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Rio, 19/7/2007
 

A violência do Império e a Justiça do Reino - uma leitura do Apocalipse

Bispo Paulo Lockmann


 

A VIOLÊNCIA DO IMPÉRIO E A JUSTIÇA DO REINO

Bispo Paulo Lockmann


1) A VIOLÊNCIA DO IMPÉRIO

Se vamos falar do Império Romano, de sua estrutura de poder e dominação, que em muitos momentos se manteve a partir da violência, especialmente em tempos do Apocalipse de João, mas não somente, pois como veremos a dominação romana se manteve o tempo todo graças a um aparato militar (1), a uma estratégia diplomática com as elites locais (2), uma ideologia nitidamente eficaz intitulada “pax romana”, mas em tudo era visível a força e a violência intimidatória.

Violência, como sabemos, não é somente aquela que nos sangra o corpo, tão veemente como esta é a violência, que nos sangra a alma, nos cala a boca pelo medo, nos censura o pensamento e a linguagem, nos tira nossa dignidade de homens e mulheres, filhos e filhas de Deus.

Podemos perceber o controle e a violência do império já no início do Evangelho de Lucas: “Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.” (Lc 2. 1-2). Ainda que a pesquisa discuta a exatidão histórica da citação de Lucas (3), há na citação um exemplo extremamente claro da dominação e violência do império. Vejamos como:

O Imperador Augusto, na determinação do tempo do nascimento de Jesus: Tibério, em relação com a aparição de João Batista e, portanto, com o começo do ministério de Jesus, representavam o poder romano, que exercia o domínio político e econômico sobre toda a Palestina.

Lucas, ao trazer tal indicação, se aproxima do método dos historiadores antigos, que enquadravam os fatos do cotidiano no quadro da história geral. E reconhece, identifica, os poderes estabelecidos e quem eram os dominadores.

François Bovon, em seu comentário a Lucas faz algumas perguntas bastante interessantes sobre o tema do censo. Diz ele (4): “O tema do censo é somente um meio para trazer a família de José da Galiléia para Belém? Ou o censo se trata de um midrash sobre o cumprimento de uma profecia? Ou busca uma confrontação entre dois reinos, Augusto e Cristo? Ou, ainda, é simplesmente uma introdução histórica?” Ele mesmo responde: “Provavelmente entram em jogo vários fatores.”

Pessoalmente, me inclino por crer na hipótese teológica e ideológica, onde se ensinava através de uma interpretação messiânica do Salmo 87, quando diz: “E com respeito a Sião se dirá: Este e aquele nasceram nela; e o próprio Altíssimo a estabelecerá. O Senhor, ao registar os povos, dirá: Este nasceu lá. Todos os cantores saltando de júbilo entoarão: Todas as minhas fontes são em ti.” (Sl 87. 5-7).

O ensino era, o que lá nasceria seria o Messias, e isto ocorreria durante um censo universal. Tal prática do censo era abominada, primeiro porque os monarcas queriam conhecer o número dos seus dominados para exigir-lhes impostos pessoais, como Roma, e mesmo impostos para sustento das tropas militares que lhes garantiam “segurança”, além de exigir-lhes o serviço militar, recrutando os mais jovens e fortes. Em segundo lugar havia a questão ideológico-religiosa, onde se afirmava que o povo de Israel pertencia a Deus (Sl 24. 1), como a terra e tudo que nela se continha, portanto estava vedado aos reis fazer censo para contar o povo. Davi havia enfrentado tal contrariedade, pois recebe um castigo por ter ordenado o censo do povo, relato bastante contraditório, entre 2 Sm 24 e 1 Cr 21. Na verdade, o que ficou perante a tradição do Antigo Testamento, é que Deus proíbe o censo, inclusive Davi o ungido de Deus, deveria se abster do censo e “contar somente com a força de Deus”(5). Nessa visão, somente Deus tinha direito de fazer o censo do seu povo (Nm 1. 26). Desse modo, havia uma flagrante hostilidade contra o censo em Israel dos tempos de Jesus, por saberem que a semelhança de outros dominadores, Roma usava o censo como instrumento para aumentar os impostos e manter o controle sobre a população do império, sempre através de violência. Os censos romanos, em várias partes do Império foram marcados por insurreições. Flávio Josefos, em sua obra sobre as guerras judaicas, vincula o surgimento dos Zelotes a um censo romano.

