IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Vida Cristã
Rio, 7/4/2007
 

A Evangelização no Novo Testamento (Rev. Odilon Chaves)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

A EVANGELIZAÇÃO NOS DEMAIS LIVROS DO NOVO TESTAMENTO (*)


Rev. Odilon Massolar Chaves


A ÊNFASE DO EVANGELHO DE JOÃO SOBRE A BOA NOVA


No final do primeiro século, cerca de uns sessenta anos depois da ascensão de Jesus, o apóstolo João escreve o seu evangelho, dando uma interpretação de sua fé e de como seria o seu Cristo.

João transporta sua fé para o tempo em que Jesus viveu na Palestina e, numa forma literária utilizada na época, coloca Jesus muito mais no nível do coração, enfatizando a salvação interior.

Assim, para João, Jesus é a Luz (Jo 1.4); o Caminho (Jo 14.6); o Pão Verdadeiro (Jo 6.45); a Videira Verdadeira (Jo 15.1); a Água da Vida (Jo 4.13-15); o Cordeiro de Deus (Jo 1.29); o Bom Pastor (Jo 10.11), etc. Sem a presença física de Jesus após uns sessenta anos, João e a Igreja procuram enfatizar o Cristo mais no nível da emoção, do sentimento, do Espírito, do coração. João, assim, mostra um Jesus muito mais preocupado com as questões relacionadas com o céu do que com este mundo (Jo 18.36-37; Jo 8.23-24). João enfatiza a crença em Jesus, em vez da adesão ao Reino de Deus (Jo 6.29; Jo 7.38; Jo 9.35; Jo 11.25; Jo 12.44; Jo 17.8, etc.).

O evangelho de João é um evangelho diferente dos sinóticos, que apresentam um Jesus mais terreno e mais preocupado com questões sociais do presente. O evangelho de João é diferente também de outros livros da Bíblia. Enquanto Atos dos Apóstolos relata o envio do Espírito Santo no dia de Pentecostes, após a ascensão de Jesus (cf. At. 2.1-13), o evangelho de João relata o envio do Espírito, sem dizer do Pentecostes e como tendo ocorrido antes da ascensão de Jesus (cf. Jo 20.19-23).

No evangelho de João se observou uma dupla tendência: atualizar e interiorizar a escatologia. A ‘vinda' do Filho do Homem é apresentada sobretudo como a vinda de Jesus a este mundo pela encarnação, sua elevação na cruz e seu retorno aos seus pelo Espírito Santo; o ‘juízo' realiza-se desde já no íntimo dos corações; a vida eterna (que em João equivale ao ‘Reino' dos evangelhos sinóticos) é possuída desde já. na fé."(1)

Assim, João em vez de falar e anunciar o Reino, anuncia a vida eterna. A Boa Nova para ele é Jesus e a vida eterna.

Com quais evangelhos devemos ficar?
É evidente que hoje devemos procurar fazer uma fusão dos dois evangelhos (o apresentado pelos sinóticos e o apresentado por João), sem, contudo, deixar de saber das diferenças das ênfases. Hoje podemos afirmar e pregar que Jesus liberta e transforma o coração. Este Jesus, porém, veio para salvar e libertar o povo de tudo que o oprime.

A ÊNFASE DOS ATOS DOS APÓSTOLOS
SOBRE A BOA NOVA
João Batista, Jesus e os discípulos anunciaram a Boa Nova do Reino de Deus. Com a crucificação, ressurreição, ascensão e o Pentecostes, houve necessidade de dar um outro enfoque na Evangelização, por parte da Igreja primitiva.

Apesar de nos últimos quarenta dias de sua vida terrena, Jesus ter falado sobre o Reino de Deus (At 1.3) e antes da sua ascensão ter respondido uma pergunta sobre o Reino (At 1.7), vários fatores cooperaram para que o livro de Atos registrasse outras ênfases da Igreja primitiva.

Houve necessidade de dar uma interpretação positiva sobre a crucificação, mostrando que o sangue de Jesus derramado foi para a nossa salvação (At 20.28) e que temos acesso à salvação pela fé em Jesus Cristo (At 16.31; At 20.21).

Houve necessidade de anunciar algo novo para o mundo: a ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição futura (At 1.22; 4.33).

Houve necessidade de mostrar aos judeus que Jesus era o Cristo (At 2.36; At 18.28), o Filho do Deus (At 9.19-20) e que ele havia cumprido as profecias do Antigo Testamento (At 2.22-36; At 26.23).

Houve necessidade de explicar à Igreja sobre a volta de Jesus (At 1.9-11).

