos céus está perto."
(Mt 3.2)

O anúncio da Boa Nova, porém, não estava só relacionado à conversão. Era também para anunciar aos pobres (Lc 6.20; Mt 11.5), àqueles que esperavam a justiça vinda de Deus, e que confiavam nas suas promessas, que o Reino já estava chegando para por fim a todo mal, restabelecendo a justiça, a fraternidade, a paz.

Jesus anunciou a Boa Nova (Mt 4.17). Ele saía por todas as cidades e aldeias anunciando a Boa Nova do Reino (Lc 8.1; 4.43-44). Ele não anunciava a si mesmo e sim o Reino de Deus.

Esta missão foi também confiada aos discípulos, pois todos deveriam saber que Deus vem libertar o Seu povo de tudo que o escravizava. Neste sentido, também haveria uma conversão: a mudança de um estado opressor para um estado onde haveria a justiça, fraternidade e paz.

Jesus constituiu doze apóstolos para que ficassem com Ele, pregassem e expulsassem demônios (Mc 3.14-15; cf. Mc 16.15). A missão primeira seria:
"Proclamai que o Reino de Deus está próximo."
(Mt 10.7)

A proclamação do Evangelho era necessária para que o povo soubesse que o Reino estava à disposição de todos aqueles que esperavam pelas promessas de Deus e que viviam oprimidos de toda sorte. Jesus utilizava a pregação como elemento fundamental, mas não a enfatizava isolada. A pregação estava integrada de uma outra parte fundamental do Evangelho — a cura:
"Indo de aldeia em aldeia, anunciando a Boa Nova e operando curas por toda a parte."
(Lc 9.6)

A pregação estava integrada igualmente com outra parte da Boa Nova; a educação:
"Partiu dali para ensinar e pregar nas cidades."
(Mt 11.1)

Vemos assim que a Boa Nova era transmitida e concretizada de forma integral. Jesus usava a pregação também para denunciar os atos contrários ao Reino de Deus. Era uma denúncia da situação reinante em Israel:
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens; pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem fazê-lo."
(Mt 23.13)

Assim, Jesus utilizou a pregação para a conversão, para anunciar a chegada do Reino e para denunciar as injustiças em Israel.


O ENSINO DA BOA NOVA
Em seu ministério Jesus utilizou muito mais o ensino do que a pregação. Vemos isto através de vários fatos e relatos nos sinóticos:
"Aconteceu que, certo dia, enquanto ensinava o povo no templo, anunciando a Boa Nova..."
(Lc 20.1)

No Sermão da Montanha, Jesus procurou ensinar aos discípulos sobre a realidade do Reino:
"Vendo ele as multidões, subiu ao monte. Ao sentar-se, aproximando-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os, ensinava."
(Mt 5.1-3)

Mas foi através das parábolas que Jesus ensinou mais sobre a realidade do Reino (cf. Mc 4.2). A parábola era um meio que Jesus utilizava pare ensinar sobre o Reino:
"Ouvi, portanto, a parábola do semeador. Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não entende..."
(Mt 13.18-19)

As parábolas do grão de mostarda (Mt 13.31); do fermento (Mt 13.33); do tesouro escondido (Mt 13.44): da rede (Mt 13.47) e outras parábolas falam e ensinam sobre o Reino de Deus.

A educação através das parábolas mostra que Jesus estava preocupado e desejoso que as pessoas refletissem e descobrissem por si próprias a realidade do Reino. Jesus não dava nada pronto. Jesus dava uma pista e o povo refletia até chegar à sua conclusão. Assim, o povo guardava mais facilmente os ensinamentos e dava mais valor àquilo que tinha aprendido.

Os apóstolos, que eram pessoas simples, gente do povo, também participavam da educação popular:
"Os apóstolos reuniram-se a Jesus e contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado."
(Mc 6.30)

O fato de Jesus utilizar a linguagem e fatos da vida do povo para ensinar; o fato de Jesus utilizar a própria gente do povo para participar da educação popular, mostra que Jesus não fazia uma educação elitista intelectual, desvinculada da realidade do povo.

O ensino não era algo à parte. Era parte de um todo do Evangelho. No final do evangelho de Mateus está registrada a preocupação de Jesus com a educação daqueles que se tornassem cristãos:
"...ensinando-os a guardar tudo quanto vos ordenei."
(Mt 28.20)

O ensino era para aqueles que não conheciam ainda a realidade do Reino e para aqueles que já haviam crido e precisavam conhecer melhor as implicações de pertencer ao Reino de Deus.

