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Mulher
Rio, 17/5/2007
 

A estranha mania de ter fé na vida

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A estranha mania de ter fé na vida

Marcos 15. 33-41.

Como boa jornalista que penso que sou, sempre que preparo um texto deixo o título para o final. E ao refazer o caminho da mensagem para a escolha do título, veio à minha memória o trecho da poesia de Milton Nascimento, “Maria, Maria”, que diz: “Mas é preciso ter força, é preciso ter garra, é preciso ter gana sempre. Quem traz na pele esta marca possui a estranha mania de ter fé na vida...”

Ter fé na vida! A estranha mania de ter fé na vida... Este é o título desta mensagem. Sabem por que? Por que nesta oportunidade em que lembramos o Dia Internacional da Mulher fui inspirada a refletir sobre a passagem de Marcos que acabamos de ler que fala das mulheres – “muitas mulheres” – que permaneceram no cenário terrível da crucificação e da morte de Jesus.

Solidariedade e coragem são marcas da presença das mulheres no ministério de Jesus. Marcos fala que Jesus partiu da Galiléia para Jerusalém com um grupo que incluía mulheres. Isso quer dizer que as mulheres já seguiam Jesus desde a Galiléia. Quando ele vai para Jerusalém, ele sabia que estava se arriscando ao se dirigir para um confronto com as autoridades judaicas e com o poder romano que estava na capital. Mas para ser fiel ao seu ministério, ele tinha que ir até lá. E vai com ele o seu grupo e no meio dele muitas mulheres...

Mas vamos nos deter no relato de Marcos: lá perto da cruz estavam muitas mulheres. Três nos são apresentadas pelo nome, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José e Salomé, que acompanhavam Jesus quando ele estava na Galiléia e o serviam. E além destas estavam também muitas outras, anônimas, que tinham ido com ele para Jerusalém.

Numa sociedade em que a mulher ideal era aquela que casava, tinha filhos, administrava a casa, e se calava, para mulheres, decidirem seguir Jesus, era uma decisão nada fácil – certamente eram mulheres sem homens, que decidiram não cumprir as regras que lhes estavam destinadas naquele tempo e naquele lugar.

Essas mulheres, acompanhavam Jesus e o serviam. As pessoas que seguiam Jesus eram pobres e andavam com ele de aldeia em aldeia para espalhar esperança. Essas pessoas serviam o grupo das mais diversas formas – a alimentação, a organização, e as que tinham bens os ofereciam no serviço (cf. Lucas 8).

Esse acompanhamento levou o grupo de seguidores, incluindo as mulheres, a Jerusalém, mesmo com todo o risco que isto significava. O que se concretizou porque Jesus foi preso e crucificado pelos líderes políticos e religiosos. A crucificação servia para intimidar o povo e os seguidores de Jesus.

De acordo com as regras da época, quem seguisse um crucificado também corria perigo de vida. Quem mostrava simpatia para um crucificado e chorava sua morte era preso. A morte de um crucificado era para ser uma morte solitária.

Segundo relatos históricos, o crucificado devia ficar pendurado na cruz até que o cadáver fosse comido por bichos – esta tática era usada pelas autoridades para intimidar o povo. Uma parte do castigo era negar a realização de um enterro – o que era grande sofrimento para familiares pois os soldados vigiavam para impedir que roubassem os corpos. Quem enterrasse um cadáver crucificado era castigado. O luto também era proibido. Há relatos de que até pessoas que choravam a morte de um crucificado eram crucificadas como castigo.

Para as pessoas que seguiam Jesus essa ameaça era mais perigosa ainda porque a execução que ele recebeu era a de um criminoso político. A tentativa de enterrar, chorar ou qualquer outro comportamento que identificasse alguém como sendo do grupo de Jesus era ato de solidariedade perigoso. Poderia acabar em crucificação.

É nesse contexto que temos que entender o comportamento dos discípulos. Quando Jesus foi preso todos os seus seguidores fugiram (Mc 14.50-52). E por isso Pedro negou Jesus. José de Arimatéia correu o risco de se solidarizar com um crucificado mas era pessoa influente e tratou com Pilatos o recolhimento do corpo.

Jesus foi crucificado sozinho. Os discípulos, cheios de medo, estavam escondidos. Mas o relato da crucificação termina com uma ponta de esperança. Fala da solidariedade das mulheres com Jesus (Mc 15.40-41). O texto diz que as mulheres olhavam de longe e assim assumiam grande risco. O verbo original utilizado no texto heyqoËsai [conjugação de theoreo] e traduzido como “olhar”, tem o sentido de fixar os olhos (a mente) em alguém, dirigir a atenção a algo, a fim de pegá-lo, ou devido ao interesse nele, ou responsabilidade para com ele. O “olhar de longe” das mulheres, no relato de Marcos, não é uma observação passiva mas um olhar fixo com a atenção em Jesus, com interesse no que estava acontecendo e revelando responsabilidade para com ele. As mulheres, seguidoras de Jesus, eram discípulas, e este seguimento significava, para elas, ir até o fim. Estar junto dele, sofrer o sofrimento de Jesus, assistindo à cena de horror que era a morte de cruz.

