IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 24/4/2007
 

Dignidade e cidadania para portadores de deficiência

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Dignidade e cidadania para portadores de deficiência

Nádia Melo, jornalista redatora do Jornal Avante e da revista Fé & Nexo, ambos da Igreja Metodista da I Região Eclesiástica e membro da Igreja metodista de Vila Isabel

“E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais, mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” ( Jo 9.1-3) Há muito Jesus já tirava o peso da deficiência e ensinava que era possível ver a glória de Deus mesmo em condições mais limitadas. Viver dignamente apesar de nossas imperfeições é expressar o grande amor de Deus. Embora tenha apontado para uma vida de qualidade apesar das circunstâncias, para que soubessem que o Senhor tem poder, o Pai concedeu a cura àquele homem cego.

Crescemos aprendendo a lidar com nossas limitações e somos incentivados pela família e a sociedade a superá-las. No entanto, nem sempre é assim com os que nascem ou se tornam portadores de algum tipo de deficiência. A sociedade é receptiva a todos os indivíduos, mesmo sabendo que eles possuem suas limitações pessoais. O problema surge quando esses limites humanos estão expostos, tornando-se evidente na aparência física de alguém, por exemplo.

Há muitos anos o portador de deficiência era geralmente escondido da sociedade, muitas vezes até pela própria família. Mais tarde, a sociedade começa a dizer sim para ele, aceitando-o desde que conseguisse se ajustar aos padrões da normalidade social. Ou seja, o surdo precisava falar e ser muito bem oralizado para aprender, para conviver com os demais; do cadeirante, com a modernidade e os recursos fisioterapêuticos, era esperado que pudesse aos poucos caminhar, ainda que depois de longos anos conseguisse apenas dar um passo. Atualmente há uma inversão desse pensamento e está cada vez mais claro que é a sociedade que tem de estar preparada e se ajustar para atender o portador de deficiência, adequando-se às suas diferenças, oferecendo-lhe melhor qualidade de vida e dando condições de ser plenamente integrado e feliz.

Muitas conquistas têm sido possíveis através dos esforços constantes das entidades representativas e ONGs ligadas às mais diferentes áreas de deficiência. No entanto, ainda é necessária muita luta para uma sociedade justa e mais consciente da importância da participação das pessoas com necessidades especiais.
Os resultados de censo recente no Brasil mostram que, aproximadamente, 25 milhões de pessoas, ou 14,5% da população total, apresentaram algum tipo de incapacidade ou deficiência. São pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental. Entre 16,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual, quase 150 mil se declararam cegos. Já entre os 5,7 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência auditiva, um pouco menos de 170 mil se declararam surdos. “Quando se trata da inserção de pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho, verifica-se uma proporção de pessoas ocupadas menor neste grupo que no das pessoas sem nenhuma das deficiências investigadas. Dos 65,6 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade que compõem a população ocupada no país, 9 milhões são portadoras de alguma das deficiências pesquisadas (...) Em relação à instrução, as diferenças são marcantes: 32,9% da população sem instrução ou com menos de três anos de estudo é portadora de deficiência. As proporções de portadores de deficiência caem quando aumenta o nível de instrução, chegando a 10% de portadores de deficiência entre as pessoas com mais de 11 anos de estudo”.

É grave e lamentável observar que os portadores de deficiência em nosso país ainda se encontram tão à margem da sociedade. Na área da surdez, os avanços obtidos com a oficialização da Língua Brasileira de Sinais (Libras) em 2002 e, no ano passado, com a sua regulamentação, enchem os surdos brasileiros de esperança. Com essa conquista, aumenta expressivamente, por exemplo, o acesso do surdo à Educação. Isso porque o resultado das novas legislações garantem na prática o ensino por meio da Libras. A novidade certamente trará resultados de pesquisas que apontarão num futuro próximo um número maior de surdos se formando, cursando universidades e sujeitos mais ativos em nossa sociedade. Mas o processo é lento. Embora o reconhecimento da Língua pelo Ministério de Educação e pelo Governo Lula tenha significado avanço importante para a qualidade de vida da pessoa surda, ainda há muito caminho a percorrer até que a sociedade em todos os níveis possa conceber uma nova visão a respeito da importância da Língua de Sinais para a plena integração dos surdos.

