IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 13/8/2007
 

Quem é Jesus? (Lc 7.36-50)

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A cena narrada em Lucas 7.36-50 é um episódio e tanto: Jesus é convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Um grupo está lá reunido à mesa quando uma mulher anônima entra na sala segurando um frasco de perfume, ajoelha-se atrás de onde Jesus estava sentado e começa a chorar sobre os pés dele, que ficam molhados com suas lágrimas, mas ela os enxuga com seus cabelos, os beija e os unge com perfume. De imediato Simão, no seu íntimo, critica Jesus, pois, conhecendo a “má fama” da mulher, avalia a permissividade de Jesus pelo fato de não ser profeta de verdade. Se fosse, saberia que a mulher não era digna de estar ali, e muito menos de realizar o que estava a fazer e a condenaria. Jesus toma a palavra e por meio de uma parábola ensina sobre partilhar um amor proporcional à grandeza do pecado perdoado. A mulher sem nome revela um amor profundo e gratuito, fruto da sua fé em Jesus, que, portanto, declara que os seus muitos pecados estavam perdoados.

Lavar os pés de alguém, segundo a tradição judaica, era uma atitude de muita humildade porque os pés eram símbolo de poder. Súditos prostravam-se aos pés do seu Senhor, beijavam-nos ou abraçavam-nos como símbolo de submissão. Para ensinar aos discípulos o sentido da diakonia (do serviço) que é embalada pela humildade, Jesus mesmo lava os pés deles e pede que o façam uns aos outros. O que a mulher sem nome fez na presença de outras pessoas, no meio da refeição da casa de um homem importante, foi tornar público que ela reconhecia o poder daquele que estava entre eles. E ela o faz com despojamento, gratuidade, o que é considerado por Jesus como um ato de profundo amor.

É com esta narrativa que o capítulo 7 de Lucas é encerrado. E este é um capítulo interessante porque todo ele gira em torno de uma pergunta que havia sido encaminhada por João Batista a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (v. 20). A pergunta é precedida de duas narrativas de ações restauradoras de Jesus: a cura do servo de um centurião e a ressurreição do filho de uma viúva (Lucas 7.1-17). Ao chegar aos ouvidos de João que estes feitos haviam sido realizados, dentre outros, ele quer saber quem era Jesus – seria Jesus, finalmente, o Prometido, o Cristo?

O centurião é apresentado, precedendo a pergunta de João Batista, como um exemplo de confiança – Jesus nem precisava ir à sua casa, pediu apenas uma palavra para que a cura se realizasse. Tal atitude provocou admiração em Jesus: “não encontrei em Israel semelhante fé”. A fé foi suficiente para se alcançar a graça. O relato sobre o filho da viúva oferece outra indicação: a fé não é condição para a misericórdia. Basta que exista sofrimento e a compaixão é oferecida, sem que nada se lhe peça. A graça é dom para quem chora. Deus continua a ouvir o clamor do povo e o sofrimento chega até ele.
A resposta a João já estava dada antes mesmo da pergunta ser feita: o reino era uma realidade de graça e misericórdia. Jesus já havia anunciado isto com palavras (cf. Lucas 4.16-20) e anunciava depois com as ações. Feito o questionamento, Jesus responde aos discípulos de João Batista não com um “sim, sou” mas indica as obras que os próprios discípulos testemunhavam: “Anunciem a João o que estão presenciando: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados; os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a boa nova” (Lucas 7.22).

A história da mulher anônima, que encerra o capítulo 7 de Lucas, oferece, na verdade, um dado a mais a toda a explicação que já havia sido exposta. Ao anunciar o Reino, Jesus coloca o perdão como elemento fundamental de sua ação. O perdão também é resultado da graça, sem condicionamentos, sem rituais; basta a fé que gera atos de amor.

Por isso os que testemunharam o episódio na casa do fariseu questionam num misto de crítica e admiração: “quem é este que pode perdoar pecados?”. A mesma pergunta que permeia todo o capítulo: “quem é Jesus”? Ocorre que para o Reino de Deus ser realidade presente, a religião deveria ser desideologizada. De acordo com a religião predominante, o perdão de pecados estava relacionado à purificação do corpo, que por sua vez estava relacionada à apresentação de sacrifícios, ou, fazer por merecer. Instaurando o Reino, Jesus inaugura o tempo da graça: tempo em que fé, confiança, misericórdia e amor incondicional são os elementos que passam a marcar a relação, ou a re-ligação, das pessoas com Deus.