Quando o corpo é colocado no sepulcro, segundo Marcos, restavam duas mulheres (Marcos cita Maria Madalena e Maria, mãe de José). Elas não podem se arriscar tanto participando do enterro e heyqoËsai de longe.

Mas elas não desistem. Driblam as regras e vão até o túmulo – escondidas, de manhã muito cedo. Elas compram óleos aromáticos e vão ao sepulcro muito cedo – o quanto antes possível. Querem honrar o morto e testemunhar sua fidelidade. Claro! O corpo já estava no sepulcro há dois dias – não havia mais como ungí-lo... O que elas certamente queriam fazer seria perfumar o corpo – respingar umas gotas de óleo. Era um costume, segundo a história – atos de homenagem.

Os túmulos de opositores, executados politicamente, eram local de encontro de conspiradores. Portanto, ser encontradas no túmulo de Jesus também era um risco muito grande. A pergunta no versículo 3 do cap. 16 indica a dificuldade que elas vivem no momento subversivo, de grande risco – “quem vai rolar a pedra?” Eram mulheres afinal, e também não esperavam apoio de ninguém. O texto destaca a dificuldade mas ao mesmo tempo a persistência, a insistência de quem queria ir até o fim.

E esta insistência, lhes permitiu serem as primeiras a partilhar daquilo que seria o maior evento do Cristianismo, a sua razão de ser, a ressurreição. Se elas tivessem sido encontradas no sepulcro, isso iria custar a elas a própria vida. Mas o que elas experimentam é uma vitória sobre a morte. As mulheres, as que permaneceram até o fim, foram as primeiras a presenciarem a ressurreição (Mc 16.1). Apesar do medo, do temor, às mulheres foi feito o chamado para espalhar a notícia da ressurreição. E a figura principal do episódio, Maria Madalena, é ela que dá a notícia aos discípulos – que não acreditam nela (mas isto é uma outra história).

As mulheres não permitiram que morte tivesse o poder último. Elas poderiam ter permanecido em seus esconderijos, desiludidas, ter dito para si mesmas que se colocar contra a supremacia do judaísmo e do poder romano era algo vão, poderiam ter dito “Não valeu a pena”. Mas as mulheres não se entregaram facilmente. Driblaram o poder que negava toda solidariedade com um crucificado e permaneceram ao lado de Jesus – ainda que a certa distância, em preservação.

As mulheres presentes nos Evangelhos confirmam a afirmação do poeta de que possuem “força, raça, garra sempre...”; com isso, possuem “a estranha mania de ter fé na vida ...”

É no exemplo das mulheres que se configura, na cruz, o exemplo do discipulado que Deus espera – ir até o fim.

Neste Dia Internacional da Mulher lembrar esta história é lembrar que o testemunho das mulheres permanece. Como não relacionar a teimosia, a estranha mania de ter fé na vida, a ponto de colocar em risco a própria vida, ao que aconteceu há poucos dias com a irmã Dorothy Stang? A vida e a morte de Dorothy Stang é para nós o testemunho de uma cristã que optou por estar ao lado da vida, ainda em meio a ameaças, mas não desistiu.
Ela era conhecida como o "anjo da Transamazônica" pelos pequenos proprietários de terra e pelos trabalhadores sem-terra. Pelos grandes fazendeiros, era conhecida como “terrorista”.

Era uma senhora. 74 anos. Freira da Ordem de Notredame. 20 dos seus 74 anos trabalhou no interior do Pará. Em nome de sua fé no Deus da vida, a vida em abundância, defendia a terra para o trabalho e as causas ambientais, da preservação da terra para a vida.

Na semana anterior à sua morte, a missionária teve uma reunião com o secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e denunciou que quatro pessoas da região estavam recebendo ameaças de morte. Estava preocupada com a vida das pessoas. Na mesma ocasião, ela afirmou que fazendeiros e madeireiros invadiram uma área de Anapu.

Ela já tinha procurado a polícia anos antes e feito denúncias. Ela contou que um dos fazendeiros havia invadido os lotes 56 e 58 e avançava para o 60 no assentamento em quela trabalhava. E citou quatro pessoas que estariam agindo em conjunto "com mais cinco pistoleiros" para ameaçar famílias dos lotes 132 e 134. Dois irmãos de outro fazendeiro teriam invadido os lotes 14, 16 e 18 em abril de 2002. A irmã Dorothy também mencionou uma fazendeira que manteria "homens armados como vigias no intuito de afugentar e amedrontar as populações locais".