Mas o fim das barreiras, através do subsídio de políticas e ações dos setores público e privado e da sociedade civil voltadas para a pessoa com deficiência, aos poucos começa a ser uma realidade. Apesar dos estigmas, que fizeram da história dos portadores de deficiências uma história de preconceitos, omissão e opressão, e das estatísticas, que ainda refletem esse passado, parece que hoje começamos a nos voltar para a sua verdadeira integração nas áreas de saúde, educação, acessibilidade e trabalho. Muitas ações complementares para o desenvolvimento desse segmento têm sido pensadas de forma mais efetiva e com respeito às suas diferenças. Isso graças à força do próprio grupo, que, mobilizado e organizado em associações, federações e outras organizações representativas, levou adiante a luta por seu direito à vida.

No campo educacional, todo esse processo de inclusão defendido pelo MEC e tão debatido hoje não deixa de ser um sinal dessa nova visão, que envolve maior aceitação e valorização da pessoa portadora de deficiência. Mas se não for bem acompanhado por aqueles que vivem a própria problemática e corrigido em seus diversos encaminhamentos, o processo tende a ser um novo fracasso. Para que esse grupo seja verdadeiramente incluído no ensino, é necessário que tenha suas necessidades especiais supridas. Caso contrário, segundo a Declaração de Salamanca, que foi um marco nas discussões sobre o processo de inclusão em todo o mundo, o melhor para o seu desenvolvimento é que seja mantido em classe especial. O que pode ser avanço, num piscar de olhos, pode significar também retrocesso. É preciso vigiar e participar.
Todos nós que possuímos compromisso com a Justiça e o Reino de Deus devemos nos preocupar também com os direitos dos indivíduos com deficiência e caminhar com eles rumo à igualdade de condições e oportunidades. Mas onde estamos nessa jornada?


A Bíblia e a deficiência

O Novo Testamento é marcado por várias passagens envolvendo pessoas com deficiência (Mt.9.1; Mt 9.27; Mt 12.9; Lc 5.17; Jo 9.1). Embora Jesus efetivamente tenha curado em cada uma delas, nem sempre essa foi a mensagem central dos textos. Apesar das curas, as passagens bíblicas mostraram que a importância do perdão de Deus, da vida com dignidade, da fé, do bem ao próximo estava acima da condição da deficiência e das circunstâncias em que se encontravam. Mesmo com toda a herança do Antigo Testamento, que embutia nessas pessoas a idéia do pecado e da possessão, Jesus, ao direcionar seu olhar para elas, concedia-lhes igualdade antes mesmo de curá-las. É notório o cuidado e a preocupação de Jesus com os que sofriam por causa da deficiência.

Poucas são as igrejas cristãs que possuem um envolvimento sério com essa questão. Sabemos que, em âmbito local, algumas metodistas têm construído rampas e colocado elevadores, cumprindo a Lei de acessibilidade e facilitando a participação de membros que possuem deficiência física e idosos. Mas desconheço na Igreja Metodista um ministério que tenha a função de olhar para a pessoa com deficiência, evangelizando, expressando o seu amor e somando forças na sua luta pelas mais diversas causas. Quantos são os membros portadores de necessidades especiais de nossas igrejas? Temos lideranças, pastores e pastoras com deficiência? Creio que, como Igreja a serviço do povo, é necessário estarmos engajados também nesse movimento, colaborando ao lado de outros organismos com ações concretas para a integração desse grupo.


A vida nos pequenos olhares

Penso que cabe ainda aqui uma rápida ilustração. Um menino que devia ter em torno de 7 anos de idade e viajava ao meu lado no metrô não tinha os dois braços. Apesar disso, não expressava nenhum sinal de tristeza. Não ter os dois braços parecia não incomodá-lo e ser quase nada diante da sua espontaneidade. Bem perto da mãe, que carregava o seu irmão ao colo, era ele que prestava atenção nas estações, controlando o tempo de viagem e o momento de descer com a família.

Em determinado momento, entrou um homem idoso e o menino mais do que depressa se levantou e ofereceu o seu lugar. Bastante constrangido ao perceber o menino sem os braços, o senhor tentou recusar, dizendo que não era preciso. Mas a criança fez questão e ficou de pé dando um jeitinho de se apoiar em uma das barras do metro. A mãe sorriu num sinal de aprovação e apoio ao filho.

Fiquei surpresa de ver como aquela criança era tão bem educada, segura e feliz sem os braços. Ele era totalmente integrado, ciente de seus deveres e de que sua participação fazia diferença naquele lugar. Ele ali foi destacado pelas suas capacidade e atitudes, e não pela deficiência aparente.

Depois que desceram, os que observaram a situação comentavam o desprendimento do menor. E o senhor encerrou o assunto, com a seguinte frase: “ O que faz a diferença nesta criança é o amor da mãe, ele é amado”. Não houve quem discordasse.

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