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Vida Cristã
Rio, 6/10/2007
 

A serpente e o Vaga-lume

Steve e Maria Newnum


 

Conta a lenda que uma serpente começou a perseguir um vaga-lume. Ele fugia rápido, com medo da feroz predadora; que em nenhum momento demonstrou intenção de desistir da caça. Fugiu um dia e ela não desistia; dois dias, e nada... No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e perguntou: - Posso lhe fazer três perguntas? - Não costumo abrir esse precedente, mas, já que vou te devorar mesmo; pode perguntar... – Eu pertenço a sua cadeia alimentar? Perguntou o Vaga-lume. - Não. Respondeu a serpente. - Eu te fiz algum mal? - Não. Afirmou a serpente, já curiosa pela terceira questão. - Então, por que quer acabar comigo? - Porque não suporto ver você brilhar... Respondeu a serpente, sem pestanejar. O Vaga-lume mal teve tempo de compreender; imediatamente foi tragado pela língua voraz da predadora “invejosa”.

Essa lenda serve de parâmetro para muitas análises. Uma delas é sobre a morte. A vida é luz, é o vaga-lume que foge da morte; “a serpente” invejosa. Somos todos “viventes vaga-lumes”. Levantamos as mesmas perguntas feitas pelo protagonista da lenda.

Nesse ano perdi vaga-lumes mui próximos: O primeiro um policial carcerário de nome Luiz Carlos Marchetti, conhecido carinhosamente por Di. Di, foi executado a queima roupa em frente a sua casa, no dia 11 de junho desse ano de 2007, quando saia para mais um dia de trabalho na penitenciária de Londrina; onde era querido entre os presos, pelo tratamento humano que lhes dispensava. Di, era filósofo pela Universidade Estadual de Londrina. No dia de sua execução, a esposa e os 3 filhos preparavam um dia dos namorados especial para ele, com bolo de chocolate. Coisa simples. Di era simples e bom.

O segundo foi Tati, uma adolescente executada com 8 tiros; um na boca que lhe espatifou o cérebro. Ao contrário de Di, Tati abandonou os estudos, era usuária de drogas. Seu réu confesso, um traficante que está livre, disse que a executou porque ela disse algo que ele não gostou...Uma serpente invejosa?

O terceiro foi o Pastor Ricardo Schadt, da Igreja Evangélica Luterana no Brasil. Sua luz se apagou enquanto dormia. Ricardo era um homem que assumia seus pré-conceitos, mas, era aberto a mudanças. Lembro-me que num evento ecumênico, foi proposto que se fizesse a ceia; algo incomum, nessas reuniões. Ricardo manifestou-se contrário e disse que não participaria. Sua decisão foi entendida. Contudo, na hora, Ricardo não resistiu a beleza da cerimônia e participou com muita alegria e entusiasmo. Vê-lo cedendo de forma tão pura àquele momento, deixou evidente a luz de um homem verdadeiramente brilhante; um vaga-lume, entre os cristãos.

Por último, ressalto os vaga-lumes que estão na mira da serpente. Na lenda ela possui várias formas: Forma de intolerância, de poder abusivo, ganância, deslealdade, injustiça, cegueira, ostracismo e maldade; que no fim é a síntese máxima da forma de morte moral e física. Quantas pessoas iluminadas no mundo do trabalho, nas instituições religiosas, nas academias e nas esferas de poder político desse país serão tragadas pela serpente?

Aos vaga-lumes, vale lembrar a mensagem da serpente recalcada: “É sua luz que me incomoda...”.

Corra, resista; pare e faça as três perguntas... Mas, não permita que sua luz seja apagada. Brilhe, brilhe, brilhe muito; ofusque os olhos das “serpentes” diárias que insistem em lhe perseguir.

Que sua luz seja mais forte que a morte.

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