Jesus falava das coisas simples da gente simples. Ele falou de sal e fermento (Mt 5.13; 13.33); figo e uva (Mt 7.16); trigo (Mt 13.16; 13.7); casa varrida (Mt 12.44); lamparina (Mt 25.8), etc. Enquanto isto os fariseus chamavam o povo de maldito por não conhecer a lei (Jo 7.49). O povo se educa através de sua própria experiência, da sua própria prática do dia-a-dia. As palavras de Jesus mexiam com as consciências adormecidas pela ideologia dominante. O ensino de Jesus libertou a consciência oprimida do povo.


A CONCRETIZAÇÃO DA BOA NOVA LIBERTADORA
- A LIBERTAÇÃO DAQUILO QUE OPRIME O POVO -

Jesus teve a missão de libertar totalmente o ser humano, Ele definiu a sua missão assim:
"Proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação das vistas, para restituir a liberdade aos oprimidos... "
(Lc 4.18)

Um dos fatores que cooperavam para a opressão do povo era o demônio. Ele representava o oposto do Reino de Deus. Ele oprimia, escravizava, destruía as vidas humanas. Antes de Jesus chegar, o reino das trevas, o poder da morte, dominava, em parte, o mundo. Jesus veio anunciar a Boa Nova do Reino, o começo de uma Era nova, o começo dos novos tempos. Sim, o tempo da vitória do bem, do amor, da vida. Somente a pregação e o ensino não seriam suficientes para eliminar os poderes do mal. Era necessário algo concreto, por isso, Jesus disse:
"Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então, o Reino de Deus já chegou a vós."
(Mt 12.28)

Sim, o Reino não era só promessa. Com Jesus, ele se tornou realidade no mundo. Um Reino que não se vê, mas se percebe.

Jesus deu também esta missão e autoridade aos apóstolos:
"E constituiu doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios."
(Mc 3.14-15)

Os próprios demônios reconheciam que era chegado o Messias com o seu Reino. Eles, por isso, temiam grandemente:
"Ah! que queres conosco, Jesus nazareno? Vieste para arruinar-nos?Sei quem tu és, o Santo de Deus."
(Lc 4.34)

Ter poder e autoridade sobre os demônios significava a supremacia do Reino de Deus sobre o reino das trevas. Significava a vitória da vida sobre a morte. A expulsão de demônios não deve ser entendida também como algo à parte e sim dentro do contexto e concretização da Boa Nova do Evangelho. Jesus deixou isto claro, quando convocou os doze apóstolos e os enviou para expulsar demônios, curar doenças e proclamar o Reino de Deus (cf. Lc 9.1-2).

A expulsão de demônios é sinal concreto da instalação do Reino no mundo. Todos os tipos de demônios que existem hoje no mundo econômico, político, institucional, que trazem as mais diferentes opressões e morte, devem ser eliminados pelo Evangelho que liberta e traz vida.

Outra coisa que oprimia o povo era a lei judaica. Não que a lei fosse ruim em si mesma, mas sim porque ela era mal interpretada e mal empregada (cf. Mt 23,23-24). A lei havia se tornado um fim em si mesma, a ponto dos líderes judeus considerarem o povo maldito por não saber a lei (cf. Jo 7.49). Isto mostra que a religião mal usada ou as leis de um país mal elaboradas podem oprimir ao povo, em vez de libertá-lo ou ajudá-lo (cf. Lc 11.45 - 46).

Que fez Jesus diante da lei?

Jesus, acima de tudo, queria amar o ser humano e libertá-lo. A Boa Nova tinha esse objetivo. Assim, quando Jesus teve que libertar o ser humano, ele não viu o dia e nem a hora. Jesus passou por cima das tradições, inclusive, curou em dia de sábado. Na verdade, "o sábado era para ele uma coisa muito secundária; o mais importante era o homem" (1). O amor pelo próximo estava acima da lei. Era, na verdade, o cumprimento da lei. Portanto, a lei não poderia ser um obstáculo.

As tradições que prejudicavam a vida plena, não eram importantes para Jesus. Assim, ele libera a consciência dos discípulos e permite que eles colham espigas no sábado proibido (Mc 2.23-26). Ele cura os doentes no sábado (Lc 6. 6-10). Jesus passa por cima das "etiquetas" da sociedade da época (Mc 7.1-13); ele valoriza a profissão que era desprezada (Lc 19.1-10) e chega a dizer que, aqueles que são considerados os mais impuros e pecadores pela sociedade, entrarão mais facilmente no Reino (Mt 21.31), etc.