Devemos, no entanto, distinguir os termos ápografé (inscrição, censo e inventário) e apotimêsis (cálculo, avaliação). O primeiro, que é o termo usado por Lucas e o sentido claro era de levantamento e registro de cada habitante, idade, profissão, estado civil, filhos, para com isso se estabelecer as obrigações militares e o imposto pessoal. Segundo algumas fontes históricas (6), esses censos eram feitos a cada 14 anos, e não necessariamente uniformemente em todo o império.

Assim, na tradição do conhecido Evangelho da Infância, fica registrada a violência do império, e não somente em Lucas, como vimos, mas se nos voltamos para a mesma unidade literária em Mateus, vamos verificar a presença e reação a essa violência.

A conhecida ordem de matança dos meninos abaixo de 2 anos, dada por Herodes, a fuga para o Egito, se estrutura em modelo do Antigo Testamento, o Êxodo, onde a violência do Império Egípcio é enfrentada pelo povo de Deus, e onde Deus se manifesta em resposta ao clamor do povo.

Assim, os textos do Apocalipses, que vamos examinar, vão nos colocar frente a esse confronto, o Império e sua violência, a resistência e a esperança do povo ao livramento de Deus, o que vai mudar é a linguagem, que no caso do Apocalipse de João é a típica linguagem simbólica do apocalipsismo.

Mas, antes, deixe-me mostrar que a violência dos poderosos, dos impérios, teve papel decisivo no surgimento do próprio apocalipsismo.

2) APOCALIPSISMO E VIOLÊNCIA
O gênero literário conhecido como apocalíptico veio a se fixar no período interbíblico. Foi nessa época, também, que começou a ser divulgado. Israel perdera fortuna, poder e liberdade, frente a violência de poderes, como dos babilônicos, persas, gregos e romanos (7). Devemos reconhecer que a expressão inter-bíblico, embora clássica, está superada pela cronologia largamente aceita pela exegese bíblica, visto que, como dissemos, exatamente nessa época conturbada da história de Israel e de intensa violência imperial, que foram escritos os apocalipses judeus, como por exemplo Daniel ou Enoque e IV Esdras, etc...

A literatura apocalíptica vai encontrar nesse palco histórico, extremamente violento e adverso a Israel, o ambiente propício para o desenvolvimento de um processo que tem muito de psicológico, mas também de didático sapiencial, debaixo da perseguição e violência do poder estrangeiro, e mesmo dos nacionais que se aliaram ao estrangeiro, se instala uma crise nacional e internacional, quem reina, quem domina sobre as nações é questão decisiva na teologia apocalíptica.

Nesse processo podemos distinguir pelo menos três momentos: 1. Para buscar fugir de um mundo violento e insuportável, o autor do Apocalipse sai do presente imediato para descrever, em cima de fatos de violência, opressão e dor, o futuro no qual Israel haveria de encontrar a restauração. Para chegar ao conhecimento de Deus, e declarar sua soberania sobre a História, os autores dessa literatura interrogam primeiramente os oráculos anteriores, como já haviam feito os profetas. Não haverá de se cumprir tudo que fora anunciado pela boca dos profetas? (Ap 10. 6s; Am 3. 6-7; Zc 7. 7; Jr 7. 25-26). Aparece, por isso, os sistemas de aproximação, inspirados em postulados literários de uso comum nos escritos judaicos como o paralelismo, a simetria e a gradação. Em todas essas hermenêuticas, fica claro o modo como Deus se revelou Senhor da história, uma Heilsgeschichte, sim, uma história da Salvação, onde o fim é sempre o tempo da superação da violência, e do juízo das nações e seus reis. Encontramos o paralelismo no livro dos Jubileus (8), onde o autor, classificando a história do mundo em semanas de anos e jubileus, manifesta a crença em certo ritmo histórico com ciclos, de certa forma semelhantes (9).