Com o envio do Espírito Santo, houve necessidade de mostrar a sua realidade (At 2.1-29).

Com o surgimento da Igreja organizada, houve necessidade de doutriná-la sobre a prática cristã (At 15.1s).

Por esses motivos, a ênfase na evangelização passou a ser dada mais sobre o Rei do que sobre o Reino. Enfatizou se mais a pregação, pela necessidade de anunciar e explicar estes fatos novos ao mundo.

Hoje, o leitor de Atos dos Apóstolos, ao ler o livro, muita pouca ênfase no Reino de Deus, conforme os sinóticos. Pode até parecer que a preocupação da Igreja hoje deve ser somente também com estas questões doutrinárias. Vemos, contudo, que a Igreja primitiva não deixou de vivenciar e falar do Reino de Deus (At 8.12; At 19.8; At 20.25; At 28.23; At 28.31). Na Igreja primitiva, não havia necessidade e pobreza entre os irmãos, pois os que tinham terras ou casas vendiam-nas e traziam o dinheiro para distribuir o valor com aqueles que precisavam:
"Não havia entre eles indigentes algum, porquanto os que possuíam traziam o dinheiro e o colocava aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade."
(At 4.34)

O livro de Atos cita o exemplo de Barnabé, que vendeu suas terras para distribuir o dinheiro com os necessitados da Igreja (At 4.36-37). Cita também a sonegação de Ananias e Safira (At 5.1-11.), o que mostra a importância que a Igreja primitiva dava ao evangelho total. Era a Igreja vivenciando o "ano do Jubileu".


A ÊNFASE DE PAULO SOBRE A BOA NOVA
A mudança de enfoque na Boa Nova ocorreu mais com Paulo. Para ele "o evangelho está centralizado na cruz; de maneira particularmente clara em Paulo, que se recusa a saber e anunciar outra coisa (1Co 2.2)." (2)

Chega até a ser compreensível a posição de Paulo, pois ele teve o encontro com o ressuscitado no caminho de Damasco, por isso, ele fala mais no Rei do que no Reino (cf. At 9.17-22). Como Paulo organizava as igrejas, suas preocupações eram mais com o funcionamento adequado das igrejas.

Outro detalhe importante, e que deve ter influído na sua mensagem, é que Paulo foi chamado para evangelizar os gentios (cf. GI 1.16; Rm 1.5; Ef 3.8), que nada conheciam sobre o "Reino", "messias", "ano sabático" e "ano do jubileu". Foi preciso, então, que Paulo falasse do amor de Deus em outras categorias com os gentios, que não fossem nas do Antigo Testamento, pois as categorias, a cultura do Antigo Testamento não fazia parte da cultura gentílica. Sim, "a terminologia que usaram os primeiros crentes para evangelizar os judeus não foi igual a que usaram para falar do evangelho aos gentios. Enquanto a ênfase sobre Jesus, o Cristo (messias, ungido), poderia significar muito para um israelita, para um cidadão romano, o titulo “kyrios” (amo, senhor, dono absoluto), que só se usava para os deuses e para o César, significaria muito mais."(3)

Qual a Boa Nova que Paulo transmitiu para os gentios? Para Paulo a Boa Nova é a ressurreição de Jesus e a remissão dos nossos pecados, através da fé (At 13.32). O Evangelho é a salvação deste mundo (Rm 1.16; cf. Ef 1.13; 1Co 15.1s; Cl 1.5) e a reconciliação com Deus (2Co 5.18-21). Paulo não fala em Evangelho do Reino de Deus como os evangelhos sinóticos falam. Paulo fala muito no "seu evangelho" (Rm 2.16; 1Ts 1.5; 2Ts 2.14). Ele fala do evangelho da salvação (Ef 1.13); evangelho da paz (Ef 6.15); evangelho da glória de Deus (1Tm 1.1); evangelho de Deus (12m 1.1); evangelho de Cristo (Rm 15.19; 1Co 9.12), etc.

Em Paulo, o evangelho significa a ação da pregação, como também o conteúdo da pregação, contudo ele fala mais em pregação do evangelho (1Co 1.17; 2Co 2.12; 1Co 15.1), pois, para ele, Deus lhe confiou anunciar o evangelho (1Ts 2.2-4).

Paulo não entendeu tanto o Reino de Deus como algo a ser instalado no mundo. Ele esperava a volta de Jesus para breve, por isso, procurava mais preparar os cristãos para a vinda de Jesus (1Co 15.23; 1Ts 4.15; 2Tm 4.8), do que instalar o Reino de Deus no mundo. Paulo enfatizava o Reino de Deus um pouco diferente de Jesus. Para Jesus, o Reino já havia começado aqui (Mt 12.28), mas Paulo enfatizou o Reino mais como um acontecimento futuro, que coincide com o juízo final (Gl 5.21; 1Co 6.9s; 1Co 15.50).

