IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 4/5/2007
 

Igreja, ame-a ou deixe-a! (Sérgio Duarte)

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Igreja, ame-a ou deixe-a!
Sergio Duarte

Prepara-te para encontrar-te com o teu Deus. Am 4,12
Eis que vem, ... quem poderá suportar o dia da sua vinda? Ml 3,1b-2a

A despeito de toda mensagem de perdão incondicional e amor irrestrito contida na Bíblia, existe uma inquestionável responsabilidade do crente em Jesus Cristo em relação ao seu evangelho. Seguramente, com um tom diferente das mensagens dos profetas do VI século, quando o propósito era claramente fazer ameaças, o Novo Testamento trás consigo advertências que são mais que suficientes para colocar-nos em alerta máximo. É bem sabido que não estamos vivendo o perigo de invasão estrangeira e nem corremos risco de genocídio como era a situação da época dos profetas. Mas se tais perigos não existem, o progresso da injustiça, a manipulação da palavra de Deus e o descaso com a sua vontade soberana, que foram as causas da degradação do povo de Israel, são hoje, para sermos otimistas, são tão reais e iminentes como aquelas que nossos irmãos profetas denunciaram. Não estamos sendo invadidos por potências estrangeiras ou por exércitos de mercenários, sofremos invasões muito mais sutis e refinadas, o que não impede de causarem devastação de semelhante magnitude.

Não podemos fazer comparações com gerações de cristãos anteriores à nossa, mas é certo que muitos de nós estão simplesmente eufóricos em viver esta expectativa de um fim dos tempos próximo, contudo, glorioso para si e trágico para os demais. Não é só isso, estão concluindo este desfecho baseados exclusivamente em leituras superficiais de eventos cósmicos e incontáveis achismos bíblicos. Com relação aos textos citados acima, responderiam com convicção a Amós: “Estamos preparados”, e a Malaquias: “Deixe que venha”. Mas será que o reino pode mesmo vir por que já estamos prontos? Sei que eu não estou. Quando confronto a minha vida com os padrões exigidos pelas parábolas de Jesus a cerca do Reino, mal posso calcular a distância que me separa deles. Nem digo a respeito da busca da perfeição cristã, mas de coisas bem mais simples como: andar a segunda milha, ser ingênuo como uma criança, amar ao inimigo e ser mais justo que um fariseu. Podemos tranquilamente nos orgulhar de conhecer a maioria dos louvores cantados nas rádios ou de recitar de cor metade dos versículos bíblicos ou mesmo de encantar multidões com testemunhos tocantes e triunfalistas. Mas isso é estar pronto para encontrar-se com Deus? Podemos dar aulas dos assuntos mais intrincados da educação cristã e formularmos os sermões mais inspirados e desafiadores, mas isso basta para encarar Deus frente à frente? Podemos discorrer sobre fé e graça com a mesma desenvoltura de um Paulo, mas seria próprio dizer como ele que estamos combatendo o bom combate?

Eu sei que Deus nos perdoa, essa é a nossa única esperança. Porque se Deus não é amor e se ele não nos perdoa, estamos perdidos agora e para sempre. Mas sei também que este perdão não é tão fácil e tão simples como se pode pensar. A graça de Deus é de graça mas não é barata não. Ela custa o inimaginável. Precisamos urgentemente saber qual é o valor desta graça, sob o severo risco de ficarmos nos iludindo debaixo de falsas premissas da graça. Eu jamais poderei entender o significado da graça de Deus em minha vida se eu não souber medir a extensão do meu pecado. Jamais poderei ser atingido pela graça se não me conscientizar do mal que estou causando aos outros. O perdão está ao alcance de todos, mas como posso ser perdoado se não sei nem do quê? Precisamos apreciar a graça de Deus muito antes de nos empenharmos em cálculos apocalípticos e muito antes de experimentarmos as vestes brancas da salvação. A primeira questão é essa: será que temos apreciado suficientemente a graça de Deus?