No Apocalipse das Semanas, inserido no livro de Enoque, a história do mundo divide-se em dez semanas. O paralelismo, embora complexo, continua a aparecer. Do paralelismo passa-se com facilidade para a simetria inspirada no princípio da reconstituição. Segundo tal sistema, o fim deveria corresponder ao princípio, e com isso se reconstrói a história superando o domínio da opressão e da violência. Por exemplo, o livro de Jubileus parece prometer à humanidade a longevidade (23, 27), e o quarto livro de Esdras faz o mundo retornar, no fim dos tempos, ao silêncio primitivo (7, 30). Enfim, a crença de que os acontecimentos atuais são apenas preparação e sombra das realidades futuras, inspira o processo literário da gradação. Uma nova ordem de justiça, sem a violência dos impérios, sucederá este mundo transitório (1 Co 13. 10).

A restauração do Santuário no Apocalipse das Semanas é progresso para a restauração final que se fará na glória do fim. Assim, em nosso Apocalipse de João, os setenários regulam-se, não apenas segundo um certo paralelismo, mas mediante gradação constante: os flagelos, que anteriormente só atingem uma parte das criaturas, acabam sendo universais, afinal a dominação do império atinge o mundo todo (Ap 6. 4; 6. 8; 6. 10). 2) Ao obter o conhecimento dos desígnios de Deus, o autor foge ainda mais da realidade de violência que o faz sofrer, situando-se no sobrenatural, como forma de resistir ao império e sua violência, no nível dos eventos divinos, ele faz nova leitura da história de sofrimento do seu povo, projeta e imagina o Reino de Justiça, com isso consola o povo, fortalece a esperança, e mobiliza o povo para resistir. Sim, para animar os fiéis que sofrem, os autores dos apocalipses querem torná-los conscientes de que Deus está disposto (e pronto) a entrar em suas lutas com a sua onipotência decisiva. Os desígnios de Deus haverão de se cumprir e nada poderá impedir que isso aconteça. Desse modo, no quarto livro de Esdras, a mulher que lamenta a morte de seu unigênito, e depois torna-se resplandecente de glória é Sião, não poupada pela violência e tormento.

Em nosso Apocalipse de João, por exemplo, a enumeração dos eleitos, no capítulo 7, fortalece a confiança antes de soarem as sete trombetas do capítulo 8. 3) A evasão por um lado, e a resistência pela confiança na intervenção transcendente de Deus, ambas diante da realidade de violência e opressão do império. Completam-se com a descoberta dos objetivos últimos de Deus que lhes justificam ambas ações. Os autores apocalípticos perscrutam a história para compreender o sentido de todo o sofrimento e luta, frente a violência dos reis das nações. A descoberta de tal sentido acaba com o escândalo constituído pelas provações que se abate sobre o povo judeu, diante do seu opressor, abrindo caminho para resistir e prosseguir. Assim, no Apocalipse de João, se Deus não interviu, ainda, é porque o número dos eleitos não está completo; há gradações históricas por ocorrer.

A crença é: os fins últimos de Deus, são provados e garantidos pelo próprio ritmo da história, garantido pelo próprio Pantocrator, o Deus Todo Poderoso. É o que se vê no Doc. Sadoquita, no livro de Enoque, como também no Apocalipse de Baruque sírio, onde as diferentes idades do mundo são simbolizadas por sucessivas ondas, escuras e brancas: dá-se o mesmo, enfim, no livro de jubileus, que divide a história em períodos, cada qual com sete semanas de anos, subdividindo-as, por sua vez, em iguais períodos de jubileus e jubileus de jubileus, tudo visando apontar no horizonte histórico a superação de jugo da violência.


3) IMPÉRIO E VIOLÊNCIA NO APOCALIPSE DE JOÃO
Quero refletir aqui sobre como o autor do Apocalipse de João constrói uma teologia que anuncia a superação do império e sua violência, através da fragilidade do cordeiro, mas, por ser o Cordeiro de Deus, é mais forte que o poder militar do império, assim a comunidade pequena e frágil das igrejas da Ásia Menor poderiam resistir o Império de Domiciano. Para obter isso vou limitar-me a textos escolhidos, especialmente aos capítulos 4 e 5, até aos seis selos do capítulo 6, mostrando com isto como vai se construindo no texto a resistência a violência.

Para caracterizar o conteúdo do Apocalipse de João, o texto de 1.19 nos dá a indicação do tema: “Escreve, pois, o que viste: tanto as coisas presentes como as que deverão acontecer depois destas”. A revelação que é dada a João pelo “filho do homem” glorificado divide-se em duas partes: a profecia para o presente (o que é), nas sete cartas (caps 2 e 3), a revelação do futuro (o que acontecerá depois) (caps 4 a 22).

