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Rio, 7/4/2007
 

A Conversão e a Boa Nova Libertadora (Rev. Odilon Chaves)

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A CONVERSÃO E A BOA NOVA LIBERTADORA (*)

Rev. Odilon Massolar Chaves


O original grego "metanóia", usado nos sinóticos, significa: meia volta, mudança de rumo, abandono do caminho falso e um caminhar decidido no caminho certo, não significa "arrepender-se" ou fazer "penitência", como algumas traduções têm colocado. Significa sim, uma reviravolta interna, que tem conseqüência na ação do dia-a-dia (cf. Lc 3.8), isto é, o convertido deve mostrar os frutos de justiça, misericórdia e humildade diante de Deus.

A exigência de conversão é legítima e foi proclamada por Jesus:
"O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho."
(Mc 1.15)

OS DISCÍPULOS NO CAMINHO DA CONVERSÃO
O fato de estarem com Jesus, não significava que todos Os discípulos já fossem plenamente convertidos. Isto fica claro para nós, quando vemos que alguns discípulos viviam com preocupações que nada tinham a ver com os propósitos e valores do Reino de Deus. Certa vez, eles perguntaram a Jesus:
"Quem é o maior no Reino dos Céus?”
(Mt 18.1)

Isto mostra uma preocupação com grandeza, prestígio, poder.

Em outro texto, os discípulos impediram as crianças de chegarem até Jesus, mostrando que não entendiam ainda perfeitamente a Boa Nova do Reino de Deus (Lc 18.15), que da acesso a todas as pessoas. Jesus, por isso, deu uma grande lição nos discípulos e disse que eles deveriam mudar e se tornar como uma criança, que é simples, despretensiosa, confiante, para pertencer ao Reino (Lc 18.17) e ser o maior no Reino (Mt 18.4).

Na convocação dos discípulos, não há nenhuma exigência aparente de conversão, embora, ao deixarem ludo para seguir a Jesus, mostram indícios de conversão (Mc 1.16-17). Isto fica mais claro, pelas palavras de Jesus a Pedro:
"Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos.”
(Lc 22.32)

Certamente, o Pedro que nega a Jesus, o Tomé que duvida e o Judas que trai, ainda estavam no caminho da plena conversão. Jesus, contudo, foi duro com aqueles que ainda não tinham optado pelo Reino e os seus valores:
"Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo."
(Lc 13.3)

Por outro lado, nas parábolas da ovelha perdida e da dracma perdida, Jesus disse que há grande alegria no céu por um pecador que se converte (Lc 15.7; 15.10).


O RESPEITO À CULTURA DO CONVERTIDO
A cultura são os costumes, tradições, atitudes e modos de agir de um povo. É através dela que o povo expressa sua maneira de ser, sua maneira de viver, seus sentimentos.

Afinal, a conversão deve tirar o ser humano de sua cultura? Qual foi a posição de Jesus diante desta questão?

Percebe-se que Jesus não exigia que o convertido abandonasse os costumes e tradições, a não ser aqueles costumes e tradições que prejudicassem sua vida cristã. A preocupação principal de Jesus com o convertido, foi que ele praticasse a justiça, a misericórdia e andasse humildemente na presença de Deus (Mt 23.23; Mq 6.8; Mt 5.3; Mt 5.6; Mt 5.7). Em várias ocasiões, com os discípulos, Jesus deixou claro isto, em relação à prática da justiça:
"Com efeito, eu vos asseguro que se a vossa justiça não exceder a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.”
(Mt 5.20)

A justiça que Jesus exige é muito mais do que dar a cada um a que é seu. "O homem justo é o que defende a integridade do outro, se sente seu guardião, mantém para ele uma atitude que o afirma efetiva e afetivamente."(1)

Sobre a misericórdia, Jesus disse:
"Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso."
(Lc 6.36)

Sobre a humildade, Jesus afirmou:
"Aquele, portanto, que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus”.
(Mt 18.4)