Amós e Malaquias não possuíam o entendimento sobre a graça como Paulo, o apóstolo, mas mesmo assim não conceberam qualquer outra possibilidade da salvação para o povo que não fosse o arrependimento e conversão imediatos. Eles estavam seguros que somente em Deus se acharia salvação para o povo, uma vez que a salvação individual enfatizada hoje era, sequer, cogitada. Nas entrelinhas das mensagens proféticas podemos sentir as suas agonias, pois sabiam que se não fossem ouvidos sofreriam desolações juntamente com o seu povo. Por certo, seus lamentos não eram por si mesmos e sim pelo povo a que tanto amavam.

O governo militar brasileiro da época de 1960 criou um slogan nacionalista que dizia:”Brasil, ame-o ou deixe-o !”. Este slogan é bastante copiado por muitas igrejas cristãs e é o preferido de muitos pastores. O que mais se ouve é: quem não está satisfeito com sua igreja deve mais é procurar outra. Foi exatamente o Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: “Fora daqui, seu profeta! Volte para a sua terra de Judá e ganhe a vida por lá com as suas profecias”. É curioso como Deus age por caminhos bastante estranhos ao nosso entendimento. Ele inspirou a mente de alguns humoristas que profeticamente faziam oposição ao governo e eles mudaram radicalmente o sentido da frase com apenas um pequeno acréscimo: Brasil, ame-o ou deixe-o como está.

Não consigo imaginar uma mensagem tão atual para a Igreja quanto esta: Igreja, ame-a ou deixe-a como está. Não foi justamente esta voz que Amós e outros profetas ouviram? Não foi o amor pelo seu povo que os moveu a confrontar, apenas com a Palavra de Deus, as autoridades políticas e religiosas de seu tempo com o risco da própria vida? Eles não se dobraram ao lógico, não fizeram o recomendável que era tão somente deixar o povo morrer na sua injustiça e simplesmente mudar de país. Optaram por se empenhar em não deixar passar em branco. Não se conformaram em deixar o povo como estava, iludidos que os cultos que prestavam na sua iniqüidade e louvores oriundos da corrupção poderiam subornar a Deus para garantir-lhes a salvação. Esta é a segunda questão: Quem poderá suportar o dia da sua vinda?

Eu sei que nada do que façamos ou imaginemos é suficiente para nos preparar para o inevitável encontro com o nosso Deus. Apreciar a sua graça e não se conformar com a nossa maneira de ser igreja, pode, quando muito, nos tirar do atoleiro e da inanição. Como disse o poeta Rev. Antônio de Campos Gonçalves no precioso hino (H.E. 92):

“Esforços da terra, precário destino,
Empenho dos homens, riqueza, o que for,
Não valem a bênção do reino divino:
Por isso eu preciso de ti, meu Senhor”.

O restante vem por conta do amor que Deus incansavelmente dedica à sua igreja e ao seu povo. Mas uma Igreja que existiu num breve passado deixou a sua marca e provou com resultados o quanto o esforço humano é capaz de caminhar na direção do Reino de Deus.
Uma Igreja onde se cantava aqueles hinos que têm o começo eufórico mas que, nas entrelinhas dos seus versos, encontrávamos palavras que não conseguíamos pronunciar, posto que nos obrigavam a engolir em seco, diante da verdade divina que afrontava a nossa realidade pecaminosa.

Uma Igreja que tinha um professor de Escola Dominical que nos desafiava com temas que julgávamos não ser pertinentes, mas cujas conclusões nos faziam chutar o balde e sair dali com a promessa nunca cumprida de jamais voltarmos.

Uma Igreja cujo pregador somente se citava como exemplo, quando era para confessar o seu pecado e a sua falha, mas cujas mensagens simples faziam tremer os mais firmes alicerces das nossas convicções políticas, sociais e tecnológicas.

Uma Igreja em que um irmão sofrido dava o testemunho de que havia perdido seu único filho, arrimo de família; perdido seu emprego, por ser velho demais; perdido sua saúde, por não ter como pagar consultas médicas mas que, apesar de tudo, não perdera a sua fé. Esta é a terceira questão: Deixar como está ou se empenhar em mudar?

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