Temos, assim, o seguinte esquema (10):

Introdução (1.1-20)
A) A revelação para o presente (2. 1-3, 22)
1º ciclo, as sete cartas

B) A revelação para o futuro (4. 1-22; 5)
2º ciclo, introdução a perspectiva do futuro (4. 1; 5.14) e os sete selos (6. 1, 8.1)
3º ciclo, as sete trombetas (8. 2, 11. 14)
4º ciclo, o dragão e o cordeiro (12. 1, 14. 20)
(o poder do mundo e a igreja de Deus)
A mulher com a criança e o dragão (12. 1-18); as duas bestas (13. 1-8), a consumação em Cristão (14. 1-20)
5º ciclo, as sete taças (15. 1-16, 21)
6º ciclo, a queda da Babilônia (19. 11, 22. 5)
Final (22. 6-21)

É bastante interessante a revelação do futuro apresentada numa visão de ciclos de episódios, marcada pelo segundo ciclo que a inicia. Esta parte começa com a visão daquele que está no trono e com o cordeiro (4s): o Cristo glorificado é incumbido de executar o juízo de Deus. Segue-se uma série de ciclos de visões (sete selos, 6. 1, 8.1; sete trombetas, 8.2, 11.19, sete taças, 15. 1, 16. 21). O esquema desses ciclos é tal que a última visão de cada um conduz imediatamente ao seguinte (8.1; 11. 15; 15. 5; 16. 1). Ainda há outro princípio de estruturação: entre o sexto e o sétimo selo, (7. 1-17) e a sexta e a sétima trombeta (10. 1, 11. 14) foram introduzidos intervalos. A visão é desviada dos acontecimentos mundiais e dirigida à igreja de Deus. Nos acontecimentos derradeiros defrontam-se, portanto, dois parceiros: o mundo e a igreja de Deus. O ciclo de visões dos capítulos 12 a 14 ocupa lugar especial. Nele, os dois protagonistas dos acontecimentos derradeiros são confrontados como se fosse em forma ampliada. Trata-se de um pequeno apocalipse dentro do outro, maior. O penúltimo ciclo, a queda de Babilônia (17. 1, 19. 10) refere-se ao fim da história mundial, com a revolta da humanidade contra o criador. Vem em seguida a série final de quadros (19. 11, 22. 5) com a descrição do final da história do mundo.

a) Do capítulo 4 à exegese do capítulo 5

Das visões do capítulo 4 às do 5 temos uma das chaves hermenêuticas para a compreensão da obra de João. Aqui, o ponto chave dos acontecimentos é o código que abre o relato: a glorificação de Cristo; e não a visão ou posição do vidente. A glorificação de Cristo é o objetivo dessa visão. Ela está diretamente presente no relato da primeira visão do filho do homem glorificado no capítulo inicial. A visão, a partir do quadro do capítulo 4, representa a montagem de um fundo real e glorioso para aquele que no capítulo seguinte é digno e vitorioso: o cordeiro. A entrega do livro de selos ao cordeiro é uma forma de legitimação do poder de Deus para julgar, confiada agora ao Cristo glorificado. O Apocalipse intenta , portanto, representar a superação de uma história mundial por meio da glorificação do crucificado que vence a violência e a morte. Esta conclusão pode ser tirada dos capítulos 4 e 5 e confirmada pelo pequeno apocalipse dos capítulos 12 e 14. O acontecimento decisivo é o nascimento do salvador do mundo e o seu arrebatamento ao céu.

Este anúncio se inspira e depende das tradições vétero testamentário sobre o domínio do Messias, iluminadas por uma linguagem apocalíptica presente em vários paralelismos.

Não há dúvida de que a leitura dos capítulos 4 e 5 nos remete a profetas como Ezequiel e Isaías, ou ainda á tradição da Torah e a temas como a justiça de Javé, o poder de Javé. A expressão pantocrator (todo-poderoso) encontra-se usualmente na Septuaginta. Esta seria indicativa da fé naquele que pode vencer o Império e a sua violência. Vejamos alguns influxos do Antigo Testamento nos capítulos 4 e 5 do Apocalipse:

Êxodo 19.16 - “O som da trombeta era forte e Moisés falava e Deus lhe respondia: “Temos aí um quadro fixador da tradição: a teofania do falar de Deus com Moisés em meio ao som da trombeta.

