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Rio, 14/4/2007
 

O Biblicismo e a "Bibliolatria" ou Jesus, a Palavra de Deus (Derrel Homer Santee)

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O Biblicismo e a “Bibliatria” ou Jesus, a palavra de Deus

Derrel Homer Santee (*)

A Bíblia é muito valiosa como testemunha de como pessoas de outras gerações e outras culturas perceberam o mundo e Deus na história humana. Os documentos retratam a visão cósmica de diversas épocas. A terra era o centro do universo e todos os corpos celestiais giravam em torno da terra. Deus morava acima das nuvens sentado num trono cercado de seres celestiais e o inferno ficava debaixo da terra para onde eram mandados os ímpios para o castigo eterno. O sistema político da época era a monarquia e Deus era o Grande Rei, vigiando os seres humanos, tendo seus favoritos, premiando os fieis e castigando os desobedientes. Os escolhidos cantavam seus louvores e a sua ira sobrava para os outros.

Jesus introduziu o “Deus Papai” que, em contraste, tinha compaixão a todas as pessoas e não fazia distinção de ninguém. Todas eram “prediletas”. O Papai sofria junto com todos os seus filhos e suas filhas e o seu prazer estava no bem estar das pessoas e não na obediência a um conjunto de leis. A nova lei era o amor incondicional, sem preconceitos, sem amarras.

Conforme o Evangelho de João: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Verbo = Palavra. O grego para verbo/palavra é logos (logos). Jesus é o logos. O Jesus vivo, não um livro, é a Palavra de Deus. Colocar um livro acima do Jesus Vivo seria idolatria ou “bibliatria”.

O Evangelho é justamente esta nova visão espiritual.

Nós não enxergamos a Bíblia como ela é – nós a enxergamos como somos. A Bíblia não fala por si – manipulamos seu conteúdo de acordo com a nossa ideologia. Não existe nenhum sistema de teologia que aceita a Bíblia na sua totalidade. Todos os sistemas selecionam as partes que convém e ignoram, rejeitam ou manipulam as inconvenientes. Fazemos da Bíblia a nossa imagem.

À luz de Jesus o valor da Bíblia não é como livro de leis a serem obedecidas ou de normas a serem seguidas. As leis e normas citadas são muito contraditórias e conflitantes entre si por serem escritas em épocas diversas e em contextos bem diferentes do nosso. Quem tenta seguir a Bíblia ao pé da letra caí no ridículo. Quem tenta manipular passagens bíblicas para se justificar cai na incoerência de ignorar outras passagens de igual importância que condenam o que o próprio manipulador pratica em outras áreas. Para sermos coerentes teríamos que ser monarquistas – a Bíblia desconhece outra forma de governo, poligâmicos (uma esposa só e recomendado somente para bispos), escravistas e nos submeter às muitas leis de alimentação e vestimenta cujo desvio é condenado por Deus.

A Bíblia que conhecemos hoje é uma variedade de documentos. Começou ser composta séculos depois do início da era cristã e foi modificada durante séculos. O protestantismo fez outras modificações ainda. O que temos hoje são cópias e uma variedade quase infinita de traduções de originais que foram perdidos no tempo. Os estudiosos têm as suas dúvidas quanto a autenticidade de muitas passagens enquanto os ignorantes têm as suas certezas absolutas quanto a todas!...

A Bíblia ganha riqueza quando vista à luz de Jesus. Ganha profundidade e coloca Deus ao nosso lado no dia a dia. Derruba as barreiras que nos separam dos “impuros”. Livra-nos do fardo de sermos juizes dos outros. Tira o jugo de manipular os outros. Podemos simplesmente viver o amor e deixar os resultados nas mãos do Papai.

(*) Derrel Homer Santee é pastor missionário metodista aposentado.

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