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Mulher
Rio, 11/5/2007
 

Edna Ezequiel, me de Alana, a menina morta por bala perdida no Rio (Rute Noemi)

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À MÃE DE ALANA

A dor é visível e absoluta. A foto no jornal não deixa dúvida.

A mãe de Alana sofre, só, a morte da filha, apesar dos outros cinco filhos que ficaram para ela sustentar.

Por que a vida é tão cruel?

“Onde foi que eu errei?” Deve se perguntar. “Por que tanta tragédia e sofrimento de uma vez só?

Logo ela, a filha mais velha, companheira de luta na dureza do trabalho realizado cotidianamente e que mesmo assim não garante o pão.

Tantas bocas para alimentar, tantos desejos para administrar... Alana, 13 anos, era a parceira na caminhada cheia de pedras e cruzes que precisa ser trilhada.

Uma bala atravessou o caminho de Alana. Uma bala. Quantas balas, caramelos e doces deve ter desejado Alana? Mas, exatamente, aquela fria, dura e mortal, que deixa gosto de sangue no peito, se ofereceu de forma invasiva e definitiva na vida de Alana.

Sua mãe não tem nome. È a “mãe de Alana”. Nome, pra ela, não importa. Afinal, a mídia perversa se alimenta de mães de Alana. Mulheres pobres, marginalizadas, selecionadas pela sociedade para ser escória, para ser nada, para ser um rosto cheio de dor na foto, mas sem nome.

Onde está o pai de Alana? Onde está aquele que também deveria chorar a morte da filha? Onde está aquele que deveria alimentar, com sua parceira, os tantos filhos que fez? Já terá morrido? Terá outros filhos com outra mulher, também sem nome?

A mãe de Alana parece destinada ao sofrimento. Nem passou a dor pela morte da filha e seu irmão, 25 anos, trabalhador, pai de 7 filhos, ao voltar da maternidade para ver a companheira e conhecer a filha recém- nascida, é confundido com um traficante por causa da mochila que carregava e morreu covardemente assassinado. Em sua mochila carregava maçãs...

Agora, a mãe de Alana tem mais sete filhos, além dos cinco que pariu, para criar, consolar e alimentar.

Sonhos? Pergunta o repórter inoportunamente. “Moço, quem mora no morro não tem sonho”, responde a mulher atormentada e perdida entre tanta dor.

Quem vai socorrer a mãe de Alana? Quem vai consolá-la? Quem vai caminhar com ela essa estrada obstaculizada pela dor e desesperança?

Será destino? Que destino que nada! É a injustiça, a concentração de renda, a corrupção, o poder da indústria armamentista e o sistema capitalista vil, que deixaram a mãe de Alana sem sonhos.

É a discriminação, o estigma da pobreza que criminaliza os pobres, é a marginalização que deixa a mãe de Alana a balançar seu corpo freneticamente, para frente e para trás, numa atitude típica de quem está fora de seu eixo em função da dor, do trauma sofrido.
Quantas Alanas ainda morrerão? Quantas mães de Alanas chorarão suas perdas e suas dores, agrandadas pela miséria, violência e desesperança?

Quem aceita socorrer a mãe de Alana? Que juiz ou desembargador aceita doar para ela um só maço dos muitos dólares guardados a sete chaves, arrecadados na corrupção?
Que governador aceita governar de fato, não como se ainda estivesse em campanha eleitoral, para estabelecer políticas públicas que atendam, efetivamente, as necessidades mais elementares do povo lesado pelas (in)diferenças sociais?
Cesta básica? Cheque cidadão? Vale gás? E a vida de Alana? E a mãe da Alana? Vale? Vale pra quem, vale o quê? Mulher, preta, favelada e só. Nem sua beleza ajuda, não vale nada.

Quantas mulheres nesse momento não choram suas dores? Quantas perderam seus filhos? Quantas estarão sofrendo violência física, sexual ou psicológica, praticada por seus maridos, companheiros ou patrões? Quantas estarão esvaziadas de seus sonhos como a mãe da Alana?

Edna. Edna Ezequiel. Esse é o nome da mãe de Alana.

Edna, sua dor também é minha. Não sei o que é perder um filho, mas choro com você, choro ao ver sua foto nos jornais.

Sabe, eu tenho muitos sonhos e desejos. O mais forte, agora, é encontrá-la, abraçar você e lhe dizer que você pode contar comigo. Vamos lutar juntas para que a injustiça acabe e que a sua dignidade seja reencontrada mesmo com tanta tristeza e perda.

Também não tenho dado conta de muitas coisas, mas sei que, se a gente se unir, a caminhada pode ficar menos pesada e a gente pode transformar a nossa cruz em asa delta, para voarmos vôos prazerosos e plenos de esperança.

Ofereço a você minha solidariedade de mulher só, que sustenta um lar e cria filho com muita luta, sem ter com quem dividir tamanho peso.

Mas o que é a minha luta diante da sua? O que é a minha dor diante da sua dor? Fico envergonhada de sugerir que sofro, que tenho dificuldades as mais diversas, diante da sua realidade, diante do seu penar.

Por isso, conte comigo!! No que depender de mim, vou continuar incomodando, protestando, denunciando e continuar lutando por um mundo melhor para nós, mulheres, que ainda sofremos discriminação, que ainda recebemos salário inferior ao do homem, mesmo fazendo trabalho igual; que ainda somos coisificadas e exploradas porque somos mulheres.

Meu abraço, meu choro junto com o seu; desejo-lhe força, fé e esperança nessa sua caminhada. Junte todos os caquinhos espalhados e faça um belo vitral. E não se esqueça, aconteça o que acontecer, Deus é com você, por mais paradoxal que seja.

Sua companheira de luta, Rute Noemi.

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