Apocalipse 4.1 - A voz que eu havia ouvido antes, como voz de trombeta que falava comigo, me dizia: Sobe aqui...

Trata-se de um exemplo de tradição herdada do Antigo Testamento. Ouvir a voz de Deus é como um soar de trombeta, para estar com Deus é necessário subir.

Isaías 6.1 - “Vi o Senhor sentado em um trono excelso e elevado...”
Apocalipse 4.2 - “No instante caí em êxtases. Vi que um trono...”

Ezequiel 2.9 e 10 - “Vi uma mão que estava estendida para mim, e tinha dentro um livro enrolado... escrito pelo verso e reverso...”

Apocalipse 5.1 - “Vi também na mão direita do que está no trono um livro, escrito pelo verso e reverso”.

Daniel 12.4 - “Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até o tempo do fim...”

Apocalipse 5.2 - “Eu vi um anjo poderoso que proclamava... quem é digno de abrir o livro e soltar o selo?”

Este influxo é tanto maior quanto mais procuramos estreitar os paralelos, em nível semântico, por exemplo. Porém, entendemos que a ilustração dada já indica a dependência temática teológica e até mesmo de paralelismo literário, no que concerne a técnica e artifícios.


b) Uma das possíveis exegeses do texto do capítulo 5

Enquanto o capítulo 4 se detém na apresentação da grandiosidade da corte divina e dos atos de homenagem e adoração, o capítulo 5 acrescenta a narrativa do que ocorre nos átrios do trono de Deus. Tais acontecimentos dão início ao drama escatológico que daí para a frente vai se desenrolar diante dos olhos do vidente. O rolo, nas mãos de Deus, está escrito dos dois lados (dando ênfase à riqueza do conteúdo do livro). Os setes selos encontram no mundo grego certo referencial cultural: quem enviava um manuscrito o selava e seis testemunhas juntavam a este os seus selos. Em momento algum se menciona o conteúdo desse livro. Diz Wikenhauser (11): “Contudo, apesar de João não o dizer, não é difícil determinar qual era, em conjunto, o conteúdo do livro. Se, de fato, o drama escatológico começa com a abertura dos selos, podemos ter certeza de que o rolo contém os decretos divinos relacionados com o cumprimento da salvação”.

O quadro da aflição que segue a pergunta (4.2) indica a ausência do ressuscitado, do autor da salvação e do juízo de Deus. Esta cena mostra o momento decisivo da história. Ninguém é capaz: nem na terra, nem debaixo da terra nem no céu. Outro elemento, é que existe evidente paralelo entre o desespero do vidente e o pasmo do discípulo ante a crucificação e morte de Jesus. O momento da visão do cordeiro marcado pela morte – degolado – mas vitorioso – sete chifres e sete olhos – indica o seu poder e o seu conhecimento. Esta hora indica a hora da ressurreição de Jesus Cristo, o cordeiro de Deus. Essa visão quer mostrar, antes de tudo, o Cristo como o único capaz de dar outro rumo à situação de violência e opressão do mundo, situação na qual o vidente em sua aflição e exílio está mergulhado. Realmente, ninguém, a não ser o Cristo poderia revelar a justiça e o juízo de Deus contidos no livro. Com esta possibilidade revela-se o sentido da história. Deus é o autor e o senhor da história. Seja qual for o confronto, ele será sempre o vencedor.

O quadro do cordeiro aparece 28 vezes no Apocalipse como símbolo particular do Cristo glorificado. Este quadro origina-se no cristianismo primitivo e se relaciona com a fé pascal e sua rica linguagem simbólica. No Novo Testamento encontramos com freqüência a figura do cordeiro para simbolizar o Cristo. Examinemos algumas dessas passagens, começando pela mais antiga: 1Co 5.7: “ ... nosso cordeiro pascal, Cristo foi imolado”. A mesma coisa aparece em At 8.32, 1Pe 1.19, Jo 1.29 e 36. No Apocalipse de João a expressão grega amnós, comum nas passagens citadas, é trocada por agníon que, fora do Apocalipse, só aparecerá em Jo 21.15. No capítulo 5 agníon ocorre quatro vezes (v.6, 9, 12 e 13), onde o Cristo é como quem venceu a morte, tendo morrido como um cordeiro sacrificial, e agora retorna com poder. Aparece como quem conquistou para Deus homens de todas as raças e nações. Em outras palavras, Cristo reina. Neste quadro simbólico, profundamente identificado com o Antigo Testamento, ele é também o cordeiro de Is 53, embora também seja o leão de Judá, símbolo de força e realeza. Por isso dele vem a superação do sofrimento e opressão.