Por causa do seu testemunho de fé na vida, a irmã Dorothy recebeu em 2004 da Assembléia Legislativa do Estado o título de Cidadã do Pará. Em dezembro do ano passado, recebeu ainda o prêmio "José Carlos Castro" da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Estado e foi elogiada por parlamentares no Senado.

Ela sempre dizia que a violência fundiária, os crimes ambientais e a grilagem de terras na região estavam fora de controle. Por seu trabalho de ativista na região, Dorothy diversas vezes denunciou a jornais locais que vinha sofrendo ameaças de morte.

E ela morreu. R$ 50 mil reais custou a sua morte. Diz um dos matadores presos: "O Tato propôs a mim e ao Rayfran que tinha R$ 50 mil para matar a velha. O Tato me pediu para conversar com o Rayfran sobre a proposta, o dinheiro era para ser dividido. Eu disse que não tinha coragem, e o Rayfran disse: ‘Eu faço, tu só me acompanha’”.

A polícia acredita que a recompensa oferecida pelo fazendeiro Vitalmiro Gonçalves de Moura aos matadores seria rateada entre os fazendeiros interessados na morte da irmã Dorothy – provavelmente os mesmos que ela já havia denunciado.

Os matadores presos narraram como executaram a irmã Dorothy na reconstituição do crime na última sexta-feira. Vocês sabem o que eles contaram?

Um dia antes, a irmã Dorothy chegou no Projeto Esperança – um assentamento de trabalhadores rurais para uma reunião que discutia a situação de violência no local e a constante invasão dos assentamentos pelos pistoleiros comandados por Tinair.

Dormiu num barracão rústico de madeira fina e palha de babaçu. Um dos matadores revelou que tentaram mata-la naquela noite, mas, como ela dormia num local escuro, resolveram matá-la no sábado pela manhã.

Pela manhã, ela saiu da casa, e depois de se despedir de um morador da área e seguir em direção do assentamento Esperança, foi abordada pelos dois homens. A irmã perguntou a um deles por que o pessoal da fazenda de Vitalmiro Bastos de Moura (acusado de ser o mandante do crime) estava jogando semente de capim sobre as lavouras dos assentados - -ao germinar, o capim, como uma praga, mata outras espécies vegetais que estejam no mesmo terreno.

O matador disse ter respondido à irmã com outra pergunta: "A senhora não come carne?", alusão ao fato de o capim servir para alimentar o gado. A freira respondeu que sim, que comia carne. E começou a ler-lhe a Bíblia, Evangelho de Mateus, na parte do sermão da Montanha, versículos 5, 6 e 9, que dizem: "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!".

O matador contou como encerrou a conversa: "Bom, irmã, assim não dá". Olhou para o outro homem, deu-lhe uma piscadela, tirou a arma que estava enfiada na calça, segurou-a com as duas mãos e disparou o primeiro tiro --na região do abdome. Ele contou que Dorothy tentou se proteger com a Bíblia no primeiro disparo. Caída, a irmã ainda foi alvejada nas costas (duas vezes) e na cabeça (três vezes).

Aquela senhora de 74 anos vestia bermuda, camiseta com uma inscrição sobre a Amazônia, tênis preto e meias claras. A nota da CPT perguntou: "Se a vida de uma religiosa indefesa é tirada desta forma, como não são tratados os trabalhadores e trabalhadoras do campo?". E lembra que Dorothy foi a primeira de uma lista de 14 cristãos condenados à morte naquela região do Pará (seis religiosos e oito agentes de pastoral) além de outros 26 condenados.

Teimosia, persistência, perseverança, ir até o fim. A história do testemunho das mulheres discípulas, seguidoras de Jesus, o Cristo, não termina nos registros do Novo Testamento. Continua na história e na nossa história bem recente – como pudemos aprender da vida e da morte de Dorothy Stang.

O testemunho das mulheres discípulas – das Marias, da Dorothys, nos ensina muito. A nós mulheres e homens. Num momento em que se fala tanto de discipulado – um assunto que se tornou a nova onda em quase todas as denominações evangélicas –, que tal assumirmos esta definição evangélica: discipulado é acompanhar e servir o Mestre – até o fim, vivendo o risco que tiver que ser vivido, por causa da fé na vida que vence a morte!! Discipulado é a estranha mania de ter fé na vida.

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Fontes: Interpretação bíblica – Schottroff, Luise. Mulheres no Novo Testamento. Exegese numa perspectiva feminista. São Paulo: Paulinas, 1995. Vida e Morte de Dorothy Stang – Folha de São Paulo, edições de 13 a 26 de fevereiro de 2005.

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