Sim, Jesus é liberto e liberta as pessoas das convenções sociais injustas e dos preconceitos.

Mas, e a libertação do império romano?

Jesus queria uma libertação mais ampla e que atingisse a todos os povos. Além disso, quem governava mesmo Israel era o Sinédrio, que era "uma espécie de senado" (2). O Sinédrio, que tinha sua polícia, podia prender, multar, castigar e expulsar do país. O Sinédrio era o guardião da lei e da tradição. Assim, quem realmente governava e oprimia o povo através de suas leis e tradições, era o Sinédrio e não os romanos, que apenas mantinham um procurador como seu representante em Israel. Ora, direta e indiretamente, Jesus criticou os componentes do Sinédrio Os escribas e fariseus (Mt 23.2-29). Jesus passou por cima da lei e das tradições (Mt 5.21-48), por esta razão, o Sinédrio condenou Jesus (Mt 26. 59-68). Sim, Jesus também se preocupou com aqueles que estavam no poder e oprimiam ao povo. Ele os criticou por colocarem pesados fardos sobre o povo (Lc 11.45-46). Ele os chamou de hipócritas (Mt 23.13-15). A Herodes, Jesus chamou de raposa (Lc 13.31-33).

Jesus queria libertar totalmente o povo daquilo que o escravizava. Apesar dele não ter levantado sua palavra contra o império romano, algo que deve nos levar a pensar é: por que ele teria chamado um zelote nacionalista que lutava contra a dominação romana para fazer parte de seu grupo de apóstolos (Lc 6.15)?

A SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS SOCIAIS
Jesus teve uma grande preocupação com a sorte do povo. A fome e as doenças eram sinais da manifestação da injustiça e da precariedade do atendimento e da situação do povo. Jesus por isso curou.

A cura era também um sinal dos novos tempos, do tempo da chegada do Messias ao mundo (cf. Is 53.4-6). Se as doenças traziam problemas às pessoas, não as deixando ter uma vida plena, era necessário que elas fossem extintas:
"E curou todos os que estavam enfermos, a fim de se cumprir a que foi dito pelo profeta Isaías: levou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças."
(Mt 8.16-17)

Jesus mostrou que a Boa Nova do Reino era algo real, que vencia o poder da morte. Sim, mostrou que devemos, acima de tudo, nos preocupar em solucionar os problemas que afetam ao povo sofredor e oprimido. Jesus disse para os discípulos fazerem o mesmo:
"Chamou os doze discípulos e deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda a sorte de males e enfermidades."
(Mt 10.1)

Com isso, Jesus mostrou à religião e sociedade da época que Deus quer é o bem integral do ser humano e não preocupações mesquinhas.

A cura das doenças serve para mostrar que o Evangelho de Jesus teve uma grande preocupação social. Era uma preocupação com a saúde do povo. Este Evangelho que se preocupa com a parte material também alimentou multidões famintas (Mc 6.35-44), mostrando que Jesus era sensível às necessidades do povo. Nas bem-aventuranças, ele disse:
"Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados."
(Lc 6.21)

Sim, "aquele que alimentou os cinco mil [...] estava claramente preocupado com os problemas de justiça econômica ."(3)

Quando João Batista quis saber se Jesus era o Messias, que traria o Reino, Jesus respondeu:
"Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres são evangelizados."
(Mt 11.5)

As curas fazem parte de um todo do Evangelho e só assim devem ser entendidas:
"Curai enfermos que nela houver e dizei ao povo: o Reino de Deus está próximo de vós."
(Lc 10.9)

Não podemos, pois, falar em evangelização, sem levar em conta os problemas sociais que afligem ao ser humano.


Citações:
(1) MESTERS, C., A Palavra de Deus na História dos Homens, RJ, Editora Vozes, 1973, p. 148.
(2) FEUILI.ET, R., op. cit., p. 59.
(3) WILLIAMS, C., Igreja: Onde Estás?, SP, Imprensa Metodista, 1968, p. 39.

(*) Texto extraído do Capítulo 1 do livro "A Evangelização Libertadora de Jesus", escrito pelo Rev. Odilon Massolar Chaves e publicado pela Imprensa Metodista em 1985. Esse livro pode ser lido e copiado integral e gratuitamente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel (http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=1)

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