No Apocalipse, a metáfora do cordeiro imolado sustentada já anteriormente pela fé da comunidade, torna-se símbolo visionário da linguagem figurativa da apocalíptica. O vocábulo é diferente, mas o símbolo é o mesmo.

Em conclusão podemos dizer que este capítulo aparece claramente dentro da continuidade da obra de João. Inicia-se aqui um novo processo indicando o novo rumo da história. A chave é esta: o cordeiro recebe das mãos de Deus o livro dos sete selos (5.7). O sentido é que aquele que morreu por todos (5.9) está encarregado do executar os planos de Deus para a história, inclusive contra os que se opõem a Deus. O Senhor do momento escatológico conduzirá a história ao seu destino. Ele constitui, com sua morte e ressurreição, com os que foram comprados pelo seu sangue, um reino de sacerdotes. Todos os membros da basileia tornam-se sacerdotes, isto é, têm acesso direto a Deus e toda a sua vida é culto.

O Apocalipse (em 5.8ss) não se ocupa com os detalhes da formação missionária da Igreja de todos os povos e seus aspectos exteriores. Indica, no entanto, o quadro de clamor e oração que o Império de Domiciano colocara perante a Igreja, tudo através do quadro de adoração centralizada no cordeiro, tanto no céu (os quatro seres viventes e os anciãos) como na terra (a igreja missionária de João e suas constantes orações que, como perfume subiam até o céu nas taças em mãos dos anciãos). A compensação está no seguinte fato: os santos, uma vez feitos reino de sacerdotes, não reinarão no céu, mas sobre a terra. Trata-se de uma forma de indicar a nova ordem, a ordem do novo surgimento de Deus, conforme a esperança de Israel e da Igreja. Esse é precisamente o reino de Deus entre seu povo, por meio do primado do cordeiro – Cristo. São inúmeras, afinal, as exaltações ao cordeiro, até o final deste capítulo, assinalando o seu domínio e vitória (5.12-14).

c) A abertura dos sete selos. Ap 6. 1-8; 1

A abertura dos selos mostra que o reinado e domínio do Cordeiro, já começou, primeiro selo afirma isso, através da repetição do verbo nikáo-venço, apresentado de forma repetida: ...”ele saiu vencendo para vencer” (Ap 6.2). Não a fúria e o poder do Imperador Romano Domiciano, seu poder se aproxima do fim e sim o Cordeiro é que está vencendo e irá vencer no futuro definitivamente (Apc 19. 11).

Esta afirmação é contraposta pela realidade que se opõe a mensagem de fé apresentada no primeiro selo, o cavaleiro no cavalo vermelho, desafia os crentes, semeando com a espada, guerra e morte. É como se o autor chamasse atenção a comunidade, vejam ainda que haja a guerra, a morte, este tempo vai passar. Ficamos entre a esperança e a realidade, são estimulados a continuar, pois estes cavaleiros de morte, serão vencidos.

Em seguida o terceiro selo, com a figura ameaçadora do cavalo preto e seu cavaleiro, com uma balança na mão, põe no quadro da história mais uma ameaça ao reinado do Cordeiro. Trata-se agora de escassa colheita, pois a balança na mão do terceiro cavaleiro mostra a pouca provisão de alimento. O império romano, sempre procurou controlar os meios de produção para pelo controle dos alimentos manter o povo submisso, garantir a sujeição pela escassez era uma forma violenta e efetiva de manter sus domínio, sobre os povos subjugados. Há inclusive registro de que nos tempos de Domiciano (12) houve grande fome em várias áreas do Império, isto principalmente pela falta dos cereais, base da alimentação do povo, aparentemente não houve falta do azeite e do vinho, o que amenizaria a tragédia, tornando-a apenas uma gradação nesse processo crescente de violência.

