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Heresias e falsas crenças
Rio, 16/4/2007
 

“Heremenêutica” e “thereologia” do espiritismo

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“Heremenêutica” e “thereologia” do espiritismo

Marcos Roberto Inhauser (*)

Já se disse que a Bíblia é a mãe de todas as heresias. Quem foram os hereges? Grande parte deles é formada por autodidatas, leigos nas ciências bíblicas e forçadores de interpretações.

Isso fica bastante evidente quando se analisam as “interpretações bíblicas” e a “teologia” produzidas pelos espíritas. Ao estudá-las para escrever este artigo, não tive outra saída que cunhar dois neologismos: heremenêutica (de hermenêutica e heresia), que qualifica o método de interpretação bíblica que usam, e thereologia (de teologia e heresia), para qualificar as “teologias” que produzem.

A “heremenêutica” espírita

A abordagem bíblica feita pelos maiores expoentes do espiritismo é ingênua, amadora, não instrumentalizada com ferramentas próprias e acrítica.

Quando se faz o recenseamento dos textos mais freqüentemente usados pelos espíritas para se fundamentarem biblicamente e as interpretações a eles dadas, percebe-se o desconhecimento básico de algumas regras hermenêuticas:

1. Desconsideram a história das idéias

Uma delas é não considerar o contexto histórico, cultural e o grau de desenvolvimento das idéias para avaliar o ensino de um texto. Exemplo disso é quando usam os textos do Antigo Testamento para mostrar evidências da reencarnação. Atribuem aos textos a idéia da imortalidade e da vida após a morte. Estudiosos sérios do Antigo Testamento e outros especialistas sobre as culturas semíticas têm demonstrado à exaustão que esses povos não haviam chegado ao estágio de conceber a imortalidade ou a vida após a morte. Estavam apegados à concepção cíclica da vida, fruto de uma religiosidade agrária. Sabe-se hoje que os conceitos da imortalidade da alma e da vida após a morte só apareceram em Israel sob a influência do helenismo, uns dois séculos antes do advento de Jesus.

2. Desconsideram a história

Erro crasso na interpretação cometem no texto em que se afirma que João Batista é Elias (Mt 17.1-13). Aqui mutilam a história e vão contra seus próprios ensinamentos. Se levassem em conta o Antigo Testamento como fonte de informação, saberiam que Elias é um personagem que se crê não ter morrido, mas arrebatado sem experimentar a morte. Se assim é, como ter ele reencarnado em João Batista?

3. Desconsideram as riquezas lingüísticas

Em outro texto que diz “nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” (Jó 1.21) querem apoiar suas teses afirmando que o texto ensina o retorno de Jó à vida depois de morto. Erram ao não considerar a riqueza lingüística e poética da língua hebraica nem a cosmovisão prevalecente que acreditava que o ser humano havia sido criado da terra e à terra voltaria (Gn 3.19) e que, por causa disso, podia-se dizer como o salmista “tu me teceste no seio de minha mãe... no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra” (Sl 139.13 e 15). Mais ainda, nem mesmo consideram o imaginário metafórico do autor de Jó, tal como se vê em Jó 38.8 e 29, em que a terra é vista como mãe.

No caso do texto de Mateus que afirma “ele é Elias”, não levam em consideração a peculiaridade lingüística, também presente em outros idiomas, de usar o “isto é” com o sentido de representar, de simbolizar. Não fosse assim, Jesus não poderia ter dito do pão “isto é meu corpo partido por vós” e do cálice “isto é meu sangue derramado” antes de haver morrido.

4. Forçam a interpretação

Além de insistir em ver sinais de reencarnação nos textos de Gênesis 4.10 e 9.6, que falam que o sangue derramado clama da terra e que um homem vai derramar o sangue do ofensor, fazem uma grande ginástica para provar sua tese. O reencarnacionista afirma que se um homem vai derramar o sangue do ofensor, ninguém outro o fará a não ser a própria vítima reencarnada; que se não houver reencarnação poderá ocorrer que algum assassino possa morrer sem ter seu sangue derramado e que a polícia é incapaz de justiçar a todos os agressores; daí ser necessária e veraz a reencarnação.

5. Desconsideram o contexto imediato

Esse procedimento se nota prioritariamente nas interpre-tações sobre o “nascer de novo” da conversa de Jesus com Nicodemos (João 3). Sem sequer considerar as dificuldades lingüísticas que o grego apresenta ao usar anothen, que tanto pode significar “de novo” como “do alto”, e que no versículo 31 certamente significa “do alto”, atropelam o contexto quando querem dar sentido literal à metáfora, coisa que o próprio Nicodemos coloca como impossibilidade: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?” (verso 4). O contexto todo mostra o uso de metáforas e interpretar o texto como literal é atropelo.

