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Rio, 7/5/2007
 

Reino de Deus, Evangelização e Crescimento Numérico (Júlio de Santa Ana)

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REINO DE DEUS, EVANGELIZAÇÃO E CRESCIMENTO NUMÉRICO (1)

A tarefa de construir o Reino, inaugurado por Jesus, consiste em participar naquele processo pelo qual nos aproximamos "à hora escatológica (final e terminal) de Deus, à vitória de Deus, na qual a consumação do mundo está próxima, e, por certo, bem próxima" (2). Essa consumação do mundo exige o triunfo da justiça de Deus, que é motivo de alegria para os pobres. Evangelizar significa, pois, por um lado, o anúncio dessa mensagem que enche de gozo os humildes. E, por outro lado, esta tarefa exige a participação na luta histórica em favor desta justiça. Quando isto ocorre, então o dilema está resolvido: a pastoral está formulada com o povo, do lado deste.

O próximo passo só pode ser encarado se o primeiro é superado, segundo a proposição que acabamos de fazer. Se isto ocorre, então tem que se enfrentar o segundo dilema estreitamente ligado ao anterior. É possível questioná-lo nos seguintes termos: "como superar o sentimento de minoria, de gueto, que ainda caracteriza a consciência da maioria das comunidades evangélicas na América Latina, que as leva, por um lado, a um exercício do proselitismo, a sua vez, que, por outro lado, as conduz a retrair-se de participar no processo sócio-político da América Latina?"

Esta questão está relacionada com a anterior. Seus termos são semelhantes, mas há também elementos que necessitam ser aclarados antes de propor a superação do dilema. Este se coloca entre seguir mantendo esta atitude ambígua, que combina a agressividade proselitista (um suposto "evangelismo") com o desejo de não contaminar a pureza da fé, porque se toma partido explícito frente a questões políticas e sociais que incidem sobre a vida do povo, ou de assumir de uma vez por todas a responsabilidade social própria que corresponde à comunidade cristã.

No ponto anterior, referimo-nos ao afã que existe entre os evangélicos por fazer crescer, numericamente, nossas comunidades. Nada há de mal nisto, se isso vai acompanhado por um exercício evangelizador que não se orienta só para convencer a uma audiência, mas também a procurar fazer com que as estruturas sócio-econômicas expressem mais cabalmente a fraternidade e justiça que caracterizam o Reino de Deus, do qual os pobres são cidadãos legítimos, segundo a expressão de Jesus. Este afã, esta preocupação, põe em evidência que os evangélicos sentem como algo negativo serem minoritários na América Latina. Por isso mesmo, experimentamos a necessidade quase vital de transformarmos nossas igrejas em poderosos movimentos de massas. Para isso, tendem as campanhas de "evangelismos", a esforços para convencer a outros da superioridade evangélica, ao testemunho individual, uma existência orientada para o êxito e que não pode reconhecer fracassos etc.: são meios que procuram persuadir e impressionar aqueles que não compartilham nossa fé de que é bom e necessário tornarem-se membros de nossas igrejas.

O problema não se coloca porque se fazem algumas destas coisas, mas porque as mesmas não são acompanhadas de seu complemento imprescindível: não basta induzir nossos próximos a que venham às nossas igrejas. Ao mesmo tempo em que nos esforçamos para que isso ocorra, devemos também compreender que a graça redentora de Deus não se limita ao "coração do ser humano", mas que deve tocar outras esferas da vida humana: as de caráter estrutural.

Pregar o Evangelho é dar a alegre nova de que Deus ama aqueles aos quais os poderes do mundo já não têm mais cuidado. É anunciar o amor de Deus e praticar o amor fraternal não só através das relações pessoais, mas também procurando com que as estruturas e instituições que enquadram essas relações sejam mais propícias à manifestação desse amor. Como o demonstrava há mais de vinte anos, por ocasião da Primeira Consulta Latino Americana de Igreja e Sociedade, o professor José Miguez Bonino: "Este amor, no mais, pratica-se em meio às condições deste mundo. Se não, há de ser um amor abstrato e irreal — e em tal caso não é o amor de Cristo — deve realizar-se em meio às estruturas deste mundo e por meio delas. O próximo não é uma "alma desencarnada" (tal coisa é totalmente alheia à Escritura), mas um homem concreto: um súdito de um país, um operário ou um comerciante, ou um intelectual ou um negro, ou um amarelo, ou um branco, um homem com necessidades humanas de ordem econômica, intelectual, social, engajado na sua luta pela liberdade, pela justiça, pela dignidade ou pelo direito. Não é possível amá-lo fazendo abstração dessas condições, sem participar nelas. Esta é a sorte do amor. Um amor que não está disposto a arriscar essa participação não é o amor de Cristo" (3).

Essa maneira de compartilhar o amor de Deus é evangelizar. É diferente de fazer proselitismo. Leva em si um risco evidente: participar em situações ambíguas, onde não é possível deixar de ter contato com a corrupção e o pecado. Neste âmbito, é impossível pretender ter posições puras. No mundo em que vivemos, pelo qual transitamos para o Reino, negar-se a unir forças com outros ou fazer compromissos, é negar-se a amar. A natureza do Reino se manifesta no meio deste mundo.É o novo que irrompe entre o velho. Nesta maneira de atuar, o cristão "leva as cargas dos demais" (além das suas próprias). Quando isto se produz, o gueto está superado. Sua atitude já não é tão defensiva, mas se integra ao movimento transformador do Espírito no mundo, que, como o disse José Comblin, toma o ponto de vista dos pobres do mundo. "Em vez de adotar o ponto de vista de uma ciência, ou das ciências humanas, coloca-se no ponto de vista daqueles que não têm ciência" (4).

Sobre este particular, urge que a consciência evangélica latino-americana supere esta percepção individualista da realidade. É, possivelmente, parte da herança que recebeu (5). Essa herança, como dizíamos previamente, aliena, muitas vezes, o movimento evangélico do povo latino-americano. Enquanto isso ocorre, a evangelização que se realiza alcança o indivíduo, mas não a sociedade. Resolver o dilema nos termos que propomos é adotar uma perspectiva mais global e integrada, sem a qual não é possível romper os muros que mantêm a comunidade evangélica dentro de seu gueto.


NOTAS
1. Esse texto é parte do Capítulo V, Caminhos à Frente — Trilhas a Traçar — Dilemas e Oportunidades, do livro Pelas Trilhas do Mundo, a caminho do Reino, de Julio de Santa Ana, publicado em 1985 pela Imprensa Metodista e Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, e pode ser lido e copiado gratuitamente no site www.biblioteca.metodista.org.br.

2. Joaquim Jeremias, O Pai-Nosso, A Oração do Senhor, São Paulo, Ed. Paulinas; 1976, p. 126.

3. José Miguez Bonino, Fundamentos Bíblicos e Teológicos de la Responsabilidad social de la Iglesia, in Encuentro y Desafio, informe da Consulta Latino Americana de Iglesia y Sociedad. Huampaní, Perú, 1961, p. 24.

4. José Comblin, O Tempo da Ação — Ensaio sobre o Espírito ea História, Petrópolis, Ed. Vozes. 1982, p. 73.

5. José Miguez Bonino, em outro trabalho seu: Metodismo: Releitura Latino-americana. Piracicaba: UNIMEP; Faculdade de Teologia da Igreja Metodista do Brasil. 1982, pp. 8-11, ressalta que João Wesley nunca chegou a perceber a dimensão estrutural dos problemas sociais: "seria absurdo culpar a Wesley desta falha", assinala Miguez. Mas, havendo tomado consciência dela, cabe superá-la e corrigi-la.

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