O quarto selo traz o cavaleiro no cavalo amarelo- verdoso, o qual se chamava thanatos-morte, a cor dos morimbundos, dos prestes a morrer, era o amarelo-verdoso, este aspecto doentio dos enfermos para a morte, aponta as calamidades que como vários tipos de pestes eram levadas de cidade em cidade pelas legiões romanas, é sabido que além das forças militares, os romanos levaram doenças, ao transitarem de regiões em regiões, sim, levaram todo o tipo de doenças de áreas infectadas de diferentes pestes. Historiadores romanos narram de pestes que dizimaram legiões romanas. Com isto o quarto cavaleiro encerra a trilogia infernal que acompanhava o Império Romano, guerra, fome e peste. Há nisto uma verdadeira denúncia no texto.

A ilação com os diferentes impérios no decorrer da história, e as violências por eles perpetuadas, inevitavelmente carregam esta trilogia de morte. Assim foram os bárbaros que vieram do norte da Europa, deixando rastros de sangue, fome e doenças, fato que caracterizou a dominação espanhola nas Américas, ou portuguesa no Brasil. E ainda hoje, quando o homem branco entra um território indígena, o rastro é o mesmo: guerra, fome e doenças. Assim agem os impérios de violência, do Egito ao Romano, do Romano ao Espanhol todos representam a opressão a degradação do ser humano, baixo o jugo que eles trazem. Por isso a linguagem Apocalíptica segue sendo extremamente atual.

Já o quinto selo é uma pausa, onde retorna a pergunta: Por que isto está acorrendo? Por que tanta violência e sofrimento? Aqui o clamor dos que sofrem a violência, das vítimas do martírio sob o governo de Dominicano, chamam, o que responder diante de tanta dor, era a questão apresentada a João. Quando é que Deus vai manifestar sua soberania e vingar seus filhos que haviam morrido por sua fidelidade? Os mártires pedem explicação. E a resposta foi, vistam a roupa de justiça, dos que têm mãos limpas, e aguardem, pois outros haverão de morrer, por algum tempo aguardem.

O que está dito, é, não ser mais possível os inocentes continuarem sendo vitimados pela violência. Algo deverá ocorrer. Aqui se cruza a mensagem com o discurso escatológico de Jesus, onde é anunciado guerra, fome e peste, seguidas de perseguições aos discípulos: “ E certamente ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares; porém, tudo isto é o princípio das dores. Então sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome”. Mt 24.6-9. Sem dúvida este discurso serviu de pano de fundo a João em diferentes momentos de suas mensagens apocalípticas.

O sexto selo traz calamidades que abalam os poderes do universo, é como se os céus e a terra se comovessem com o clamor dos mártires.

Sem dúvida o sexto selo traz, em parte, uma resposta à pergunta dos mártires no quinto selo. Ainda que inspirada em diversos textos do Antigo Testamento como:
1) Ap 6. 12 – “O sol se tornou negro...”
Is 13. 10 – “...o sol logo ao amanhecer...escurecerá..., ou ainda como
Joel 2. 10 – “...terra treme, os céus se abalam, o sol e a lua escurecerem...

2) Ap 6. 12 – “...a lua toda, como sangue...”
Joel 2. 31, o paralelo é claro – “...o sol se converterá em trevas, e a lua em sangue...”

Outros paralelos do Apocalipsismo vétero-testamentário podem ser sublinhados, mas fica claro que a teologia do Dia do Senhor é usado pelo autor do Apocalipse para indicar que o Juízo do Senhor sobre os poderes da terra com sua violência, ou a vingança, o sofrimento dos mártires vem com um abalo universal, a dominação dos Domicianos será destruída, céus e terra confirmarão isto. O domínio dos poderes da terra vai acabar, podemos ter essa esperança, porque: “...os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos,...” (Ap 6. 15). Aqui fica claro os que representam o império:
1) Os reis da terra – o poder político;
2) Os grandes – as oligarquias que cercavam os reis;
3) Os comandantes - sem dúvida o poder militar;
4) Os ricos e poderosos – aqui está o poder econômico...