“Quem é este que pode perdoar pecados?” A narrativa de Lucas responde a todas as perguntas, não com em linguagem direta mas com o testemunho de que aquele que há de vir já estava ali, presente para amar e servir com este amor, numa lógica radicalmente oposta à lógica religiosa baseada na ideologia da retribuição, do fazer por merecer.
Quantas coisas podemos aprender hoje da leitura do capítulo 7 de Lucas! Certamente no tempo em que o texto foi redigido, os cristãos e cristãs precisavam reaprender de Jesus. Muitos grupos já existiam, ensinamentos eram diferenciados, doutrinas se criavam. Muita gente se tornava cristã sem ter conhecido Jesus pessoalmente; seguia a partir daquilo que ouvia e muitas vezes o que se falava e pregava de Jesus já havia se tornado um tanto distante do que ele propôs. Os evangelistas escreviam, preocupados em manter viva a memória do ministério de Jesus de Nazaré e também o sentido do seguimento daquele que era o Cristo. Quem se revelasse seguidor ou seguidora dele não podia perder o sentido de quem ele foi, de como ele viveu e do que e como ele ensinou e realizou.
Hoje, no século XXI, como podemos responder à pergunta “quem é Jesus”? Certamente, como nos tempos de Lucas, ouviríamos respostas muito distintas, de grupos muito distintos. O cristianismo continua representado fonte de esperança e vitalidade para muita gente mas é uma religião forte e ideologizada. Há testemunhos fortes e marcantes de fidelidade ao Evangelho mas é lamentável reconhecer que muito do que Jesus questionou da religião do seu tempo se reproduz hoje entre os seus seguidores. Amor incondicional, misericórdia, graça podem ser experimentados, mas também são elementos freqüentemente relativizados e muitas vezes esquecidos, em nome da busca de poder, da intolerância, da exclusão e da arrogância entre os próprios cristãos. O poder que é atribuído a Jesus, é, muitas vezes, o poder constituído à nossa imagem e semelhança, ou seja, o poder do Reino do Mundo, aquele oferecido por Satanás no deserto e rejeitado por Jesus (cf. Lucas 4.1-15).

Lucas, mais do que nunca, precisa nos ajudar. O episódio da mulher anônima precisa ser contado, recontado e contado novamente, para aprendermos a não sermos tão farisaicos como o foi Simão e estabelecermos, nós, novas fórmulas de classificação de quem é puro ou impuro, de quem merece ou não merece perdão. Precisamos reaprender a responder a pergunta “quem é Jesus”, à luz da narrativa dos evangelistas, para que consigamos ser verdadeiros discípulos e discípulas. Isto significa fazer das opções e atitudes de Jesus a orientação da nossa vida. Situar onde ele se situou, andar com quem ele andou, evitar o que ele evitou, falar o que ele falou. Os discípulos viam o que Jesus realizava e ouviam o que ele dizia. Com isso descobriram formas de cumprirem a missão de continuar a espalhar o Reino.

Esta atitude revela a dinâmica que a fé tem que ter: aquele que segue (anda atrás de) Jesus deve estar sempre caminhando para não perder de vista aquele que vai na frente em direção à vontade do Pai, ou, em outras palavras, para cumprir a vontade de Deus. Foi seguindo o Mestre que os discípulos descobriram quem era ele. No nosso caso, ao decidirmos seguir sem ter a presença física de Jesus, o seguimento representa nos situarmos onde Jesus se situou – em especial no mundo dos pequenos (os desconsiderados) – e acolher as atitudes de Jesus como se fossem nossas: o amor, o perdão, a misericórdia sem limite.

O seguir a Jesus, portanto, não é para contemplá-lo tão só mas para dar prosseguimento à instauração do Reino de Deus, o Reino da Graça. Os discípulos são enviados ao mundo para transformá-lo para que Deus seja visível nessa realidade. Um dos maiores desafios do nosso tempo é recuperar este sentido apresentado nos evangelhos. Que a experiência da mulher anônima seja fonte de inspiração para nós.

Texto publicado no livro Evangelhos 2007, da Editora PUC/SP.

Magali do Nascimento Cunha é doutura em Ciências da Comunicação e Mestre em Memória Social e Documento, leiga, membro da Igreja Metodista no Brasil. Professora da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo na área de Teologia Prática.

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