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Rio, 14/4/2007
 

A Igreja é desafiada a tomar a forma de Cristo (Julio de Santa Ana)

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A IGREJA É DESAFIADA A TOMAR A FORMA DE CRISTO (1)

Julio de Santa Ana

O apóstolo Paulo, num dos textos mais antigos do Novo Testamento, escrevendo aos Gálatas exclamou: "Filhos meus, de novo sofro as dores do parto até que Cristo se forme em vocês" (G1 4.19). Tomar a forma de Cristo e segui-lo é uma insistência permanente do apóstolo Paulo às Igrejas: assim também, escrevendo aos Filipenses, recomenda ter os mesmos sentimentos de Cristo (Fp 2.5-11) insistindo na mesma epístola que se deve chegar a ser semelhante a ele em sua morte: assim o encontraremos — Deus o queira! — "na ressurreição dos mortos" (Fp 3.10).

Foi Dietrich Bonhoeffer quem, em sua Ética, chamou a atenção sobre esta necessidade de ser conformados com Cristo e em Cristo: "Não se trata na Escritura de conformação do mundo mediante planos e programas, mas que em toda conformação se trata somente da única forma, aquela que tem vencido o mundo, a forma de Jesus Cristo" (2). Esta é a forma que se propõe à Igreja: chegar a ser o Corpo de Cristo. A questão que surge imediatamente é como? O mesmo Bonhoeffer demonstra que "isto não tem lugar graças ao esforço próprio de 'assemelhar-se a Jesus', como costumamos explicar, mas graças a maneira como Jesus influi, por si mesmo, em nós de tal maneira que determina nossa forma de acordo com a sua" (3). Aqui, a nova pergunta é: Qual é essa forma? E a resposta vem da passagem já indicada, do segundo capítulo da Epístola aos Filipenses: "Ele, que era de condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente, mas rebaixou a si mesmo até não ser nada, tomando a condição de escravo e chegou a ser semelhante aos homens. Havendo se tornado como homem, humilhou-se e tornando-se obediente até a morte numa cruz".

Para ser mais claro: a forma de Cristo, em primeiro lugar, é a forma de um servidor, de um escravo, que está disponível ao próximo. No relato do Evangelho de João isso se concretizou quando Jesus lavou os pés dos discípulos, e logo morreu na cruz em benefício de toda a criação de Deus (cf. espec. Jo 13.2-17). Vale a pena repetir aqui as palavras chaves: "Se eu, que sou o Senhor e Mestre, tenho lhes lavado os pés, também vocês devem lavar os pés uns dos outros. Tenho lhes dado o exemplo para que vocês façam o que lhes tenho feito. Porque em verdade lhes digo: O escravo não é mais do que seu amo, nem o enviado maior do que aquele que o envia. Agora que vocês sabem isto, serão felizes se o põem em prática" (vv. 14-17).

O sentido desta práxis se indica de outra maneira, totalmente convergente com o significado da ação de Jesus ao lavar os pés dos discípulos — na célebre perícope de Mt 25.31-40, onde se expõe o ensino de Jesus sobre o juízo final: o filho do homem separará os aceitos e os recusados de seu Reino pela forma como foi reconhecido e servido entre os necessitados, miseráveis, oprimidos e marginalizados deste mundo. A dialética destes textos é inesgotável; por um lado, Jesus assume a forma de escravo para servir. Mas, ao mesmo tempo, por essa identificação com os pequeninos, quando estes são servidos é a Jesus quem se serve. Pode ser que não sejamos conscientes de que estamos fazendo isto; não importa: o Cristo servidor serve ao mesmo Cristo que sofre entre os pobres e oprimidos da terra. E estes, por sua vez, em sua fraqueza misteriosamente expressam a presença do Filho do Homem, juiz todo-poderoso. Os servidores, explorados pela sociedade, levam Cristo consigo. Ele serve através daqueles. Mas também julga através deles.

Uma pastoral que procura conformar a Cristo, fazê-lo visível entre os homens e mulheres de nosso tempo, não se preocupa com o êxito, mas com a fidelidade à pessoa d'Aquele em que Deus se encarnou e morreu na cruz, para logo ressuscitar. Essa fidelidade — sequela Christi — é a exigência do discipulado. Mas não se limita ao crente individual, mas é uma exigência para a maneira de ser igreja, para a função desta na sociedade. Voltando a citar Bonhoeffer: "Portanto, conformação significa em primeiro lugar a conformação de Jesus Cristo em sua igreja. É a figura do mesmo a que toma forma aqui. O Novo Testamento chama a Igreja Corpo de Cristo como designação profunda e clara. O corpo é a forma. Deste modo, a Igreja não é uma comunidade de religião dos que vinham a Cristo, mas Cristo que tem tomado forma entre os homens. Mas a Igreja pode se chamar-se corpo de Cristo, porque no corpo de Cristo o homem e, por conseguinte, todos os homens, têm sido acolhidos. (...) A Igreja não é mais do que o fragmento da humanidade em que Cristo tomou forma realmente. Trata-se total e absolutamente da figura de Jesus Cristo e não se trata de outra junto a Ele. A Igreja é o ser humano encarnado, julgado, desperto para a nova vida em Cristo. Portanto, ela não tem, em absoluto, a ver, primeiramente e de maneira essencial, com as chamadas funções religiosas do ser humano, mas tem a ver com o homem total em sua existência no mundo, com todas as suas relações" (4).

A partir dessas afirmações, e tendo em conta especialmente os textos bíblicos que as sustentam, é fácil compreender algumas conseqüências para orientar a função da Igreja na sociedade.

Primeiro, opção pela vida e combate às forças desumanizantes que matam. A resistência aos poderes do mal não é somente um elemento político: é também uma exigência teológica.

Segundo, porque Jesus Cristo veio trazer vida em abundância, a opção pela vida é, antes de mais nada, opção pelos pobres, os quais são, geralmente, excluídos dos programas e planos impostos pela ordem que predomina no mundo. A definição da pastoral, da caminhada da Igreja, é pela justiça do Reino, segundo a qual os pobres são felizes porque o herdarão (Lc 6.20-21).

Terceiro, isto exige levar muito em conta as esperanças de mudança social que se expressam na prática dos pobres, pois são elas que apontam as mediações históricas através das quais mostra-se a presença do Reino entre nós.

O Evangelho é uma boa notícia para os pobres, um anúncio que os alegra, que os reconforta apesar de seu sofrimento, que lhes dá alento e coragem para reivindicar suas posições. O Evangelho não desqualifica as expectativas populares, mas lhes dá cumprimento. O Evangelho é justiça, libertação, bem-estar e paz, coisas que os pobres anelam desde o mais profundo do seu ser. O Reino que anuncia o Evangelho, do mesmo modo que a mensagem de Jesus estava relacionada à esperança dos pobres, também, está ligado às coisas que os humildes e deserdados aguardam. Tomar a forma de Cristo é atuar neste sentido: confirmando aos de baixo, fortalecendo suas posições, dando apoio às suas lutas.


NOTAS:
1. Esse texto cujo subtítulo original é “O Modelo Cristomórfico: Formando a Cristo na Comunidade”, é parte do Capítulo II, Modelos Bíblicos de Pastoral, do livro Pelas Trilhas do Mundo, a caminho do Reino, de Julio de Santa Ana, publicado em 1985 pela Imprensa Metodista e Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, e pode ser lido e copiado gratuitamente no site www.biblioteca.metodista.org.br.

2.Dietrich Bonhoeffer, Etica, Barcelona, Ed. Estelar, 1968. p. 55.

3. Ibid., p. 55.

4. Ibid., p, 57.

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