A classificação continua, e em todos os casos temos aqueles que pela violência impõe seu poder, constrói através da violência reinos que oprimem, exploram, humilham os pobres da terra.

Finalmente, o juízo de Deus sobre os opressores, posto nos lábios dos mártires é, na verdade o legítimo anseio da comunidade de João, não se realizará até quando esteja completo o número de mártires fixados por Deus. Esta idéia não é original de João, foi freqüente na literatura apocalíptica, até porque a violência e opressão é, como vimos, elemento decisivo no desenvolvimento da linguagem apocalíptica. Sim, o número dos mártires, dos eleitos tinha de se completar, para que o juízo de Deus venha sobre as nações e os reis. Diz o livro 4 de Esdras: “Quanto tempo ainda temos de permanecer aqui? Quando aparecerá por fim o fruto da nossa recompensa? E então se responde: Quando o número dos que são iguais a vós, esteja completo” (4 Ed 4.35).

CONCLUSÃO
Poderíamos continuar nossa leitura de comprovação de nossa afirmação que a apocalíptica é uma reação do povo judeu, e mais especificamente dos cristãos do final do primeiro século, no caso do Apocalipse de João ao poder e a violência dos impérios. Impérios que como vimos se apoiavam em estratégias como do censo, para garantir o controle sobre os reinos e o seu povo, tomando-lhes o imposto, levando-lhes seus filhos, seqüestrando-lhes a liberdade, a semente, a paz, a saúde.

Assim, o que poderia parecer verdadeiros enigmas, quando lidos como linguagem de resistência a uma dominação concreta, maior que as forças do povo crente. Passa ser a linguagem apocalíptica, única saída que resta ao povo oprimido e humilhado, para continuar lutando, avançando, vivendo e tendo esperança, sem nunca desanimar, tampouco cruzar os braços. O que traz a salvação, é a fé, a resistência e engajamento na vocação e missão do Reino de deus e sua justiça.

Deste modo, poderíamos prosseguir lendo e abrindo selos, ou mais, ouvindo as trombetas, todos as gradações apontam a terra e sua realidade como figuras, que não subsistirão ao domínio do Cordeiro de Deus, do Pantocrater, o Todo Poderoso.

Quando Ernest Käsemann (13) defendeu que apocalipsismo seria a matriz da teologia cristã, seu verdadeiro início. Ele estava dizendo que o impacto da fé pascal da Igreja, trazia uma figura transcendente e apocalíptica o Cordeiro glorificado, o Cristo, figura impressionante, e que trouxe de volta os discípulos, fazendo deles uma comunidade, comunidade de resistência a violência da morte de um inocente – Jesus. A que vê nele, o Cristo, o seu próprio sofrimento e luta, sua opressão e humilhação. Há uma verdadeira transferência.

Hoje, a leitura dos apocalipses pode ajudar as comunidades a se ver nas lutas das comunidades cristãs primitivas, que avançaram mesmo enfrentando a violência dos impérios, em suas expressões de guerra, fome e peste.


Citações:

1) Hornaert, Eduardo – O Movimento de Jesus – Pág. 54 - Ed. Vozes – Petrópolis – 1994
2) Hornaert, Eduardo – Op. Cit – Pág. 51
3) Vogt, Joseph – Augusto e Tibério em Kontexte 3 – Ed. Kreuz – Verlog – Stuttgart – 1966, pág. 9
4) Bovon, François – El Evangelio Segun San Lucas – Ed. Sigueme – Pág. 173
5) Bovon, F. – Op. Cit – Pág. 172
6) Bovon, F. – Op. Cit – Pág. 123
7) Lockmann, Paulo – Em Apocalíptica – Cadernos de Pós-Graduação I.M.S. – Pág. 11 - São Bernardo do Campo – 1983
8) Escrito por volta do século II A.C.
9) Charles, R.H. – The Book of Jubilles or Little Genesis – London – 1902
10) Goppelt, L. – Teologia do Novo Testamento, Ed. Sinodal, S. Leopoldo, 1982, pág. 443
11) Wikenhauser, A – El Apocalipse de San Juan, Ed. Herder, Barcelona, 1969, pg. 95
12) Wikenhauser, A – op. Cit. Pág 108
13) Käsemam, E – Os inícios da teologia cristã – Em Apocalipsismo – Ed. Sinodal, 1983, pg 231

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