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Rio, 18/9/2007
 

Inimigo íntimo - relações de poder na família estão por trás dos crimes domésticos (Lilian Burgardt)

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Inimigo íntimo - relações de poder na família estão por trás dos crimes domésticos (*)

Por Lilian Burgardt

Quando ouvimos sobre casos de filicídio (pais que mataram os filhos) e parricídio (filhos que mataram os pais), a primeira coisa que nos vem à cabeça é: o que aconteceu com o amor e a harmonia do lar doce lar? Mas, ao contrário do que pode dizer o senso-comum, tais acontecimentos não são "sinal dos tempos". Basta lembrar que a Bíblia já conta a tragédia de Caim e Abel - o irmão que - por ciúme e inveja -, matou o outro, despertando a ira de Deus.

Especialistas defendem que, para entender como tais crimes podem acontecer no ambiente familiar, é fundamental se desfazer dos mitos acerca da família, e separar o que a sociedade julga como ideal do que é real. Em tese, sempre foi dito que a família é um refúgio do mundo selvagem e perigoso, quando, na verdade e, por vezes, ela assume características violentas.

No Brasil, a maior incidência de crimes contra mulher acontece dentro de casa, por autoria dos maridos ou companheiros. Crianças e adolescentes também são, majoritariamente, vítimas da família. Para se ter uma idéia, uma pesquisa coordenada pelo movimento dos Direitos Humanos em 14 estados do País, em relação aos homicídios de crianças e adolescentes noticiados entre os meses de janeiro de dezembro de 1997, mostrou que 34,4% das vítimas tinham como algozes pais, avós, tios ou irmãos. Só no estado do Rio de Janeiro, boletins de ocorrência de 1991 revelaram que 67% dos homicídios contra crianças e adolescentes de zero a onze anos de idade foram perpetrados pela própria família.

Em São Paulo, de 1991 a 2002, dos casos notificados no Tribunal do Júri - pelos menos - 34 são de parricídio. "A gente pensa que a violência só acontece na rua, entre desconhecidos, mas se pensarmos no número de homicídios entre mulheres e crianças, a casa é uma instituição extremamente perigosa", defende a antropóloga social da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisadora do PAGU (Núcleo de Estudos de Gênero), Guita Debert.

O porquê disso tudo? No ambiente familiar, embora não se exclua a relação de amor (e talvez justamente porque ela existe), há os mais variados conflitos, potencializadores de discussões, brigas e violência. "Isto porque as relações são baseadas em estruturas de poder", explica a antropóloga social e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Maria Patrícia Corrêa Ferreira.

Hoje, por mais que esteja ultrapassada a visão de que e o bom pai é aquele que trabalha para sustentar a casa e de que a boa mãe é aquela que cuida da harmonia do lar e dos filhos, o movimento feminista afirma que existe disputa de poder nesta divisão de funções, independentemente de quem as assuma - marido, mulher ou até um filho, arrimo de família. As funções são delegadas e cabe a cada um dos membros da família mandar ou obedecer. Além disso, por mais que a família venha se configurando para a modernidade, os conflitos não vão desaparecer porque ninguém é igual. "Não há dúvida que existe uma certa dificuldade em adequar o que a gente pensa que deve ser a família ideal ao que de fato ela é e ao que ela pode ser", reforça Guita.

Isso significa que, dentro de casa, por mais que o mundo moderno pregue a importância dos direitos iguais entre homem e mulher, ou sobre a necessidade de se ouvir e respeitar as necessidades dos filhos, existe uma hierarquia muito forte. Os pais precisam educar e ter controle sobre a vida dos filhos. Na seqüência, inevitavelmente, os filhos mais velhos acabam tendo maior ascendência sobre os mais novos. Fora isso, há conflitos de emoções: ciúme, inveja, medo, rejeição e, também, a diversidade de gêneros e de gerações, esta última, que gera mais rusgas entre pais e filhos, especialmente na adolescência.

Pense: que filho mais velho nunca reclamou de ter sofrido mais para conseguir liberdade? Que filho caçula nunca reclamou de, apesar do mimo, não poder fazer metade das coisas que seu irmão mais velho fez? Nesse impasse, o filho do meio, quase sempre se pronuncia como a "vítima da falta de atenção dos pais", geralmente ocupada pelo "primogênito-problema" ou pelo caçula indefeso. "É importante rever o mito da família. Dentro de casa existe uma relação muito forte de hierarquia, além de conflitos de gênero e geração", diz Maria Patrícia.

Outro ponto interessante é que nos conflitos entre homem e mulher dentro do ambiente familiar, ainda perdura uma relação de poder do marido sobre a esposa. Ao contrário do passado, em que um homem traído podia até ser incentivado a matar a mulher para "limpar sua honra", hoje, isso não é socialmente aceito. Mas alguns advogados ainda tentam, em suas defesas, justificar a traição como causa de um ato criminoso contra a mulher. "Embora, hoje, a tese da legítima defesa da honra dificilmente seja aceita, há advogados que ainda a utilizam como recurso", revela Guita.

Diante desta realidade, é fácil pensar que nosso inimigo é mesmo íntimo e que qualquer um está sujeito a ter um caso de homicídio dentro de casa, não é? Afinal, o ambiente da diversidade é favorável, os comportamentos, as situações e a própria estrutura propiciam um clima para desavenças. Para os especialistas, não é uma questão de alarde sensacionalista do tipo: "cuidado com quem dorme ao seu lado", ou, "todos somos assassinos em potencial", mas é preciso entender que não existe o ambiente ideal ou a estrutura familiar ideal que evita a ocorrência de tais crimes. Até porque, além do ambiente familiar, há uma série de outras questões que envolvem a violência na família, como, por exemplo, a presença de doenças psíquicas entre um dos parentes, a dependência de drogas, ou mesmo, problemas de ordem emocional. (Saiba mais lendo a matéria Como prevenir um crime em família)



Dicas de leitura

Se você se interessa pelo assunto, seja por pura curiosidade ou porque pretende fazer algum trabalho relacionado ao tema, não deixe de ler os títulos, teses e dissertações abaixo:

Livros
- Eu, Piérre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão - livro organizado por Michel Focault - Rio de Janeiro, Graal, 1977

- O demônio do Catulé, capítulo escrito por Carlo Castaldi e outros, no livro Estudos de Sociologia e História - São Paulo, Anhembim, 1957

- A paixão no banco dos réus - Luiza Nagib Eluf - São Paulo, Saraiva, 2002

- Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais - Mariza Corrêa - Rio de Janeiro, Graal, 1983.

- Crime e Castigo - Fiodor Mikhailovitch Dostoievski - 1866

- Os irmãos Karamazov - Fiodor Mikhailovitch Dostoievski - 1879

- As moscas - Jean Paul Sartre - 1943.


Teses e dissertações
- A prisão dos pobres, tese de doutorado de Luiz Carlos da Rocha, apresentada ao Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), em 1994.

- Anatomia social de um crime em família, afetos, homens e mortes, dissertação de mestrado de Sandra Maria Patrício Ribeiro, apresentada ao Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), em 2001.


(*) Publicado em 25/08/2006

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