Outro exemplo é o texto de Gálatas 6.7, que diz que aquilo que se planta também se colhe. O texto trabalha a idéia de juízo, de recompensa para os bons e castigo para os maus. E quando diz “de Deus não se zomba”, declara a Deus como supremo juiz das ações, o que descarta a idéia de sucessivas vidas, em que a vida presente purifica a passada.

6. Desconsideram o contexto geral dos ensinamentos bíblicos

No âmbito da consulta aos mortos, apóiam-se no célebre texto de Saul indo à pitonisa de En-Dor para ali consultar a Samuel (1 Samuel 28). A bem da verdade, o texto é bastante problemático e há várias tentativas de interpretá-lo, pois ora afirma que Saul “entendeu” que era Samuel (verso 14), ora afirma ser Samuel (versos 15 e 16).

A análise honesta de Deuteronômio 18.15 mostra que este texto somente pode ser usado para dizer que é pecado consultar os mortos, mas não é suficiente para afirmar que não é possível fazê-lo. Igualmente, a história ou parábola contada por Jesus acerca do rico e Lázaro, na qual, como resposta ao pedido de que se enviasse um mensageiro para avisar aos vivos, Jesus não afirma a impossibilidade, mas, sim, a inutilidade de tal ato (Lc 16.29s). O que se pode afirmar com certeza é que é pecado consultar aos mortos.

No entanto, o fato de a Bíblia trabalhar o assunto de tal forma, não é garantia de que a consulta aos mortos seja possível. Isto assim é porque ela utiliza conceitos usados e aceitos pela população, muitas vezes sem corrigir erros.

O que os espíritas não mencionam, por conveniência, é o fato de que se condena claramente como pecado a consulta aos mortos, desconsiderando assim o contexto geral dos ensinamentos bíblicos.

A “thereologia” espírita

1. Desconsideram a teologia da graça

A teologia espírita está baseada em uma das mais antigas e primárias teologias: a da justiça retributiva, em que cada pecado recebe proporcional recompensa, em relação de causa-efeito imediata. É a lei do “olho por olho e dente por dente”. Esse tipo de religiosidade é cruel porque não ensina o perdão, a restauração, antes trabalha com um sentido fatalista na vida. Devemos pagar cada erro que cometemos na própria pele já ou em outra vida...

2. Desconsideram o aspecto educativo da disciplina

Se a vida presente é para purificar erros da vida passada, nada mais cruel do que pagar por pecados de que não se tem lembranças nem notícias, e ainda ter de consertar algo sem poder se valer de experiências anteriores. Entramos nesta vida depois de passar pelas águas do esquecimento, sem poder nos valer do que aprendemos na passada. Reinício do zero para sermos melhores que ontem. Obra para um verdadeiro super-herói. Além do mais, se a reencarnação, como afirmam os reencarnacionistas, serve para que a alma se aperfeiçoe na medida em que reencarna, não é de estranhar que a humanidade não esteja alcançando padrões morais cada vez mais elevados?

3. Empobrecem a riqueza da vida

A vida deixa de ser um dom de Deus, um milagre renovado a cada nascer, para se constituir num processo, num ato mecânico de uma lei rígida. Passa a ser peça de uma engrenagem, em que os atos falhos de hoje fatalmente serão purificados amanhã. Não temos responsabilidades pelos nossos atos porque eles se inserem em uma grande roda universal, determinada e fatalista. Os erros passados serão purificados num processo natural e inexorável. Ao banalizar a vida, também banalizam a morte, que já não tem a dimensão de castigo pelos pecados.

Os tópicos levantados, longe de ser uma análise exaustiva, visam dar uma caixa de ferramentas para se trabalhar outros aspectos e erros praticados. Mas esta caixa de ferramentas também deve ser usada para avaliar criticamente certas interpretações feitas por evangélicos e alguns autores que, ao tentar negar a reencarnação, cometem erros iguais aos apontados aqui. A heremenêutica e a thereologia não são “privilégios” dos espíritas. É joio no arraial evangélico também.

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(*) Marcos Roberto Inhauser é reitor do Centro Menonita de Teologia em Campinas, SP, e autor de Opção pela Vida — o segredo da vitória sobre as perdas. Quando jovem, morou em terreiro de Umbanda na cidade de São Paulo por um ano e meio. De lá saiu quando se converteu ao evangelho.


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