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Violência
Rio, 21/4/2007
 

Com sangue nas mãos - a violência assassina é parte de nossa espécie? (Reinaldo José Lopes)

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Com sangue nas mãos

( Artigo de Reinaldo José Lopes, extraído de sua coluna Visões da Vida publicada no G1, o portal do Globo.com.
Endereço do artigo: http://g1.globo.com/Noticias/Colunas/0,,7412,00.html)

O calor dos acontecimentos e o desespero que eles provocam muitas vezes nos impedem de perceber o óbvio: há uma distância enorme entre explicar o horror e justificá-lo, ou pelo menos dizer que ele, no fundo, é normal. Nossa razão tem a mania desagradável de recuar diante do abismo, de relegar certas tragédias à categoria do indizível. Contudo, se quisermos ter alguma esperança de não vê-las se repetir, é imperativo compreender o solo do qual elas brotam.

Na semana que passou, só os eremitas devem ter conseguido escapar da cobertura quase obsessiva do ordálio de Cho Seung-Hui, o estudante sul-coreano que matou 32 pessoas e depois deu cabo da própria vida numa universidade da Virgínia. Entre a reação estranhamente entorpecida da administração da universidade, que talvez tenha ajudado a multiplicar a tragédia, e as palavras incoerentes do rapaz nos vídeos que gravou, talvez seja confortável imaginar que ele era só um doido varrido; pessoas normais, das que penteiam o cabelo e namoram no cinema, feito eu e você, não fazem esse tipo de coisa.

Na verdade, um dos debates mais intrigantes e irresolutos sobre a evolução humana versa exatamente sobre o nosso potencial para o assassinato. Talvez, argumentam muitos pesquisadores, o impulso para matar, em determinadas circunstâncias, seja muito mais generalizado do que nos agradaria imaginar – um resultado previsível quando se juntam, na mesma equação, cérebros complexos e vida social intrincada. Como de praxe, só uma análise cuidadosa das evidências contra ou a favor dessa idéia pode nos ajudar a dizer se ela tem fundamento.

Até meados do século 20, muitos pesquisadores viam a violência brutal ou letal entre membros da mesma espécie como uma aberração tipicamente humana. Estupro, assassinato, genocídio – todos eram pecados inventados pelo Homo sapiens. Alguns antropólogos iam mais longe e tendiam a enxergar a maior parte das sociedades primitivas como fundamentalmente pacíficas – se você já ouviu falar do chamado “bom selvagem”, tem pelo menos uma idéia do que estou falando.

Para essa linha de pensamento (desenvolvida por Konrad Lorenz, austríaco pioneiro dos estudos do comportamento animal) foi a escalada tecnológica humana – que nos deu espadas de aço no lugar de tacapes, e espingardas no lugar de espadas – que teria permitido, pela primeira vez, matar em massa. Além da praticidade que proporcionam ao objetivo assassino, as armas tecnológicas teriam ajudado as pessoas a se desconectar emocionalmente do ato de matar, tornando-o, em outras palavras, relativamente banal.

As idéias sobre a questão começaram a mudar conforme se multiplicavam os estudos de espécies altamente sociáveis e inteligentes – principalmente mamíferos, como nós – em seu ambiente natural, longe do laboratório. Para não cansar o leitor com uma série interminável de bichos, tomemos dois exemplos inegavelmente emblemáticos: golfinhos e chimpanzés.

Esqueça a imagem de anjos dos mares dos golfinhos: gangues de “adolescentes” desse cetáceo já foram flagradas forçando uma única fêmea a copular com todos eles, um a um. Os golfinhos parecem cometer infanticídio com freqüência – uma ação que normalmente é interpretada como uma forma de impedir que a fêmea com bebês continue a dar atenção a eles e, assim, fique livre para ser engravidada pelo agressor, embora a interpretação ainda não esteja confirmada.

Finalmente, há registros de verdadeiros massacres praticados por golfinhos-nariz-de-garrafa contra toninhas (um tipo de mamífero marinho muito parecido com eles, embora menor e de focinho menos proeminente). Quem estudou o fenômeno tem dificuldades para não ver uma espécie de alegria assassina na forma como os golfinhos atacam as toninhas. Como elas são bichos pacíficos e não se alimentam da mesma dieta que eles (eliminando, portanto, uma possível hipótese de competição entre as espécies), a hecatombe ainda é um mistério.

Os relatos mais impressionantemente detalhados vêm, porém, do estudo de chimpanzés.
A primatóloga britânica Jane Goodall, que acompanha há décadas as comunidades da espécie em Gombe, na Tanzânia, foi testemunha de uma série de confrontos que poderiam ser descritos como linchamentos se os envolvidos não tivessem pêlos e usassem roupas.