Assim, Jesus não estava muito preocupado em mudar a cultura do ser humano e sim que ele tivesse uma prática que fosse de acordo com a vontade de Deus. Jesus não só não quis mudar a cultura do povo, bem como, sendo judeu, teve as mesmas práticas comuns de todo judeu. Uma das práticas era beber o vinho. Ele até mostrou saber qual era o melhor vinho:
"Não há quem, após ter bebido vinho velho, queira do novo. Pois diz: o velho é que é bom.”
(Lc 5.39)

Se Jesus tivesse algo contra a prática do vinho, ele nem citaria o vinho como exemplo. Sim, Jesus bebia o vinho como algo natural (cf. Jo 2.1-10; Lc 5.30). Era a mesma coisa que viver em Portugal e beber o vinho de lá ou, no sul do país, e beber o chimarrão.

Jesus não acabou com a prática das festas, com os folclores ou com as danças. Pode parecer estranho para nós esta afirmação, pois tivemos outra formação, mas a Bíblia relata esta realidade. Certa vez, quando Levi foi chamado para ser discípulo de Jesus, ele ofereceu uma grande festa em sua casa (Lc 5.29). O próprio Jesus, nas suas parábolas e histórias, cita o exemplo da festa e da dança como algo até positivo. Na parábola do filho pródigo, ele disse:
"Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças."
(Lc 15.25)

A dança é uma expressão de alegria!

Jesus, quando quis comparar a geração da época, a comparou como as crianças que, sentadas na praça, se desafiavam:
"Nós vos tocamos flautas e não dançastes! Entoamos lamentações e não batestes no peito!"
(Mt 11.17).

Logo a seguir, Jesus deixa claro a sua identificação com a cultura judaica:

"Com efeito, veio João que não come nem bebe, e dizem: um demônio está nele. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: eis aí um glutão e beberrão..."
(Mt 11.18-19)

Jesus não queria um convertido isolado do mundo e nem triste. Sua única preocupação era que o convertido confiasse em Deus e que mostrasse os frutos de justiça e de misericórdia para com o próximo. O convertido só pode, na verdade, ter estas práticas no meio de sua própria cultura e não criando uma sub-cultura para si, com sua própria linguagem e normas. A vida de Jesus, que conviveu no meio da cultura em Israel, é um exemplo de encarnação na cultura do país.


A CONVERSÂO FOI EXIGIDA DE TODOS?
Pode parecer estranho para alguns, mas veremos que a conversão não foi exigida de todos. Houve um "resto" de Israel que permaneceu fiel a Deus, após o exílio. Este "resto fiel" se caracterizava por praticar a justiça, a misericórdia e a humildade (Mq 6.8; Zc 7; Is 58).

Maria foi escolhida exatamente por pertencer a este "resto fiel" (Lc 1.46-48). Sim, "o resto fiel que espera a consolação de Israel' se encarna em Zacarias e Isabel, Simeão e Ana, nos pastores de Belém, e de modo especial em Maria e José." (2) Destes não se poderia exigir a conversão, já que viviam de acordo com a vontade de Deus. "O pobre e o oprimido que buscaram o Senhor conhecem a fortaleza divina (Sl 9.11; Sl 34.11). A atitude perante Deus é a de se abandonar à Sua vontade e acolher Seus desígnios (Sl 10.14; Sl 34.9; Sl 37.40) [ ...] observando Seus mandamentos é que os pobres são íntegros, retos e justos (Sl 34.16-22; Sl 37.17-8). Por isso, os pobres de Javé "são os amigos de Deus." (3)

Naturalmente, os "pobres de Javé" não são quaisquer pobres. Não significa que por uma pessoa ser pobre materialmente ela não precisa de conversão. Não, o “pobre de Javé" praticava a justiça e humildemente se submetia à vontade de Deus, embora qualquer pobre materialmente esteja mais apto a se submeter a vontade divina, devido a sua situação difícil.

O profeta Sofonias mostra que a humildade é a fonte de justiça e só os humildes são capazes de confiar na justiça divina (Sf 2.3).