Jesus pregou a Boa Nova do Reino de Deus (Lc 16.16), mas Paulo enfatizou Jesus como sendo a Boa Nova (1Co 1.23; Rm 10.9).

Paulo falou também do Reino (At 20.25), mas mais como recompensa futura para aqueles que creram em Jesus Cristo (2Ts 1.5; Gl 5:21; 1Ts 2.12).

Apesar das ênfases diferentes dos sinóticos, Paulo fez colocações que estão de acordo com a Boa Nova do Reino, segundo a orientação de Jesus: ele disse que Cristo, sendo rico, fez-se pobre (2Co 8.9), nos dando o exemplo de uma prática de vida. Paulo diz também que os menos favorecidos deste mundo são preciosos aos olhos de Deus (1Co 1.26-31), mostrando assim a preferência de Deus pelos pequeninos. Paulo, igualmente, enfatizou o amor ao próximo como sendo o alvo maior do cristão (1Co 13.1-13; GI 5.14). O próprio Paulo tudo deixou para servir a Cristo (Fl 3.5-11). Além disso, ele disse — como os evangelhos sinóticos, que o Reino é justiça, paz e alegria (Rm 14.17).

Apesar das muitas coisas positivas de Paulo, a Evangelização não pode ser resumida no que ele enfatizou. Os evangelhos e outros livros da Bíblia nos ajudam a compreender a totalidade da evangelização.


ÊNFASE DO APOCALIPSE SOBRE A BOA NOVA
No livro do Apocalipse, a idéia do Reino de Deus ser instalado aqui na terra e constituir também de coisas materiais, é enfatizada no sentido pleno no "fechar" da Bíblia. Os cristãos estavam sendo mortos pelo reino da besta (o imperador romano) e necessitavam de uma esperança de que tudo isso seria superado e Cristo triunfaria com o seu Reino aqui na terra. João, então, procurou mostrar que os cristãos reinariam aqui na terra (Ap 5.9-10; Ap 20.4) e que o dragão seria derrotado (Ap 20.1-3). O novo céu e a nova terra desceriam do céu (Ap 21.1-2; Ap 21.10) para se instalar aqui na terra.

A situação de opressão, sofrimento, perseguição e morte dos cristãos primitivos, na década de noventa, levou os cristãos a recuperarem a idéia pregada por Jesus da instalação do Reino aqui na terra. É um Reino que resolverá o problema das praças da cidade (Ap 21.21); resolverá o problema da precária e cara luz (Ap 21.23); resolverá o problema dos rios e das secas (Ap 22.1); resolverá o problema da fome e da saúde (Ap 22.2).

Sim, a dor e o sofrimento deixarão de existir (Ap 21.4); o Reino de Deus transformará tudo o que é precário em coisas novas e perfeitas (Ap 21.5); o império que domina o mundo será destruído (Ap 18.2-3; 18.21) e o Rei dos reis, o Senhor dos senhores reinará com o seu Reino (Ap 19.11-16). O povo oprimido e humilde, enfim, terá a autoridade de decidir, pois se sentará no trono dos que governam (Ap 20.4; cf. Lc 1.52). Sim, "conforme suas promessas, aqueles que tiverem sofrido com ele participarão do Reino e do julgamento (Dn 12.1-3; Lc 22.28-30: 2Tm 2.11-12; Ap 7; 14.1-5; 20.1-6)". (4)

A salvação que o Apocalipse propõe é uma salvação total, tanto espiritual, como social. Esta é a Boa Nova que Jesus Cristo revelou a João e ao povo que vivia oprimido (Ap 1.1).


Citações:

(1) A Bíblia de Jerusalém, SP, Edições Paulinas, 1976, p. 229.
(2) ALLMEN, J., Vocabulário Bíblico, SP, ASTE, Imprensa Metodista, 1967, p. 137.
(3) COOK, G., Profundidad En la Evangelizacion, Costa Rica, Publicaciones INDELF, 1975, p. 31.
(4) DIETRICH, S., op. cit., p. 238.

(*) Texto extraído do livro "A Evangelização Libertadora de Jesus", escrito pelo Rev. Odilon Massolar Chaves e publicado pela Imprensa Metodista em 1985. Esse livro pode ser lido e copiado integral e gratuitamente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel (http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=1)

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.