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Mulher
Rio, 16/4/2007
 

Astros que espancam, estrelas que apanham (Maria Newnum)

Steve e Maria Newnum


 

Astros que espancam, estrelas que apanham

Maria Newnum

A jornalista e atriz Ingrid Saldanha fez uma exibição que não esperou aplausos no final. Mas, bem que merecia. Ingrid apresentou-se a uma delegacia para denunciar as agressões que sofreu do marido.

Seu semblante cansado e profundamente triste era um retrato do choro. Não um choro qualquer, mas, aquele choro que vem da alma como um grito há muito sufocado; o grito das criaturas que em um momento de suas vidas se sentem indefesas e impotentes. Ingrid ainda tem chorado escondida no sítio dos pais esperando que os oito pontos em seu nariz e os hematomas do seu rosto desapareçam.

Aos 32 anos, 15 deles vividos ao lado do astro Kadu Moliterno, ela chora de vergonha e de arrependimento por não ter tido coragem suficiente de denunciar aos maus tratos do marido, um astro famoso acima de qualquer suspeita. Pois, o Kadu Moliterno que o povo conhece é a síntese dos personagens gentis e divertidos que viveu nas novelas e seriados da TV. Mesmo no atual papel de um assaltante de banco que usa roupa de mulher, ora vejam! Kadu faz o papel de bom moço, incapaz de maldades mais sérias.

Ao falar de sua vida real após ser espancada, Ingrid não era a estrela; era apenas uma mulher comum e seu relato foi um clássico da maioria das mulheres que apanham dos companheiros: “Esperava que ele pudesse mudar, era dependente dele, tinha medo de seguir sozinha com meus filhos, não queria prejudicar a sua carreira e tinha vergonha”.

A história ganhou repercussão na imprensa porque ela é uma estrela da TV e seu marido um astro, evidentemente não tão brilhante como ele acredite ser. De outra forma seria mais um caso fora das estatísticas da violência no Brasil. Ingrid afirma que o marido é do tipo que se aproveita da sua condição de “estrela” para agir como quer; como se as regras da sociedade não fossem feitas para ele. O motivo do último espancamento foi resultado de um pedido para que ele dirigisse com mais cuidado, já que as crianças estavam no carro. A resposta veio rápida. Mas dessa vez ela resolveu denunciá-lo.

São inúmeros os casos de estrelas que apanham e de astros bonitões que espancam suas companheiras seja no cinema, na TV ou na música. Quem não se lembra das fotos da Gretchen com os hematomas tais quais os de Ingrid? Gretchen, ainda teve a infelicidade de casar-se como outros agressores. Apanhou muito, pois, casou-se várias vezes na tentativa frustrada de encontrar um parceiro que a tratasse realmente como uma “estrela”. Outro caso é o da cantora Tina Turner, que teve a coragem de fazer um filme contando sua história. Tina foi salva pela determinação e pela música, um talento que seu marido queria roubar e destruir.

A história dessas mulheres é a história das mulheres. Famosas ou anônimas, elas compartilham do mesmo sofrimento, da mesma vergonha e da mesma sensação de impotência diante da violência covarde e cruel. E os agressores alçam entre eles a condição de “astros” – inatingíveis - mesmo que não sejam famosos, mesmo que sejam, como muitos são, anônimos e ninguéns. Mas o poder para violentar lhes infla os egos e os fazem sentirem-se “grandes” ante as suas vítimas de corpos frágeis.

Mas é enganoso pensar que a violência contra mulher pode ser constatada somente nos olhos roxos e hematomas espalhados em seus corpos. Hoje a violência contra as mulheres é cada vez mais camuflada nas diversas esferas da sociedade. No mundo do trabalho, nas igrejas, na política e nas comunidades a mulher é violentada, por sua condição de mulher, por sua raça, cor, opção sexual, saber acadêmico e até por sua religiosidade, especialmente se professar uma religião de origem africana. Nessas esferas os “astros” poderosos batem pesado, mas não deixam sinais aparentes e as estrelas continuam a apanhar; com um agravante, é mais difícil senão impossível denunciar.

É o caso de uma enfermeira negra aqui de Maringá que há tempos é chamada de Xuxa pelo médico que ela auxilia. Quando o contesta ele afirma: “O que é isso Xuxa, eu estou brincando”.

Esse é apenas um exemplo da camuflagem da violência no universo dessas estrelas mulheres.

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