Sim, "aqueles que esperam, ansiosos e com humildade, a ação libertadora do Messias seriam chamados “pobres', constituindo também a base para a existência do “resto fiel do povo de Deus" (Sf 3.12-13).

No sermão da montanha, Jesus deixa claro que o Reino de Deus já é deste "resto fiel", que tem por característica a humildade (Mt 5.3); a justiça (Mt 5.6); a misericórdia (Mt 5.7) e o coração puro (Mt 5.8).

Este "resto fiel", chamado também de "pequenino rebanho", e privilegiado de Deus, a ponto da vida eterna estar condicionada ao atendimento aos pequeninos (cf. Mt 25.45). A eles, Jesus disse:
"Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino.
(Lc 12.32)


DE OUEM FOI EXIGIDA A CONVERSÃO?
A conversão foi exigida de todos aqueles que orgulhosamente confiavam em si ou nas suas riquezas e não em Deus. De todos aqueles que não praticavam a justiça e a misericórdia. Isto incluía os fariseus e saduceus que confiavam mais na lei, na sua interpretação e nas suas tradições, esquecendo-se da misericórdia, justiça e humildade, João Batista, quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo (cf. Mt 3.7), disse:
"Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então, fruto que prove a vossa conversão..."
(Mt 3.7-8)

Jesus igualmente exigiu que os escribas e fariseus não seguissem só algumas práticas da lei, mas também praticassem a justiça, a misericórdia e a fidelidade (cf. Mt 23.23).

Àqueles que confiavam nas suas riquezas, Jesus exigiu que elas fossem deixadas de lado e aos pobres fossem distribuídas (cf. Mc 10.17-25). Quando Raquel se converteu, ele mostrou que antes não era justo, nem misericordioso, pois disse:
"Senhor, eis que eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo."
(Lc 19.8)

A atitude de Zaqueu é verdadeiramente de fazer justiça: levar o próximo à integridade, a começar a ter vida plena. Sim, "Jesus não rejeitou os ricos, mas, de uma ou outra maneira, os desafiava a seguir os caminhos da justiça, desafiava-os à conversão."(4)

Na verdade, aqueles que confiam nas suas riquezas, não terão acesso à vida eterna (cf. Lc 16.19-31).

Mas porquê se diz que aos pobres é anunciado o Evangelho? Significa que a eles é dado a notícia da chegada da Boa Nova, que o "resto fiel" tanto esperava, como afirmou Simeão, que era justo e piedoso:
"Agora, soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque meus olhos viram a Tua salvação, que preparaste em face de todos os povos, luz para iluminar as nações, e glória de Teu povo, Israel”.
(Lc 2.29-32)

Anunciar ou evangelizar os pobres significa também concretizar na vida do "resto fiel" a Boa Nova do Reino de Deus (cf. Lc 6.20; Mt 5.3), que eles tanto aguardavam (Lc 12.32). Sim, eles esperavam a justiça e a misericórdia vindas de Deus (Lc 1.51-55; 1.67-73). Sim, "anunciar as Boas Novas aos pobres é começar a fazer a justiça que lhes é devida." (5)

Citações:
(1)GONZALEZ, A. e outros, ibid., p. 93.
(2) DIETRICH, S., O Desígnio de Deus, SP, Edições Loyola, 1972, p. 141.
(3) SANTANA, J. de, A Igreja e o Desafio dos Pobres, RJ, Editora Tempo e Presença/Vozes, 1980, p. 36, Ibid., p. 34.
(4) SANTANA, J. de, op. cit., p. 53.
(5) CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Missão e Evangelização: Uma Afirmação Ecumênica, RJ, CEDI. 1983, p. 27.


(*) Texto extraído do Capítulo 2 do livro "A Evangelização Libertadora de Jesus", escrito pelo Rev. Odilon Massolar Chaves e publicado pela Imprensa Metodista em 1985. Esse livro pode ser lido e copiado integral e gratuitamente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel (http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=1)

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