No primeiro desses eventos, em janeiro de 1974, seis machos adultos, um macho adolescente e uma fêmea adulta de um grupo de chimpanzés, ao ouvir as vocalizações de um macho de outro grupo, dirigiram-se rápida e silenciosamente até o local de onde o som vinha e surpreenderam Godi, o tal macho. Ele tentou fugir, mas um dos machos do outro bando o derrubou no chão, sentou em cima da cabeça dele e segurou suas pernas, enquanto os demais passaram dez minutos a bater nele e a mordê-lo. Os atacantes, então, jogaram uma pedra em cima de Godi e foram embora.

O bicho, sangrando e muito ferido, ainda conseguiu se pôr de pé e sair dali, mas aquela foi a última vez que Goodall o viu – o chimpanzé, muito provavelmente, morreu daqueles ferimentos. Ao longo de três anos, mais emboscadas desse tipo se sucederam em Gombe, até que o bando atacante simplesmente anexou o território (e os poucos membros restantes) do bando vizinho.

Situações parecidas, embora não idênticas, foram testemunhadas envolvendo outros mamíferos sociais, como lobos, hienas e leões. Os dados oriundos dos chimpanzés, no entanto, pareciam especialmente perturbadores porque nenhuma espécie viva é mais próxima de nós do que eles. Muitos pesquisadores costumam assumir que a melhor maneira de visualizar o passado evolutivo remoto da humanidade é usar os chimpanzés como modelo.

O antropólogo americano Richard Wrangham chegou mesmo a forjar a hipótese do “macho demoníaco”: a predisposição para a violência letal como arma de dominação ou afirmação social entre os machos humanos seria uma característica evolutiva que compartilhamos com os chimpanzés – parte integrante da natureza humana, que precisamos manter cuidadosamente em xeque.

Ela explicaria também, entre outras coisas, porque temos essa facilidade de desumanizar violentamente nossos rivais quando nos convém. (Desse ponto de vista, não seria estranho que Cho demonizasse seus supostos opressores na universidade, transpirando de ódio contra os “garotos ricos” que o “forçaram a fazer isso”.) A longa história de genocídios de nossa espécie – registrada em todos os tipos de sociedade, de caçadores-coletores a impérios industriais – traria uma confirmação adicional de tais idéias.

A história, no entanto, não termina aí. A própria Jane Goodall reconheceu um padrão suspeito nos acontecimentos de Gombe: a disputa violenta entre os bichos teria começado depois que ela passou a distribuir bananas como forma de facilitar suas observações da espécie. Uma dupla de antropólogos americanos, Donna Hart e Robert Sussman, vai além. Eles dizem acreditar que a introdução de um novo recurso, abundante e centralizado, na comunidade de Gombe acabou desestabilizando a sociedade de chimpanzés, levando a confrontos em torno do controle desse recurso e levando os bichos a formar coalizões violentas para enfrentar seus rivais.

Hart e Sussman também lançam dúvidas sobre observações feitas em outros lugares da África, as quais confirmariam o padrão assassino visto em Gombe. Eles argumentam que nenhum pesquisador fora da Tanzânia testemunhou diretamente a violência fratricida entre chimpanzés – eles estariam apenas interpretando o desaparecimento de membros de certos grupos, ocorridos na fronteira do território com outro bando, como sinal de “morte por linchamento”. Trocando em miúdos, estariam vendo a situação com os “óculos” errados.

É difícil dizer como a discussão vai se desenrolar – observações desse tipo exigem anos de paciência, e mesmo cientistas experientes não estão imunes a se apaixonar pelos próprios preconceitos.

De qualquer maneira, não me parece exagero dizer que temos algumas lições preciosas aí. Para começar, que inteligência e complexidade são, às vezes, um anteparo frágil contra a barbárie. Se a atitude dos golfinhos em relação às toninhas é mesmo tão sem motivo quanto parece ser, talvez o preço de uma mente inteligente seja que, em certos casos, o equilíbrio delicado que a mantém funcionando se esfacele. Esse, até prova em contrário, parece ser o caso do jovem coreano.

Em segundo lugar, para aqueles de nós que se acreditam normais, o caso dos chimpanzés de Gombe é um aviso duplo. Pode ser que a violência assassina seja parte da nossa bagagem como espécie: por maior que seja o nosso orgulho “sapiente”, nada do que sabemos nos coloca necessariamente acima disso. Por outro lado, as circunstâncias às quais estamos sujeitos como indivíduos – as bananas pelas quais nos engalfinhamos, pode-se dizer – também parecem ser cruciais. Olhar para dentro de nós mesmos e ao nosso redor; reconhecer a dupla tentação; e, com nova clareza mental, aprender a resistir: não há outro remédio se não quisermos repetir as histórias de tragédia que tanto tememos.

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